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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!
Sociedade

O que é hedonismo?
Muito mais do que você pensa!

O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!

O hedonismo infectou profundamente a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, mas totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Alguns dias atrás, no Evangelho, Jesus expôs a necessidade de aceitar as cruzes da nossa vida e carregá-las (cf. Mt 16, 24). Ora, as cruzes não são apenas os grandes sofrimentos da vida, como doenças, a morte de um ente querido, a perda de um emprego e assim por diante. Existem também as cruzes diárias de autodisciplina, trabalho árduo, obediência, contratempos, consequências das nossas decisões, limites para o que podemos fazer e a cruz de resistir à tentação.

Em oposição a esse ensino do Senhor está o hedonismo. A maioria das pessoas hoje associa o hedonismo ao excesso sexual e talvez à bebida. Mas o hedonismo é uma noção muito mais ampla, e é por isso que S. Paulo disse: “Mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo (pedra de tropeço) para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1, 23). Para os judeus, Jesus crucificado era uma pedra de tropeço, pois eles acreditavam que qualquer pessoa pendurada em uma árvore era amaldiçoada por Deus (cf. Dt 21, 22s). Mas, para os gregos e romanos, a cruz era um absurdo, devido à filosofia hedonista difundida entre eles. Então, o que é hedonismo?

“Uma Festa Romana”, de Roberto Bompiani.

Hedonismo é a doutrina segundo a qual o prazer ou a felicidade são o único ou o principal bem da vida. Vem da palavra grega hēdonē, que significa “prazer”, e é semelhante à palavra grega hēdys, que significa “doce”.

É claro que o prazer pode ser desejado e, até certo ponto, procurado, mas não é o único bem da vida. Na verdade, alguns de nossos maiores bens e realizações exigem sacrifício: anos de estudo e preparação para uma carreira; sangue, suor e lágrimas para criar filhos.

O hedonismo busca evitar sacrifícios e sofrimentos a todo custo. É diretamente oposto à teologia da cruz. S. Paulo falou em seus dias dos inimigos da cruz de Cristo. Seu fim é a destruição; seu deus, o estômago; e eles se gloriam da própria desonra, com a mente voltada para os prazeres terrenos (cf. Fl 3, 18s). Como dissemos, ele também ensinou que a cruz era um absurdo para os gentios (cf. 1Cor 1, 23).

As coisas não mudaram, meus amigos. O mundo reage com grande indignação sempre que a cruz ou o sofrimento estão implícitos. Portanto, o mundo clamará, exasperado e perplexo, e perguntará, incrédulo, à Igreja: estais dizendo que uma mulher que foi estuprada deve levar a gestação até o fim, sem poder abortar? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa gay deve viver o celibato, sem nunca poder “casar” com seu amante do mesmo sexo? Sim, estamos. Estais dizendo que uma criança deficiente no útero deve ser “condenada” a viver no mundo, sem poder ser abortada e expulsa de sua (ou, mais precisamente, nossa) “miséria”? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa que sofre não pode ser sacrificada para evitar a dor? Sim, estamos.

A expressão de choque ante esse tipo de pergunta mostra o quão profundamente o hedonismo infectou a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, é totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro. Para o hedonista, uma vida sem prazer suficiente é uma vida que não vale a pena ser vivida, e qualquer um que busque estabelecer limites para os prazeres legítimos (e, às vezes, ilegais) dos outros é mesquinho, odioso, absurdo, obtuso, intolerante e simplesmente mau.

Quando o prazer é o único objetivo ou bem da vida, você, a Igreja ou qualquer pessoa não pode ousar estabelecer limites, muito menos sugerir que o caminho da cruz seja melhor ou obrigatório! Se você o fizer, será banido, silenciado, destruído.

Muitos católicos fiéis, nos bancos de nossas igrejas, estão profundamente infectados com a ilusão do hedonismo. Por isso, assumem uma postura de perplexidade, raiva e zombaria sempre que a Igreja aponta para a cruz e insiste na abnegação, no sacrifício e em fazer a coisa certa, mesmo quando o custo a ser pago é alto. Nas igrejas, em geral, o balançar negativo das cabeças é visível quando um padre ousa pregar que o aborto, a eutanásia, a fertilização in vitro e a contracepção são errados, independentemente do preço a pagar, ou quando se fala sobre a realidade da cruz. Os fiéis que nadam nas águas de uma cultura hedonista geralmente ficam chocados com qualquer coisa que possa limitar o prazer que desejam.

