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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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Seria o coronavírus <br/> uma punição divina?
Espiritualidade

Seria o coronavírus
uma punição divina?

Seria o coronavírus
uma punição divina?

Como um Deus bom pode permitir o sofrimento? Deus provoca o sofrimento como punição pelo pecado? O novo coronavírus é o juízo de Deus sobre a humanidade? Para responder a essas perguntas, é preciso considerar primeiro o que é “sofrimento”.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Teodiceia é o nome que se dá a um dos enigmas centrais da fé. “Se Deus é sumamente bom e onipotente, por que existe o sofrimento? Se ele é sumamente bom, deseja acabar com o sofrimento. Se é onipotente, é capaz de pôr fim ao sofrimento. Portanto, não deve ser sumamente bom nem onipotente”.  

Do ponto de vista de uma lógica de Ensino Fundamental, isso sem dúvida parece razoável. Além disso, sempre me surpreendeu o fato de alguns filósofos e teólogos ainda gastarem energia com esse raciocínio. Por isso, suspeitei que, na verdade, eles não quebram a cabeça com o assunto: trata-se, antes, apenas de uma birra adolescente por terem decidido que não gostam de Deus.

A questão permanece, todavia: “Como um Deus bom pode permitir o sofrimento? Deus provoca o sofrimento como punição pelo pecado? O novo coronavírus é o juízo de Deus sobre a humanidade?”

Para responder à pergunta, temos de analisar, em primeiro lugar, o que é “sofrimento”. Ele poderia ser definido como uma dor de qualquer espécie, e a dor nem sempre é algo ruim — embora faça nos sentir mal. Se você encostar a mão num forno quente, sentirá dor, uma resposta natural para fazê-lo tirar a mão do forno. A dor que você sente em alguma parte do corpo é um sinal de que algo não está bem. Se a parte dianteira do seu carro apresentar alguma oscilação ou ruído, você terá de levá-lo a uma oficina para conserto. Uma dor física é um indicativo de algo semelhante. Algo está errado e precisa ser reparado. Embora esse tipo de dor seja realmente penoso, não se trata de algo mau em si.

Um segundo tipo de sofrimento é aquele que causamos em nós mesmos. Se você beber alguns litros de uísque todos os dias, provavelmente terá uma doença no fígado e outras desordens dolorosas. Da mesma forma, se você fumar ou comer porcaria em excesso, poderá desenvolver doenças físicas decorrentes de suas más escolhas. Se mantiver relações sexuais perigosas, não se surpreenda se contrair alguma doença terrível. Escolhas têm consequências, e boa parte do nosso sofrimento vem de nossas próprias más escolhas. Podemos até nos arrepender, mas não faz sentido queixar-se muito se os únicos culpados somos nós mesmos.

Um terceiro tipo de sofrimento é a dor causada por outras pessoas. Por meio do crime, do abuso, da violência, da ganância e da luxúria nós não fazemos mal somente a nós, mas também a outras pessoas. Deus não pode ser culpado por isso. Ele poderia acabar com o sofrimento que causamos em nós ou nos outros? Tecnicamente, sim, Ele poderia fazê-lo; mas, na realidade, não está obrigado a fazê-lo, pois isso violaria a nossa liberdade. Ele vê todo o sofrimento que causamos em nós e nos outros e o detesta, mas não o evitará sempre e necessariamente. Ele pode, de algum modo, interferir? De algum modo, sim, mas voltarei a esse ponto adiante. 

O quarto de tipo de sofrimento é causado por atos desonestos corporativos. Um governo, uma empresa ou qualquer outro grupo de pessoas pode causar sofrimento por meio de sua legislação ou de suas decisões. Isso pode, em alguns casos, provocar um sofrimento que não se pode especificar e imputar a um agente causal ou resultado particulares. Assim, por exemplo, uma companhia de eletricidade pode instalar linhas elétricas em um bairro e, ao fim e ao cabo, descobrir que viver perto delas aumenta a probabilidade de ter câncer. Outro exemplo é o de uma empresa de alimentos que põe aditivos ou conservantes em seus produtos (algo que parece seguro), quando, na verdade, acumular tais produtos no organismo causa problemas de saúde inesperados. Neste caso, o sofrimento é mais geral, e nós nos expusemos a ele, mas sem malícia ou intenção de cometê-lo. Trata-se do efeito colateral de alguma ação que realizamos, de forma individual ou coletiva.  

O quinto tipo de sofrimento é semelhante ao anterior. É o sofrimento causado por um grupo ou nação como resultado de alguma outra intenção. Assim, um país pode enviar soldados para derrotar um ditador e restaurar a liberdade, mas o preço dessa justiça é o sofrimento generalizado, muitas vezes de inocentes. 

