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Quando foi que deixamos de fazer amigos?
Sociedade

Quando foi que
deixamos de fazer amigos?

Quando foi que deixamos de fazer amigos?

Enquanto as pessoas passam a vida na tela dos aparelhos eletrônicos, as instituições culturais desmoronam. Há quem atribua esse fenômeno à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação. Mas a verdadeira raiz de tudo é a perda dos laços de amizade.

Auguste MeyratTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 6 minutos
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É coisa óbvia hoje em dia que praticamente todas as instituições culturais estão desmoronando. É menor o número de pessoas que participam de organizações locais, clubes, igrejas, e maior o das que passam a maior parte do tempo conectadas. Entre as gerações mais jovens, esse fenômeno é ainda mais acentuado: é muito maior o número dos que buscam seus quinze minutos de fama no YouTube do que o de jovens que procuram fazer a diferença em sua comunidade. Alguns podem atribuir esse crescimento à expansão da tecnologia, da grande mídia e da má educação, mas a verdadeira raiz de tudo isso é a perda dos laços de amizade

De acordo com uma pesquisa recente da OnePoll, o americano médio tem feito menos amigos. Outras pesquisas revelam uma crescente “epidemia de solidão”, que faz com que as pessoas tenham menos contato umas com as outras e quase nenhum relacionamento relevante. Essas descobertas sugerem, em conjunto, que a maioria das pessoas prefere se isolar e que sua comunicação é essencialmente superficial e sem sentido

A típica resposta católica a esse fenômeno tem sido estimular tentativas de aproximação e a promoção do pastoralismo. No contexto paroquial, isso se traduz em mais refeições comunitárias, festas sazonais, estudos bíblicos, conferências para homens e mulheres, retiros para jovens e outros eventos sociais cujo objetivo é fomentar a interação entre os paroquianos e atrair visitantes. No contexto global, isso equivale à flexibilização de padrões, à suavização de definições doutrinais da Igreja e à realização de mais sínodos.

Como até os católicos otimistas podem confirmar, essas iniciativas tendem a ser insuficientes. Embora eventos sociais na paróquia sejam úteis a curto prazo, fazem pouca diferença a longo prazo. O mesmo pequeno grupo de pessoas organiza esses eventos e programas ano após ano, mas, como sempre, a grande maioria das pessoas não se compromete. As tentativas de lideranças eclesiais de “abrir” a Igreja e “caminhar” com as pessoas em sua jornada de fé podem angariar a simpatia da mídia secular e dos católicos liberais, mas, na realidade, têm afastado mais do que atraído os católicos.

Isso acontece porque afabilidade não é o mesmo que amizade, diferença ignorada e negligenciada por organizações que implementam soluções superficiais para problemas profundos.

A amizade é definida pela Sagrada Escritura e pela filosofia clássica como um relacionamento íntimo entre duas pessoas que desejam o bem uma da outra. O vínculo entre verdadeiros amigos transcende as circunstâncias, e os dois lados se envolvem ativa e igualmente. No Evangelho, Cristo chama seus discípulos de “amigos” em lugar de “servos”: são semelhantes (no contexto de seu relacionamento) que trabalham em prol do mesmo ideal e estariam dispostos a abrir mão de tudo pelo bem uns dos outros.

É importante observar que nada nessa amizade é imediatamente útil ou conveniente. Os discípulos não são colegas de classe, de trabalho ou membros da mesma tribo cujos caminhos simplesmente se entrecruzam em determinado momento. Na verdade, uma das condições para a existência dessa amizade é a superação desses rótulos. Se a amizade fosse fundamentada em qualquer coisa inferior a isso, como é o caso de muitas delas, seria antes um exemplo de coleguismo, isto é, algo dependente de uma situação externa. 

Algumas pessoas podem experimentar a verdadeira amizade, mas não é o caso da maioria. Ao contrário, elas fazem e desfazem ao longo da vida muitas supostas amizades. O contexto (escola, trabalho etc.) exigia tais “amizades” e, tão logo passavam por ele, os amigos desapareciam. Compreende-se que a perda de amigos e do círculo social é uma experiência comum para adultos que estão na casa dos vinte e estão saindo da faculdade ou de casa. 

Na verdade, amizades são ativas e requerem tempo e esforço. Entre outras coisas, amigos devem estar dispostos a falar, escutar, planejar, acolher, visitar, aprender, confiar e ser confiáveis. Uma pessoa vaidosa, egoísta, impaciente, temperamental ou desonesta jamais fará amigos. Em contrapartida, uma pessoa humilde, equilibrada, aberta, justa e honesta (para ter uma referência, leiam-se as bem-aventuranças) terá amizades sólidas e gratificantes.