O hedonismo faz os mistérios cristãos centrais, da cruz e do sofrimento redentor, parecerem coisa de um planeta distante ou de um universo paralelo e estranho. A palavra que sai da boca de Jesus: “Arrependei-vos”, soa estranha ao mundo hedonista. Tanto, que este chegou até mesmo a “reconstruir” Jesus como alguém que quer que “sejamos felizes e contentes”. As vozes se elevam, mesmo entre os fiéis: “Deus não quer que eu seja feliz?” Ora, com base nisso, qualquer tipo de comportamento pecaminoso deveria ser tolerado, já que insistir no contrário é “difícil” e pode parecer “mau” falar da cruz ou de autodisciplina em uma cultura hedonista.

Trazer as pessoas de volta para o verdadeiro Jesus e a verdadeira mensagem do Evangelho, que apresenta a cruz como o caminho para a glória, exige muito trabalho e longas conversas. Devemos estar preparados para ter uma longa conversa com as pessoas.

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Quinze orações em honra à Paixão de Cristo
Oração

Quinze orações
em honra à Paixão de Cristo

Quinze orações em honra à Paixão de Cristo

Estas famosas orações em honra à Paixão de Cristo muito provavelmente não foram escritas por Santa Brígida. Mas a espiritualidade de sua Ordem está aqui, e o valor catequético e penitencial desta devoção permanece em nossos dias.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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As quinze orações a seguir, atribuídas a S. Brígida da Suécia (1303-1373), muito provavelmente foram escritas por místicos da sua Ordem, no século XV. Foram publicadas inúmeras vezes ao longo dos séculos, com variação considerável nos textos e até mesmo na ordem das invocações.

Constituem, em si mesmas, uma meditação piedosa sobre os mistérios da Paixão e Morte de Cristo. Eram bastante populares durante a Baixa Idade Média, sendo item frequente nos manuais de oração da época. Cumprem um duplo propósito: catequético, instruindo as pessoas nos episódios mais importantes da vida de Nosso Senhor, e penitencial, excitando-lhes o amor a Deus e o arrependimento dos próprios pecados.

Em muitos lugares estas preces estão associadas a uma lista de promessas supostamente reveladas a S. Brígida quando de sua visita à Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. As tais promessas listam uma série de incríveis benefícios, que seriam concedidos a quem recitasse estas orações todos os dias ao longo de um ano, e incluem a libertação de 15 almas dos entes queridos do Purgatório e a conversão de 15 pecadores da própria família. A verdade, porém, é que essas promessas jamais foram feitas a S. Brígida e tampouco têm qualquer aprovação eclesiástica que seja.

É muito de se lamentar que essas promessas ainda constem em livros de oração nos nossos dias, pois a própria Congregação do Santo Ofício proibiu, em 1954, a sua publicação [1]. Mas, ainda que não houvesse uma censura a essas promessas vinda de Roma, o conteúdo delas é, de fato, arbitrário e fantástico demais para ser credível. Não temos dúvidas de que abundantes frutos espirituais podem ser colhidos da leitura e meditação das linhas abaixo, mas promessas como as que circulam, associadas a estas orações, terminam transformando em superstição o que deveria ser antes um convite ao fervor na oração, à conversão interior e ao apostolado com as pessoas mais próximas de nós.

A tradução abaixo foi feita por nossa Equipe a partir do texto em latim encontrado na edição de 1670 do livro Paradisus Animæ Christianæ, de Jacob Merlo Horst, e que também pode ser acessado no site Preces Latinæ.


“A Oração no Horto”, de Giandomenico Tiepolo.