Em todos os exemplos acima, o sofrimento não é causado por Deus, mas por seres humanos de um modo ou de outro. Resta, no entanto, outra categoria de sofrimento: os desastres naturais. Um epidemia, um terremoto, um tsunami ou deficiências congênitas parecem fazer parte da ordem natural. Por que Deus não resolve esses problemas e elimina esse tipo de sofrimento? A resposta cristã sempre foi que o mundo inteiro está “quebrado”. Há nele uma fratura profunda. A ordem natural se encontra decaída, sofre com a desordem e confusão, e nós participamos desta condição desordenada.

Logo, Deus enviou-nos o coronavírus como uma punição? Penso que não. Ao contrário, Ele se aproveita das ocasiões de desastres e catástrofes que ocorrem ao longo da história para nos dar um alerta: lembrarmo-nos da verdadeira natureza da realidade. Quando o sofrimento decorre do pecado, há uma punição, por assim dizer, natural decorrente do próprio pecado; quando o desastre ocorre por meio das vidas desordenadas que levamos, coisas ruins acontecerão. Deus planejou o sistema para funcionar de determinada maneira, e quando nos desviamos do plano original as consequências são terríveis, mas não acho que lá do alto Deus envie raios como castigo.

O que devemos pensar, então, das passagens do Antigo Testamento que parecem retratar um Deus “vingativo”, que envia deliberadamente catástrofes como punição? Creio que a resposta não esteja tanto no caráter de Deus quanto na percepção que nós temos dele. Nos primórdios da nossa relação com Deus, era natural entender esses desastres como castigos intencionais devidos ao pecado. Jesus, no entanto, cumpre a Lei e os Profetas e ensina que essa forma de compreender Deus é parcial. Ele é um Deus de justiça, mas também um Deus de misericórdia, e Jesus revela ao mesmo tempo a justiça e a misericórdia de Deus. Ele de fato julga a humanidade, mas o faz por meio da lei da misericórdia, que é cumprida na justiça dispensada por Ele.

Isso me leva de volta à questão: Deus de algum modo “interfere” em situações de sofrimento? Sim, interfere. Creio que, muitas vezes, Ele interfere para impedir o sofrimento pelo auxílio dos nossos anjos da guarda e pela nossa participação na vontade divina com as nossas orações e sacrifícios. Creio que, muitas vezes, Deus usa nossas orações, de modo que a sua graça é dispensada em situações de sofrimento para nos aliviar e libertar delas. Note-se, contudo, que Ele não viola o nosso livre-arbítrio ao agir assim, porque, neste caso, é o nosso próprio livre-arbítrio que se une à sua vontade onipotente para trazer bondade e graça ao mundo.

Mas há um nível mais profundo de interferência. A cruz nos ensina que, às vezes, Deus não impede o sofrimento humano e nem sempre nos liberta dele. Em vez disso, Ele mesmo mergulha no sofrimento. Não nos tira dele; enfrenta-o conosco. Quando os três jovens judeus foram jogados na fornalha incandescente, o rei viu junto deles uma quarta pessoa. Foi uma “epifania” de Cristo e uma lição sobre a profundidade do sofrimento do próprio Deus encarnado. Ele sente a nossa dor. Suporta as nossas iniquidades. É um homem de dores acostumado à tristeza. 

Que resposta, enfim, temos de dar perante a crise do coronavírus? Com certeza, jejuar e rezar para que Deus nos livre desta situação; ajudar todos os que sofrem, caso tenhamos possibilidade; fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar a disseminação da doença, o sofrimento e a morte, mas também rezar e pedir a Deus força para caminharmos pelo vale da sombra da morte, sabendo que Ele caminha atrás de nós.

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Como um monge<br>começou a reconstruir o Ocidente
Testemunhos

Como um monge
começou a reconstruir o Ocidente

Como um monge
começou a reconstruir o Ocidente

Ele restaurou a vida religiosa, reformou a liturgia na França, renovou o canto gregoriano, compilou a obra dos Santos Padres e ainda ajudou a desenvolver a doutrina de dois dogmas da Igreja. Conheça, em breves linhas, a vida de Dom Prósper Guéranger.

R. Jared StaudtTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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O último dia 11 de julho, festa de São Bento, também foi aniversário de refundação da Abadia de São Pedro de Solesmes, na França, realizada em 1833 pelo Venerável Dom Prosper Guéranger e outros cinco sacerdotes. 

