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São José: jovem ou idoso?
Santos & Mártires

São José:
jovem ou idoso?

São José: jovem ou idoso?

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento oficial sobre a idade de São José. Mas alguns nomes de peso de nossa época têm bons motivos para acreditar que, quando se casou com a Virgem Maria, São José era jovem e estava no auge de seu vigor físico.

Pe. Donald CallowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 14 minutos
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Não estou de acordo com a forma clássica de representar S. José como um ancião, ainda que com isso se tenha tido a boa intenção de ressaltar a perpétua virgindade de Maria. Eu o imagino jovem, forte, talvez com alguns anos mais do que a Virgem, mas na plenitude da vida e do vigor humano. — S. Josemaría Escrivá [1].

Você já tinha lido de algum santo uma afirmação como essa sobre a idade de S. José? Pois bem, S. Josemaría tem bons motivos para afirmar que S. José era, na verdade, jovem quando se casou com Nossa Senhora — e ele não é o único que pensa assim.

A Igreja Católica não tem nenhum ensinamento formal ou oficial sobre a idade de S. José. Por isso, você é livre para crer que ele era um ancião quando se casou com Maria, se assim desejar. Mas você também é livre para crer que ele era jovem. Pessoalmente, eu acho muito difícil de acreditar que S. José era idoso. As demandas físicas de sua missão reduzem essa possibilidade a praticamente zero.

Se você considerar os títulos que a Igreja atribui a S. José em sua ladainha (Guardião do Redentor; Casto guardião da Virgem; Guardião das virgens; Modelo dos trabalhadores; Terror dos demônios etc.), eles indicam antes um jovem e forte S. José. Esses títulos não são descrições de um homem velho. Um homem velho é capaz de proteger virgens? Pode um idoso servir como modelo de trabalhador? É preciso força para ser um guardião, e saúde para ser um trabalhador. Pode um idoso fazer essas coisas? Como disse uma vez a Madre Angélica: “Homens idosos não caminham até o Egito”. Tampouco guardam qualquer coisa cuja custódia exija mobilidade e força. Sem dúvida, nada disso implica uma deficiência moral para os mais velhos. O mundo está cheio de incontáveis anciãos virtuosos, sábios e santos. Todavia, os idosos não são reconhecidos pela capacidade física de fazer as coisas que S. José, por exemplo, foi chamado a fazer pela Sagrada Família.

Sendo assim, por que a maior parte das obras de arte, ao longo dos séculos, retratou S. José como um ancião? O Venerável Fulton Sheen foi quem deu a melhor resposta a essa questão. Ele escreve:

S. José era jovem ou idoso? A maioria das imagens e retratos que nós vemos de S. José, hoje em dia, o representa como um idoso com barba grisalha, alguém que assumiu a guarda de Maria e de seu voto, com mais ou menos o mesmo desprendimento com que um médico pegaria uma menina em um berçário. Seja como for, nós não temos absolutamente nenhuma evidência histórica da idade de S. José. Alguns relatos apócrifos o descrevem como um homem velho; e os Padres da Igreja, após o quarto século, seguiram essa lenda de forma bastante rígida [...].

Mas, quando procuramos os motivos pelos quais a arte cristã deveria ter representado José como um idoso, nós descobrimos que era para melhor proteger a virgindade de Maria. De algum modo, a suposição de que a senilidade era uma melhor protetora da virgindade do que a adolescência prevaleceu. Então, inconscientemente, a arte fez de José um esposo casto e puro não pela virtude, mas pela idade. Entretanto, isso é quase como assumir que a melhor maneira de mostrar um homem que nunca roubaria é retratá-lo sem mãos [...].

Mas, mais do que isso, descrever José como um idoso sugere, para nós, um homem com pouca energia vital, ao contrário de um que, tendo muita energia, a manteve sob domínio por amor a Deus e por santos propósitos. Fazer S. José parecer puro apenas porque seu corpo envelheceu é como glorificar um riacho que secou. Mas a Igreja não vai ordenar ao sacerdócio um homem sem força vital. Ela quer homens que tenham alguma coisa para mortificar, e não homens “dóceis” sem energia para ser selvagens. E isso não deveria ser diferente com Deus.