Oração I. — Ó Jesus Cristo, eterna doçura dos que vos amam, júbilo que excede toda alegria e todo desejo, salvação e amante dos pecadores, que achais vossas delícias em estar com os filhos dos homens e pelo homem vos fizestes homem na plenitude dos tempos: lembrai-vos de tudo o que previstes e da íntima tristeza que, em vosso Corpo humano, suportastes ao aproximar-se o tempo de vossa salubérrima Paixão, preordenado em vosso divino Coração.

Lembrai-vos da tristeza e da amargura que, pelo vosso testemunho, tivestes em vossa Alma, quando, na Última Ceia, entregastes aos vossos discípulos o vosso Corpo e Sangue, lavastes-lhes os pés e, consolando-os docemente, predissestes vossa iminente Paixão. 

Lembrai-vos de todo o tremor, da angústia e da dor que em vosso delicado Corpo, antes da Paixão de vossa Cruz, suportastes quando, após vossa tríplice oração e o suor de Sangue, fostes traído por Judas, vosso discípulo; preso pela gente escolhida; acusado por falsas testemunhas; injustamente julgado por três juízes; condenado, embora inocente, na cidade eleita, no tempo pascal, na florida juventude de vosso Corpo; despido da vossa própria veste e coberto de vestes alheias; esbofeteado; tivestes vossos olhos e rosto cobertos e fostes espancado, preso à coluna, flagelado, coroado de espinhos, com uma cana ferido na cabeça e lacerado com inumeráveis outras calúnias.

Dai-me, Senhor Deus, eu vo-lo peço, pela memória dessas paixões antes de vossa Cruz, uma verdadeira contrição antes de minha morte, uma pura Confissão, uma digna satisfação e a remissão de todos os pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração II. — Ó Jesus, criador do mundo, a quem nenhuma dimensão pode compreender, que abarcais a Terra com um palmo: recordai-vos de vossa amaríssima dor, que suportastes quando os judeus pregaram vossas santíssimas mãos à Cruz com pregos embotados e, a fim de perfurar vossos delicadíssimos pés, como não lhes fosse o bastante, acrescentaram dor sobre dor às vossas chagas, e assim cruelmente vos distenderam e estenderam pelos braços de vossa Cruz, para que se dissolvessem os vínculos dos vossos membros.

Eu vos imploro, pela memória desta sacratíssima e amaríssima dor na Cruz, que me deis o vosso temor e amor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Cristo na Cruz”, de Eugène Delacroix.

Oração III. — Ó Jesus, médico celeste, recordai-vos do langor, do livor e da dor que, elevado no alto patíbulo da Cruz, padecestes em todos os vossos membros dilacerados, dos quais nenhum permaneceu em bom estado, de modo que não se achasse dor nenhuma semelhante à vossa, pois desde a planta dos pés até o alto da cabeça não havia em vós coisa sã, e no entanto, esquecido de todas as dores, rogastes piedosamente ao Pai pelos vossos inimigos, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Por esta misericórdia e pela memória daquela dor, concedei-me que esta memória de vossa amaríssima Paixão me alcance a plena remissão de todos os meus pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IV. — Ó Jesus, verdadeira liberdade dos anjos, paraíso de delícias, lembrai-vos da tristeza e do horror que suportastes, quando todos os vossos inimigos, quais leões ferocíssimos, puseram-se ao vosso redor e, com bofetadas, cusparadas, lacerações e outras penas inauditas, vos maltrataram.

Por estas penas e por todas as palavras contumeliosas e os duríssimos tormentos com que vos afligiram, Senhor Jesus Cristo, todos os vossos inimigos, eu vos imploro que me livreis de todos os meus inimigos, visíveis e invisíveis, e me deis chegar, à sombra de vossas asas, à perfeição da salvação eterna. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração V. — Ó Jesus, espelho da claridade eterna, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, no espelho de vossa sereníssima majestade, vistes a predestinação dos eleitos, que se haviam de salvar pelos méritos de vossa Paixão, e a reprovação dos maus, que pelos seus deméritos se haviam de condenar, e pelo abismo de vossa piedade, com que vos compadecestes de nós, pecadores e desesperados, e que manifestastes ao ladrão na Cruz, dizendo: “Hoje estarás comigo no paraíso”, rogo-vos, piedoso Jesus, que tenhais misericórdia de mim na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VI. — Ó Rei amável e amigo todo desejável, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, nu e miserável, pendestes na Cruz, e todos os vossos amigos e conhecidos se voltaram contra vós, e não encontrastes ninguém que vos consolasse, além de vossa dileta Mãe, de pé na amargura de sua alma fidelíssima a vós, que confiastes ao vosso discípulo, dizendo: “Mulher, eis aí o teu filho”.