Você pode se perguntar por que esse evento, para além dos beneditinos, é importante. Solesmes tornou-se um grande centro de renovação para toda a Igreja, e a sua renovação pôs em evidência uma figura de personalidade marcante, que viria a supervisionar as obras. Guéranger (1805–1875), originalmente sacerdote diocesano, viu uma querida igreja local literalmente em ruínas, uma abadia medieval cujos vestígios seriam demolidos, e sentiu um chamado não somente para restaurar o edifício, mas também para começar uma nova vida como monge. A resposta dele, eco da de São Francisco, implicou não apenas a restauração de uma igreja em particular, mas um suporte para a própria Igreja. 

D. Prósper Guéranger, retratado por Claude Ferdinand Gaillard.

As ruínas vistas por Guéranger foram as da Abadia de Solesmes, conhecida por sua estatuária medieval. Essa foi apenas uma pequena parte da destruição geral da Igreja causada pela Revolução Francesa e por Napoleão. O tirano da Córsega havia tratado de promover o extermínio quase completo do monasticismo na Europa porque considerava os contemplativos inúteis para a sociedade. Quando Guéranger foi ordenado sacerdote no início do século XIX, os beneditinos estavam à beira da extinção na França. Ele viria a presidir ao retorno da vida monacal não somente na França, mas também na Europa em geral.

Sem dúvida, é difícil superestimar a influência de Guéranger na Igreja como um todo a partir do século XIX. Além de ressuscitar os beneditinos, ele combateu os remanescentes do galicanismo e do jansenismo, deu início ao movimento litúrgico, preparou o caminho para a declaração dos dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal e instruiu diversas gerações de católicos por meio de sua monumental obra O Ano Litúrgico.  

A oração é a maior dádiva do homem”, diz Guéranger no início de O Ano Litúrgico, obra pela qual provavelmente é mais conhecido. Essa obra dá testemunho do estudo contínuo que Guéranger realizou sobre a liturgia romana e da devoção que nutria por ela. É difícil crer que, quando foi ordenado, Guéranger teve de receber uma permissão especial para celebrar a Missa no rito romano em lugar do então generalizado rito galicano da França. Guéranger defenderia o rito romano com êxito em sua terra natal, mas também o propôs como centro da espiritualidade para os católicos leigos. O Ano Litúrgico serve como guia diário para os católicos rezarem e meditarem as orações da Missa e do Breviário, e também para se envolverem com maior profundidade em cada tempo litúrgico.   

Solesmes também se tornaria o centro da renovação do canto gregoriano. Guéranger explicou que “as grandes impressões da alma tinham de ser cantadas” e que os “cristãos […] não podem se satisfazer em recitar; eles também devem cantar [1]. Para ajudar a Igreja a louvar a Deus por meio do canto, Guéranger começou outra grande obra de reconstrução, dedicando Solesmes à restauração do canto gregoriano. Não foi uma tarefa fácil, já que as melodias e metodologia antigas haviam sido corrompidas a tal ponto, que Guéranger se viu obrigado a reconhecer que o “canto verdadeiro fora esquecido, mutilado, mudado, alterado” [2]. Para resolver o problema, o abade recorreu aos manuscritos medievais e com a ajuda de seus monges iniciou um grande programa de restauração. O projeto atingiu o ápice quando o Papa S. Pio X confiou ao abade Joseph Pottier, protegido de Guéranger, a restauração do canto gregoriano para toda a Igreja, o que teve como resultado a edição vaticana do Graduale Romanum

Como na restauração do canto, Solesmes também foi influente na compilação e promoção de obras dos Padres da Igreja. Guéranger enviou em missão um de seus monges, D. Jean Baptiste François Pitra, pela Europa afora para encontrar manuscritos. Pitra colaborou com J.-P. Migne em sua monumental série Patrologia. Ele também ficou conhecido por seu trabalho arqueológico sobre a Igreja oriental, tendo passado sete meses na Rússia e supervisionado novos livros litúrgicos para os ritos orientais. Pio IX nomeou Pitra cardeal e o designou para o posto de bibliotecário da Biblioteca do Vaticano, confirmando a importância universal da obra de Solesmes

Além do apoio à reforma litúrgica e ao estudo da Patrística, Guéranger desempenhou um papel importante na preparação dos fiéis para a proclamação de dois importantes dogmas no século XIX. O primeiro foi a Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX em 8 de dezembro de 1854. Quatro anos antes, Guéranger escrevera para o Papa um breve tratado sobre essa doutrina a pedido do núncio papal na França. Ele concluía o tratado com o seguinte argumento: “De tudo quanto estabelecemos até aqui, segue-se a conclusão de que a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem é parte da doutrina da Igreja Católica […], e qualquer ataque a esse artigo de fé seria um grave insulto à Esposa de Jesus Cristo” [3].  