Neste momento, vale a pena sublinhar a diferença entre ser popular e ter amigos. Não são expressões de modo algum sinônimas, mas na cultura de hoje recebem o mesmo tratamento. Uma pessoa popular tem “seguidores”: pessoas que podem gostar dela, mas não a conhecem realmente nem interagem com ela. O que mantém unidos esses seguidores é uma agenda comum ou uma preferência em comum. Como diz a escritora de comédias Keri Smith num artigo sobre a cultura do cancelamento, a pessoa popular “não tem amigos, tem aliados”. Quando alguém se desvia, o vínculo é prontamente dissolvido.

No entanto, uma pessoa com amigos é alguém entre iguais. Um grupo de amigos é necessariamente pequeno, já que conhecer verdadeiramente outra pessoa requer tempo e esforço, que são bens limitados. O que importa é a pessoa, não sua agenda política ou suas preferências. Fé e moralidade comuns podem aprimorar uma amizade, mas ela ainda é possível sem ambas. Com o passar do tempo, um verdadeiro amigo aprende a amar o pecador e a odiar o pecado; um aliado ou seguidor faz o oposto ou nenhuma dessas coisas.

A amizade é para a Igreja um bem indiscutível e algo que tanto o clero como o laicato devem fomentar juntos. Para sacerdotes e bispos, trata-se de pregar sobre o tema e mostrar o vínculo entre as exigências da amizade e as do discipulado cristão. Nenhum católico deveria se sentir confortável em rejeitar uma amizade por preguiça ou medo. Tampouco se deveria terceirizar para organizações seculares o convívio social relevante.

Para os leigos, fazer amizade significa primeiro remover as barreiras que a desestimulam. Para a maioria das pessoas, e eu me incluo nesse grupo, significa deixar de lado os aparelhos eletrônicos, pois eles não apenas tiram nosso tempo como também enfraquecem o desejo de fazer amigos. Muitas vezes a gratificação instantânea do entretenimento digital aniquila a gratificação tardia que vem do cultivo de uma amizade.

Tão logo haja tempo disponível, temos de nos esforçar para socializar. Como argumenta a escritora católica Leah Libresco em seu livro Building the Benedict Option [‘Construindo a Opção Beneditina’], esse passo é fundamental para a construção de uma comunidade católica autêntica. Em espírito de amizade, os católicos deveriam organizar noites de jogos, formar clubes de ensaios (uma alternativa mais fácil do que clubes de livros) e oferecer jantares. As primeiras tentativas serão um pouco forçadas e nem sempre correspondidas, mas de modo geral, com tempo e persistência, os relacionamentos se tornarão melhores.

Além disso, esses planos deveriam começar com as pessoas mais próximas: familiares, colegas de trabalho e escola e membros da paróquia. Embora proximidade e responsabilidades compartilhadas não sejam o único fundamento de uma amizade, podem e deveriam facilitá-la. A caridade telescópica (amor aos estranhos distantes mais do que aos familiares próximos) ficou mais popular depois da globalização, mas para os cristãos é tão hipócrita e prejudicial hoje quanto na época em que Charles Dickens escreveu sobre ela. 

Quando amizades sólidas são constituídas, sua bondade inevitavelmente se irradia para a comunidade. Muitos evangelizadores progressistas não compreendem que as pessoas que estão fora da Igreja são atraídas por amizades verdadeiras, não por uma lábia de vendedor ou por constantes afirmações feitas do alto do púlpito. As pessoas se sentem atraídas por famílias que comem juntas, homens que bebem juntos, mães que organizam dias para seus filhos brincarem juntos e crianças que brincam juntas. Por isso, em diversas ocasiões, Santo Agostinho exalta as bênçãos da amizade, reconhecendo-a como caminho para a santidade e fonte de rejuvenescimento para uma Igreja moribunda.

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Preparação para os Doze Dias do Natal
Liturgia

Preparação para os Doze Dias do Natal

Preparação para os Doze Dias do Natal

O mundo parece celebrar o Natal muito antes da data e, quando ela finalmente chega, todos param de celebrá-la. Mas com os cristãos deve ocorrer justamente o contrário. Entenda o porquê, a partir de algumas reflexões de G. K. Chesterton.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Há mais ou menos cem anos, o sempre alegre G. K. Chesterton lamentava-se de duas coisas que são um problema até hoje: primeiro, em sua profissão de escritor, ele tinha de escrever sobre o Natal muito antes de a festa chegar, justamente para que o texto fosse publicado na data certa. Em segundo lugar, o resto do mundo parecia celebrar o Natal muito antes da data e, quando ela finalmente chegava, todos paravam de celebrá-la. Deveria ocorrer justamente o contrário.

