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Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?
Liturgia

Como surgiu a
Comemoração dos Fiéis Defuntos?

Como surgiu a Comemoração dos Fiéis Defuntos?

A Igreja sempre rezou por seus filhos falecidos, mas foi apenas no século X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, ela instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 3 minutos
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A Santa Igreja tem uma liturgia especialmente dedicada aos defuntos. Dela faz parte o ofício de Vésperas, Matinas e Laudes, além de uma Missa própria, comumente chamada “Missa de Requiem” [1]. Essa liturgia, tão tocante como sublime, por meio de prantos e lágrimas desvela aos olhos dos fiéis a luz consoladora da eternidade. A Igreja reza essa liturgia por ocasião do funeral de seus filhos e, de modo particular, no dia em que se celebra solenemente a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. 

A Santa Missa ocupa aqui o lugar principal, como se fôra o centro divino ao redor do qual orbitam todas as outras orações e cerimônias. No dia seguinte à Festa de Todos os Santos, na grande solenidade de todas as almas benditas, todos os sacerdotes devem oferecer aos mortos o Santo Sacrifício, ao qual os fiéis, por sua vez, consideram um dever assistir [2], além de oferecer comunhões, orações e esmolas em sufrágio dos irmãos que sofrem no Purgatório. 

A celebração dos fiéis defuntos, porém, é de origem relativamente recente. A Igreja, desde as suas origens, sempre rezou por seus filhos falecidos, entoando salmos, recitando orações e oferecendo a Santa Missa pelo repouso de suas almas. Contudo, não houve no passado nenhuma celebração destinada particularmente a pedir a Deus o descanso dos fiéis defuntos em geral. Com efeito, foi apenas no séc. X que, sempre guiada pelo Espírito Santo, a Igreja instituiu a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, como forma de estimular-nos a cumprir o grande dever que é rezar pelo mortos, dever prescrito pela caridade cristã.

O berço em que nasceu esta comovedora solenidade foi a Abadia de Cluny. Santo Odilo, abade de finais do séc. X, com o exemplo de sua caridade fraterna edificou toda a França. Compadecido até mesmo dos mortos, ele não cessava de rezar pelas almas do Purgatório. Foi esta doce caridade que o inspirou a instituir, tanto na abadia como nos mosteiros dela dependentes, uma festa em comemoração das almas de todos os falecidos.

É de crer, escreve o historiador Berault, que Santo Odilo tenha sido levado a isso por uma revelação privada, já que Deus lhe manifestou milagrosamente como lhe era grata a sua devoção às almas do Purgatório.

Eis o que nos contam alguns biógrafos. Enquanto o santo abade governava o mosteiro francês, um piedoso eremita vivia numa pequenina ilha, na costa da Sicília. Um peregrino francês, devido a uma forte tempestade, se viu obrigado a desembarcar ali. Encontrando-se com o eremita, este lhe perguntou se conhecia o abade Odilo. “É claro”, respondeu o peregrino, “eu o conheço, e muito me alegro por isso. Mas como tu o conheces, e por que me perguntas isso?” “Já ouvi muitas vezes”, disse o eremita, “os espíritos malignos se queixarem de homens piedosos que, com preces e esmolas, aliviam a dor que têm de suportar na outra vida as almas santas; mas eles se queixam especialmente de Odilo, abade de Cluny, e de sua Ordem. Quando voltares ao teu país, eu te imploro, em nome de Deus, que exortes este santo abade e seus monges a redobrarem suas boas obras, em benefício das pobres almas do Purgatório”.

O peregrino, então, se recolheu no mosteiro de Cluny e fez o que lhe havia pedido o eremita. Logo em seguida, Santo Odilo ordenou que em todos os mosteiros da Ordem, após o Dia de Todos os Santos, se comemorassem todos os fiéis defuntos, com a récita das Vésperas no dia anterior. Na manhã da festa, durante as Matinas, deveriam soar todos os hinos, e uma Missa seria rezada pelo descanso eterno das almas benditas.

Esse decreto, válido para a abadia de Cluny e outros mosteiros, é observado até hoje. Uma prática tão piedosa, naturalmente, logo se estendeu a mais igrejas e, com o passar do tempo, tornou-se de observância universal em todo o orbe católico.

Notas

  1. A liturgia da Missa de Requiem foi sensivelmente alterada pela reforma litúrgica do Papa Paulo VI, mas ainda é possível ler como antífona de entrada a oração que lhe dá esse nome: “Requiem aeternam dona eis, Domine: et lux perpetua luceat eis. — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e a luz perpétua os ilumine” (Nota da Equipe CNP).
  2. Os fiéis católicos “make it their duty”, isto é, “tomam como um dever” assistir à Missa de Comemoração dos Fiéis Defuntos, ainda que não se trate de um dia de preceito (Nota da Equipe CNP).