Rogo-vos, piíssimo Jesus, pela espada de dor que transpassou a alma dela, que vos compadeçais de mim em todas as minhas tribulações e aflições, corporais e espirituais, e dai-me a consolação no tempo da tribulação e na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Queda no Caminho do Calvário”, de Rafael.

Oração VII. — Ó Jesus, fonte de inexaurível piedade, que por um íntimo afeto de amor dissestes na Cruz: “Tenho sede”, isto é, da salvação do gênero humano, acendei, vo-lo peço, em nossos corações o desejo de perfeição, e abrandai e extingui de todo em nós a sede da concupiscência e o ardor dos prazeres mundanos. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VIII. — Ó Jesus, doçura dos corações e poderosa suavidade das mentes, pelo azedume do vinagre e do fel que por nós provastes, concedei-nos, na hora de nossa morte, receber dignamente o vosso Corpo e Sangue, como remédio e consolação para nossas almas. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IX. — Ó Jesus, virtude régia, júbilo espiritual, lembrai-vos da angústia e da dor que padecestes quando, pelo amargor da morte e os insultos dos judeus, com alta voz clamastes, abandonado por Deus Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Por esta angústia vos peço que nas nossas angústias não nos abandoneis, Senhor Deus nosso. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração X. — Ó Jesus, Alfa e Ômega, vida e poder em todo tempo, recordai-vos que desde o alto da cabeça até a planta do pé vos mergulhastes por nós na água da Paixão.

Pela largura e extensão de vossas chagas, ensinai-me a mim, afundado em muitos pecados, a guardar por verdadeira caridade a Lei que promulgastes. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XI. — Ó Jesus, abismo profundíssimo de misericórdia, rogo-vos, pela profundidade de vossas chagas, que atravessaram a medula de vossos ossos e vísceras, que me tireis da água de pecado em que estou submerso e me escondais, no interior de vossas chagas, do rosto de vossa ira, até que passe o vosso furor, Senhor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Detalhe de um quadro da Crucifixão, por Francesco Hayez.

Oração XII. — Ó Jesus, espelho da verdade, sinal de unidade e vínculo de caridade, lembrai-vos da multidão de vossas chagas, com que, da cabeça aos pés, fostes vulnerado e rubricado com vosso santíssimo Sangue, multidão de dores que suportastes em vossa carne virginal por nós! Piedoso Jesus, que mais deveríeis fazer e não fizestes?

Gravai, vo-lo peço, ó piedoso Jesus, todas as vossas chagas no meu coração com o vosso preciosíssimo Sangue, para que nelas eu leia sempre a vossa dor e morte e persevere constante até o fim em ação de graças. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIII. — Ó Jesus, leão fortíssimo, Rei imortal e invencível, lembrai-vos da dor que padecestes quando todas as forças do vosso Coração e Corpo de todo se acabaram e, reclinando a cabeça, dissestes: “Tudo está consumado”. 

Por esta angústia e dor, tende misericórdia de mim, quando minha alma, no momento do último suspiro, estiver vexada e conturbada. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIV. — Ó Jesus, unigênito do altíssimo Pai, esplendor e figura de sua substância, lembrai-vos da esforçada entrega com que entregastes o espírito ao Pai, dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” e, de Corpo lacerado, de Coração alquebrado, com grande clamor, abertas as vísceras de vossa misericórdia para nos redimir, expirastes.