Apesar de amarmos o Natal por causa das tradições a ele associadas, esquecemos uma das mais importantes. Durante séculos, as pessoas não celebravam o Natal sem antes se prepararem bem para a data. E quando ela finalmente chegava, comemoravam-na por doze dias seguidos. Fazia-se jejum em preparação, e depois havia muitos dias de festança. Porém, nos últimos anos, apesar das tentativas oficiais de esvaziar completamente o sentido do Natal, a celebração chega a durar um mês inteiro até a data real da festa; então, ela desaparece de uma hora para outra, e todos os rastros da sua presença são apagados.

Chesterton diz:

Os homens de hoje têm a vaga impressão de que, para ir à festa [de Natal], é preciso chegar logo ao final. Segundo os hábitos comerciais modernos, os preparativos para a festa hão de ser muito compridos, mas a celebração mesma há de ser muito curta. Isso está, obviamente, em clara oposição com os costumes tradicionais, daquela época em que o Natal era uma festa sagrada celebrada por um povo mais simples. Os preparativos assumiam então a forma de um tempo mais austero de Advento, concluído com o jejum na véspera do Natal. Mas, quando enfim chegava a hora, a celebração se estendia por dias a fio após o Dia de Natal. A comemoração se tornava sempre um “feriado prolongado” de pelo menos doze dias de júbilo.

As celebrações do Natal, conclui Chesterton, chegavam às vezes a culminar em excessos, eternizados por um escritor do qual muitos já ouviram falar, William Shakespeare, em sua peça A Décima Segunda Noite. Embora muitos conheçam a peça, poucos entendem o seu significado. Trata-se do décimo segundo dia de Natal, o último dos doze dias de uma grande celebração, que começa com o nascimento de Cristo e termina com a visita dos Três Reis Magos.

Chesterton acha que A Décima Segunda Noite é muito mais importante que o Dia de Ano Novo: 

Enquanto os progressistas querem logo que chegue o Ano Novo, os cristãos devem continuar olhando para trás, para o Natal. É a diferença que há entre olhar para trás, com entusiasmo por algo, e olhar para frente, com seriedade, em direção a nada. As pessoas louvam o futuro porque é vazio e indefinido, e têm medo do passado porque está repleto de coisas reais e vivas.

O mundo moderno, com sua obsessão por ser moderno, isto é, atual, está sempre em guerra com a tradição ou aquilo que entende como “ultrapassado”. Seu lema é “mudança”, mas a única mudança, diz Chesterton, ocorre na “fútil e frívola superfície da sociedade”. Abaixo dela permanecem as mesmas questões, os mesmos conflitos, as mesmas ideias que todos os homens sempre tiveram de encarar, por mais que tentem evitá-las. Mas, mesmo neste nosso mundo complexo, as coisas simples ainda fazem com que os homens se lembrem das permanentes. Uma destas coisas simples é a “prudência do camponês em dias comuns e a alegria dele em dias de festa”. Os pastores sempre compreenderam as coisas antes dos sábios.

Todo ritual aponta para algo além de si mesmo. Nossas imagens de Natal evocam pessoas reais e um fato histórico. Nossos singelos símbolos apontam para uma realidade definitiva. Nossa “alegria ritual” é uma tentativa de expressar uma alegria insondável, que nem mesmo um coro de anjos pôde expressar adequadamente. Nasceu-nos um Salvador. Nunca antes se anunciou melhor notícia, nunca antes houve melhor motivo para fazer festa.

No entanto, é preciso esperar o momento certo. Temos de nos preparar para ele. Aquele que preparou o caminho para o Senhor o fez pregando o arrependimento. Nosso mundo nunca teve tanta necessidade de arrependimento como hoje em dia.

Deveríamos viver o Advento como viveríamos a Quaresma. Deveria ser um tempo de oração, de penitência, de preparação. E de mortificação: rezemos cedo e com frequência, façamos jejum de guloseimas, renunciemos a alguma coisa, demos esmola. 

Uma forma de penitência, obviamente, é suportar a terrível música de “feriado” que retumba nas caixas de som em todos os lugares públicos durante o mês de dezembro. Não há como escapar dela. Entretanto, quando enfim, e por misericórdia, desligarem as caixas de som, quando o resto do mundo já estiver retirando as decorações, a nossa grande celebração estará apenas começando. E nossa música será também muito melhor.

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O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela
Espiritualidade

O mundo teme a morte, mas
os católicos devem se lembrar dela

O mundo teme a morte, mas os católicos devem se lembrar dela

És tentado a pecar? Pensa na tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna.

Timothy FlandersTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Talvez não exista hoje verdade mais evitada, reprimida e veementemente ignorada do que a realidade da morte. O homem moderno é consumido satisfazendo como um escravo às próprias paixões, autoproclamando-se livre e banindo absolutamente o pensamento de que um dia morrerá. Para evitar até a menção ao termo “morte”, ele recorre constantemente a palavras como “macabro” e “mórbido”. Apesar disso, ele está disposto a “matar” qualquer um que atrapalhe sua escravidão às paixões. A devassidão na qual ele se encontra mantém sua visão alheia a tudo, exceto à própria escravidão. Ele não consegue enxergar a única coisa no futuro que ele jamais poderá evitar ou negar.