Ademais, é razoável crer que Nosso Senhor preferiria para pai adotivo não alguém que tivesse sido forçado a isso, mas um que tivesse feito um sacrifício. Há ainda o fato histórico de que os judeus desaprovavam casamentos desproporcionais entre o que Shakespeare chamou de “idade da rabugice e juventude”; o Talmude admite matrimônios desproporcionais apenas para viúvos e viúvas. Por fim, não parece possível que Deus tenha unido uma mãe jovem, com cerca de dezesseis ou dezessete anos de idade, provavelmente, a um homem idoso. Se, aos pés da Cruz, Ele não se importasse em dar à sua Mãe o jovem João, por que, então, no berço, lhe teria dado um idoso?

Ora, o amor de uma mulher sempre define o modo como um homem ama: ela é a educadora silenciosa da sua força viril. Uma vez que Maria deve ser chamada de a “virginizadora” das mulheres e dos jovens, sendo também a maior inspiração da pureza cristã, ela não deveria, logicamente, ter começado por inspirar e virginizar o primeiro jovem com quem provavelmente se encontrou — José, o Justo? Não seria, portanto, diminuindo o poder de ele amar, mas elevando-o, que Maria teria a sua primeira conquista: a do seu próprio esposo, o homem que era um homem, e não um mero vigia senil.

José provavelmente foi um homem jovem, forte, viril, atlético, belo, casto e disciplinado. Em vez de um homem incapaz de amar, ele deve ter sido alguém ardendo em chamas de amor. Assim como daríamos pouquíssimo crédito à Mãe bendita se ela tivesse feito o seu voto de virgindade após cinquenta anos como uma solteirona, também não poderíamos dar muito crédito a José, se ele tivesse se tornado esposo de Maria apenas porque já era de idade avançada. As moças daqueles dias, do mesmo modo que Maria, faziam votos de amar somente a Deus; e assim o faziam também os rapazes, dentre os quais José era o mais proeminente, pelo que foi chamado o “justo”. Então, por exemplo, em vez de frutas secas para serem servidas à mesa do rei, ele foi antes uma flor cheia de promessa e vigor. Ele não estava no entardecer da vida, mas na manhã, fervendo de energia, força e paixão ordenada. Maria e José levaram para suas núpcias não apenas o voto de virgindade, mas também os dois corações com as maiores torrentes de amor que jamais percorreram entranhas humanas.

Quão mais belos Maria e José se tornam quando vemos em suas vidas o que pode ser chamado de o primeiro Romance Divino! Nenhum coração humano é tocado pelo amor de um velho por uma jovem; mas quem não é tocado pelo amor de um jovem por outra jovem? Em ambos, Maria e José, havia juventude, beleza e compromisso. Deus ama a vazão das cataratas e o barulho das cachoeiras, mas as ama mais ainda, não quando transbordam e afogam suas flores, mas quando são domadas e represadas para encantarem as cidades e matarem a sede de uma criança. Em Maria e José, por sua vez, nós não encontramos uma cachoeira represada e um lago seco respectivamente; mas, em vez disso, dois jovens que, antes de conhecer a beleza um do outro, desejaram submetê-la a Jesus. Portanto, inclinados sobre a manjedoura do Menino Jesus, não estão um idoso e uma jovem, mas dois jovens: a consagração da beleza na donzela e a entrega da fascinante fortaleza no homem [2].

Uau! Fulton Sheen é mesmo brilhante. Até onde sabemos, nenhuma outra pessoa, em toda a história da Igreja, formulou um argumento tão convincente sobre a juventude de S. José quanto Fulton Sheen. Como ele afirmou claramente, a teologia e a arte só descreveram S. José como um ancião para proteger a virgindade de Maria.

