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Diálogo de uma freira com um livre pensador
Espiritualidade

Diálogo de uma freira
com um livre pensador

Diálogo de uma freira com um livre pensador

“Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos… Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!”

Carlos de Laet14 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Entrevista… que com uma freira de certo convento, prestes a ser profanado, teve um jornalista que se julga livre-prosador.

O que se vai ler é o diálogo ultimamente travado entre uma freira, abadessa ou priora de certa comunidade, nesta capital, e um jornalista que entendeu oportuno entrevistá-la.

Freira — Diz o senhor que tem qualquer cousa a tratar comigo. Pode falar. 

Jornalista — Reverenda madre, eu quisera obter informações que me habilitassem a escrever com acerto sobre o seu convento, e dele dar ao público uma notícia que não se apartasse da verdade. 

F. — Notícia ao público! E que temos nós com o vosso público, isto é, com o mundo de que voluntariamente nos afastamos, cortando até mesmo os laços de família que a ele nos prendiam?

J. — Não ignoro que menosprezais o mundo, mas não é menos certo que ele vos não menospreza e que se ocupa convosco. Vossa existência murada é um incentivo para a curiosidade. Por trás das chapas e das grades farejamos uns mistérios que ardemos por descobrir. Neste século de publicidade tendes o atrativo do que se recata e esconde. Natural é, pois, a trêfega indagação que ao redor desta casa vagueia, e da qual nós, os homens de imprensa, somos os órgãos naturais. Não seria, pois, preferível dizer-lhes logo o que é, por não deixarmos lugar a conjecturas talvez errôneas e nocivas?

“Visita de família a uma jovem religiosa carmelita”, de Jan Swerts.

F. — Se assim é como dizeis, o que de melhor poderíeis fazer seria explicar-lhe, ao vosso público, que por trás destes muros e nesta associação religiosa não há outros mistérios senão os da nossa religião, exarados no catecismo. Como vivemos e o que fazemos consta, outrossim, da nossa regra monástica, que muitas vezes se tem publicado.

J. — O público, ou, se preferir, o mundo não pode compreender por que, quando em torno de vós tudo se move e se agita, assim persistis na imobilidade do claustro.

F. — Não me pareceis lógico afirmando a nossa imobilidade, quando há pouco parecíeis de todo ignorar qual o nosso gênero de vida; e singularmente vos enganais acreditando que vivemos ociosas. Ainda mesmo supondo que não trabalhemos materialmente, o que não é bem verdade, ainda assim grande e importante seria a nossa tarefa. As mãos que se erguem para o céu fazem um imenso trabalho: não foi um santo, mas um dos vossos, Victor Hugo, quem o escreveu nos Miseráveis.

J. — Muito folgo, reverenda madre, que me citeis, não padres da Igreja, que não leio, mas pensadores profanos, o que mostra que os tendes lido, ao menos alguns, e isto nos abre um terreno, conhecido por nós ambos e em que sem constrangimento nos poderemos encontrar.

F. — Antes de professar li o que intitulais pensadores profanos, e estimo que isso vos traga qualquer vantagem para nos entendermos. Permiti, porém, que assinale uma das vossas fraquezas habituais. De ordinário, em vossa profissão de jornalista, quando, por exemplo, tendes de atacar a administração militar, procurais livros e autores que especialmente se ocupem da matéria. Tratados de ciência naval não faltariam na vossa biblioteca se tivésseis de escrever sobre marinha… Mas como é que todos discutis assuntos religiosos, sem conhecer ao menos os rudimentos da fé e da disciplina católica? Não falaríeis, certamente, sobre a literatura francesa do século décimo oitavo sem leitura de Voltaire; e vós mesmos, que vos propondes escrever sobre a vida monástica, jamais tendes lido um dos bons tratadistas que vos diriam o que ela seja!

J. — De boa mente confesso que aí não vos falta alguma razão, desde que a censura se dirija a mim, ou a qualquer outro publicista de penúltima classe; mas não acredito que seja fundada em relação aos verdadeiros cientistas.