Por esta preciosíssima morte vos imploro, Rei dos santos, que me fortaleçais para resistir ao diabo, ao mundo, à carne e ao sangue, a fim de que, morto(a) para o mundo, eu viva para vós, e na hora suprema de minha partida acolhei-me o espírito degredado e peregrino a retornar para vós. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XV. — Ó Jesus, videira verdadeira e fecunda, lembrai-vos da abundante efusão do vosso Sangue, que vós, qual sumo arrancado ao cacho, copiosamente derramastes quando, na cruz, calcastes sozinho o lagar, e do vosso lado aberto pela lança do soldado nos propinastes Sangue e água, de modo que nem uma só gota permanecesse em vós; e quando, enfim, fostes suspenso no alto, qual um feixe de mirra, e vossa carne delicada se desfez, e o licor de vossas vísceras se secou, e a medula de vossos ossos murchou. 

Por esta vossa amaríssima Paixão e pela efusão do precioso Sangue, piedoso Jesus, imploro-vos que recebais minha alma na agonia de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Conclusão. — Ó Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, acolhei esta oração com aquele amor excelentíssimo com que suportastes todas as chagas do vosso santíssimo Corpo e tende misericórdia de mim, vosso servo, e dai a todos os pecadores e a todos os fiéis, tanto vivos quanto defuntos, misericórdia, graça, remissão e a vida eterna. Amém.

Notas

  1. A seguinte notitia foi publicada nas AAS 46 (1954) 64: “Em alguns lugares tem sido divulgado certo opúsculo intitulado ‘O segredo da felicidade. Quinze orações reveladas pelo Senhor a S. Brígida na igreja de São Paulo, em Roma’, Nice (e em outros lugares), publicado em várias línguas. Ora, como neste mesmo livro se afirma que a S. Brígida foram feitas por Deus certas promessas, de cuja origem sobrenatural não há evidência alguma, tenham os Ordinários de cada lugar o cuidado de não dar licença para que se vendam ou de novo se imprimam opúsculos ou escritos que contenham as mencionadas promessas. — Dado em Roma, nas dependências do Santo Ofício, no dia 28 jan. 1954. Mário Crovini, Notário da Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício.”

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Há heresias que começam da cintura para baixo
Doutrina

Há heresias
que começam da cintura para baixo

Há heresias que começam da cintura para baixo

“Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé”. Por isso, quando uma pessoa faz da impureza um projeto de vida, padece não só a sua carne, mas também a sua mente e o seu espírito. São as heresias que começam da cintura para baixo.

Dave ArmstrongTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé” (CIC 2518): essa famosa citação expressa a ideia de que os desejos, impulsos e atos sexuais (a saber, fora do matrimônio heterossexual e da procriação) são contrários à teologia, que os define como intrinsecamente imorais. Portanto, quem se deleita com esses pensamentos e atos tende a querer rejeitar também a teologia, ao invés da própria sexualidade mal vivida. Por causa disso, começa a cair em heresia.

Talvez a manifestação clássica dessa mentalidade seja a afirmação do escritor e filósofo inglês Aldous Huxley (1894-1963), autor de quase cinquenta livros e muito famoso por ter escrito Admirável Mundo Novo (1932). Por coincidência, ele morreu no mesmo dia em que C. S. Lewis e John Kennedy. Numa coleção de ensaios publicada em 1937, Huxley escreveu o seguinte:

Eu tinha motivos para não desejar que o mundo tivesse um sentido; consequentemente, presumi que não tinha sentido algum e pude, sem qualquer dificuldade, encontrar razões satisfatórias para esse pressuposto. O filósofo que não vê sentido no mundo não está preocupado apenas com um problema de metafísica pura. Ele também se preocupa em provar que não há uma razão válida pela qual ele não deveria fazer o que quer fazer. Para mim, e sem dúvida para a maioria dos meus amigos, a filosofia da falta de sentido era, em essência, um instrumento de libertação de certo sistema de moralidade. Contestamos a moralidade porque ela interfere em nossa liberdade sexual.  

Lendo a conceituada biografia de Lewis escrita por seu amigo George Sayer, intitulada Jack: C. S. Lewis and His Times (“Jack: C. S. Lewis e sua Época”, sem trad. portuguesa), fiquei surpreso ao saber que, para ele, Lewis (quando tinha entre 13 e 15 anos) perdeu a fé cristã da infância por causa da imoralidade sexual.