Agora, sejamos justos, a decisão de descrever José como um idoso a fim de resguardar a virgindade e a pureza de Maria, seja na pregação, nos escritos ou na arte, realmente funcionou. Como um exemplo extremo disso, um antigo texto copta sobre a vida de S. José o apresenta com 91 anos quando se casou com Maria. Todavia, todos os historiadores e teólogos reconhecem que as fontes que apresentam José como um idoso vêm de documentos apócrifos, isto é, não canônicos. E, além disso, basear-se em escritos apócrifos para sugerir uma idade a S. José leva à ideia de um sujeito velho, diminuindo sua virtude, importância e grandeza no pensamento dos cristãos. Não é de admirar, portanto, que tão poucas pessoas tenham prestado atenção em José ao longo dos séculos.

Quão drástica foi essa abordagem para S. José? Hoje em dia, ele raramente é incluído na formação sacerdotal sobre Cristologia, Mariologia, soteriologia ou eclesiologia. Logo o homem universalmente aclamado como o mais amoroso, justo, casto, prudente, corajoso, obediente e fiel de todos os homens não é mencionado nem mesmo nas aulas de teologia moral. Isso precisa mudar. Demos graças a Deus pela sabedoria e intuição de pessoas como S. Josemaría Escrivá, Madre Angélica e Fulton Sheen. A Igreja precisa re-apresentar aos seus filhos uma imagem de S. José que o descreva como forte, viril e jovem. Porque a apresentação constante dele como um homem velho deformou profundamente o nosso entendimento a respeito do maior de todos os santos (depois de Maria) que já caminhou sobre esta terra. É hora de recuperar S. José.

Agora, não leve isso a mal. O Senhor ama os idosos. Deus ama os anos de trabalho duro, serviço, dedicação pessoal e amoroso sacrifício de um homem. Sociedades calmas, justas e pacíficas repousam sobre os fundamentos estabelecidos por homens veteranos. Entretanto, aqueles homens construíram os fundamentos e os pilares da civilização quando eram jovens, não idosos. Provavelmente, os anos formativos de Jesus Cristo foram amorosamente dirigidos por um forte e jovem pai chamado José. Foi esse pai trabalhador, atencioso e virtuoso que lançou as bases para o crescimento e o desenvolvimento humano de Jesus Cristo. Se, por um lado, não há dúvida de que um idoso é tão capaz de ser santo quanto qualquer jovem, por outro, é necessário um pai forte e jovem para ensinar a um filho como brandir o machado, trabalhar com madeira, carregar lenha, caminhar grandes distâncias e ganhar a vida com o suor da testa.

Se mesmo os príncipes deste mundo consideram uma questão de suma importância escolher cuidadosamente um tutor adequado para seus filhos, pensem como o Deus Eterno, com toda a sua onipotência e sabedoria, não escolheria, dentre as suas criaturas, o homem vivente mais perfeito para ser o guardião de seu divino e glorioso Filho, o príncipe do Céu e da Terra? — S. Francisco de Sales [3].

O Bem-aventurado Guilherme José Chaminade defende uma ideia semelhante, mas ele olha para a masculinidade de S. José da perspectiva do matrimônio com Nossa Senhora. Ele escreve:

Se Deus tivesse encarregado você da honrosa tarefa de escolher, dentre os reis, um marido para a Bem-aventurada Virgem, você não teria dado a ela o que tivesse a maior inteligência do mundo? E se Ele tivesse mandado você escolher um dos santos, você não teria dado a ela o maior santo que já pisou a terra? Agora, você acha que o Espírito Santo, que é o autor deste matrimônio divino, se importa menos do que você em proporcionar a Maria um marido apropriado aos méritos dela? [4]

Isto faz muito sentido, certo? Claro que faz. S. José foi o marido amoroso de Maria, não um marido “aposentado”, incapaz de trabalhos manuais e de longas jornadas a pé. S. José era conhecido em Nazaré como o pai de Jesus, não como o avô de Jesus.

Sendo pai de Jesus, S. José foi um zeloso defensor e um forte protetor de seu Filho amado. S. José sacrificou tudo — inclusive o prazer do amor conjugal — para cumprir totalmente a sua missão de “Guardião da Virgem” e “Guardião do Redentor”. Aliás, quando papas e santos usam a palavra “guardião” em referência a S. José, eles o fazem de um modo mais do que simplesmente jurídico. Eles falam em um sentido de “proteção”, “paternidade” e “virilidade”. Um guardião é alguém forte não apenas na mente e no coração, mas também no físico. S. John Henry Newman fala da tutela de S. José da seguinte maneira: “Ele foi o querubim, colocado para proteger o novo paraíso terrestre da invasão de todos os inimigos” [5].