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A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman
Igreja Católica

A falta de fé, profetizada
por São John Henry Newman

A falta de fé, profetizada por São John Henry Newman

O perigo especial de nossa época é a difusão da praga da falta de fé, que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja.

São John Henry NewmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Novembro de 2019Tempo de leitura: 10 minutos
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A transmissão da verdade de uma geração à outra é, obviamente, a principal razão por que se instituem seminários destinados à educação do clero. 

O cristianismo é uma ideia religiosa. Sobre-humana em sua origem, ela difere de todas as outras religiões. Como o homem difere do quadrúpede, da ave ou do réptil, assim o cristianismo difere das superstições, heresias e filosofias ao seu redor. Ele possui uma teologia e um sistema ético próprios, que constituem sua indestrutível identidade. Como assegurar e perpetuar no mundo esse dom do alto? Como preservar para o povo cristão esse dom, tão especial, tão divino, e que tão facilmente se perde ou se esconde em meio às falsidades que se impõem e abundam no mundo? 

A providência divina é a seguinte. Cada círculo de cristãos tem o seu próprio sacerdote, que é o representante da mensagem divina para esse círculo, em seus aspectos teológicos e éticos. Ele ensina o povo, catequiza seus filhos, trazendo todos e cada um deles àquela forma de doutrina, que é a sua própria. 

Mas a Igreja é formada por vários desses círculos. Como assegurar que todos eles professem uma única e mesma doutrina? E que ela seja a dos Apóstolos? 

Da seguinte forma: pela regra de que seus respectivos sacerdotes devem todos ser ensinados por um único e mesmo centro, ou seja, por seu pai comum, o bispo da diocese. Eles são educados em uma escola, isto é, em um seminário; sob a regra, pela voz e o exemplo do único pastor de todos esses grupos ou círculos de cristãos, dos quais eles todos no futuro serão os professores. A doutrina católica, a moral católica, o culto e a disciplina católicas, o caráter, a vida e a conduta cristãs, tudo o que é necessário para ser um bom sacerdote, todos e cada um deles o aprendem nessa escola religiosa, que é a preparação designada para os ofícios ministeriais. 

Assim como os jovens são preparados para sua vocação secular por escolas e professores que lhes ensinem o que ela requer, como as escolas clássicas e as comerciais, os professores de cada profissão e os de várias artes e ciências, assim também os ministros sagrados da Igreja se tornam verdadeiros representantes de seu bispo quando são designados ao cuidado do povo cristão, porque eles provêm de um único centro de educação e da tutela de uma cabeça.

É por isso que Santo Inácio, o bispo mártir de Antioquia, no primeiro século da Igreja, falando da hierarquia eclesiástica e comparando a união das Ordens sacras com o bispo, refere-se a uma cítara em perfeita sintonia. Ele escreve em sua Epístola aos Efésios (n. 4): 

Segue daí, que vos convém avançar junto, de acordo com o pensamento do bispo, como aliás fazeis. Pois vosso presbitério digno de tão boa reputação, digno que é de Deus, sintoniza com o bispo como cordas com a cítara. Por isso, no acorde de vossos sentimentos e em vossa caridade harmoniosa, Jesus Cristo é que é cantado. Mas também, um por um, chegais a formar um coro, para cantardes juntos em harmonia; acertando o tom de Deus na unidade, cantais em uníssono por Jesus ao Pai, a fim de que vos escute.

E se, em todos os tempos, essa simples unidade, esse entendimento perfeito dos membros com a cabeça, é necessário para a ação salutar da Igreja, nestes tempos perigosos ela é especialmente necessária. Sei que todos os tempos são perigosos, e que, em cada época, mentes sérias e aflitas, vivamente atentas à honra de Deus e às necessidades do homem, são capazes de considerar que nenhuma época é tão perigosa quanto a sua. Em todos os tempos o inimigo das almas ataca com fúria a Igreja, que é verdadeira mãe delas, e, se não consegue lhe causar prejuízo, ao menos a ameaça e aterroriza. E todos os tempos têm suas provações especiais, que outros não têm. Vou ao ponto de admitir que havia certos perigos, específicos aos cristãos de outras épocas, que hoje não mais existem. 

Mesmo assim, considero que as provações que se nos afiguram são tais que assustariam e deixariam atordoados até mesmo corações corajosos como Santo Atanásio, São Gregório Magno ou São Gregório VII. E eles confessariam que, por mais obscura que várias vezes lhes parecesse a perspectiva de seu tempo, o nosso tem uma escuridão de um tipo diferente de qualquer outra que tenha existido antes.