Isso confirma minha argumentação como apologista, segundo a qual a perda da fé e a apostasia muitas vezes (senão frequentemente) são o resultado de processos e impulsos não racionais, e não do fracasso do cristianismo ao ser submetido a uma análise intelectual séria. Sayer afirma o seguinte na página 31 do livro:

Ele começou a se masturbar […]. Fez o firme propósito de jamais fazer isso outra vez, e então sofreu repetidas vezes com a humilhação de não conseguir perseverar. Ele diz que sentia aquilo que São Paulo descreve na Carta aos Romanos (cf. 7, 19-24): “Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero”. Ele também rezava, e como suas orações não eram escutadas, logo perdeu a fé […]. Para alcançar um equilíbrio psicológico, teve de reprimir os fortes sentimentos de culpa, o que ele realizou ao rejeitar o cristianismo e sua moralidade.

Consigo imaginar um ateu ou alguém que, sob outros aspectos, seja cético em relação ao cristianismo (ou particularmente ao catolicismo) dizendo: “Bem, como podemos culpar o jovem Lewis? Afinal de contas, ele decidiu com sinceridade abandonar a prática da masturbação, algo que [erradamente] considerava errado, e rezou sinceramente a Deus para conseguir ajuda no cumprimento daquela decisão, e Deus [supondo, a título de argumentação, que realmente existe] o decepcionou. Portanto, não teria sido culpa de Deus, e não dele?”

Há várias condutas muito viciantes ou obsessivas que os seres humanos assumem voluntariamente, mas depois descobrem que foram escravizados, gostariam de parar e, infelizmente, não conseguem. De modo geral, de início não se vê que essa condutas se tornarão tão controladoras ou viciantes; mas, depois que alguém é dominado por esse tipo de conduta, é muito difícil escapar.

Quem é o culpado disso? Deus ou a pessoa que iniciou a jornada em direção àquele comportamento? Eu digo que é a pessoa e que acusar a Deus é transferir a culpa a outrem. Podemos pensar em muitos vícios: por exemplo, fumar, consumir drogas, agredir a esposa, ser guloso ou viver a promiscuidade sexual desenfreada. Mesmo coisas intrinsecamente boas podem tornar-se viciantes e destrutivas: pensemos, por exemplo, num homem que queira ler livros ou praticar a jardinagem o dia inteiro, negligenciando assim sua obrigação de sustentar a família.  

Somos nós que começamos essas coisas; mas, por causa de um orgulho bobo, queremos culpar outra pessoa, quando é evidente que somos nós os envolvidos em condutas prejudiciais e destrutivas. Deus é o alvo errado, porque sempre nos podemos convencer de que “Deus deve me dar a capacidade de parar, se eu lho pedir”. Logo, se Ele não o fizer, poderemos dizer que Ele ou é impotente ou não existe.

Na verdade, há uma coisa chamada graça, um poder divino de superar o pecado e o mal (ver, por exemplo, Rm 8, 37 e Fp 4, 13). Eu e praticamente todo cristão sério experimentamos esse auxílio diversas vezes e, na verdade, grupos muito bem-sucedidos como os Alcoólicos Anônimos pressupõem que ela existe e pode ajudar os alcoólatras a largarem a bebida.

O que quero dizer é que é irracional exigir que Deus (um ser onisciente e infinitamente superior a nós e, portanto, muitas vezes inexplicável, como nós o seríamos para uma formiga) faça neste exato momento aquilo que eu desejo, por medo de ser rejeitado ou desacreditado caso não faça nada.

Deus não tem obrigação de realizar milagre algum nem de atender a todas as nossas orações. Ele faz o que faz em seu próprio ritmo, por suas próprias razões inescrutáveis e objetivos providenciais. Deus não é uma varinha mágica nem um boneco de meia que pode ser usado ao nosso bel prazer. 