Um homem com a missão de guardar um território contra a invasão de qualquer inimigo precisa ser fisicamente forte, não um idoso de bengala. E como um poderoso querubim, dedicado à proteção e ao serviço da Rainha dos Anjos, José recebeu a tarefa de guardar o templo do corpo de Maria e, em particular, a sua virgindade. Por isso, o guardião de Maria tinha de ser jovem e forte, a fim de cumprir com sucesso a sua missão. Um idoso provavelmente não teria força para proteger a sua jovem esposa nem a resistência necessária para criar um filho bebê.

A masculinidade de S. José era um escudo protetor, uma capa protetora, para a Virgem Bendita. Nenhum homem ou fera podia causar qualquer dano à Virgem porque S. José mantinha-se atento e pronto para defendê-la, mesmo até a morte.

A nuvem que no Antigo Testamento cobria o tabernáculo é uma figura do casamento de José com a Virgem Bendita. “Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo” (Ex 40, 34). O casamento de José é um véu sagrado que cobre o mistério da Encarnação. Todo o mundo vê que Maria é uma mãe, mas apenas José sabe que ela é uma virgem. — Bem-aventurado Guilherme José Chaminade [6].

Como um jovem marido e pai, S. José modelou a masculinidade de seu Filho, Jesus. Todo garoto deveria ser capaz de olhar para seu pai a fim de entender o que significa ser um homem. Se S. José tivesse sido um idoso, acaso Jesus teria visto em seu pai qualquer força física ou verdadeiro amor, postos em prática por meio de uma castidade heroica, de trabalho duro e gestos corporais de piedade — ajoelhar-se, por exemplo? Se S. José fosse duas ou três vezes mais velho do que sua esposa, o que Jesus teria observado nele: cochilos da tarde e esquecimentos? De novo, não há nada de errado com a velhice. Envelhecer faz parte da vida humana. S. José mesmo envelheceu como acontece com todos os homens. Mas Deus Pai teria confiado a disciplina e a educação de seu Filho — o Leão de Judá e Rei dos Reis — a um velho e frágil homem? Provavelmente não.

O que, então, a Igreja e o mundo podem aprender da descrição de um S. José mais jovem — especialmente na teologia, na pregação, na literatura e na arte — é que homens jovens podem ser castos, heroicos e santos. De fato, a Igreja tem incontáveis exemplos de homens jovens que se mantiveram castos e puros por amor ao Reino dos Céus. E S. José foi o maior de todos eles. S. Josemaría Escrivá nos diz:

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pelo termo das energias. A castidade nasce do amor e, para um amor limpo, nem a robustez nem a alegria da juventude representam qualquer obstáculo. Jovem era o coração e o corpo de S. José quando contraiu matrimônio com Maria, quando soube do mistério da sua Maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria oferecer ao mundo, como um sinal mais da sua vinda às criaturas. Quem não for capaz de entender um amor assim, é porque conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade [7].

Na minha opinião, S. José foi um jovem marido, terno e amoroso com sua esposa, mas sempre casto, modesto e puro. Maria amava seu José. E o amor viril dele por ela era forte e sempre ordenado pela razão e pela fé. Suas forças viris, sempre mantidas sob controle e a serviço da vontade de Deus, fizeram dele o pai e o marido mais virtuoso que já caminhou sobre esta terra. Nenhuma mulher jamais teve um homem maior do que S. José.

Deus não teria dado a Santíssima Virgem como esposa a José, a menos que ele fosse santo e justo. Que pai sensato daria sua mais amada filha em casamento a um homem que não fosse moral e irrepreensível em sua posição e estado de vida? — S. Lourenço de Brindisi [8].