D. Guéranger, Abade de Solesmes, em seu leito de morte.

Guéranger não apenas defendeu a doutrina com beleza; a maneira com que ele propôs a solução não foi menos importante. Ele argumentou, especificamente, a favor da autoridade do papado para proclamá-lo. Em vez de precisar da definição de um Concílio ecumênico, “permanece, pois, o juízo do Romano Pontífice, a quem Jesus Cristo confiou um poder tão grande por meio da própria constituição da Igreja, que as decisões de um Concílio ecumênico só possuem valor depois de serem confirmadas por ele” [4]. Guéranger argumentou que um assunto de tal importância deveria apoiar-se na infalibilidade da Igreja, e não em “um elemento humano da fé da Igreja”, isto é, numa tradição não formalizada dogmaticamente [5].   

A solução de Guéranger ao tema da Imaculada Conceição, baseada na autoridade papal, também aprofundou sua contínua oposição ao galicanismo. Ele observou que “essa autoridade soberana e divina foi abalada na França”, mas seria reforçada novamente por meio de uma declaração infalível do Papa sobre a preservação de Maria de toda mancha de pecado [6]. Isso nos leva ao segundo ponto do serviço que Guéranger prestou ao desenvolvimento da doutrina: a infalibilidade papal. Seu livro A Monarquia Papal (sem tradução para o português), publicado em 1869, pouco antes da proclamação do dogma pelo Concílio Vaticano I, foi escrito em resposta a uma obra de dois volumes do bispo de Sura, Henri Maret, teólogo e decano da Universidade de Paris, que havia subordinado a autoridade do Papa à do Concílio ecumênico. Pio IX escreveu um Breve em resposta à obra de Guéranger, dizendo ao autor que, “em Nossa avaliação, o sr. prestou um serviço extremamente útil à Igreja” [7].

Sem dúvida, Guéranger tinha em mente o desenvolvimento da doutrina quando escreveu: “Os fiéis [deveriam] desejar o desenvolvimento do Credo para que possam entrar cada vez mais na posse da verdade” [8]. Como em sua defesa da Imaculada Conceição, Guéranger apresenta uma exposição completa do fundamento da infalibilidade papal, começando com a S. Escritura e perpassando a Tradição para demonstrar que o próprio Magistério anterior dos Pontífices e Concílios estabeleceram as bases para uma nova e definitiva proclamação. Ele também argumenta a favor de um consensus fidelium (communis) sobre a doutrina, do qual são testemunho os teólogos (particularmente os escolásticos), os fiéis e, sobretudo, os santos. Em conclusão, Guéranger procurou superar a cautela um tanto generalizada dos que reconheciam a veracidade da doutrina, mas achavam inoportuna sua proclamação. Mais uma vez, sua resposta se mostrou verdadeira: qual seria o benefício de privar os fiéis de uma profissão e articulação mais plenas da verdade [9]?

A influência do Venerável Guéranger na Igreja de sua época é verdadeiramente espantosa: ele restaurou a vida religiosa, reformou a liturgia na França, renovou o canto gregoriano, compilou a obra dos Padres da Igreja e deu uma importante contribuição ao desenvolvimento da doutrina de dois dogmas! A vida de D. Prosper Guéranger foi, de fato, uma vida de reconstrução da Igreja a partir das ruínas deixadas pela Revolução Francesa e pela longa corrupção do galicanismo que a precedera. Guéranger é, portanto, um modelo para todos nós renovarmos a nossa própria vida espiritual, revitalizarmos a nossa oração litúrgica e aprofundarmos o nosso estudo e fidelidade à doutrina da Igreja. Numa época de grande desintegração, Guéranger pode ser um modelo de reconstrução para todos os fiéis!

Referências

  1. Citado em Solesmes and Dom Guéranger, p. 95.
  2. Id., p. 104.
  3. On the Immaculate Conception, St. Michael’s Abbey Press, p. 119.
  4. Id., p. 115.
  5. Id., p. 120.
  6. Id., p. 117.
  7. The Papal Monarchy, Loreto Press, p. xxiii.
  8. Id., p. 123.
  9. Cf. Id., p. 234.

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Os pais dos santos <br/> e a vocação dos filhos
Santos & Mártires

Os pais dos santos
e a vocação dos filhos

Os pais dos santos
e a vocação dos filhos

Ao guiarem seus filhos com amor em direção ao plano de Deus, eles foram “astutos como as serpentes e inocentes como as pombas”. Saiba o que os pais dos santos têm a nos ensinar quando o assunto é o discernimento vocacional dos nossos próprios filhos.

