O texto a seguir foi retirado do livro Literatura: o que todo católico deve saber, do escritor inglês Joseph Pearce, publicado no Brasil pelas Edições Cristo Rei.

Há um excelente motivo para que todo católico conheça as grandes obras literárias — é que as grandes obras literárias nos ajudam a conhecer a nós mesmos. É por este mesmo motivo que devemos estudar as ciências humanas — pois elas nos educam sobre a humanidade, tanto a nossa própria quanto a do próximo.

Nas grandes obras literárias encontramos uma compreensão profunda do ser do homem e de seu desígnio. Descobrimos que a pessoa humana é homo viator, um peregrino ou viandante cujos trajetos pela vida mortal têm sempre a vida eterna em mente. A compreensão de que é isto que somos foi perdida. Escreveu Chesterton: “O homem moderno é mais como aquele que esqueceu o nome do seu destino e tem de retornar aonde veio, até mesmo para descobrir aonde está indo.” Em verdade, as coisas são ainda piores do que Chesterton imaginava, porque o homem moderno não esqueceu somente o nome do seu destino, mas esqueceu até de que tem um destino. Não sabe que é um viajante. Não tem consciência de que está numa jornada nem de que tem de ir a algum lugar. Não é homo viator, mas homo superbus, homem orgulhoso, uma criatura patética aprisionada nos confins do “eu” que construiu para si mesma, prisioneira do próprio orgulho e preconceito. 

As grandes obras literárias nos mostram tanto a insensatez do homo superbus quanto a sabedoria do homo viator por meio do contraste entre os vícios do vilão orgulhoso e as virtudes humildes e humanas do herói nobre. Mostram-nos que o homem bom é inspirado em tudo o que faz pelo desejo de servir a Deus e ao próximo, ao passo que o homem mau é inspirado pelo desejo de agradar a si mesmo. Mostram-nos que o homem está sempre oscilando entre os dois polos da própria natureza. Ou cai na insensatez do amor idólatra, que ama a si mesmo mais que a todos os outros, ou é edificado pelo amor altruísta ao outro. Uma vez que a oscilação entre o pecado e a virtude se encontra no coração de todo homem, encontra-se também no coração de todas as eras da história e em todas as grandes obras escritas ao longo de toda era da história

William Shakespeare, por Carl Friedrich Irminger.

Contemplando a história do Ocidente com uma visão panorâmica, enxergamos três grandes eras do homem. A primeira é a era pré-cristã ou Pagã; a segunda é a era da Cristandade; e a terceira pode ser chamada de era do Desencantamento. 

Na era Pagã ou pré-cristã, os artistas e filósofos examinaram o conflito entre o homo viator e o homo superbus, percebendo a superioridade daquele sobre este, ainda que como por um espelho em enigmas.

Na era da Cristandade, vemos, subsumida na tessitura mesma da consciência individual e na estrutura mesma da sociedade humana, a afirmação do homo viator e a condenação do homo superbus. A principal característica da Cristandade é a unidade abrangente dos campos da filosofia e da teologia, unidade na qual o homo viator é não somente admirado, mas consagrado. Na Cristandade, santidade e heroísmo são sinônimos, com a ausência de uma levando necessariamente à destruição do outro. E como, para a ortodoxia cristã, santidade é também sinônimo de sanidade, era incumbência de todos os homens superar as tentações do homo superbus (o bárbaro dentro de nós) e tornar-se exemplos do homo viator (o santo como epítome do homem civilizado). Nesse sentido, a era da Cristandade corresponde ao mais belo florescimento da civilização. Nela, tornar-se civilizado é o objetivo mesmo da existência do homem, porque tornar-se civilizado (divino) é o único meio de alcançar a civilização perfeita do Céu. Não é, pois, nada surpreendente que o coração da Cristandade — sua teologia, sua filosofia, sua pintura, sua arquitetura, sua escultura, sua música, sua literatura — seja a encarnação mesma da harmonia integrada, da totalidade e da unidade de seu Fundador.