O perigo especial do tempo que temos diante de nós é a difusão desta praga da falta de fé [1], que os Apóstolos e Nosso Senhor mesmo predisseram como a pior calamidade dos últimos tempos da Igreja. E está sobrevindo ao mundo uma sombra, pelo menos, uma imagem típica dos últimos tempos. Eu não pretendo presumir que estes tempos são os últimos; eles têm a má prerrogativa, no entanto, de se parecerem com aquele período mais terrível, do qual se diz que os próprios eleitos correrão o risco de se perderem [...].

Estou falando de males que, em sua intensidade e extensão, são peculiares destes tempos. Mas não falei ainda da raiz de todas essas falsidades — que sempre esteve escondida, mas nesta época foi deixada à vista e desavergonhadamente confessada —, ou seja, desse mesmo espírito de falta de fé, ao qual me referi como ao grande mal dos nossos tempos e do qual as objeções que nós constantemente ouvimos e ouviremos serem feitas ao cristianismo ganham sua plausibilidade [2].

A proposição elementar dessa nova filosofia, agora tão ameaçadora, é a seguinte: que em todas as coisas nós devemos ir pela razão, e em nada pela fé; que as coisas são conhecidas e devem ser recebidas à medida que puderem ser provadas. Todos os outros conhecimentos têm provas, dizem seus defensores, por que a religião deveria ser uma exceção? E o modo de prova é avançar do que sabemos para o que não sabemos, de fatos sensíveis e tangíveis para conclusões seguras. O mundo perseguiu o caminho da fé no que diz respeito à natureza física, e o que adveio disso? Até trezentos anos atrás eles acreditavam, porque era essa a tradição, que os corpos celestes estavam fixos em esferas cristalinas sólidas e se moviam ao redor da terra no curso de 24 horas! Por que aquele método que tanto fez no campo da física não poderia beneficiar também esse conhecimento superior que o mundo acredita ter ganhado através da revelação? Não há revelação alguma de cima. Não há exercício de fé algum. Ver e provar são a única base para crer. Eles vão adiante dizendo que, como a prova admite graus, dificilmente se pode ter uma demonstração fora da matemática; nós não podemos ter jamais um simples conhecimento que seja; as verdades são apenas probabilidades. Assim, a fé se torna um erro de duas formas: primeiro, porque usurpa o lugar da razão e, segundo, porque implica um assentimento absoluto a doutrinas, e isso é dogmático, e assentimento absoluto é irracional. Do mesmo modo você encontrará, certamente no futuro, mas — que digo? — mesmo agora, mesmo agora, que os escritores e pensadores do momento sequer acreditam que Deus existe. Eles não acreditam tampouco no objeto — um Deus pessoal, uma Providência e um Governador moral; e, em segundo lugar, aquilo em que eles acreditam, isto é, que há alguma causa primeira ou outra, eles não o sustentam com fé, absolutamente, mas como uma probabilidade.

Vós me direis que suas teorias têm estado no mundo e não são coisa nova. Não. Indivíduos já a tinham trazido à luz, mas elas não eram ideias correntes e populares. O cristianismo não teve jamais a experiência de um mundo simplesmente irreligioso. Talvez a China seja uma exceção. Nós não a conhecemos o suficiente para dizer, mas considerai o que era o mundo greco-romano quando o cristianismo apareceu. Ele era repleto de superstição, não de infidelidade. Havia bastante descrença em todos, quanto à mitologia, e em cada homem instruído, quanto ao castigo eterno. Mas não havia um expurgo da ideia de religião, nem de poderes invisíveis que governavam o mundo. Quando eles falavam do fado (do destino), mesmo aqui eles consideravam que havia uma grande regência moral do mundo, governada por leis inexoráveis. Seus primeiros princípios eram os mesmos que os nossos. Mesmo em meio aos céticos de Atenas, São Paulo podia apelar ao Deus desconhecido. Mesmo à população ignorante de Listra, ele podia falar do Deus vivo que do céu lhes fazia o bem. E, então, quando mais tarde vieram os bárbaros do norte, eles, em meio a todas as suas superstições, acreditavam numa Providência invisível e na lei moral. Nós, porém, estamos nos aproximando de uma época em que o mundo não reconhece nossos primeiros princípios [...].