Então, o que você tem a ganhar com esta maravilha de S. José? Você é obrigado a acreditar que S. José era jovem? Não, não é. Mas você entende, ao menos com base nas exigências físicas que a missão teria inevitavelmente colocado sobre ele, por que faz mais sentido pensar que S. José era jovem, e não velho, quando se casou com Nossa Senhora? Seja como for, independentemente da representação de José que você preferir, saiba que José é seu amoroso, forte e destemido pai espiritual. Agradeça-lhe tudo o que ele fez, de forma amorosa e abnegada, por Jesus e nossa Mãe espiritual, Maria. Agradeça-lhe tudo o que ele faz por amor a você.

Eu te agradeço, ó santo patriarca José, porque nós, que não somos capazes de amar a Jesus e nossa Mãe Imaculada, sabemos e nos regozijamos pelo fato de que ao menos tu a amaste como ela merecia ser amada, a digna e verdadeira Mãe de Jesus. — Bem-aventurado Gabriele Allegra [9].

Referências

  1. S. Josemaría Escrivá. É Cristo que passa, cap. 5, n. 40.
  2. Venerável Fulton Sheen. The World’s First Love: Mary, Mother of God. San Francisco, CA: Ignatius Press, 1996, pp. 91-96.
  3. S. Francisco de Sales, apud Rosalie Marie Levy. Joseph the Just Man. Derby, NY: Daughters of St. Paul, 1955, p. 130.
  4. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. Marian Writings. Vol. 1, ed. J.B. Armbruster, SM. Dayton, OH: Marianist Press, 1980, p. 228.
  5. S. John Henry Newman, apud Maria Cecilia Baij, OSB. The life of St. Joseph .Asbury, NJ: 101 Foundation, Inc., 1996, p. 422.
  6. Bem-aventurado Guilherme José Chaminade. The Chaminade Legacy, Monograph Series, Document n. 53, vol. 2, Joseph Stefanelli, SM .Dayton, OH: NACMS, 2008, p. 411.
  7. S. Josemaría Escrivá. op. cit., cap. 5, n. 40.
  8. S. Lourenço de Brindisi. Opera Omnia: Feastday Sermons, trans. Vernon Wagner, OFM Cap. Delhi, India: Media House, 2007, p. 539.
  9. Bem-aventurado Gabriele Allegra. Mary's Immaculate Heart: A way to God .Chicago, IL: Franciscan Herald Press, 1983, p. 56.

Notas

  • Texto extraído de: Pe. Donald H. Calloway. Consecration to St. Joseph: The Wonders of Our Spiritual Father. Stockbridge: Marian Press, 2020, pp. 115-121.

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Três Ps que os homens precisam imitar em São José
Espiritualidade

Três Ps que os homens
precisam imitar em São José

Três Ps que os homens precisam imitar em São José

São José foi dado a todos como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dela provêm todas as outras virtudes que ele possui. Destas, porém, três são especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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“Não é por acaso”, eu disse a Miguel, “que toda igreja católica tem uma imagem de São José na frente” [1].

Miguel tinha vindo se confessar e buscar aconselhamento para superar seus fracassos como marido e pai. Ele foi pego na armadilha da pornografia e da ambição. Ele tomou algumas decisões fáceis, mas ruins. O estresse se acumulou e o apego ao trabalho começou a piorar. Miguel começou a negligenciar a relação com sua esposa e filhos — considerando-os um fardo e um incômodo. Por causa disso, sua esposa estava ameaçando pedir o divórcio. Miguel, então, veio me procurar porque a realidade o havia atingido como um banho de água fria.

“São José”, continuei, “nos é dado como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dessa fidelidade provêm todas as outras virtudes que ele possui”.

No Evangelho de São Mateus, São José é descrito como “um homem justo”. Outras versões traduzem o texto dizendo que ele era “fiel à Lei”. Em outras palavras, José se submeteu à lei de Deus, e foi essa obediência essencial e fidelidade à vontade de Deus que formou o alicerce de sua vida. São José viveu de fato aquele versículo do Evangelho que diz: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6, 33).

A fidelidade de São José, como pai adotivo de Jesus, deu origem a uma série de outras virtudes, mas há três, que vemos nas narrativas do Natal, especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

1. Pureza. — A primeira virtude que nasce da fidelidade de São José é a pureza. Numa época em que a pornografia e a imoralidade desenfreada propagam-se ao nosso redor, a pureza pode parecer passiva e covarde. Mas a pureza passiva e fraca não é uma virtude masculina. Em vez disso, a verdadeira pureza é forte. A verdadeira pureza está enraizada não apenas no ato de evitar o pecado sexual, mas numa fidelidade positiva e operante.