Na era do Desencantamento, a totalidade e a unidade da Cristandade perdem-se numa fragmentação progressiva do pensamento que continua até os dias de hoje. Das suas primeiras manifestações na decadência do humanismo cristão e do neoclassicismo do Renascimento, e seu amadurecimento no orgulho do movimento cuja arrogância fez com que se autonomeasse Iluminismo, à vitória que derrota a si própria na patacoada niilista do desconstrucionismo, a era do Desencantamento representa o triunfo do homo superbus sobre o homo viator e, portanto, o triunfo da barbárie sobre a civilização.

Nesta conjuntura, devemos nos lembrar de que essas três épocas não representam uma progressão linear na direção “certa”, como os habitantes da era do Desencantamento gostariam de fazer com que acreditássemos, mas uma manifestação da luta perene entre o homo superbus e o homo viator, entre a barbárie e a civilização. Presumindo que a civilização é preferível à barbárie ou superior a ela, pode-se afirmar com mais verdade que a era do Desencantamento representa um movimento na direção errada ou regressiva. Seja como for, certamente é equivocado supor que o Desencantamento substituiu a Cristandade, no sentido de ter de algum modo eclipsado ou extinguido a era que o precedeu. Ao contrário, a Cristandade está viva, passa bem e existe simultaneamente ao Desencantamento. Não deve surpreender que seja assim, pois o homo superbus jamais pode derrotar o homo viator de modo absoluto e definitivo.

Retrato de Dostoiévski, por Vasily Perov.

Embora a cultura tenha se tornado fragmentada e desintegrada na era do Desencantamento, a presença da Cristandade dentro dela pode ser vista na mágica e no milagre do reencantamento. É dele, e não do desencantamento, que muitas das maiores obras de arte dos últimos séculos são produto. O que inspira as obras de Shakespeare, Dryden, Coleridge, Wordsworth, Dickens, Dostoiévski, Chesterton, Lewis, Tolkien, Waugh e Eliot, para citar apenas alguns dos mais ilustres, é a rejeição do desencantamento e o desejo do reencantamento. E o que se aplica à literatura aplica-se à pintura (os pré-rafaelitas), à arquitetura (o neogótico) e à música (Bruckner, Mahler, Mendelssohn, Messiaen, Arvo Pärt e outros). Essa desilusão com o desencantamento representa uma recusa em acreditar que a realidade é apenas o mecanismo frio do materialista ou a bagunça sem sentido do niilista; é um despertar para o encantamento da realidade, a percepção de que ela é uma harmonia miraculosa do ser, uma canção, uma Grande Música, a Música das Esferas. Daí o emprego do termo “desencantamento” como descrição efetiva do processo que chama a si mesmo de Iluminismo. A palavra encantamento deriva da palavra latina cantare, cantar, ou cantus, canto, e o desencantamento do Iluminismo foi um deslocamento da perspectiva que via a natureza como criação, isto é, como uma bela obra de arte cantada para dentro da existência por Deus, àquela que a vê como algo meramente mecânico e, mais tarde, como algo meramente sem sentido. Assim, na era do Desencantamento em que nos encontramos no momento, o conflito entre o homo superbus e o homo viator manifesta-se como desencantamento e reencantamento. 

As grandes obras literárias são obras de encantamento que têm o poder de reencantar a mais exausta das almas. São uma herança recebida por todos nós, ou todos dentre nós que as desejam. Ao lê-las, encontramo-nos na presença de grandes mentes pensando sobre grandes coisas. Encontramo-nos na presença de quase três mil anos de gênio. Encontramo-nos em companhia dos illustrissimi da civilização. Em que melhor companhia poderíamos esperar passar o tempo? Fora a dos próprios santos, não há companhia melhor deste lado da sepultura. Uma companhia melhor, a melhor de todas as companhias possíveis, espera pelo homo viator quando sua jornada temporal acabar. Nesse meio-tempo, sobretudo no tempo degenerado em que vivemos, essas grandes obras literárias são boas companhias e excelentes guias para a jornada. Como as lembas que sustentaram Frodo e Sam na jornada por Mordor até a Montanha da Perdição, no Senhor dos Anéis, a grande literatura é maná para a mente e alimento para a alma.