F. — Haeckel, verbi gratia, o emérito propugnador do monismo, não o tendes por cientista às direitas? Pois bem, ainda outro dia ele assombrava o mundo religioso, revelando, em uma polêmica, a mais estupenda ignorância dos dogmas católicos, por isso que confundia a Encarnação do Verbo com a Imaculada Conceição de Maria. Os vossos governos, aliás, fomentam essa ignorância, proibindo que em país de católicos se ensine a doutrina católica.

J. — Isto se faz para assegurar a liberdade de consciência.

F. — Perdão: então não apanhastes o meu argumento, ou antes fui eu quem não se fez compreender. O que digo é que, independentemente de qualquer intimativa, coação ou sedução religiosa, a doutrina cristã deveria ser ensinada em vossas escolas como elemento essencial e indispensável para a compreensão da atual ordem de cousas, da civilização ambiente. Que fazeis para entender a vida grega e romana? Ler e reler a Cité Antique, de Fustel de Coulanges, ou qualquer outro autorizado especialista. Em Constantinopla, nada entenderíeis da cidade otomana e de seus usos, se de todo estranho vos fosse o Alcorão. Pois bem! viveis em uma sociedade católica — eis o fato — e sonegais aos vossos alunos o único livro que lho poderia explicar.

J. — Percebo agora, reverenda madre, a força de vosso raciocínio, e não vos negarei que, conquanto especioso, não acho de pronto com que o refutar. E igualmente vos dou o parabéns pela agudeza dialética que exibis e que, com franqueza, não pensava encontrar neste retiro, onde fora de supor que no misticismo se embotasse o gume da razão. 

F. — A devoção mais fervorosa não é incompatível com o cultivo das letras; e, se acaso vos não tivera esquecido a história literária, bem presente vos seria a nossa matriarca Santa Teresa de Jesus, cujas obras ao mesmo tempo exornam a literatura sacra e enaltecem a prosa e a poesia espanholas do século décimo sétimo.

J. — Teresa de Cepeda e Ahumada foi, reverenda madre, um poderoso engenho sobreexcitado pela histeria, e que, excepcional em tudo, não pode ser trazido como regra.

F. — Nem eu vos digo que Santa Teresa deva ser tomada por espécime comum da intelectualidade monástica; da mesma sorte que para espécime da vossa inteligência há fora, no mundo, erradamente se apontariam extraordinários intelectos. Na canonização de Santa Teresa, em 1622, Cervantes compôs uma ode, que foi lida por Lope de Vega. Ora, entre vossos romancistas e dramaturgos não vejo quem com esses dois vultos possa suportar o confronto.

J. — Está bem, reverenda madre, e peço que a mal não tomeis aquilo que me escapou no tocante à histeria: falo como homem do meu século, ao qual repugna o sobrenatural.

F. — Duplo engano, meu filho. Em primeiro lugar não há confundir histeria com o que chamais a exaltação da nossa santa. Vossos hospitais estão cheios de histéricas, e é singular que lá esse estado nervoso só conduza a disparates e loucuras, ao passo que na monja incomparável tão acima se elevou das melhores capacidade contemporâneas. Sei que há uma escola, ou antes um grupo, para o qual todo gênio é uma enfermidade mental. Napoleão foi um epiléptico… Quero crer que o perfeito equilíbrio mental seja para esses tais a mais pacata mediocridade; e neste sentido lhes concedo que hoje tantos se exibam perfeitamente equilibrados.

J. — Este seria o meu primeiro erro; e o segundo…

F. — O segundo é supordes que ao vosso século repugna o sobrenatural. Pura ilusão! Sobrenatural e preternatural (que não são o mesmo) coexistem convosco, e neles estais e viveis imersos. O milagre permanente de Lourdes desafia todos os dias os vossos cientistas, que, não podendo negar os fatos, só têm para explicá-los uma palavra: — sugestão. O preternatural? Mas acaso ignorais que nesta cidade, quotidianamente, se evocam mortos, e milhares de pessoas, aos torvos de espíritos que por eles se apresentam, pedem o segredo da saúde e o da felicidade terrena, com sacrifício da futura? Nunca, eu vo-lo asseguro, nunca tão impregnado de sobrenatural e de preternatural esteve quanto agora o gênero humano. Nesta crise de fé, Deus amiúda os milagres, e para derribar a inconsistente fábrica do materialismo estavam reservadas aos nossos tempos as experiências dos ocultistas.