O homem fiel à esposa e ao chamado cristão à castidade percorre um caminho de liberdade e força. Uma pureza enraizada na fidelidade à vontade de Deus e ao caminho divino revela uma sexualidade totalmente madura e integrada. O homem viril e puro num sentido positivo compreende o impulso fecundo da sexualidade e o trata como uma força poderosa em sua vida — não simplesmente como um brinquedo, ou algo a ser temido e reprimido. Essa pureza positiva, em São José, estava presente na aceitação da Virgem Maria como sua esposa, na sua capacidade de se abster de relações sexuais com ela e na poderosa canalização de sua sexualidade para o serviço de um amor maior.

“O Sonho de São José”, por Antonio Palomino.

2. Paciência. — A segunda virtude que se desenvolve com a fidelidade de São José é a paciência. São José é um protótipo do homem forte e silencioso. Ele olha e espera. Observa a situação com atenção. Ele é capaz de parar, olhar e ouvir. Ele não reage impulsivamente, mas se contém, para poder agir com cuidado, no momento certo, após considerar todos os fatos.

A paciência de José cresce com a fidelidade, porque toda a sua vida esteve enraizada na lei de Deus. Por meio de uma vida de estudo e oração, um homem judeu da geração de José aprendia a ouvir a Deus, confiar nele e, depois, obedecer-lhe. Para desenvolver uma vida espiritual tão profunda são necessários trabalho árduo, perseverança e paciência — uma virtude que vemos em seu cuidadoso zelo com Maria e o Menino Jesus, e que precisamos desenvolver em nosso mundo altamente sobrecarregado, impulsivo e acelerado.

3. Prudência. — A terceira virtude erigida sobre o alicerce da fidelidade de São José é a prudência, que consiste no discernimento sábio e cuidadoso que nos permite escolher o caminho certo. Constata-se a prudência de São José quando ele encontra abrigo para Maria, que estava prestes a dar à luz. Também a sua escolha de fugir para o Egito e retornar apenas quando fosse seguro revela um guardião de Cristo prudente, maduro e sábio. Mais uma vez, a virtude da prudência de São José está enraizada em sua fidelidade, porque sua profunda confiança na providência de Deus o capacita a correr riscos e fazer as escolhas certas, sabendo que Deus cuida de tudo.

A narrativa do Natal é maravilhosa não apenas porque está carregada de elementos sobrenaturais, como um nascimento milagroso, anjos e uma estrela-guia, mas também porque está repleta da força extraordinária de pessoas ordinárias como São José. A pureza, a paciência e a prudência que ele demonstra são um lembrete para pessoas como Miguel, que estão lutando com as responsabilidades do casamento e da paternidade. O casamento dele estava uma bagunça porque ele carecia de pureza, paciência e prudência; e ele não tinha essas virtudes porque lhe faltava primeiro aquela profunda fidelidade a Deus, da qual essas virtudes se originam. Quando fui capaz de orientá-lo a redefinir as prioridades de sua vida e a desenvolver uma devoção genuína a São José, começamos a ver essas mesmas virtudes florescerem na vida dele e sua vida familiar começou a tomar a direção certa.

As festividades de Natal, que acabamos de viver, são uma oportunidade não apenas para encher a barriga e reunir a família e os amigos [2]. Precisamos também redefinir nossas prioridades, determinar mais uma vez que edificaremos nossa casa sobre o alicerce de Cristo e, a exemplo de São José, assegurar que toda a nossa vida gire em torno do Menino que está sobre a manjedoura.

Notas

  1. Embora seja frequente a presença de imagens de São José nas igrejas, infelizmente não são todas que a possuem. Em todo o caso, entende-se a colocação do autor no sentido de que “deveriam ter”, visto ser ele o Patrono da Igreja Católica. Além disso, o padre fala a partir do contexto dos Estados Unidos, onde ele mora.
  2. Sobre a importância de estender as comemorações do tempo do Natal, cf. Peter Kwasniewski, Até quando devemos festejar o Natal?.

