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Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas
Santos & Mártires

Santa Joana d’Arc:
um guia para todas as épocas

Santa Joana d’Arc: um guia para todas as épocas

Que uma grande santa tenha feito tanto na defesa de seu povo deveria fazer-nos pensar… Talvez as aspirações de um império mundial não façam parte do plano divino. Ao contrário, é no nosso pedacinho de terra que devemos ficar e salvar as nossas almas.

Christopher CheckTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Maio de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Mark Twain considerava a biografia de Santa Joana d’Arc, cuja festa celebramos hoje, a sua melhor obra. Ele dizia que a Donzela de Orleans era “facilmente e de longe a pessoa mais extraordinária já produzida pela espécie humana”. A história de Santa Joana é bastante conhecida por católicos e não católicos, e também isso não deixa de surpreender: talvez não haja uma personagem medieval com a vida tão bem documentada quanto ela.

A história de sua vida e de como ela libertou a França do domínio inglês sobrevivera por séculos como uma espécie de mito nacional francês, mas, de fato, foi somente durante a adolescência de Twain que o historiador e arqueólogo francês Jules Étienne Quicherat reuniu documentos oficiais do julgamento e da reabilitação e os apresentou em cinco volumes de um “francês moderno lúcido e compreensível”. Não podemos deixar de pensar na repercussão gerada entre os medievalistas e os fiéis franceses quando esses documentos confirmaram para o mundo moderno o mito que havia inflamado os corações dos franceses por gerações.

Os volumes de Quicherat fornecem várias camadas de confirmação dos notáveis acontecimentos de sua breve vida. Como Twain observa, tudo foi apresentado sob juramento. Ele insiste que não há nenhuma outra vida “daquele período remoto” que seja “conhecida com a certeza ou a exatidão com que conhecemos a vida dela”. Ou os detalhes da vida de Joana são verdadeiros, ou a história dela é uma conspiração multissecular para criar uma heroína nacional sem par em toda a história.

Santa Joana cativou a imaginação de novelistas, dramaturgos, historiadores e cineastas, com alguns se aproximando mais da verdade que outros.

Há também as flagrantes distorções. Alguns enxergam em Joana uma feminista, interpretação que ignora, entre outras coisas, o desejo que ela tinha de consagrar a própria virgindade. G. K. Chesterton disse dela o seguinte: “O tipo de pessoa que sabia por que mulheres usavam saia — como Joana d’Arc — era justamente o que mais justificativas tinha para não usá-la.”

Sua intenção jamais foi se destacar num mundo masculino. Na verdade, ela tentou recusar a missão que recebera. Tão logo o Delfim fora coroado, ela tentou retomar a sua vida em Domrémy. Sua infância foi completamente feminina, dedicada à prática da arte de construir um lar: “Na costura e na tecelagem não temo mulher alguma”, disse ela em seu julgamento.

Santa Joana d’Arc, retratada por Hermann Anton Stilke.

Joana não era apenas claramente doméstica, como também não tinha nada da licenciosidade de uma feminista. O testemunho dos soldados e oficiais que lhe foram próximos descreve uma mulher cuja modéstia teve influência decisiva no comportamento deles. Quando ingressou no exército francês, um de seus primeiros atos foi expulsar as prostitutas do acampamento militar com uma espada. George Bernard Shaw disse que foi uma atitude puritana; é uma acusação comum em quartéis, onde o voto de virgindade não é compreendido. Porém, os soldados de Joana compreenderam a atitude, e a virtude heroica dela inspirou-os a amá-la e a segui-la

Joana como protoprotestante, outra distorção de Bernard Shaw, não está de acordo com o depoimento. Ela amava a Igreja e os sacramentos. Um de seus primeiros atos como comandante foi a implementação da assistência à Missa e a recepção frequente dos sacramentos pelos soldados. Não há nada em seu depoimento que contradiga a doutrina da Igreja, e ao longo de todo o julgamento ela defendeu a autoridade do Papa, tendo solicitado mais de uma vez ser submetida ao julgamento dele. Além disso, é possível que Joana tenha ditado uma carta para os hussitas da Boêmia, condenando-os por seu utraquismo, comparando-os aos “sarracenos” e alertando-os sobre o terrível juízo de Deus para os hereges.  

Há outros erros a respeito de Joana: ela teria sido nacionalista e heroína da classe trabalhadora, uma revolucionária precoce que queria derrubar a antiga ordem feudal. Mas, se essas foram realmente as motivações de Joana, por que ela praticamente arrastou o Delfim para a coroação? Por que ela teria desejado tanto abandonar o mundo político da corte de Carlos e voltar para a vida de camponesa? 

É uma ideia difundida a de que a Igreja reverencia Joana como mártir. Mas ela não foi propriamente uma. Sua santidade vem antes da piedade, da devoção, da caridade e, acima de tudo, como observa o padre Thurston, de seu desejo de imitar a Santíssima Virgem, aceitando a vontade de Deus e não deixando que nada se interpusesse a ela, por improvável que parecesse.