Poder-se-ia argumentar razoavelmente que o declínio histórico da piedade religiosa está correlacionado com o declínio da morte por doenças e com os avanços modernos em tecnologia e conforto que obscurecem a realidade da morte. Quando um homem pode ignorar a morte, ele pode ignorar Deus.

Contudo, pela graça de Deus, nenhum homem consegue ignorar a morte para sempre. Eventualmente um ente querido morre, ou alguém contrai câncer ou outra doença grave, de modo que o ser humano fica face a face com a morte, aquela de quem ele se esquivou, de forma astuta, por toda a vida. Então ele será confrontado com essa dura realidade. Quem sabe, nesse momento, ele enfrente as perguntas difíceis da existência, volte-se para Deus e olhe para a própria vida.

São Francisco de Sales apresenta uma relevante meditação sobre a morte:

Grava bem em teu espírito que então para ti já não haverá mundo, vê-lo-ás perecer ante teus olhos; porque então os prazeres, as vaidades, as honras, as riquezas, as amizades vãs, tudo isso se te afigurará como um fantasma, que se dissipará ante tuas vistas. Ah! Então haverás de dizer: por umas bagatelas, umas quimeras, ofendi a Deus, isto é, perdi o meu tudo por um nada. Ao contrário, grandes e doces parecer-te-ão então as boas obras, a devoção e as penitências, e haverás de exclamar: Oh! Por que não segui eu esta senda feliz? Então, os teus pecados, que agora tens por uns átomos, parecer-te-ão montanhas e tudo o que crês possuir de grande em devoção será reduzido a um quase nada [1].

Já Santo Afonso Maria de Ligório lamenta a situação daqueles que morrem em pecado:

Os pecadores, diz o Senhor, Me viraram as costas por amor às criaturas: “Voltaram-me as costas em lugar de voltarem para mim a face; porém no tempo da sua aflição dizem: Levanta-te [Senhor] e livra-nos. Onde estão os teus deuses [direi eu então] que fabricaste para ti? Levantem-se, se te podem livrar” (Jr 2, 27). Dirá deste modo o Senhor, porque a Ele recorrerão, mas sem o verdadeiro espírito de conversão [2].

Quanto a ti, leitor, não permitas que a morte te surpreenda em situação de pecado. A lembrança da morte é a recordação da realidade última. Prepara-te agora para o destino de toda a carne. Ouve as palavras dos mortos: Fui o que és, sou o que te tornarás [3].

Recordar a própria morte por quê?

O Frei Bergamo destaca que:

A morte é a melhor mestra da verdade, e o orgulho — nada mais que uma ilusão de nosso coração — apega-se à vanglória disfarçada; por isso, a morte é o melhor meio para aprendermos o que é a vanglória e como separar nossos corações dela [4].

Estás com raiva de teu irmão por ele ter te insultado? Considera a tua morte. O que acontecerá com esse insulto quando teu corpo estiver apodrecendo na sepultura e tua alma aparecer diante do Tribunal? Ainda te apegarás à tua raiva? Antes, o Senhor dirá: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai Celeste também vos perdoará” (Mt 6, 14). A morte corta de ponta a ponta tua vaidade, mostrando quão vazia é a glória humana.

Estás aflito com a situação atual da Igreja? Considera a tua morte. O Senhor diz que “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24, 13). Em breve vais morrer e enfrentar o juízo. O que Nosso Senhor te dirá nesse momento? Pegaste o talento e, por medo, o enterraste (cf. Mt 25, 25)? Ou investiste as graças que te foram concedidas para produzir mérito e salvar as almas? Quando todas essas coisas forem arrancadas de ti, saiba que tua morte está próxima.

A peça do século XV intitulada Everyman mostra, de forma belíssima, que, na hora da morte, o ser humano não pode receber parentes, amigos, bens ou força. Somente as boas obras podem ser apresentadas ao tribunal de Cristo. A morte possibilita a visão clara da realidade. Ela permite que se veja quão efêmero é o bem-estar proporcionado pelas coisas criadas, a ponto de sugerir que toda a esperança humana seja depositada no Incriado. A morte nos mantém a salvo de mentiras, vaidades e, acima de tudo, do próprio pecado.