Patrick O’HearnTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Um amigo meu ficou em conflito durante vários anos por causa de sua vocação. “Deveria ser sacerdote? Deveria me casar? Para qual caminho me chamais, Senhor?” Havia um entrave no caminho dele. Surpreendentemente, o celibato não o desmotivava; ao contrário, era a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato em relação ao Matrimônio

Como meu amigo, muitos católicos refletem sobre essa doutrina quando estão discernindo a vontade de Deus. E muitos concluem que, por ser o celibato um chamado mais alto, então com certeza devem se tornar sacerdotes ou religiosos, pois qualquer outra opção seria inferior. 

Infelizmente, muitos protestantes e até mesmo católicos ridicularizam o celibato. Eles se concentram exclusivamente no reino terrestre, e não no Reino do Céu, quando fazem a seguinte pergunta: por que renunciar a algo tão bom quanto o ato conjugal, uma esposa e filhos? Mas Nosso Senhor, São Paulo e Santo Tomás foram claros quanto à superioridade objetiva do celibato em relação ao Matrimônio. O Doutor Angélico declarou: 

A virgindade é mais excelente do que o casamento, e isso pode ser percebido pela fé e pela razão. A fé enxerga a virgindade como imitação do exemplo de Cristo e do conselho de São Paulo. A razão enxerga a virgindade como ordenação correta dos bens, preferindo um bem divino aos bens humanos, o bem da alma ao do corpo, e o bem da vida contemplativa ao da vida ativa (STh II-II, 152, 4 c.).

Além disso, o Concílio de Trento (DH 1810) definiu: “Se alguém disser que o matrimônio deve ser preferido à virgindade, seja anátema”.

Por que a Igreja dá mais valor ao celibato do que ao Matrimônio? Antes de tudo, o celibato permite que as pessoas sigam Nosso Senhor mais de perto e comecem a viver o Céu agora, pois, “na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Além disso, o sacerdote celibatário, o religioso e o leigo consagrado podem se dedicar inteiramente às coisas de Deus — isto é, à oração e ao serviço do próximo —, diferentemente da pessoa casada, que se preocupa em agradar o cônjuge e está mais presa às “coisas do mundo” (1Cor 7, 33–34).

Desejando uma união mais plena com Deus e muito provavelmente com a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato, muitos santos casados, como Thomas More e Luís e Zélia Martin, tentaram entrar para a vida religiosa em algum momento da vida. De fato, Santa Zélia chorou na noite de seu casamento porque ainda sonhava em ser religiosa e dar a Deus um coração indiviso. Anos depois de ter seus filhos, Santa Zélia foi tentada a duvidar de sua verdadeira vocação. Mas, ao observar seus filhos, ela entendeu que se entregar à vontade de Deus é a melhor receita para a paz e a santidade. Um olhar para o seu santo marido deve ter suscitado no coração de Zélia as atemporais palavras da Madre Superiora a Maria, em A Noviça Rebelde: “Minha filha, o fato de você amar a esse homem não significa que ame menos a Deus”.

Se Santa Zélia tivesse se tornado religiosa, a Igreja teria sido privada de pelo menos uma santa, sua filha Santa Teresinha. Talvez Luís e Zélia jamais tivessem se tornado santos se tivessem optado pela vida religiosa. Se São Thomas More tivesse se tornado monge cartuxo, talvez nunca teria recebido a coroa do martírio.  

Embora as cinco filhas de São Luís e Santa Zélia tenham se tornado religiosas, o casal não as conduziu naquela direção. Em outras palavras, não tentaram “realizar-se” nas filhas, fazendo-as entrar para a vida religiosa porque eles mesmos não conseguiram fazê-lo. Curiosamente, aliás, o único motivo pelo qual Santa Zélia trabalhou foi para garantir o dote das filhas: embora rezassem para que as filhas se tornassem religiosas, São Luís e Santa Zélia pensavam que a maioria delas se casaria.

Sem dúvida, o casal era prudente e sábio quando o assunto era a vocação das filhas. Poderíamos dizer o mesmo dos pais do Venerável Fulton Sheen. Seus pais rezavam diariamente para que ele se tornasse sacerdote, mas jamais o pressionaram ou falaram sobre isso até o jovem Fulton revelar sua vocação

Ao contrário dos pais de Santa Teresinha e do Venerável Fulton Sheen, quando o assunto é a vocação dos filhos ou até a própria vocação, alguns casais interpretam mal a doutrina da Igreja sobre a superioridade do celibato em relação ao Matrimônio. Consequentemente, alguns pais pressionam os filhos a entrarem no seminário e na vida religiosa, ou se mostram decepcionados quando eles abandonam esse caminho, como se os filhos tivessem “falhado” com os pais. A mãe de São Maximiliano Kolbe, por exemplo, sempre quis que o irmão mais velho dele, Francisco, fosse sacerdote. Quando ele deixou o seminário e finalmente se casou, a mãe jamais lhe aceitou a vocação — uma tragédia!