Naturalmente, nada podia ser mais improvável que uma camponesa adolescente e sem treinamento militar liderando um exército. Mas as vitórias dela no campo de batalha e, mais que isso, seu papel central numa campanha que mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos, são fatos indiscutíveis. Ela fez tudo isso aos dezenove anos; foi a pessoa mais jovem a comandar o exército de uma nação, e não como mera testa-de-ferro ou líder de torcida, mas como verdadeira comandante de batalha, que assumiu as estratégias e as táticas de sua força militar. Ela levou a cabo o que provavelmente constitui o papel mais importante de um líder: restaurou o moral do exército francês e o manteve elevado, insistindo sobretudo em que seus soldados se portassem como cristãos e posicionando-se na vanguarda do ataque.

Mas Joana fez mais que isso. De acordo com o depoimento dos capitães que serviram junto com ela, Joana foi perita em tática. Em sua reabilitação, um capitão de Chartres disse o seguinte dela: 

Exceto em assuntos de guerra, ela era simples e inocente. Mas quando montava e liderava um exército para a batalha e quando discursava para os soldados, ela se comportava como o mais experiente capitão do mundo, como alguém que possuía a experiência de uma vida inteira.

O Duque de Alençon confirma esse depoimento:

Ela era extremamente habilidosa na condução da guerra: tanto ao portar a lança como ao dispor a artilharia e o exército para ordem de batalha. E todos ficavam impressionados com o fato de ela agir com tanta prudência e lucidez em assuntos militares, com a inteligência de um grande capitão com vinte ou trinta anos de experiência; e particularmente na disposição da artilharia, pois nesse quesito ela desempenhou-se com magnificência.  

A habilidade extraordinária de Joana como comandante não se limitava à sua habilidade tática. Ela também entendia de estratégia política. Depois de intensificar o cerco a Orleans, o Delfim e seus conselheiros foram favoráveis à invasão da Normandia. Joana convenceu-os de que abrir caminho até Reims e sagrar Carlos como rei desmoralizaria os ingleses e fortaleceria a vontade dos franceses para que permanecessem no combate. Seu plano levou à vitória final da França.

Até hoje, no entanto, alguns dizem que as ações dela não foram decisivas para o fim da guerra. A questão parece razoável. Afinal de contas, os franceses obtiveram a vitória mais de trinta anos depois da morte de Joana. Apesar disso, para os cristãos, a questão parece quase impertinente. Deus enviou Joana para livrar a França do domínio inglês. O plano da Providência não é o mesmo que o da humanidade. O fato de Deus ter decidido esperar por três décadas até fazer com que a obra de Joana desse frutos diz respeito somente a Ele. 

Céticos, cínicos, desmistificadores e outros descrentes procuram outras causas para a conclusão da guerra. É verdade que a Inglaterra de fato retomou muito do que perdeu durante a revitalização liderada por Joana. Além disso, a perda de receita da Inglaterra por causa da crise agrícola e do declínio no comércio marítimo reduziram sua capacidade de travar guerras.

Édouard Perruy, cuja história da Guerra dos Cem Anos é amplamente tida por confiável, parece ter dúvidas sobre a questão. A certa altura ele diz: “Portanto, o sacrifício da Donzela, embora tenha anunciado a vitória decisiva, só o fez remotamente. Ela de fato exerceu a influência essencial no decurso dos eventos que sempre lhe foi atribuída? É possível questionar isso”. Na mesma obra, porém, ele escreve:  

Só o que a heroína deixou para trás foram suas ações. Mas foram ações cujas marcas não poderiam ser apagadas por nenhuma condenação. Houve o fato militar de que pela primeira vez os exércitos de Lancaster foram detidos no caminho para a vitória. Houve o fato político de que o rei… recebeu o prestígio da coroação. Nesse sentido, a intervenção de Joana d’Arc e a página escrita por ela na história da França (contra toda expectativa) merecem ser lembradas como fatos preciosos.    

O historiador e general J. F. C. Fuller, ele mesmo um descrente, considera o papel de Joana claramente decisivo, ressaltando o efeito que a intensificação no cerco a Orleans teve na confiança dos franceses. Os invencíveis ingleses foram detidos.

“Joana d’Arc em batalha”, também por Hermann Anton Stilke.

Outro efeito da vitória em Orleans foi a união dos nobres franceses, que estavam indecisos em relação a apoiar ou não o Delfim. Eles então se apresentaram e apoiaram a causa de Valois. Um deles, o duque da Bretanha, enviou uma carta a Joana declarando sua aliança com Carlos. Joana escreveu-lhe uma resposta repreendendo-o por ter demorado tanto a fazê-lo.

Poderíamos ainda avaliar em que medida Joana foi responsável por uma derradeira vitória da França ao estimar até que ponto ela foi responsável por suscitar uma resolução para a guerra civil francesa entre Armagnacs e Borguinhões — questão, até onde eu sei, ainda inexplorada pelos historiadores. Nós sabemos que Joana escreveu uma carta ao Duque de Borgonha à época da coroação em Rheims. Embora ele não tenha estado presente, não é despropositado supor que Borgonha pode ter decidido depositar suas melhores riquezas numa França cada vez mais unida sob o mito patriótico de Santa Joana.