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Novena a São João Bosco
Oração

Novena a São João Bosco

Novena a São João Bosco

Esta novena a São João Bosco pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Esta novena a São João Bosco, “pai e mestre da juventude”, pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica. 

O texto abaixo encontra-se relativamente difundido na internet. Nossa equipe ficou responsável apenas por revisá-lo e organizá-lo melhor. A novena, em si, divide-se em três partes: 1.º, uma inicial, a ser feita todos os dias; 2.º, uma própria do dia; e, 3.º, uma última, também comum a todos os dias. Quem preferir, também pode acessar a novena neste arquivo .pdf.


Oração Inicial
(todos os dias)

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Vinde Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. 

℣. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado,
℟. E renovareis a face da terra.

Oremos: Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis
com a luz do Espírito Santo,
fazei que apreciemos retamente todas as coisas,
segundo o mesmo Espírito,
e gozemos sempre da sua consolação.
Por Cristo Senhor Nosso. Amém.

Oração a Dom Bosco

Ó Glorioso São João Bosco,
quando estáveis nesta terra,
não havia ninguém que, acudindo a vós,
não fosse por vós mesmo
benignamente recebido, consolado e ajudado.
Agora no céu, onde a caridade atinge a perfeição,
quanto deve arder vosso grande coração
em amor aos necessitados!
Vede, pois, as minhas presentes necessidades
e ajudai-me, obtendo-me do Senhor a graça...
(pede-se a graça).
Também vós haveis experimentado durante a vida
as privações, as enfermidades, as contradições,
a incerteza do porvir, as ingratidões, as afrontas,
as calúnias, as perseguições e sabeis que coisa é sofrer.
Por isso, ó Dom Bosco santo,
volvei até mim vosso bondoso olhar
e obtende do Senhor quanto vos peço,
se for vantajoso para minha alma;
e se assim não o for, obtende alguma outra graça
que me seja ainda mais útil
e uma conformidade filial à divina vontade
em todas as coisas,
ao mesmo tempo que uma vida virtuosa
e uma santa morte. Amém.


Primeiro Dia

“Quereis que o Senhor vos conceda muitas graças? Visitai-o frequentemente. Quereis que Ele vos conceda poucas? Visitai-o raramente.”

Glorioso São João Bosco, pelo amor ardente que tivestes a Jesus Sacramentado e pelo zelo com que propagastes seu culto, sobretudo com a assistência da Santa Missa, com a Comunhão frequente e com a visita cotidiana ao Santíssimo Sacramento; alcançai-nos a graça de crescer cada vez mais no amor e na prática de tão santas devoções, e de terminar nossos dias fortalecidos e confortados pelo celestial alimento da Divina Eucaristia.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Segundo Dia

“Quem confia em Maria nunca ficará desiludido”

Glorioso São João Bosco, pelo amor que tivestes à Virgem Auxiliadora, vossa mãe e mestra; alcançai-nos uma verdadeira e constante devoção a tão dulcíssima mãe, a fim de que, como filhos seus devotíssimos, possamos merecer seu valioso patrocínio nesta vida e de um modo especial na hora de nossa morte.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Terceiro Dia

“A oração é o primeiro alimento, como o pão é o alimento do corpo. Há que rezar com uma ilimitada esperança de ser ouvidos”

Glorioso São João Bosco, pelo amor filial que tivestes à Santa Igreja e ao Sumo Pontífice, a quem defendestes constantemente; alcançai-nos a graça de ser sempre dignos filhos da Igreja Católica, e de amar o Papa e venerar nele a infalibilidade de Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quarto Dia

“Em cada manhã entregai a Deus as ocupações do dia; e fazei cada coisa como se fosse a última da vossa vida”

Glorioso São João Bosco, pelo grande amor com que amastes a juventude, fazendo-se pai e mestre dela, e pelos heroicos sacrifícios que fizestes por sua salvação; fazei que também nós amemos com um amor santo e generoso a esta porção eleita do Sagrado Coração de Jesus, e que em todo jovem contemplemos a pessoa adorável de nosso divino Salvador.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quinto Dia