J. — Consenti, reverenda madre, que vos observe estarmos já muito longe do objeto que me induziu a importunar-vos. Não me dais licença para visitar agora o convento?

Uma monja carmelita francesa em sua cela, 1904.

F. — Não. Vê-lo-eis depois, quando o tivermos deixado aos profanadores que dele vão fazer um hotel, segundo ouço dizer [1]. Onde se rezava, há de haver festins e dissoluções… Tanto pior para vós! Nós continuaremos ociosas, como dizeis, ou trabalhando, como dizia Victor Hugo, com mãos e olhos alçados para o céu, que é donde baixa a complacência para os que oram e a misericórdia para os que pecam.

J. — Não receais que, mal guiada por vossos inimigos, a opinião se transvie a vosso respeito?

F. — A opinião? Não a conhecemos nem a tememos. Costumais lamentar, e quero crer que sinceramente, a privação de liberdade que nos impusemos… Mas acabais de proferir o nome de um tirano a cujo domínio estamos subtraídas: — a opinião. Dela tremeis todos, desde o primeiro magistrado da República até o último cidadão: e nós impassíveis a afrontamos, melhormente eu diria — nem sequer a avistamos. Morrem às nossas portas essas ondas lodosas que chamais escândalo. Nossos caluniadores, não podemos pessoalmente amá-los, pois não sabemos quem sejam, mas todos os dias rezamos por eles, de ordem expressa de Jesus: Orai pelos que vos perseguem e caluniam.

J. — Mas, se indiferente vos pode ser o aleive em circunstâncias normais, haveis de convir que em quadras agitadas ele pode motivar o esbulho, o desacato, a violência…

F. — Escutai, meu filho. Quando o sacrifício se faz martírio, tanto maior a graça de Nosso Senhor. Lede a história da revolução francesa, e lá encontrareis, em um dos capítulos do terror, a execução das carmelitanas de Compiègne. Morreram contentes, entoando o Te Deum. A priora, uma nobre velha, reservara-se para o fim, não por prolongar de minutos a existência, mas para confortar com sua presença as mais novas, entre as quais algumas na flor da juventude. Morreram todas como os mais bravos dentre os homens! Se em uma de vossas revoluções, que tão amiúde se sucedem, alguma se lembrar de nos bater à porta, achar-nos-á junto do altar; e deste para o céu o caminho é curto, ainda que seja através do apupo e do martírio.

J. — Ninguém, felizmente, em nossa terra, reverenda madre, pensa em prejudicar-vos e menos ainda em perseguir-vos. A tolerância é um dogma da verdadeira democracia…

F. — Sei disso… Vós, por ora, nos tolerais como quem tolera o vício ou o desvairo das ruins paixões. Seja como for, será o que Deus quiser! Se nos tolerardes, como nos Estados Unidos, havemos de conquistar mansa e irresistivelmente as consciências; se nos perseguirdes, como na França e em Portugal, por nós clamarão, diante de Deus, a ignomínia e os sofrimentos a que nos submeterdes.

J. — Mais ou menos o que havemos dito formaria um artigo interessante, pela pintura de dois estados d’alma tão diversos quanto o vosso e o meu. Não haveria, talvez, mal em publicá-lo… E, neste caso, não me fixareis algum ponto, que particularmente desejareis que se soubesse?

F. — Sim. Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos — aos que nos defendem e protegem, bem aos que nos injuriam e detraem… Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!

Notas

  1. Segundo indica este trecho, o convento onde se teria dado este suposto diálogo seria o da Ajuda, em cujo terreno foi construída a atual Cinelândia, no Rio de Janeiro (Nota do autor).