És tentado a pecar? Considera a tua morte. Em breve, esse prazer efêmero não significará nada. Logo vais te arrepender de ter buscado um prazer momentâneo e abandonado a vida eterna. Tal deleite durará apenas um instante, enquanto a eternidade é para sempre, nem sequer está sujeita ao tempo. Não ouças o diabo, que lhe diz: “Pouco importa. Amanhã tu te confessas”. Em vez disso, ouve Nosso Senhor, que te diz: “Insensato! Nesta noite ainda, exigirão de ti a tua alma” (Lc 12, 20). E, novamente: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora” (Mt 25, 13). A lembrança da morte leva à vitória sobre todo pecado.

Como meditar sobre a morte?

Como a sociedade moderna está inclinada a que todos neguem a própria morte, é extremamente difícil lembrar que tu morrerás. No entanto, essa prática é tão salutar a ponto de causar um rápido crescimento na vida espiritual. Um modo de levá-la a cabo é a lembrança diária, que consiste em te levantares e fazeres tua oferta matutina, considerando que morrerás naquela mesma noite. Diz diante de Deus, no último dia de tua vida:

Lembra-te, ó alma cristã, de que tens este dia para:

A Deus glorificar
A Jesus imitar
Os anjos e santos invocar
Uma alma salvar
Um corpo mortificar
Pecados expiar
Virtudes adquirir
O Inferno evitar
O Céu ganhar
À Eternidade te preparar
O tempo aproveitar
O próximo edificar
O mundo desprezar
Os demônios combater
As paixões subjugar
A morte padecer
E a um juízo te submeter [5].

No final do dia, faz teu exame de consciência, considerando que morrerás naquela noite. Isso te trará verdadeira contrição por teus pecados e mostrar-te-á a vaidade de teres ofendido a Deus por algo insignificante. Reza também o Miserere (Salmo 50).

Quando fores dormir, deita-te de costas e olha para o céu. Imagina teu corpo no leito de morte ou deitado na sepultura. Põe tua esperança, então, na misericórdia de Deus e repete a oração: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou pecador.

Outro método de meditação é a lembrança mensal. Considera que este será teu último mês de vida, e que o último dia deste mês será o teu último neste mundo. Naquela noite, tu vais morrer. Então, olha para tua vida e considera o que tu deves fazer antes da tua morte. Esforça-te em busca da virtude e vence o teu pecado. Pouco antes do último dia do mês, faz um exame de consciência completo. Em seguida, faz tua confissão como se fosse a última antes de morrer. Olha então para a tua cama, considera-a como tua sepultura e invoca a misericórdia de Nosso Senhor:

Ó meu Deus, soberano Senhor da vida e da morte, que, por um decreto imutável para a punição do pecado, determinastes que todos os homens devem morrer, contemplai-me humildemente ajoelhado diante de vossa tremenda Majestade, resignado e submisso a essa lei da vossa Justiça. Com todo o meu coração, detesto meus pecados passados, pelos quais mereci a morte mil vezes; e por esse motivo aceito a morte em reparação pelos meus pecados e em obediência à vossa santa Vontade. Sim, meu Deus, enviai sobre mim a morte onde quiserdes, quando quiserdes e da maneira que quiserdes. Enquanto isso, aproveitarei os dias que me concederdes, para me desapegar deste mundo e romper todos os laços que me mantêm cativo neste exílio, e preparar-me para me apresentar com certa confiança diante do vosso tribunal. Por isso me entrego sem reservas nas mãos da vossa Providência paterna. Que a vossa Divina Vontade seja feita agora e para sempre! Amém.

Essas práticas diárias e mensais vão preparar tua alma para a morte pela qual passarás. Preparar-te dessa maneira, tornará tua morte inevitável uma ocasião não de luto, mas de mérito. Assim, pela graça de Deus, farás o que ensaiaste a vida toda: terás uma boa morte.

Os santos, estes já não se atormentam com aquele profiscere (Parte!) que tanto amedronta aos mundanos. Os santos não se agoniam em ter de deixar os bens desta terra, porque os mantiveram destacados de seus corações. “Deus do meu coração”, repetiram sempre, “Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72, 26) [6].

Referências

  1. São Francisco de Sales, Introdução à vida devota. Rio de Janeiro: Vozes, 1958, p. 53.
  2. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VI, 2). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 68.
  3. Este é o ditado latino “Eram quod es, eris quod sum”, que parece ter se originado de autores romanos pré-cristãos, mas foi adotado desde então por vários santos e Ordens católicas.
  4. Fr. Cajetan Mary da Bergamo, Humility of Heart. TAN reprint: 2006, p. 64.
  5. Roman Catholic Daily Missal, Subjects for Daily Meditation. Angelus Reprint: 2004, p. 28.
  6. Santo Afonso Maria de Ligório, Preparação para a morte: considerações sobre as verdades eternas (c. VIII, 1). Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 81.