Hoje, revisionistas desmancha-prazeres adoram fazer estardalhaço conjecturando se a batalha do Álamo foi decisiva, ou se a travessia de George Washington em Trenton foi decisiva. Questões como essas são maçantes. Os mitos das batalhas de Álamo e Trenton, assim como os mitos das batalhas de Lepanto e Termópilas, incendeiam a alma de uma nação. “O inspirador comando da jovem aldeã de Lorena”, como monsenhor Philip Hughes o descreve, foi decisivo e, em muitos aspectos, não pode ser necessariamente medido por um número de baixas. Santa Joana é o maior mito da França, e pelo menos um dos maiores da cristandade. Acontece que esse mito é também verdadeiro.

O que a história de Joana tem a nos ensinar? Sua biografia decerto deixa claros os méritos da obediência, da confiança em Deus, da fortaleza, da perseverança etc.

Mas há também uma verdade facilmente esquecida pelas nações modernas onde a volubilidade é celebrada, onde a falta de raízes é a norma e onde terra significa pouco mais que uma hipoteca numa esfera de consumo. E a verdade é esta: Deus ama lugares específicos, como a França, e pessoas específicas, como os franceses. Ele também ama Lorena e Domrémy, e quer que estejamos vinculados à porção singular que nos cabe do mundo, onde quer que ela seja. Esse tipo de vínculo é o verdadeiro patriotismo, e contrasta com o falso globalismo que caracteriza tanto do discurso político moderno.

Há uma mensagem para nós no fato de uma grande santa ter feito tanto na defesa de um povo único, de sua terra e de seu sangue. Talvez as aspirações revolucionárias de um império universal não façam parte do plano divino. Em vez disso, o pedacinho de terra em que vivemos é o lugar que nos foi designado para nele cuidarmos de nossa salvação. Quando imagens do planeta Terra tiradas do espaço e a intensidade das comunicações eletrônicas modernas fazem nossos vilarejos parecer insignificantes, podemos refletir sobre aquilo pelo que Santa Joana lutou e deu sua vida, e dar graças a Deus por nosso sangue e nosso solo.

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Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança
Santos & Mártires

Teologia:
parece complicada,
mas é coisa de criança

Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança

Os últimos dias terrenos de Santo Tomás de Aquino, o maior Doutor que a Igreja já teve, foram marcados por uma fé semelhante à dos pequeninos — experiência mística que o transformou justamente no dia de São Nicolau.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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No dia 6 de dezembro de 1273, festa de S. Nicolau de Mira, S. Tomás de Aquino, o maior intelectual que a Igreja Católica já conheceu, passou por uma experiência mística transformadora, que o impossibilitou de dar sequência a seus projetos teológicos e, de fato, marcou o início do fim de sua carreira. Ele morreria três meses depois, na companhia dos monges cistercienses de Fossanova, em 7 de março, que continua a ser o dia tradicional de sua festa. Os cristãos que sabem que toda circunstância, grande ou pequena, é prevista pela divina Providência, podem razoavelmente perguntar: por que chegou o Doutor Angélico ao ápice de sua vida na festa de um santo cujos presentes de padroeiro são dados a criancinhas todo Natal?

Há uma resposta implícita nos relatos dos últimos dias de Tomás — relatos que são, nas palavras do Pe. John Saward, “tocantes de ler”: 

O homem grande e pesado, tão silente e sossegado quanto um bebê a adormecer; o doutor, enfim, sem sua pena de escrever. Pode-se ver Tomás e Reginaldo juntos: o amigo ansioso, mas enfim resignado, e o santo absorvido em contemplar a beleza de Deus. Do “testemunho fidedigno” de Reginaldo aprendemos que a última confissão de Tomás foi como a de um “menino de cinco anos de idade”, o que sugere não apenas a pureza própria da infância, mas também aquela inocente confiança que o Senhor aconselhou, por revelar seus mistérios não aos entendidos, mas aos pequeninos.

No inverno da peregrinação desta vida, na noite gélida da qual parece infinitamente distante o verão eterno do Céu, Deus vem com sua luz e calor para os homens e mulheres que são, em seus corações, pequenas crianças, dependendo dele e confiando nele seja qual for o clima que a estação ofereça. As riquezas de seu amor paternal, Deus as distribui com mais abundância sobre os pequenos, os quais, com seus olhos de maravilhamento, sua confiança confiante, seu fluxo interminável de perguntas, sua alegria inocente, atraem o divino olhar.

O Pe. Brian Davies escreve que S. Tomás

vai de questão em questão com uma ansiedade de tirar o fôlego. Ele está a todo momento perguntando “Por quê?” ou “O quê?” Pode-se dizer inclusive que todo o sistema do Aquinate repousa sobre uma questão. […] Deus, para ele, é uma resposta à perplexidade (admiratio), uma resposta que nos deixa com ainda mais perguntas que fazer.
Vitral retratando S. Tomás no mosteiro franciscano da capital dos EUA, Washington.

Que coisa pode haver mais típica de uma criança normal do que esse fluxo de perguntas que só se esgota quando os adultos perdem a paciência ou não sabem mais o que dizer? O exemplo de uma criança confiante e curiosa, que “pede, procura e bate”, é ao mesmo tempo o ponto de partida para a descoberta de Deus e o ponto de chegada ao Reino dos céus, onde quem pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate à porta, esta se lhe abre.