Que a disciplina de um seminário seja exatamente o necessário para confrontar o atual estado das coisas, não é preciso que seja eu a sugeri-lo [...]. O seminário é a única verdadeira garantia da criação de um espírito eclesiástico. E é essa a primeira arma de verdade para confrontar a época, não a controvérsia. É claro que todo católico deve ter uma abordagem inteligente da própria religião, como diz São Pedro, mas ainda assim a controvérsia não é o instrumento por meio do qual se deve resistir ao mundo e vencê-lo. E isso nós podemos ver se estudarmos essa epístola, que traz consigo uma autoridade própria, por ter sido colocada pelo Espírito Santo na boca do chefe dos Apóstolos. O que ele diz a todos os cristãos, é especialmente conveniente aos sacerdotes. De fato, ele a escreveu em um tempo durante o qual os deveres tanto de uns quanto de outros, contra o mundo pagão, eram os mesmos. Em primeiro lugar, ele os recorda do que eles realmente eram enquanto cristãos, e com certeza nós devemos tomar essas palavras como especialmente dirigidas a nós, do clero. “Vós sois uma geração escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus…” (1Pd 2, 9). 

Nesse espírito eclesiástico, limitar-me-ei a mencionar um espírito de seriedade ou recolhimento. Nós devemos adquirir o hábito de sentir que estamos na presença de Deus, que Ele vê o que o estamos fazendo; e um gosto de que Ele o faça, um amor por esse conhecimento, um prazer nesta reflexão: “Vós, Senhor, me vedes”. Um sacerdote que sinta isso profundamente não se comportará mal em uma sociedade misturada. Isso o guardará da familiaridade excessiva com quaisquer do seu povo; o guardará das muitas palavras, do falatório néscio ou imprudente; o ensinará a ordenar os seus pensamentos. Será um princípio de desapego entre ele e até mesmo seu próprio povo; pois aquele que se habituou a confiar no Deus Invisível, jamais será capaz de se apegar realmente a qualquer de suas criaturas. E assim se criará uma elevação da mente, que é a verdadeira arma que ele deve empunhar contra a falta de fé do mundo (daí o que diz São Pedro em 1Pd 2, 12.15; 3, 16).

Eis o que eu considero ser a verdadeira arma com que a falta de fé do mundo deve ser combatida. 

E, por fim, mais importante na mesma guerra, e aqui também vereis como ela está ligada ao seminário, é um conhecimento sadio, correto e completo da teologia católica. Isso, ainda que não seja controverso, é a melhor arma (depois de uma vida santa) na controvérsia. Qualquer criança bem instruída no catecismo é, mesmo que não o pretenda, uma verdadeira missionária. E por quê? Porque o mundo está cheio de dúvidas e incertezas, e de doutrina inconsistente — e uma ideia claramente consistente da verdade revelada, pelo contrário, não pode ser encontrada fora da Igreja Católica. Consistência e plenitude são um ótimo argumento para persuadir da verdade de um sistema. Se não for consistente, ele não é verdadeiro. 

Referências

  • [São] John Henry Newman. The Infidelity of the Future (Opening of St. Bernard’s Seminary, 2nd October 1873). in: Faith and Prejudice and Other Unpublished Sermons. New York: Sheed & Ward, 1956, pp. 114-128.

Notas

  1. A expressão infidelity é central para este sermão, constando inclusive de seu título. Nesta tradução, achamos por bem vertê-la para “falta de fé”, ao invés de seu cognato “infidelidade”, porque a expressão traduz melhor a apostasia ilustrada por Newman (Nota da Equipe CNP).
  2. Aqui e em um outro trecho mais abaixo, fizemos algumas leves adaptações na tradução, com vistas à clareza e ao melhor entendimento do texto (Nota da Equipe CNP).

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“A esperança não engana”: remédios contra o desespero
Espiritualidade

“A esperança não engana”:
remédios contra o desespero

“A esperança não engana”: remédios contra o desespero

A fé nos ensina o quanto Deus fez e dispôs para que sejamos salvos. Por isso, é verdadeiramente possível e, não só isso, também fácil, com tantos e tão grandes meios, chegar ao porto da eterna bem-aventurança.

Pe. Santiago Ramírez, O.P.28 de Outubro de 2019Tempo de leitura: 5 minutos
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O pecado do desespero se origina sobretudo por defeito de fé, como de sua causa primeira e universal, e por defeito de caridade ou de firme conversão, isto é, por uma vida voltada para os desejos da carne, o que dá lugar ao tédio dos bens espirituais chamado acídia

Ora, uma vez que os contrários se curam por seus contrários (similia similibus curantur), segue-se que o primeiro remédio contra a desesperança é fomentar o exercício da fé e da caridade, de modo que a fé sirva de fundamento à esperança e a caridade, por sua vez, a una com seu fundamento e termo, e assim a solidifique. É por isso que escreve S. João: “Se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos” (1Jo 2, 21-22). S. Agostinho o expõe com a beleza de sempre, ao escrever: 

Assim como a má consciência está toda no desespero, assim também a boa consciência está toda na esperança. Espera, com efeito, quem tem boa consciência; aquele, porém, a quem punge uma consciência má se afasta da esperança, e não espera senão a condenação. Para esperar o Reino, é preciso ter boa consciência, e para ter boa consciência, é preciso crer e obrar. O crer se deve à fé; a obra, à caridade. A esperança, pois, é o meio pelo qual se vai do início, que é o crer, ao fim, que é o obrar [1].