Em alguns casamentos difíceis, especialmente quando um dos cônjuges questiona a “santidade” do outro, aquele poderia se equivocar e dizer aos filhos: “Torne-se sacerdote ou religioso para que não tenha de carregar essa cruz”. Ou, como Santa Zélia, alguns pais devotos podem ter devaneios ocasionais sobre o sacerdócio ou a vida religiosa, particularmente quando sua vida de oração “sofre” por causa dos filhos e do trabalho. Infelizmente, eles podem terminar acreditando na mentira: “Se eu fosse sacerdote ou religioso, poderia ser santo”. 

A inferioridade do Matrimônio em relação ao celibato leva alguns pais a preferir a vocação religiosa ou sacerdotal de alguns filhos à matrimonial de outros. Quando alguém lhes pergunta pelos filhos, o pai e a mãe podem dizer, entusiasmados: “Tenho um filho sacerdote” ou “tenho uma filha religiosa”, deixando na penumbra os outros filhos que vivem matrimônios santos. Conheci uma família com dois filhos —  um era sacerdote e o outro, casado. O filho casado tinha ciúmes porque a mãe preferia o filho sacerdote. Por isso, o filho casado considerava seu matrimônio como algo de segunda classe comparado com o sacerdócio do irmão. Talvez alguns pais achem — ou, pior ainda, digam aos filhos: “Gostaria que você fosse tão santo quanto seu irmão padre” ou “sua irmã religiosa”.   

Com certeza, ter uma vocação religiosa na família é uma das maiores bênçãos que Deus pode conceder a qualquer casal, algo que deveria apenas provocar sentimentos de humildade por um dom tão imerecido. Mas a verdade é que tanto o celibato quanto o Matrimônio são caminho para a santidade, mesmo que o celibato seja um bem maior. Como disse Santo Ambrósio sobre a virgindade: “Comparo boas coisas com boas coisas, para que fique claro qual delas é mais excelente”. O Catecismo também afirma: “Denegrir o Matrimônio é, ao mesmo tempo, diminuir a glória da virgindade: enaltecê-lo é realçar a admiração devida à virgindade” (n. 1620).

O amigo a quem me referi anteriormente acabou se casando. Deus confiou a pais como ele a incrível responsabilidade de serem os primeiros educadores e os primeiros diretores vocacionais dos filhos. Portanto, uma vida de oração fecunda, o testemunho de sacrifício, a alegria e um grande respeito pelo celibato e pelo Matrimônio da parte dos pais são a “terra boa” que permitirá aos filhos darem muitos frutos em sua futura vocação (cf. Mt 13, 23). Desta forma, eles, como meu amigo, podem ser modelos de abertura à vontade de Deus.

O fato de a Igreja ensinar que o celibato é superior ao Matrimônio jamais deve diminuir a grande missão deste sacramento aos olhos de Deus e da Igreja. Pois nosso caminho para a santidade é a vocação para a qual Deus nos chama, e não necessariamente a que é superior. Quando os pais menosprezam o chamado de seus filhos ao casamento, por não ser algo “bom o suficiente”, deixam de estar em sintonia com Deus, que vê o casamento como um grande mistério que nos remete a Cristo e à sua Igreja, como diz São Paulo (cf. Ef 5, 32). Tragicamente, esses pais perderam de vista o esplendor de sua própria vocação.

É preciso ter muita coragem para entrar no seminário ou no convento. Também é preciso ter muita coragem para sair dele enquanto é tempo, caso Deus realmente esteja chamando a pessoa ao Matrimônio — lembrando que não podemos evitar a cruz, caso queiramos chegar ao Céu. Em qualquer caso, a Igreja precisa mais do que nunca de pais que sigam o exemplo heroico dos pais dos santos, que foram “astutos como as serpentes e inocentes como as pombas” ao guiarem com amor seus filhos em direção ao plano de Deus, e não aos seus próprios planos (cf. Mt 10, 16). Aí está a sabedoria vocacional que formou inúmeros santos.

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Como os escândalos serão punidos na outra vida?
Espiritualidade

Como os escândalos
serão punidos na outra vida?

Como os escândalos serão punidos na outra vida?