O Pe. John Saward de novo comenta: “No exercício de sua ciência, bem como na sua conduta de vida, o teólogo deve converter-se e tornar-se como uma criança, recuperando e preservando um senso de espanto diante da grandeza do que Deus revelou em seu Filho”.

O Salvador sela sua aliança nupcial com o puro de coração que busca o único necessário. Ser teólogo é apaixonar-se pela verdade de Deus, entregar-se com confiança e humildade a essa verdade que se antecipa a cada passo que vamos dar. O Pe. Thomas Gilby nos lembra da presença pessoal que dá à teologia o seu próprio significado: “A Palavra e o Espírito de Amor são enviados a nós, e todas as palavras da ciência da fé e afeições no seio da amizade divina são como que muitos ecos e refrações da sua presença”. O modelo e cumprimento da teologia é a visão beatífica — uma visão do infinitamente grande pelo infinitamente pequeno; do Criador que é Pai pela criatura que lhe é filha; do Salvador que é o Esposo pelo santo que o desposa.

O Pe. Martin Grabmann, biógrafo de S. Tomás, tenta pôr em palavras esta “teologia dos bem-aventurados”:

Seu conhecimento e amor totais estão ordenados em um ato contínuo e incessante em direção a Deus, divino Amor desvelado que eles contemplam face a face. Toda a sua vida e atividade são um êxtase eterno, bem-aventurado e inefavelmente brilhante de amor neste ver, desfrutar e abraçar o infinito Deus uno e trino.

Em seus sermões sobre o Credo Apostólico (a. 12), S. Tomás define a vida eterna como a união definitiva do homem com Deus, e isso significa ver Deus face a face, dar a Ele o perfeito louvor, gozar a satisfação superabundante de todo desejo e um deleite inimaginável: “conheceremos todas as naturezas das coisas, todas as verdades e tudo o que quisermos, e ali possuiremos tudo o que quisermos possuir”. A vida eterna traz consigo, além disso, a segurança perfeita, sem tristeza, trabalho ou temor, e a agradável companhia de todos os bem-aventurados: “De maneira que tanto aumente a alegria e o gozo de um quanto é o gozo de todos”.

Este é o paraíso que S. Nicolau de Bari alcançou pela prática da misericórdia, da humildade e da fidelidade que Deus derramou em seu coração. Este é o paraíso que S. Tomás de Aquino alcançou pela vivência das mesmas virtudes. Ambos se tornaram, cada um no tempo devido, grandes santos e sábios pregadores; mas só chegaram a isso depois de se tornarem pequeninos e loucos por causa de Cristo. Possamos nós, fazendo o mesmo aqui e agora, associar-nos a estes bem-aventurados em sua felicidade sem fim.

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O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”
Liturgia

O Ofício Divino
e suas “repetições inúteis”

O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”

A liturgia e os Salmos estão repletos de repetições, mas seriam elas por acaso? Quem implora não deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, com insistência? Não é esta a origem do Pai-nosso e também das ladainhas?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Desde que eu li pela primeira vez as palavras da Sacrosanctum Concilium, n. 34, sobre como “repetições inúteis” (repetitiones inutiles) precisavam ser removidas da liturgia romana tradicional, tenho estado à procura de exemplos de repetição, seja ao rezar o antigo Ofício Divino — ou, para ser mais preciso, o ofício monástico tal como ele era na década de 1940 —, seja ao participar da Missa no usus antiquior, seja ao receber e observar outros sacramentos no rito antigo. Depois de mais de vinte anos de observação e reflexão, eu ainda não fui capaz de encontrar um único exemplo de repetitio inutilis [1]. 

Sim, sim, eu conheço os exemplos que as pessoas gostam de soltar e, em minha juventude tola, eu faria o mesmo. Soa elegante criticar as práticas litúrgicas que duram há séculos: “Sabe, esses pobres católicos eram tão conservadores que simplesmente mantinham esses costumes irracionais em voga, ainda que agora nós vejamos claramente que eles não fazem sentido algum. Muito melhor é otimizar o rito, torná-lo mais lógico”.

Esse ponto de vista juvenil foi substituído [n.d.t.: em mim] por uma apreciação crescente da sutileza dos elementos litúrgicos, grandes e pequenos — mesmo aqueles que parecem ter surgido “por acidente”. Como disse uma vez o Padre Pio: “Para Deus não existe isto a que se chama acaso”. Tal apreciação requer tanto paciência para buscar o significado das coisas quanto imaginação para enxergá-lo — duas realidades aparentemente bem raras em nossos tempos.

Exemplos do Ofício Divino

Após a hora Prima [2], lê-se o Martirológio e, depois, as orações antes de se iniciar o dia de trabalho. Estas começam com um triplo Deus in adiutorium meum intende, Domine ad adiuvandum me festina (“Vinde, ó Deus, em meu auxílio, socorrei-me sem demora”), seguido por um Gloria Patri, um Kyrie-Christe-Kyrie, um Pater noster, alguns versículos, outro Gloria Patri e uma oração.