Dizer “ou Deus faz X ou não quero mais saber dele!” é ter uma espiritualidade infantilóide, é racionalizar os próprios caprichos, é ter um exagerado senso de (falsa) liberdade. É o pecado original de Adão, Eva e o demônio: escolher a própria vontade no lugar da vontade de Deus. Aldous Huxley reconheceu (de modo admirável) que fazia exatamente isso. E creio que o jovem C. S. Lewis (supondo que a opinião de Sayer esteja correta) também fazia a mesma coisa, e isso era irracional e insensato pelas razões acima apresentadas. Mais tarde, Lewis explicou como e por que a moralidade sexual é tão importante

[Nota da Equipe CNP: A esse propósito, leia-se abaixo um trecho de carta de Lewis a Keith Masson (3 jun. 1956), publicada em The Collected Letters of C. S. Lewis, Vol. III: Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, editado por Walter Hooper, Harper San Francisco, 2007:

Você supõe que um princípio moral tradicional deva apresentar uma prova de sua validade antes de ser aceito. Eu suponho o contrário: ele deve ser aceito até que alguém apresente uma refutação definitiva.

Além disso, concordo que seja idiotice falar em “desperdício de fluidos vitais”. Para mim, o verdadeiro mal da masturbação reside no fato de ela usar um desejo que, se aplicado de forma correta, conduz a pessoa para fora de si, de modo que possa completar (e corrigir) sua própria personalidade na de outra pessoa (e finalmente nos filhos e netos) e o inverte, enviando o homem novamente à prisão de seu ego a fim de que lá ele possa manter um harém de noivas imaginárias. Depois de ser aceito, esse harém impede que o homem se liberte de si mesmo e se una verdadeiramente a uma mulher real.

Pois o harém é sempre acessível e subserviente, não exige sacrifícios ou ajustes, além de ser dotado de atrações eróticas e psicológicas com as quais nenhuma mulher verdadeira pode competir. O rapaz é sempre adorado pelas noivas sombrias, é sempre considerado o amante perfeito: não exigem nada de seu altruísmo, jamais é imposta à sua vaidade alguma mortificação. No final das contas, elas se tornam apenas o meio pelo qual ele cada vez mais cultua a si mesmo… A faculdade do amor não é a única a ser esterilizada e a ter de retroceder, mas também a faculdade da imaginação...

A masturbação implica esse abuso da imaginação em temas eróticos (que eu considero mau em si) e, portanto, estimula um abuso semelhante dela em todas as esferas. Afinal de contas, a principal tarefa da vida é praticamente sairmos de nós, da pequena e obscura prisão na qual nascemos. A masturbação deve ser evitada, bem como todas as coisas que retardam esse processo. O perigo que nos ronda é o de acabar amando a prisão.]

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Ex-protestante: “Foi a Bíblia que me converteu à fé católica”
Testemunhos

Ex-protestante: “Foi a Bíblia
que me converteu à fé católica”

Ex-protestante: “Foi a Bíblia que me converteu à fé católica”

“A Escritura alimentava minha vida cristã, ajudava-me a crescer espiritualmente e a aproximar-me cada vez mais de Cristo. E, no final das contas, foi a própria Escritura que acabou me convencendo da verdade do catolicismo.”

Lois DayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Quando, aos dezoito anos, aceitei Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador, comecei pela primeira vez na vida a ler a Bíblia com vontade e interesse. Eu acabara de entrar em um novo relacionamento de fé e amor com Cristo, e era nas páginas da Escritura que eu podia aprender o que era necessário saber sobre Ele. Passei um verão inteiro a ler o Novo Testamento de cabo a rabo. Era como se verdades me saltassem aos olhos; intuições e rios de sabedoria manavam daquelas páginas. Surpreendi-me de achar as Escrituras tão fascinantes. “Isso é por causa do Espírito Santo”, disse-me um amigo, que me tinha levado para o Senhor. “Ele está com você, revelando o que significa a Palavra de Deus”.