“Ai do mundo por causa dos escândalos!”: aqueles que tiveram a desventura de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas por meio do escândalo devem procurar reparar tudo neste mundo, caso não queiram ficar sujeitos à mais terrível expiação no outro.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Julho de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Esta não é a primeira publicação que fazemos contando fatos relativos às almas do Purgatório. Só deste livro do Pe. François Xavier Schouppe, O Purgatório: explicado pelas vidas e legendas dos santos, já traduzimos vários excertos: v.g., um sobre a duração das penas do Purgatório, um sobre o porquê dessas penas e outro sobre se as devemos temer, e também uma revelação privada a S. Francisca Romana, segundo a qual, a cada pecado mortal cometido nesta vida, corresponderiam sete anos de Purgatório.

Enquanto católicos, estamos obrigados a aceitar as verdades de fé em torno das quais giram essas histórias. Mas no conteúdo delas propriamente dito somos livres para crer ou não, sabendo discernir o que nelas “constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja” (Catecismo, n. 67).

No relato abaixo, em específico, o Pe. François Xavier Schouppe trata de um tema muitíssimo atual: o pecado de escândalo. Com o desenvolvimento das técnicas de difusão de imagens e vídeos, nunca foi tão fácil propagar a indecência e, com isso, fazer perder uma porção cada vez maior de pessoas. Por outro lado, a exposição assídua, generalizada e cada vez mais precoce a material desonesto funciona também como uma espécie de “anestésico”: estamos acostumados a ver e ouvir de tudo e, por isso, praticamente não há mais quem se escandalize com coisas que seriam, séculos atrás, impensáveis.

Fica o alerta, no entanto, para que cuidemos das almas alheias, especialmente as que estão sob o nosso cuidado. Parafraseando o próprio Pe. Schouppe, ao final de seu primeiro relato: se são estas as consequências de uma pintura imodesta, que pensar então dos maus filmes, dos maus seriados, dos maus vídeos, enfim, que com o advento da internet atingem milhões de pessoas em questão de pouquíssimo tempo?


Aqueles que tiveram a desventura de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas por meio do escândalo devem procurar reparar tudo neste mundo, caso não queiram ficar sujeitos à mais terrível expiação no outro. Não foi em vão que Jesus Cristo clamou: “Ai do mundo por causa dos escândalos!... Ai do homem que os causa!” (Mt 18, 7).

Eis o relato do Pe. Rossignoli em sua obra Maravilhas do Purgatório. Certa vez, um pintor muito hábil e de vida exemplar em todos os aspectos pintou uma tela que não estava plenamente conforme às exigentes regras da modéstia cristã. Era uma daquelas pinturas que, sob o pretexto de serem obras de arte, são encontradas nas melhores famílias, e que levam à perda das muitas almas que as veem. A verdadeira arte é uma inspiração do Céu e eleva a alma a Deus; a arte profana, que apela somente aos sentidos, que não apresenta aos olhos nada além das belezas da carne e do sangue, não passa de uma inspiração do espírito maligno; por brilhantes que possam ser, suas obras não são artísticas, e o nome “arte” é falsamente atribuído a elas. São produções infames de uma imaginação corrompida [1].

O artista de que falamos deixou-se iludir neste aspecto por meio do mau exemplo. Porém, renunciando rapidamente ao seu estilo pernicioso, limitou-se à produção de pinturas religiosas, ou ao menos aquelas que eram perfeitamente irrepreensíveis. Finalmente, estava pintando uma grande tela no convento das carmelitas descalças quando foi acometido por uma doença mortal. Percebendo que estava prestes a morrer, pediu ao prior permissão para ser sepultado na igreja do mosteiro e deixou o seu salário para a comunidade, o qual correspondia a uma considerável quantia de dinheiro, encarregando os religiosos de oferecer Missas pelo descanso de sua alma. Ele morreu de forma piedosa, e alguns dias após o seu falecimento um religioso que permanecera no coro depois das Matinas o viu aparecer em meio a chamas e suspirar de modo comovente.

Disse o religioso: “O quê?! Você tem de suportar tamanha dor depois de ter levado uma vida tão boa e de ter morrido de forma tão piedosa?” Ele respondeu: 

Infelizmente, é por causa do quadro imodesto que pintei há alguns anos. Quando apareci perante o tribunal do Juiz Supremo, uma multidão de acusadores veio testemunhar contra mim. Afirmaram que tiveram pensamentos impróprios e desejos malignos por causa de uma pintura feita por mim. Como consequência daqueles maus pensamentos, alguns estavam no Purgatório e outros no Inferno. Estes clamavam por vingança, dizendo que, por ter sido a causa de sua condenação eterna, eu merecia pelo menos a mesma punição. Então, fui defendido pela Santíssima Virgem e pelos santos que eu exaltara em minhas pinturas. Afirmaram perante o Juiz que aquela pintura infeliz fora obra de juventude e da qual eu havia me arrependido; que eu havia reparado o erro mais tarde por pinturas religiosas que foram uma fonte de edificação para as almas.