Há muita repetição aqui. Eu não tenho nenhum arrazoado que oferecer, mas minha experiência, tendo-o rezado por muito tempo, é que este arranjo dá estabilidade e é muito apropriado para implorar o socorro de Deus no início dos trabalhos do dia. Quem implora deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, insistentemente. É esta a origem da oração que Jesus ensinou e de toda ladainha que jamais existiu. Rezar uma segunda vez a Oração do Senhor, apenas alguns instantes depois de a ter recitado ao fim da Prima, normalmente me alerta para o fato de que eu não a havia rezado a primeira vez com a devida atenção — o que me leva a tornar mais séria minha volta a ela. O mesmo se dá com a doxologia: resistindo à tentação de rezá-la rápido, é possível adentrar mais profundamente a origem e o fim de todas as nossas ações, a realidade suprema da Santíssima Trindade.

Um segundo exemplo, e um dos mais familiares, é o Benedicite [n.d.t.: o cântico de Daniel (3, 57-88.56), do domingo da I Semana do Saltério atual]. Pense numa oração repetitiva! Uma vez familiarizada com ela, no entanto — quando a pessoa percebe que está fazendo as vezes de toda a Criação, transformando suas silenciosas necessidades em louvor voluntário ao Senhor —, há um privilégio especial em pronunciar os versículos e um conforto na sucessão ritmada deles, como o movimento das ondas do mar: Benedicite omnia opera Domini, Domino: laudate et superexaltate eum in saecula. Benedicite, Angeli Domini, Domino: benedicite caeli, Domino.

As interrupções do padrão dispõem a uma retomada de atenção. Depois de dizer Benedicite dezessete vezes, nós dizemos: Benedicat terra Dominum; depois de mais oito Benedicite: Benedicat Israël Dominum; diz-se então Benedicite cinco vezes mais, até que se chegue a Benedicamus Patrem et Filium cum Sancto Spiritu e Benedictus es, Domine. Diz-se trinta vezes “bendizer” no imperativo, três no subjuntivo e “Bendito és”, uma vez, no indicativo. Uma notável numerologia trinitária e cristológica perpassa este hino, que a Igreja põe em nossos lábios como uma espécie de ladainha de bênçãos, admiravelmente adequada para os domingos e dias santos.

Um terceiro exemplo, também das Laudes, é a repetição diária dos Salmos 148, 149 e 150, que todos fizeram no Ocidente por pelo menos quinze séculos, mas que agora permanece apenas entre os monges e religiosas que retiveram seu antigo cursus. Esse trio de salmos põe em nossos lábios vinte e três vezes alguma forma de laus ou laudare, dando sentido ao nome Laudes e enfatizando essa hora como o principal ofício de puro louvor na Igreja. Há algo cativante e belo numa oração sem nenhum “valor de uso”, que não seja direcionada nem a obter um benefício nem a livrar-se de algum mal. A repetição “gratuita”, como alguém lhe poderia chamar, simboliza ao mesmo tempo o seu valor intrínseco e serve como um veículo para inculcá-lo em nós, seres impacientes e, com muita frequência, cheios de segundas intenções.

Um quarto exemplo é o refrão quoniam in aeternum misericordia eius, repetido vinte e sete vezes quando se recita ou se canta o Salmo 135. Um salmo louvando a misericórdia eterna de Deus faz ecoar ao longe a eternidade, com seu refrão imutável, assim como uma âncora mantém num lugar um navio, não obstante as ondas que o agitam. Pode ser difícil, às vezes, impedir que nossas mentes vagueiem à medida que repetimos a frase, mas obviamente o divino Mestre pensou esse salmo, assim como todos os outros, até a sua última letra, tendo em vista as necessidades espirituais de todos e cada um de seus discípulos.

Um último exemplo, e de caráter diferente dos outros, é a repetitividade indireta que se encontra no Salmo 118, recitado diariamente no Breviário Romano e uma vez por semana no monástico (dividido entre as pequenas horas do domingo e da segunda-feira). Não é preciso ter grande intimidade com o Salmo 118 para notar que ele é altamente repetitivo em seus conceitos, tecendo o salmista quantas variações de “lei, testemunhos, mandamentos, decretos, preceitos, juízos, ordens e palavras” lhe vieram à mente. A Igreja põe este salmo sempre diante de nós a fim de firmar nossas mentes vagabundas e corações rebeldes na lei imutável do Senhor, que é em última instância sua lei eterna, seu próprio ser, sua misericórdia manifestada a nós como regra de vida na qual encontraremos vida. A estrutura do salmo dá a entender que, em toda a variedade que vemos, em todas as vicissitudes que sofremos, e até na aparente falta de sentido do ciclo infinito de que fala o Eclesiastes, há uma ordem de sabedoria única, uma manifestação única do mistério do amor de Deus.

Até aqui eu falei apenas de repetição textual, mas um tratamento completo de nosso assunto teria de incluir repetições e aparentes redundâncias em pessoas, cerimônias, gestos e cantos.