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São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria
Santos & Mártires

São Maximiliano: um “cavaleiro
da Imaculada” contra a Maçonaria

São Maximiliano: um “cavaleiro da Imaculada” contra a Maçonaria

No filme polonês “Duas Coroas”, o diretor Michal Kondrat conta como uma marcha maçônica em plena Praça de São Pedro, em 1917, despertou o ardor missionário em São Maximiliano Kolbe, a ponto de fazê-lo dar a própria vida por amor a Cristo.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 4 minutos
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Em agosto de 1941, um padre franciscano rezava o Rosário e atendia confissões numa das celas de Auschwitz, o terrível campo de concentração nazista, onde milhões de judeus foram vítimas da “solução final”, durante a II Grande Guerra. Ele e outros oito prisioneiros morreriam em poucos dias. Todavia, a morte desse sacerdote católico deixaria, para a história, um valente testemunho de santidade, como cumprimento de uma antiga promessa.

É com esse pano de fundo que o filme polonês “Duas Coroas”, dirigido por Michal Kondrat, narra a história de São Maximiliano Kolbe, o sacerdote católico que pediu a própria morte a um oficial nazista, no lugar de um judeu pai de família. O título da produção refere-se a uma visão do pequeno Maximiliano, quando ainda criança. Conforme a sua biografia, ele teria visto a Virgem Santíssima segurando uma coroa vermelha numa das mãos e uma coroa branca na outra; a vermelha representava o martírio e a branca, a pureza. A Mãe de Deus lhe pedia que escolhesse com qual daquelas joias ele gostaria de ser coroado. E Maximiliano respondeu-lhe: “Eu quero as duas”.

De fato, a vida de Maximiliano Kolbe foi duplamente coroada, com as palmas da pureza e do martírio. Com treze anos de idade, ele ingressou no Seminário dos Frades Menores Conventuais Franciscanos e ali aprenderia as lições fundamentais para o exercício de sua vocação: a castidade, a pobreza e a obediência. Esses três conselhos evangélicos forjariam a sua alma a ponto de formá-lo como um verdadeiro “cavaleiro de Deus”, disposto a empunhar todas as armas necessárias para debelar os erros do pecado e conquistar o prêmio do Céu. Nesse ínterim, a Virgem Maria seria o seu refúgio e inspiração.

“Duas Coroas” mostra o desenvolvimento dessa luta, trazendo informações importantíssimas para a compreensão de nosso personagem, como também uma mensagem clara sobre a sorte da Igreja e dos cristãos nos tempos atuais: quem não estiver ao lado de Maria Santíssima, muito bem enraizado no dogma da fé, na prática das virtudes e na frequência aos sacramentos, não resistirá às investidas da serpente e aos ataques vorazes de seus sequazes.

Só por isso vale a pena conferir o filme. Não se trata de simples entretenimento ou diversão pueril, com doses cavalares de pirotecnias e sensualismo pagão; embora não seja uma grande produção cinematográfica, “Duas Coroas” repete aquelas “palavras de vida eterna” que são a razão de ser de toda pessoa humana. E é isso o que verdadeiramente importa.

Maximiliano Kolbe pensava justamente assim e, conforme os vários depoimentos do filme, via que o uso da mídia deveria ser destinado, sobretudo, à pregação do Evangelho. Aliás, ele se propôs a criar um jornal para a formação dos católicos, logo depois de ter visto, com horror e escândalo, uma marcha maçônica na Praça de São Pedro, por ocasião do bicentenário da seita secreta, em 1917. Nessa manifestação, os maçons empunhavam cartazes com as inscrições: “Satanás deve reinar no Vaticano. O Papa será seu escravo”. E, como revelaria mais tarde o historiador Michael Hesemann, em arquivos secretos do Vaticano, a Maçonaria realmente tramava por aqueles anos a queda das últimas monarquias e o total aniquilamento da religião católica.

Para impedir tais planos diabólicos, São Maximiliano fundou a “Milícia da Imaculada”, abriu uma gráfica e mandou imprimir várias edições de um jornal dedicado a Nossa Senhora, que explicava a fé católica com clareza. O diretor Kondrat teve o cuidado de colocar esses dados no filme, mostrando como o santo precisou enfrentar a desconfiança e a incompreensão dos próprios correligionários, a fim de defender a causa de Cristo. Apesar disso, a Providência divina o acompanhou, levando seu apostolado até o Japão, em 1930, onde pôde exercer um fecundo trabalho apostólico na cidade de Nagasaki — cuja tragédia da bomba atômica ele havia previsto com alguns anos de antecedência.

Em 1939, porém, Maximiliano teve de retornar à Polônia, para cumprir uma nova missão. A esse respeito, o filme “Duas Coroas” propõe uma leitura sobrenatural: explica-se que os esforços apostólicos do “cavaleiro da Imaculada” não se dissiparam após o retorno do Japão, mas teriam o grande desfecho da configuração a Cristo. Depois de ter contemplado o sofrimento de Nosso Senhor em seus irmãos japoneses, ele mesmo viria a experimentar tal dor, para ratificar na própria carne o que ele publicava em seus jornais. Quando acabou preso em Auschwitz, o santo foi capaz de transmitir amor e esperança aos prisioneiros, transformando a sua cela num verdadeiro oratório.