Deve-se fortalecer especialmente a, que é a substância ou base das coisas que se esperam (cf. Hb 11, 1), segundo aquilo: “Conservemo-nos firmemente ape­gados à nossa esperança” (Hb 10, 23). Deve-se alimentar acima de tudo a fé na Encarnação, que nos mostra que Deus, “por nós, homens, e pela nossa salvação desceu dos céus”, como se reza no Símbolo da fé, aplicando-a a si mesmo, junto com Paulo: “Vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20); “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (2Cor 12, 9); “Tudo posso naquele que me conforta” (Fp 4, 13), e recordando as palavras de Cristo aos seus discípulos: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33) e “Vou preparar-vos um lugar” na casa de meu Pai (Jo 14, 3), para que, “onde eu estou, estejais comigo vós também” (Jo 17, 24).

Assim, pois, escreve S. Agostinho: 

“Vós, Senhor, nos cobristes com o escudo da vossa benevolência” (Sl 5, 13). Com efeito, a benevolência de Deus precede a nossa boa-vontade, a fim de chamar os pecadores à penitência. Eis a arma com que é expugnado o inimigo, contra quem está dito: “Quem poderia acusar os escolhidos de Deus?” e “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou” (Rm 8, 31-33); “se, quando éramos ainda inimigos, fomos recon­ciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5, 10). Este é o escudo poderosíssimo que repele o inimigo, que induz ao desespero da salvação mediante incontáveis tribulações e tentações [2]. 

E em outro lugar:

Eis que garantias recebemos da promessa de Deus: temos a morte de Cristo, temos o Sangue de Cristo. Quem foi morto? O Unigênito? E por quem foi morto? Quiçá pelos bons, talvez pelo justos. Mas quê? Cristo, diz o Apóstolo, morreu pelos ímpios (cf. Rm 5, 6). Ora, o que entregou sua vida pelos ímpios, que outra coisa tem reservada aos justos senão a sua própria vida?

Erga-se, pois, a fragilidade humana, não desespere, não se abale, não se extravie nem diga: ‘Não poderei’. É Deus quem nos promete, e Ele veio para deixar-nos a promessa: manifestou-se aos homens, veio suportar a nossa morte e prometer-nos a sua vida; veio à região da nossa peregrinação receber o que aqui abunda: ultrajes, flagelos, golpes, cusparadas, injúrias, uma coroa de espinhos, ser pregado à cruz, a morte. É disto que está cheio o nosso mundo, e foi para sofrê-lo que Ele aqui desceu.

O que Ele nos deu, e o que de nós recebeu em paga? Deu-nos conselho, deu-nos doutrina, deu-nos o perdão dos pecados; recebeu, porém, ofensas, morte, cruz. Trouxe-nos os bens da sua pátria, e provou dos males do nosso desterro. Prometeu-nos, contudo, que iremos um dia ao lugar donde Ele veio: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo” (Jo 17, 24). Tanto foi o amor com que nos precedeu, que Ele quis estar onde estávamos, a fim de estarmos nós um dia onde Ele agora se encontra.

O que te prometeu Deus, ó homem mortal? Que hás de reinar eternamente. Não o crês? Crê, tem fé. Pois é muito mais o que Ele já fez do aquilo que prometeu. Ora, o que fez Ele? Morreu por ti. E o que prometeu? Que hás de viver com Ele. E o que é mais incrível do que ter morrido Aquele que é eterno, a fim de que por toda a eternidade vivesse com Ele o que é mortal? Se por causa do homem Deus se entregou à morte, acaso não irá o homem viver com Deus? Acaso não há de viver para sempre o mortal por cuja causa morreu Aquele que vive eternamente? [3]

Temos a Deus como Pai; temos no céu a nossa pátria; temos a eterna felicidade por herança. E se em Cristo, que é a nossa Cabeça, já se cumpriu o que nos foi prometido, também nós, que somos membros dele, alcançaremos a mesma felicidade.

A fé nos ensina, pois, o quanto Deus fez e dispôs para que sejamos salvos. Entregou-se por nós; permanece conosco no Sacramento do altar; deixou-nos os sacramentos, donde podemos haurir a haustos plenos a graça que eles operam por virtude própria; destinou a cada um de nós um anjo da guarda, para defender-nos continuamente; deu-nos a Virgem SS. como Mãe e os santos dos céus como intercessores. Deve-se dizer, portanto, com toda verdade que não é só possível, mas também fácil, com tantos e tão grandes meios, chegar ao porto da eterna bem-aventurança.