O fim da repetição

Alguns desses elementos de repetição no Ofício Divino foram retidos no breviário de São Pio V e depois na Liturgia das Horas de Paulo VI, mas, infelizmente, muitos deles foram atenuados ou abandonados. Assim como a Missa foi simplificada pelos reformadores a fim de torná-la mais breve e autoexplicativa, transparente e acessível, também o Ofício foi simplificado e abreviado, tendo em vista um clero ocupado — não obstante o fato de que a maioria dos Padres conciliares, a julgar de seus discursos na aula, não apoiava nem grandes mudanças na Missa nem uma redução substancial do Breviário.

Depois de décadas de liturgia nova, porém, rezada lado a lado com uma espécie de sobrevivência inesperada da liturgia antiga, é possível não apenas conceituar, mas também experimentar como a tendência à simplificação, o abandono das formalidades e a rude rejeição de princípios estéticos acarretaram uma diminuição de disciplina e de impacto espiritual.

Mesmo o falecido Pe. Robert Taft, assumidamente antitridentino como era, admitia isto: 

O Ocidente deve aprender com o Oriente a redescobrir um senso de tradição, e parar de se emaranhar em seus próprios clichês. A liturgia deve evitar repetição? Mas se a repetição é da essência do comportamento ritual! A liturgia deve oferecer variedade? A variedade excessiva é inimiga da participação popular. A liturgia deve ser criativa? Mas criatividade de quem? É presunçoso, por parte de quem nunca manifestou a mínima criatividade em quaisquer outros aspectos da vida, pensar que é um Beethoven e um Shakespeare em matéria de liturgia [3].

O que ele não percebeu, no entanto, é que a liturgia, tal como chegou até nós, já é o equivalente a uma sinfonia de Beethoven ou a um romance de Shakespeare — se bem que numa escala muito superior. Como os ciclos de peças de mistério medievais, o culto católico tradicional tem uma profundidade, variedade, coloração e sutileza que desafiam explicações simplórias e resistem à simplificação. Padrões de repetição inteligente são um dos meios mais comuns e efetivos para se adquirir uma expressão formal de seriedade e uma intensificação crescente de desejo.

Se, na prática, a repetição retém sempre este valor, é uma matéria para exame de consciência, mas certamente não é difícil enxergar por que ela é uma característica de qualquer liturgia cristã histórica; ou melhor, de qualquer religião conhecida pelo homem. Dessa perspectiva, o expurgo implacável de repetições do Ofício Divino, da Missa e de tantos outros ritos é apenas mais um ângulo através do qual demonstrar o impulso essencialmente não-histórico, não-litúrgico e irreligioso por trás das reformas litúrgicas levadas a cabo no último século.

Notas

  1. Para entender com que espírito devem ser lidas quaisquer críticas às reformas litúrgicas do século passado, seria importante assistir às aulas do Pe. Paulo Ricardo O problema com o Missal de Paulo VI, de 22 ago. 2013, e Por que uma “reforma da reforma”?, de 27 ago. 2013. Dos textos delas destacamos as seguintes palavras do Cardeal Joseph Ratzinger: “[Que] se crie a impressão de que nada no Missal jamais poderá ser mudado, como se qualquer reflexão a respeito de possíveis reformas futuras fosse necessariamente um ataque ao Concílio — a uma tal ideia eu só poderia dar o nome de absurda” (n.d.t.).
  2. Deve-se notar, en passant, que só a supressão do antiquíssimo ofício da Prima já constitui, em si, razão suficiente para levantar sérias dúvidas sobre toda a campanha de revisão anunciada na Sacrosanctum Concilium, permitindo-nos enterrar de uma vez por todas a mentira de que a reforma litúrgica teve como finalidade “restaurar o antigo culto”. Cf. Wolfram Schrems, The Council’s Constitution on the Liturgy: Reform or revolution?, Rorate Caeli, 3 mai. 2018 (n.d.a.).
  3. Return to Our Roots: Recovering Western Liturgical Traditions: America, 26 mai. 2008 (n.d.a.).

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Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!
Espiritualidade

Nossa pátria é o Céu:
não temamos a morte!

Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!

“Importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso.”

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
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A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras da Sexta-feira da 34.ª Semana do Tempo Comum. Seu tom, no entanto, continua muito apropriado para este tempo do Advento, em que esperamos a vinda de Cristo.


Do tratado sobre a morte, de São Cipriano, bispo e mártir
(Cap. 18.24.26: CSEL 3, 308.312-314)

Superemos o pavor da morte com o pensamento da imortalidade

Lembremo-nos de que devemos fazer a vontade de Deus e não a nossa, de acordo com a oração que o Senhor ordenou ser rezada diariamente. 

Que coisa mais fora de propósito, mais absurda: pedimos que a vontade de Deus seja feita e quando ele nos chama e nos convida a deixar este mundo, não obedecemos logo à sua ordem! Resistimos, relutamos e, quais escravos rebeldes, somos levados cheios de tristeza à presença de Deus, saindo daqui constrangidos pela necessidade, não por vontade dócil. E ainda queremos ser honrados com os prêmios celestes a que chegamos de má vontade. Por que então oramos e pedimos que venha o reino dos céus, se o cativeiro terreno nos encanta? Por que, com preces frequentemente repetidas, suplicamos que se apresse o dia do reino, se maior desejo e mais forte vontade são servir aqui ao demônio do que reinar com Cristo?