Durante os dez anos seguintes, tendo pertencido a uma grande variedade de igrejas, a Bíblia permaneceu a pedra-de-toque da minha fé em Cristo. Tudo em que eu tinha de acreditar como cristã poderia encontrar-se na Bíblia; era ela a minha única autoridade em matéria de fé, e eu a considerava totalmente fiável. Eu a li várias vezes ao longo daqueles anos e tornei-me familiar com muitas de suas passagens. Eu amava a Bíblia, porque era nela que podiam ser descobertas a vontade de Deus e a resposta a todas as perguntas vitais. A Escritura alimentava minha vida cristã, ajudava-me a crescer espiritualmente e a aproximar-me cada vez mais de Cristo. E, no final das contas, foi a própria Escritura que acabou me convencendo da verdade do catolicismo

Quando uma amiga próxima contou-me que estava se tornando católica, eu fiquei chocada. Para mim, a Igreja Católica era uma grande e misteriosa organização, de caráter duvidosamente cristão e cheia de ensinamentos errôneos e contrários à Bíblia. Eu não podia entender como alguém com verdadeira fé em Cristo, tendo com Ele um relacionamento pessoal, poderia virar católico. Por isso, decidi ir atrás da resposta. Mas onde encontrá-la? Ora, onde mais, senão na Bíblia mesmo?

A minha postura era como a dos judeus da Beréia, que, após ouvir a pregação de Paulo, receberam a palavra “com ansioso desejo, indagando todos os dias, nas Escrituras, se essas coisas eram de fato assim” (At 17, 11). A Igreja Católica propunha-me como verdade algumas doutrinas, e eu, como os bereanos, queria examinar a Escritura a respeito dessas doutrinas, para determinar se de fato elas eram ou não verdadeiras. Se a doutrina católica não estivesse de acordo com a Escritura, então ela podia ser rejeitada sem maiores problemas. E eu tinha certeza de que era isso que ia acontecer.

A Bíblia não diz quanto tempo levaram os bereanos para descobrir que o ensinamento de Paulo estava de acordo com a Escritura, ao fim do que “muitos deles creram” (At 17, 12). Para mim, foram precisos cinco anos. Eu estudei os ensinamentos da catolicismo à luz da Escritura, sempre me baseando na Bíblia como em minha única autoridade para encontrar a verdade. E, no final de tudo, descobri que a doutrina católica é, sem sombra de dúvida, escriturística. Tendo-o descoberto, eu devia me comportar como os bereanos. A Escritura tinha-me mostrado que o catolicismo é verdade, e eu então acreditei.

A Escritura convenceu-me de todo o ensinamento católico, mas em nenhum outro ponto ela era mais clara do que na Eucaristia, entendida como verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Enquanto protestante, eu acreditava que Cristo, ao falar em Jo 6 que nos daria de comer sua própria carne, estava se expressando em termos simbólicos, e não literais. “Comer a sua carne”, pensava eu, era o mesmo que dizer, em linguagem figurada, “acreditar nele”. No entanto, a própria Bíblia mostrou-me que essa crença não é escriturística. Toda a minha formação como protestante consistira em ler a Bíblia literalmente, em tomar as palavras da Escritura ao pé da letra, sem tentar “interpretá-las” de forma alguma. Ora, Cristo disse que nos daria de comer sua verdadeira carne e, na Última Ceia, Ele tomou pão e disse: “Isto é o meu Corpo”. Ao ler isso na Bíblia, perguntei a mim mesma: “Se a Bíblia há de entender-se literal, e não simbolicamente, por que não aqui?” Parecia-me claro que, se Cristo disse que a sua carne é verdadeira comida (cf. Jo 6, 55), nós poderíamos supor com segurança que Ele quis dizer exatamente o que disse.

Eu sou católica há seis anos. Como católica, qual é a minha postura diante da Bíblia? Eu amava a Bíblia quando era protestante; ela era a Palavra de Deus, e nela eu encontrava os tesouros de sua sabedoria. Eu me baseava nela como meu guia para a verdade. Agora que sou católica, eu amo a Bíblia ainda mais — se é que é possível —, porque, além de tudo o que ela representava para mim enquanto protestante, eu a reconheço agora como o que ela realmente é: um livro católico, que pertence essencialmente à Igreja Católica.

E foi a própria Escritura que me mostrou onde devo procurar, se desejo saber que doutrinas são verdadeiras: ela me levou até a “casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 15).

Notas

  • Lois Day, a autora deste breve testemunho, vive na Virgínia do Norte e é dona de casa. Ela também dá aulas de grego neotestamentário e é membro da Legião de Maria.

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