É preciso também fortalecer a caridade, para que ela vivifique a esperança e a incremente. Graças à caridade, tornam-se saborosas as coisas celestes e tediosas as terrenas, e é por isso que, com ela, se evita tanto a luxúria como a acídia, dois pecados que por si mesmos provocam desesperança

Graças à caridade, “somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes” (2Cor 6, 10), porque — como nota S. Tomás —, “ainda que nos bens exteriores e que dizem respeito à carne padeçamos tristezas e amarguras, no entanto, gozamos internamente uma alegria contínua, que cresce em nós em virtude das consolações do Espírito Santo e pela esperança da recompensa eterna” [4]. Digamos, pois, com o Apóstolo: “Gloriamo-nos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana” (Rm 5, 3-5).

Referências

  1. In Psalm. 31, enarrat. 2, n. 5 (PL 36, 265).
  2. In Psalm. 5, n. 17 (PL 36, 89).
  3. In Psalm. 148, n. 8 (PL 37, 1942).
  4. In II Cor. 6, l. 2.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada da obra De spe theologica, do Pe. Santiago Ramírez, O.P. (1891-1967), publicada em Salamanca no ano de 1996 pela editora San Esteban, vol. 1, pp. 188-191.

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Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice
Espiritualidade

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Teu anjo é teu amigo, não teu cúmplice

Será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Outubro de 2019Tempo de leitura: 10 minutos
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O mês de outubro, além de ser dedicado ao Santo Rosário, pede também uma meditação especial sobre os Santos Anjos, pois no último dia 2 celebrou-se a memória dos Santos Anjos da Guarda, e hoje, dia 24, o calendário litúrgico antigo prevê uma festa em honra de São Rafael Arcanjo (agora transferida, juntamente com a memória de São Gabriel, para 29 de setembro).

Mas a reflexão sobre a existência e o ministério desses espíritos é atemporal; e ela é importante, sobretudo, para desfazer a imagem distorcida a seu respeito que, em tempos de confusão doutrinal como os nossos, tantas pessoas acabam criando. Muitas vezes, na literatura a respeito desses grandes amigos que Deus colocou ao nosso lado, falta consistência, justamente porque falta a fé da Igreja. Os anjos, então, desconectados de uma tradição cristã de dois mil anos, ou se tornam uma fábula, porque se deixa de acreditar neles, ou são tidos como “criaturas de estimação”, “anjinhos” que “domesticamos” com um nome e podemos até transformar numa espécie de “cúmplices” de nossas misérias e desleixos (falaremos melhor disso a seguir).

Contra essas imagens equivocadas, é urgente recorrer à doutrina da Igreja e a uma boa teologia. Para este texto específico, contentemo-nos com estas breves linhas do Pe. Royo Marín, reproduzindo uma lição do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino:

Os anjos são chamados a juízo por causa dos pecados dos homens, não como réus — pois não têm culpa alguma dos pecados de seus protegidos —, mas como testemunhas, para convencer os homens de sua própria culpa e negligência [1].

Comecemos por nos imaginarmos, diante do tribunal de Deus, tendo a nosso santo anjo custódio por “testemunha”. Normalmente, nos tribunais humanos, quando uma pessoa é chamada a ser testemunha, ela o é ou da parte autora ou da parte ré, a fim de convencer o juiz ou da culpa do réu ou de sua inocência. No tribunal divino, porém, não acontece assim. Primeiro, porque a sentença já estará definida. Deus é o Juiz sumamente justo, a própria Justiça, e o seu julgamento é plenamente conforme à verdade. Não há o que mudar, nem matéria de que apelar. Deus não precisa ser “convencido” da inocência ou da culpa de ninguém. Antes, é a nós que será mostrado, em minúcias, o que fizemos ou deixamos de fazer nesta vida que acarretou ou a nossa salvação ou a nossa condenação eterna. Seremos nós os “convencidos” da sentença justíssima a ser aplicada, ou contra nós ou a nosso favor.

Os santos anjos deporão, portanto, pela verdade. Estarão ao nosso lado, sim, se tivermos sido fiéis a ela; mas estarão contra nós, também, se a tivermos traído. 

Assim, se tivermos a graça de nos salvar, eles nos mostrarão todas as vezes que procuraram nos iluminar com suas santas inspirações (e que nós pensávamos ser ideias nossas!) e como isso foi providencial para a nossa salvação. O Pe. Royo Marín, refletindo sobre essa iluminação que os santos anjos exercem continuamente sobre os homens, escreve: “Quantas vezes o homem não se surpreende com rajadas de luz divina sobre as coisas que deve crer e fazer, sem advertir que elas lhe advêm de seu anjo custódio, que permanece sempre ao seu lado!” [2]. 