Nesse sentido, vale lembrar as palavras com as quais São João Paulo II descreveu esse sacrifício: “Maximiliano não morreu, mas ‘deu a vida... pelo irmão’”. Em “Duas Coroas”, o espectador pode vislumbrar em que circunstâncias misteriosas e, sem dúvida, abençoadas aconteceu o coroamento do intrépido homem, que foi digno de receber a glória do martírio. Maximiliano venceu corajosamente as hostes infernais e, “de modo admirável, perdura na Igreja e no mundo o fruto desta morte heroica” [1]. O regime nazista findou como uma página negra da história, ao passo que o martírio de São Maximiliano “se tornou um sinal de vitória” [2].

Definitivamente, “Duas Coroas” é um documentário para ser visto por todos os católicos, sobretudo nestes últimos tempos. Embora estejamos a mais de um século de distância das terríveis tribulações que se abateram sobre a Europa e toda a Igreja Católica, no início do século XX, os seus protagonistas ainda estão entre nós, e com a mesma sanha anticristã de outrora. Por isso, o modelo virtuoso de São Maximiliano Kolbe deve nos levar para o fronte de guerra, com os estandartes da Cruz e do Rosário, em defesa da Igreja e de nosso Cristo Rei.

Referências

  1. São João Paulo, Homilia na missa de Canonização de Maximiliano Kolbe (10 de outubro de 1982). 
  2. Ibidem.

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Quem são os misóginos mesmo?
Sociedade

Quem são os misóginos mesmo?

Quem são os misóginos mesmo?

Eis uma verdade inconveniente e “politicamente incorreta”, mas que está inscrita na natureza mesma das coisas, e no Magistério recente dos Papas: as mulheres precisam dar prioridade a seus lares e a suas famílias.

Jerry SalyerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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Imagem: Howard R. Hollem/Getty Images.

“Trabalhos há”, escreve Leão XIII na Rerum Novarum, “que não se adaptam tanto à mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família”.

Num primeiro momento, é desconcertante como essas declarações não receberam muita atenção, visto que a encíclica Rerum Novarum, com frequência, tem sido ocasião de debates entre comunitaristas e integralistas católicos, por um lado, e os defensores católicos da economia de livre mercado, por outro. Suspeito que a razão disso seja uma relutância dos católicos em confrontar as sensibilidades modernas, principalmente as que estão arraigadas na consciência popular. Certamente eles raciocinam assim: nós já temos de explicar aos ouvintes antipáticos por que hesitamos em admitir “casamento” gay e banheiros transgêneros, então por que ir ainda mais longe questionando o entendimento moderno da igualdade entre homens e mulheres?

Esse raciocínio é totalmente equivocado. Ou Leão XIII deve ser levado a sério ou não; e se aceitarmos a visão politicamente correta do século XXI, que caracterizaria as observações do Papa sobre as mulheres não apenas como erradas, mas como indiscutivelmente estúpidas e intolerantes, então em maior ou menor medida nós lhe reservamos a segunda alternativa. Em outras palavras, ou Leão XIII não é um pensador robusto, ou a afirmação surpreendente de que “certas ocupações não são adequadas para as mulheres” não é tão monstruosa quanto sugere a sabedoria convencional.

Em todo caso, a distinção entre os sexos masculino e feminino dificilmente é um aspecto irrelevante, e Leão XIII adota, como um de seus princípios, uma antropologia que a maioria das figuras públicas contemporâneas negaria de forma resoluta. É realmente estranho que os católicos discutam sobre o significado de um ensinamento papal, ignorando o fato de que uma contrarrevolução extraordinária contra o feminismo seria necessária muito antes que tal ensinamento pudesse ser colocado em prática.

Leão XIII não está sozinho ao tratar das diferenças entre homem e mulher. Pio XI fez observações semelhantes sobre o assunto na Quadragesimo Anno:

As mães de família devem trabalhar em casa ou nas suas adjacências, dando-se aos cuidados domésticos. É um péssimo abuso, que deve a todo o custo cessar, o de as obrigar, por causa da mesquinhez do salário paterno, a ganharem a vida fora das paredes domésticas, descurando os cuidados e deveres próprios e sobretudo a educação dos filhos.

“Deve pois procurar-se com todas as veras”, conclui o pontífice, “que os pais de família recebam uma paga bastante a cobrir as despesas ordinárias da casa”.