“A oração faz violência ao coração de Deus”

Glorioso São João Bosco, vós que, a fim de continuar a estender sempre mais vosso santo apostolado, fundastes a Sociedade Salesiana e o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora; fazei que os membros destas duas famílias religiosas estejam sempre cheios de vosso espírito e sejam fiéis imitadores de vossas heroicas virtudes.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sexto Dia

“Dom Bosco, em sua vida, jamais será capaz de afastar quem lhe peça para ficar com ele”

Glorioso São João Bosco, vós que a fim de obter no mundo mais abundantes frutos de exercício da fé e de terníssima caridade, instituístes a União dos Cooperadores Salesianos; fazei que estes sejam sempre modelos das virtudes cristãs e providenciais ajudantes de vossas obras.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sétimo Dia

“Ajude sempre os seus colegas. Mesmo que lhe custe sacrifício. A santidade está toda aqui”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com amor inefável a todas as almas, e que para salvá-las enviastes vossos filhos até os últimos confins da terra; fazei que também nós pensemos continuamente na salvação de nossas almas e cooperemos com todos os meios possíveis para salvar tantos pobres irmãos nossos.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Oitavo Dia

“Amem muito a castidade. Lembrem-se, para conservá-la é precioso trabalhar e rezar.”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com um amor de predileção a bela virtude da pureza, e a tomastes como exemplo, com a palavra e com os escritos; fazei que também nós, enamorados de tão indispensável virtude, a pratiquemos constantemente e a difundamos com todas nossas forças.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Nono Dia

“Quem perseverar até o fim, será salvo”

Glorioso São João Bosco, vós que fostes sempre tão compassivo com as humanas desventuras, dirigi um olhar a nós, tão necessitados de vosso auxílio. Fazei descer sobre nós e sobre nossas famílias as maternais bênçãos de Maria Auxiliadora; alcançai-nos todas aquelas graças espirituais e temporais de que necessitamos: intercedei por nós na vida e na morte, a fim de que possamos cantar eternamente as divinas misericórdias no Paraíso Celestial.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.


Oração Final
(todos os dias)

Deus, qui sanctum Joánnem Confessórem tuum
adolescéntium patrem et magístrum excitásti,
ac per eum, auxiliatríce Vírgine María,
novas in Ecclésia tua famílias floréscere voluísti:
concéde, quǽsumus;
ut, eódem caritátis igne succénsi,
ánimas quǽrere, tibíque soli servíre valeámus.
Per Dóminum nostrum Iesum Christum, Filium tuum:
Qui tecum vivit et regnat
in unitáte Spíritus Sancti, Deus:
per omnia sǽcula sǽculorum. ℟. Amen.

Ó Deus, que suscitaste São João, vosso Confessor,
como pai e mestre dos jovens
e por ele, auxiliado pela Virgem Maria,
quisestes florescessem novas famílias em vossa Igreja,
concedei, vos rogamos,
que, inflamados pelo mesmo fogo da caridade,
busquemos as almas
e a vós somente sirvamos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que convosco vive e reina
na unidade do Espírito Santo. ℟. Amém.

Oração a Nossa Senhora Auxiliadora
(composta por São João Bosco)

O Maria, Vergine potente,
Tu grande illustre presidio della Chiesa;
Tu aiuto meraviglioso dei Cristiani;
Tu terribile come esercito schierato a battaglia;
Tu sola hai distrutto ogni eresia in tutto il mondo;
Tu nelle angustie, nelle lotte, nelle strettezze
difendici dal nemico e nell'ora della morte
accogli l'anima nostra in Paradiso!
Amen.

Ó Maria, Virgem poderosa,
vós, grande e ilustre defensora da Igreja;
vós, Auxílio maravilhoso dos cristãos,
vós, terrível como um exército em ordem de batalha;
vós, que, sozinha, destruístes toda heresia no mundo inteiro;
nas angústias, nas lutas, nas aflições,
defendei-nos do inimigo;
e, na hora da morte,
acolhei a nossa alma no Paraíso!
Amém.

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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