Se viermos a nos condenar, todavia, eles também nos mostrarão a nossa maxima culpa, a nossa resistência às suas inspirações e a nossa ignavia

Queremos dar uma especial atenção à ideia transmitida por essa palavra, usada por Santo Tomás, e que os tradutores portugueses normalmente vertem para “negligência”, por ser uma expressão mais conhecida (embora a palavra “ignávia” também exista em nossa língua). As duas traduções são boas, mas, para os fins desta meditação, talvez fosse interessante recorrer a um sinônimo mais próximo de nossa linguagem litúrgica: o termo “omissões”, que foi acrescentado recentemente à oração do Confiteor, rezada no ato penitencial da Santa Missa: “Confesso… que pequei muitas vezes, por pensamentos e palavras, atos e omissões”. 

Com esse feliz acréscimo realizado pela reforma litúrgica pós-conciliar, a Igreja colocou-nos diante dos olhos uma realidade à qual não costumamos dar muita atenção. Os exames de consciência para Confissão geralmente não falam das omissões. Não estamos habituados a pensar que podemos nos condenar por causa delas. Na verdade, associamos a omissão normalmente à salvação: se nos salvarmos, será por não termos roubado, por não termos matado, por não termos cometido pecados mortais… Entretanto, se nos atentarmos ao Evangelho, veremos que esse é um modo muito míope de enxergar a nossa vida moral.

Para demonstrar o mal e o perigo terrível que há nas omissões, Nosso Senhor amaldiçoou a figueira estéril (cf. Mt 21, 18–22), ilustrando como, se não dermos frutos de caridade, nossa fé será morta (cf. Tg 2, 26). Ao contar a parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14–30), Ele chamou de “mau e preguiçoso” o servo que enterrou o seu talento, e condenou-o às trevas exteriores justamente por não ter feito nada. Narrando como será o Juízo Final, Ele disse ainda que porá os cabritos à sua esquerda, e os condenará ao Inferno não por algo que tenham feito, mas pelo que deixaram de fazer: “Tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes” (Mt 25, 42–43).

Ou seja, há uma obra a ser realizada para que cheguemos ao Céu. Deus não nos deu a sua graça, os sacramentos, a pertença à Igreja, para que ficássemos ociosos. Não recebemos os “talentos” de suas mãos — que são as graças com que Ele nos cumula ao longo da vida — para os colocarmos debaixo da terra. Não podemos ficar preocupados só com a parte negativa dos Mandamentos; precisam mover-nos também os seus preceitos de ação, os deveres positivos de nosso estado de vida, os conselhos evangélicos, que devemos procurar seguir ao menos em espírito

Tome-se como exemplo o terceiro mandamento: “Guardar domingos e festas de guarda”. Complementando esse preceito, a Igreja nos ordena ir à Missa aos domingos, sob pena de cometermos pecado mortal. Nosso Senhor em lugar algum dos Evangelhos falou disso, é verdade, mas Ele disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu, e o que desligardes na terra, será desligado no céu” (Mt 18, 18). Ou seja, Ele deu à Igreja o poder de fazer suas vezes aqui, fazendo leis e mandando que as cumpramos. Portanto, com o poder das chaves, está definido: deixar de ir à Santa Missa no domingo é coisa grave que, cometida com plena advertência e consentimento, leva ao Inferno. (A menos que haja um motivo razoável para essa ausência [3], para estar de novo em comunhão com Deus e com a Igreja é preciso confessar-se. Do contrário, não podemos aproximar-nos da Sagrada Comunhão.)

A esse respeito, mui concretamente, o que nos será mostrado no juízo por nossos santos anjos? 

Eles nos convencerão, diz o Aquinate, da nossa ignávia, da nossa preguiça, do nosso desleixo. Por um lado, veremos como eles nos colocavam, a nós e a nossas famílias, sob a sombra de suas asas, conduzindo-nos toda semana à casa do Senhor; veremos também como tantos obstáculos para cumprirmos esse dever eram justamente as ocasiões que precisávamos vencer para mantermos de pé a nossa casa… Por outro lado, os anjos também nos mostrarão como tiveram sua missão frustrada por causa de nossa soberba, quando passamos a dar ouvidos aos demônios e fomos pouco a pouco abandonando a Igreja, com argumentos sutis como: “Religião não salva ninguém”, ou: “Deus não vai me condenar porque eu não vou à igreja” (como se quem deixasse um mandamento também não fosse, lenta e gradualmente, descumprindo os outros…).