Sejamos francos. Para nós, as instruções de Pio XI não parecem apenas politicamente incorretas, mas também ilegais. Ou seja, qualquer empregador que prestasse atenção à exortação para pagar mais aos “pais de família” imediatamente se encontraria na iminência de um processo judicial. E se os paladinos da justiça social da Ethika Politika ou seus inimigos que lutam pela liberdade no Instituto Acton alguma vez expressaram a devida indignação pelo fato de ser ilegal para um católico seguir o conselho de Pio XI, isso passou-me despercebido [1]. Ainda, cabe questionar se a afirmação de Pio XI sobre o patriarcado econômico é menos relevante nos ensinamentos católicos do que, digamos, o direito putativo dos migrantes de ocupar o país de outras pessoas. Quanto aos defensores do livre mercado, se eles não estão preocupados com a liberdade do empresário católico de administrar seus negócios de acordo com os ensinamentos papais, com que liberdade eles se preocupam?

Não faz sentido fingir admirar alguém quando insistimos em filtrar e omitir os seus ensinamentos a fim de se encaixarem nas nossas ideias preconcebidas. Para dar um exemplo que não esteja vinculado à autoridade papal, pode ser instrutivo considerar o economista Ernst Friedrich Schumacher. Embora atraído pela religião oriental quando compôs sua famosa obra Small is beautiful (traduzido para o português sob o título O negócio é ser pequeno), Schumacher atravessaria o rio Tibre pouco antes da publicação do livro, tornando-se um dos principais defensores católicos da economia em pequena escala e para a comunidade local. No entanto, se até mesmo os admiradores irrestritos de Schumacher costumam encobrir sua conversão religiosa, precisam ignorar muito mais sua afirmação de que “as mulheres, em geral, não precisam de um emprego ‘fora’”, e que “o emprego de mulheres, em larga escala, em escritórios ou fábricas seria considerado um sinal de grave fracasso econômico”, em qualquer sociedade equilibrada.

Essas palavras não são apartes irrelevantes em sua obra, pois Schumacher estava convencido de que apenas um tolo “deixaria mães de crianças pequenas trabalharem em fábricas enquanto as crianças são deixadas ao deus-dará”. Longe de fomentar o discurso sobre a justiça social e o bem-estar da próxima geração, tais observações — evidentes por si mesmas — hoje levariam alguém a ser demitido de imediato. Poucos “conservadores” católicos parecem ter muito problema com isso, e até mesmo alguns “tradicionalistas” encobrem o assunto, preferindo o caminho muito mais cômodo de se opor ao capitalismo. Evidentemente, todos deveríamos nos calar e engolir o “dogma” bizarro e irracional de que os filhos podem ser educados efetivamente tanto pelas funcionárias das creches quanto por uma mãe que fica em casa.

Apenas para que não haja mal-entendidos, se a tradição católica é “sexista” — no sentido de reconhecer que existe o sexo masculino e o feminino —, isso dificilmente pode ser considerado misógino. Afinal, veneramos uma Rainha e, mais do que ninguém, é o católico que celebra as virtudes inequivocamente femininas, mesmo sendo suficientemente flexível para prestar homenagem à habilidade militar de uma Joana d’Arc ou à sabedoria mística de uma Catarina de Siena.

Em outras palavras, as feministas se entregam a um “mundo de faz-de-conta” quando agem como se tivessem “descoberto” que algumas mulheres se destacaram em âmbitos tradicionalmente masculinos. Ao mesmo tempo, deve-se acrescentar que as exceções tendem a justificar a regra, pois as mulheres que alcançaram grandes conquistas raramente estiveram motivadas pelo carreirismo. Em vez disso, elas geralmente são impelidas por alguma devoção apaixonada que pouco ou nada tem a ver com a causa feminista. Joana d’Arc não estava empenhada em abrir um caminho revolucionário para as mulheres, mas apenas em libertar a França; Catarina de Siena não estava interessada no empoderamento feminino, mas em reparar os danos do Grande Cisma do Ocidente.

Quanto às mulheres que vivem no anonimato, precisamos reconhecer que, de fato, estamos em um mundo de cabeça para baixo, no qual as advogadas de corporações e as políticas egoístas são consideradas cidadãs mais valiosas do que aquelas mulheres que “apenas” educam os filhos e cuidam do lar. Assim, os verdadeiros misóginos são aqueles que se recusam a honrar a maternidade como uma vocação elevada de tempo integral, e os quais não aceitam que Deus fez o homem e a mulher como complementares, e não iguais.

Notas

  1. Nota de tradução: Aqui, o autor recorre ao antagonismo existente entre dois grupos de católicos — mais conhecidos no contexto norte-americano — para exemplificar que muitos embates são travados em torno de diversas questões da doutrina social da Igreja, exceto em relação ao trabalho externo das mulheres, tema que é frequentemente ignorado.

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