“O Sonho de Jacó”, de Nicolas Dipre.

Se o mundo odeia o cristão, por que tu o amas, a ele que te aborrece, e não preferes seguir a Cristo que te remiu e te ama? João em sua carta clama, fala e exorta a que não amemos o mundo, deixando-nos levar pelos desejos da carne: “Não ameis o mundo nem o que é do mundo. Quem ama o mundo não tem em si a caridade do Pai; porque tudo quanto é do mundo é concupiscência dos olhos e ambição temporal. O mundo passará e sua concupiscência; quem, porém, fizer a vontade de Deus, permanecerá eternamente” (cf. 1Jo 2, 15-17). Ao contrário, tenhamos antes, irmãos diletos, íntegro entendimento, fé firme, virtude sólida, preparados para qualquer desígnio de Deus. Repelido o pavor da morte, pensemos na imortalidade que se lhe seguirá

Com isso, manifestamos ser aquilo em que acreditamos. Irmãos caríssimos, importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Abracemos o dia que designará a cada um sua morada, restituindo-nos ao paraíso e ao reino, uma vez arrebatados daqui e quebrados os laços terrenos. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso. O grande número de nossos queridos ali nos espera: pais, irmãos, filhos. Deseja estar conosco para sempre a grande multidão já segura de sua salvação, ainda solícita pela nossa. Quanta alegria para eles e para nós chegarmos nós até eles e a seu abraço! Que prazer estar ali, no reino celeste, sem medo da morte, tendo a vida para sempre! Que imensa e inesgotável felicidade!

Lá, o glorioso coro dos apóstolos; lá, o exultante grupo dos profetas; lá, o incontável povo dos mártires coroados de glória e de triunfo pelos combates e sofrimentos; lá as virgens vitoriosas, que pelo vigor da continência corporal subjugaram a concupiscência da carne; lá remunerados os misericordiosos, que pelos alimentos e liberalidades aos pobres fizeram obras de justiça, e, observando o preceito do Senhor, transferiram seu patrimônio terreno para os tesouros celestes. Para lá, irmãos caríssimos, corramos com ávida sofreguidão. Que Deus considere este nosso modo de pensar! Que Cristo olhe este propósito do espírito e da fé! Os maiores prêmios de sua caridade ele os dará àquele cujos desejos forem intensos.

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Isto não é misericórdia!
Igreja Católica

Isto não é misericórdia!

Isto não é misericórdia!

Infelizmente prevalece hoje, na cultura assim como na Igreja, uma falsa ideia de misericórdia, segundo a qual os pecados dos outros não devem ser corrigidos. O verdadeiro “pecado” seria “ofender” as pessoas com a verdade do Evangelho.

Gina SowerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 30-37).

Ao final desta parábola, Jesus nos diz que, se quisermos ser como o bom samaritano, devemos tratar as pessoas com misericórdia. Contudo, prevalece não apenas em nossa cultura, mas também na Igreja uma falsa ideia de misericórdia

Ouvimos falar com frequência em misericórdia, quase com a mesma frequência com que ouvimos falar em amor. Não me entenda mal. Como católica, aceito plenamente o amor e a misericórdia. São palavras que deveriam definir qualquer um que se considere católico. O problema está na incapacidade de definir o verdadeiro significado dessas palavras e como elas deveriam ser implementadas em nossas vidas. Infelizmente, para muitas pessoas, misericórdia significa aceitar o comportamento pecaminoso do outro e considerar que o verdadeiro “pecado” é “ofendê-lo” com a verdade do Evangelho.

As ações do bom samaritano foram misericordiosas justamente porque ele viu as feridas do outro e não lhes fez vista grossa. A verdadeira misericórdia não significa ignorar as necessidades do próximo, mas oferecer um remédio para sua doença, a exemplo do bom samaritano. A misericórdia, assim como o amor, é orientada para o bem verdadeiro do outro, particularmente para o bem de sua alma. Não tem nada a ver com aceitar o estilo de vida de outra pessoa, se ele estiver na contramão de sua salvação.

A maioria de nós não vê problema em agir com misericórdia quando lidamos com necessidades físicas. Por exemplo, ninguém tem medo de alimentar os pobres ou de vestir os nus. As obras corporais de misericórdia são, em sua maioria, bem vistas na nossa cultura. São as obras espirituais de misericórdia (por exemplo, advertir os pecadores) que se consideram intolerantes ou mesmo odiosas. Nossa cultura vê a misericórdia como uma aceitação do pecado, embora a verdadeira misericórdia liberte as pessoas da escravidão do pecado e da morte. A misericórdia está em enxergar a alma ferida e lhe oferecer um remédio verdadeiro.  

É um fato triste, mas a distorção da misericórdia infiltrou-se na Igreja. Em vez de influenciar a cultura, é a cultura que tem influenciado a Igreja. Se quisermos contornar a situação e ver as verdades de nossa fé influenciarem a cultura, então teremos de começar mostrando a verdadeira misericórdia, particularmente aos que não tiveram a sorte de ouvir falar dela.