Tendo em conta esses e outros motivos, o Juiz Supremo declarou que, por causa do meu arrependimento e das minhas boas obras, ficaria livre da condenação; mas me condenou a estas chamas até que a pintura fosse queimada, a fim de não escandalizar mais ninguém.

Então, o pobre sofredor implorou ao religioso que tomasse as medidas para destruir a pintura. E acrescentou: “Eu imploro que vá em meu nome até o dono da pintura e conte a ele em que situação me encontro por ter cedido ao seu desejo de pintá-la, e exorte-o a sacrificá-la. Ai dele se recusar! Para provar que isto não é uma ilusão, e para puni-lo por sua própria culpa, diga-lhe que em breve perderá os seus dois filhos. Se ele se recusar a obedecer Àquele que nos criou, pagará por isso com uma morte prematura”.

O religioso não demorou a fazer o que a pobre alma lhe pedira, e foi até o dono da pintura. Este, ao escutar a história, tomou a tela e a atirou ao fogo. Não obstante, de acordo com as palavras do defunto, ele perdeu os seus dois filhos em menos de um mês. Depois, passou o resto de seus dias em penitência por ter encomendado aquela pintura imodesta e tê-la mantido em casa. 

Se essas são as consequências de uma pintura imodesta, qual não será a punição para os escândalos ainda mais devastadores que resultam dos maus livros, dos maus jornais, das más escolas e das más conversas? “Ai do mundo por causa dos escândalos!... Ai do homem que os causa!” (Mt 18, 7). 

O escândalo faz grandes estragos nas almas por meio da sedução da inocência. Ah! malditos sedutores! Terão de prestar contas de forma terrível a Deus por causa do sangue de suas vítimas. Eis o que lemos na na Vida do Padre Zucchi, escrita pelo Pe. Daniel Bartoli. 

O santo e zeloso Pe. Zucchi, que morreu em Roma no dia 21 de maio de 1670, conduzira três moças para uma vida de perfeição, as quais se consagraram a Deus no claustro. Antes de deixar o mundo, uma delas havia recebido a proposta de se casar com um jovem nobre. Depois de entrar para o noviciado, esse cavalheiro, em vez de respeitar-lhe a santa vocação, continuou a lhe enviar cartas por meio das quais desejava chamá-la de esposa e pedia-lhe desistisse do enfadonho serviço a Deus, como dizia, para abraçar novamente as alegrias da vida. O padre, encontrando-o um dia na rua, suplicou que ele parasse com aquela conduta. Disse ele: “Garanto-lhe que em breve você aparecerá perante o tribunal de Deus e que já é hora de você se preparar com uma sincera penitência”.

De fato, duas semanas depois, aquele jovem teve uma morte tão rápida, que deixou pouco tempo para que ordenasse as matérias de sua consciência. Havia, portanto, todos os motivos para temer pela salvação dele. Certa noite, enquanto as três noviças mantinham uma santa conversa, a mais jovem foi chamada a comparecer no salão. Lá encontrou um homem envolto num grosso manto, dando passos de forma cuidadosa no local. “Senhor”, disse ela, “quem é você? E por que mandou me chamar?” Sem responder, o estranho se aproximou e pôs de lado o manto misterioso que o cobria. Então, a religiosa reconheceu o infeliz falecido, e viu horrorizada que ele estava inteiramente envolto por correntes de fogo que lhe apertavam o pescoço, pulsos, joelhos e tornozelos. “Reze por mim!”, gritou ele, e desapareceu. 

Essa manifestação miraculosa mostrou que Deus tivera misericórdia dele no último momento e que, embora não tenha sido condenado, teve de pagar a sua tentativa de sedução com um terrível Purgatório.

Notas

  1. “Consideram-se gravemente obscenas as pinturas ou estátuas que representam pessoas adultas totalmente nuas ou cobertas tão-somente com um véu transparente, que excita talvez até mais a sensualidade, ou que representam cenas, posturas etc., gravemente provocativas para a maior parte das pessoas. São réus de grave escândalo os que as pintam ou esculpem, os que as exibem em público em escritórios, mostruários, jardins, cinemas etc., ou as vendem indistintamente a qualquer um, ainda que seja sob o pretexto de que são obras de arte. Nos museus devem colocar-se em salas à parte, com acesso restrito só aos profissionais ou técnicos artistas. Sem chegar a esse extremo de periculosidade, são também mais ou menos escandalosas as pinturas e estátuas que, por sua nudez parcial ou atitude provocativa, são aptas para excitar as paixões humanas” (Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares, v. 1, 7.ª ed., Madri: BAC, 1996, p. 501).

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