Mas a ausência na Missa dominical é apenas um exemplo das omissões que condenam. Com que remorsos pais e sacerdotes não verão no Céu as suas negligências, causas que foram da condenação de seus filhos biológicos e espirituais! Com que tristeza não verão como a falta de correção, a falta de atenção e cuidados, a falta de catequese, a falta de oração, levaram suas famílias e paróquias à falta de fé e à ruína do Inferno! Com que horror os preguiçosos não verão como a perda de tempo, a ociosidade e a inércia foram, pouco a pouco, conduzindo-os aos pecados mais graves até afastá-los definitivamente da graça! 

Não pensemos, todavia, só nas negligências graves, mas também nas outras tantas que nos conduzirão a um Purgatório mais ou menos prolongado. Pensemos em todas as brincadeiras torpes que fizemos e deixamos que se fizessem ao nosso redor, não nos atentando à palavra de Nosso Senhor: “No dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34). Pensemos na grande omissão de não termos corrigido com cuidado nossos próprios defeitos e “malandragens”, na negligência terrível de não termos correspondido ao amor heroico que Deus queria de nós...

Pensemos nisso tudo e convençamo-nos: nosso anjo deporá contra nós no último dia. Neste dia final, acabam-se as desculpas, não há “jeitinho brasileiro” nem forma de ocultar a nossa vergonha. Ali tudo será exposto, e não só nossas omissões, mas também nossos pensamentos, palavras e atos. Porque nosso anjo da guarda, fiel e justo, foi colocado ao nosso lado para ser nosso amigo, e não nosso “cúmplice”

“Parceiro no crime” é o demônio. Mas quem o tiver por companheiro aqui, infelizmente, tê-lo-á presente do outro lado. Porque é certo que, no justíssimo juízo de Deus, diferentemente do que acontece nos tribunais humanos, os que foram parceiros no crime, também o serão na pena.

Se isso vier a acontecer, nossos anjos da guarda permanecerão no Céu, contemplando a Deus face a face por toda a eternidade; nós, porém, pereceremos. É o que confirma o jesuíta Pe. Augusto Ferretti, em seu excelente livro sobre Os Santos Anjos da Guarda (pp. 26-27): 

Se nós mesmos não cooperamos com Deus e os seus santos e anjos, de nada nos servirá que estejam a nosso dispor, no Céu, inumeráveis exércitos de espíritos bem-aventurados. [...] O regime e o governo dos anjos, sobre nós, têm portanto que se conformar com a nossa natureza de seres livres. Eles cooperam conosco, dão-nos a mão, facilitando o caminho, quando pelo bom caminho é que queremos andar. Os anjos da guarda são como executores da Divina Providência com respeito aos homens, diz S. Tomás: Custodia Angeli est quaedam executio divinae Providentiae, circa homines facta (STh I, 113, 6 c.). Donde se segue que, assim como a Divina Providência não exclui o exercício do livre-arbítrio, nem nos necessita fisicamente a evitar o pecado, assim também não é tal coisa que havemos de esperar do ministério dos anjos junto de nós. É portanto inescusável desídia a de quem, sabendo que vive constantemente lado a lado com um anjo de Deus, vive e morre em pecado. O mesmo anjo que lhe devia ser auxílio, luz, proteção, torna-se-lhe testemunha e acusador no tribunal de Deus.

“Muito bem, agora só falta falar das coisas boas que os anjos testemunharão em favor dos justos…”. É verdade, mas o leitor terá de me perdoar esta omissão, que faço questão de manter. Pois este texto é um convite, feito a pecadores, para um exame de consciência. E a pecadores como nós o que cabe é a penitência, o arrependimento, as lágrimas e a preocupação. 

Faz muito bem, sim, pensar na alegria de ser recebido no Céu e reinar eternamente com os anjos. Mas também é muitíssimo salutar pensar no Purgatório e no Inferno, e em como será terrível vermos, apontadas por nosso mais íntimo companheiro celeste, as omissões e negligências que, por nossa culpa, permitimos ou que diminuíssem a nossa glória no Céu ou que, ai de nós, nos condenassem ao fogo eterno.

É para agirmos, é para despertarmos do nosso sono letárgico que precisamos escutar todas essas coisas. Nossos anjos custódios nos querem junto de si! Mas, se não tivermos Deus, a quem eles amam mais do que tudo, seremos separados desses nossos amigos para sempre... Pois só podem ter o mesmo destino os que amam as mesmas coisas.

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín, Dios y su obra, Madri: BAC, 1963, p. 411; cf. STh I 113, 7 ad 4.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., p. 405.
  3. Cf., a esse respeito, Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, p. 392.

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