Há algum tempo, levei a uma palestra sobre pureza uma adolescente rebelde com quem tenho parentesco. Fiquei hesitante em convidá-la por causa de todas as razões normais, como o medo da rejeição e a preocupação com o que ela e outros membros da família poderiam pensar. Finalmente, tomei coragem para convidá-la e, para minha surpresa, ela foi. Jamais esquecerei como ela me olhou depois da palestra e disse: “Como gostaria de ter aprendido isso antes”. Por um lado, fiquei empolgada porque se lhe abriram os olhos: as mentiras foram destruídas por palavras de misericórdia e de verdade. Ao mesmo tempo, porém, fiquei desolada por ela ter levado tanto tempo para ouvir aquilo. 

É triste o fato de muitos católicos serem como minha parente. Também lhes venderam as mentiras de nossa cultura. Fico desconcertada com o fato não se dizer nada nas paróquias para ajudar a maioria dos leigos, que sucumbiram aos ideais do mundo e se encontram em estado de pecado mortal. Por exemplo, a maioria dos católicos hoje usa contraceptivos, vive na fornicação e muitos já abriram mão de questões como sodomia e aborto, considerando-as perfeitamente aceitáveis — sem falar que quase 75% deles não creem na presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote ou o bispo que ignora as almas feridas da maioria de seu rebanho pode ser comparado ao sacerdote da parábola do bom samaritano, que viu o homem sangrando e largado para morrer, mas ainda assim escolheu ignorá-lo. Pensemos em quantas almas poderiam ser convertidas se bispos, sacerdotes e leigos parassem de ficar com medo e tivessem a coragem de agir com metade da franqueza de nossos oponentes. Porém, não somos corajosos porque tememos a possibilidade de as pessoas não gostarem de nós; temos medo de ofender e afastar da fé os católicos de nome.

Recentemente, eu e meu marido tivemos de lutar contra todos esses temores quando fomos convidados para participar do “casamento” de um parente que estava tentando se casar com uma pessoa divorciada duas vezes.

Amamos muito as duas pessoas, mas não poderíamos confirmar a participação na cerimônia sem saber se matrimônios ou tentativas de matrimônio anteriores haviam sido declarados nulos. Minha maior preocupação não era tanto com o que outras pessoas pensariam de nós, mas com a possibilidade de seu recente interesse pelo catolicismo desaparecer por não participarmos da cerimônia. Antes do evento, meu marido e eu explicamos a eles nossa preocupação e o que a Igreja ensina sobre um relacionamento como o deles. A conversa foi boa, mas ainda assim eu fiquei preocupada com a possibilidade de nos tornarmos a causa da perda de seu interesse pelo catolicismo. 

Pouco depois de nossa decisão de não ir à cerimônia, deparei com a história do jovem rico em Mc 10, 17-31. Depois de refletir sobre a passagem, percebi que, embora houvesse a possibilidade de aquele casal perder o interesse pela Igreja, perante Deus ainda tínhamos o dever de ser honestos com eles quanto à doutrina da Igreja e à razão pela qual não poderíamos participar da cerimônia. Vejamos cuidadosamente a resposta de Jesus depois de o jovem rico lhe perguntar o que devemos fazer para nos salvar e como o jovem reagiu:   

Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ele entristeceu-se com essas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens (Mc 10, 21-22).

Reparemos no seguinte. Antes de Jesus dizer a verdade ao homem, a passagem diz: “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe…”. Vemos que foi o amor que levou Jesus a dizer a esse jovem algo que ele não queria ouvir. O fato de que o jovem tinha a liberdade de ir embora não impediu Jesus de lhe contar a dura verdade sobre sua situação espiritual. Jesus sabia que o jovem amava sua riqueza mais do que a Ele, e que seu amor ao dinheiro era um obstáculo à sua salvação. Como podemos ver no versículo seguinte, o jovem não aceita o convite de Jesus e prefere o amor ao dinheiro ao amor a Deus. Se quisermos agir com verdadeira misericórdia, temos de fazer como Jesus, amor e misericórdia encarnados: oferecer a cura, mesmo que ela possa ser rejeitada.  

No final da parábola do bom samaritano, Jesus nos instrui a ir e oferecer o mesmo tipo de misericórdia que o bom samaritano ofereceu ao próximo. Nem sempre é fácil agir com misericórdia ou ser tratado com misericórdia, porque ela trará as marcas de Cristo crucificado. Jesus não ressuscitou dos mortos sem antes ter sido crucificado e morto. A misericórdia de Deus está em Ele ir nos purificando a fim de nos tornarmos semelhantes a Ele, e isso não acontecerá se não seguirmos seus passos. Nós também devemos morrer para que Ele possa viver e reinar em nossas almas. Este é o maior dos gestos de misericórdia, e é a mesma misericórdia que devemos ter com o nosso próximo. Caso contrário, não será misericórdia.  

A santa Igreja Católica é, de fato, a maior estalajadeira de toda a história, pois ela transmite a plenitude da verdade e, por meio de seus sacramentos (que comunicam a verdadeira misericórdia), fornece óleo e vinho para limpar, atar e curar as almas feridas. Paremos de ocultar o significado da misericórdia e comecemos a partilhá-lo com quem está fora da Igreja. Sejamos realistas sobre quem Jesus é e a misericórdia que Ele deseja nos dar

“Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 37).

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