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Orações para a Quaresma de São Miguel
Oração

Orações para a
Quaresma de São Miguel

Orações para a Quaresma de São Miguel

A todos que praticam a devoção da Quaresma de São Miguel, a começar neste dia 15 de agosto, oferecemos a seguir um roteiro com várias preces a esse Arcanjo, invocado em toda a Igreja como príncipe das milícias celestes.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É costume que a Quaresma de São Miguel seja rezada diariamente, entre 15 de agosto e 29 de setembro, quando se celebra a festa deste Santo Arcanjo [1]. Mas ela também  pode ser feita em qualquer outra época do ano, por um período de 40 dias. 

Por se tratar de uma devoção privada, os fiéis que a praticam são livres para adotar as orações de sua preferência. As preces a seguir são mais uma sugestão de roteiro do que um rito fixo e imóvel, e costumam ser rezadas em frente a uma escultura ou estampa de São Miguel, e com uma vela benta acesa em sua honra. Também é hábito que se una a essas orações a prática de alguma penitência especial ao longo de toda a quarentena.

Aos que praticam essa devoção em família, talvez valha a pena baixar este arquivo em formato .pdf, com as orações em latim e português, e fazer uma impressão dele para esses dias. 

Aos que desejarem conhecer mais e melhor essa prática, sua origem e seu significado espiritual, recomendamos que assistam aos dois episódios seguintes, do programa “Ao vivo com Pe. Paulo”, justamente sobre esse tema: 


1. Sinal da cruz. — Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

2. Pequeno exorcismo de Leão XIII. — São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos; e vós, príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

3. Ladainha de São Miguel Arcanjo (versão latina aqui):

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, Rainha dos Anjos, rogai por nós.
São Miguel, rogai por nós.
São Miguel, cheio da graça de Deus, rogai...
São Miguel, perfeito adorador do Verbo Divino,
São Miguel, coroado de honra e de glória,
São Miguel, poderosíssimo príncipe dos exércitos do Senhor,
São Miguel, porta-estandarte da Santíssima Trindade,
São Miguel, guardião do Paraíso,
São Miguel, guia e consolador do povo israelita,
São Miguel, esplendor e fortaleza da Igreja militante,
São Miguel, honra e alegria da Igreja triunfante,
São Miguel, luz dos anjos,
São Miguel, baluarte dos cristãos,
São Miguel, força daqueles que combatem pelo estandarte da cruz,
São Miguel, luz e confiança das almas no último momento da vida,
São Miguel, socorro muito certo,
São Miguel, nosso auxílio em todas as adversidades,
São Miguel, arauto da sentença eterna,
São Miguel, consolador das almas que estão no Purgatório,
São Miguel, a quem o Senhor incumbiu de receber as almas depois da morte,
São Miguel, nosso príncipe,
São Miguel, nosso advogado, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós

Rogai por nós, ó glorioso São Miguel, príncipe da Igreja de Cristo,
para que sejamos dignos de suas promessas.

Oremos: Senhor Jesus, santificai-nos por uma bênção sempre nova e concedei-nos, pela intercessão de São Miguel, essa sabedoria que nos ensina a ajuntar riquezas do céu e a trocar os bens do tempo presente pelos da eternidade. Vós que viveis e reinais em todos os séculos dos séculos. Amém.

4. Consagração a São Miguel Arcanjo. — Ó Príncipe nobilíssimo dos Anjos, valoroso guerreiro do Altíssimo, zeloso defensor da glória do Senhor, terror dos espíritos rebeldes, amor e delícia de todos os Anjos justos, meu diletíssimo Arcanjo São Miguel, desejando eu fazer parte do número dos vossos devotos e servos, a vós hoje me consagro, me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence, debaixo da vossa poderosíssima proteção. 

É pequena a oferta do meu serviço, sendo como sou um miserável pecador, mas vós engrandecereis o afeto do meu coração; recordai-vos que de hoje em diante estou debaixo do vosso sustento e deveis assistir-me em toda a minha vida e obter-me o perdão dos meus muitos e graves pecados, a graça de amar a Deus de todo coração, ao meu querido Salvador Jesus Cristo e a minha Mãe Maria Santíssima.

Obtende-me aqueles auxílios que me são necessários para obter a coroa da eterna glória. Defendei-me dos inimigos da alma, especialmente na hora da morte. Vinde, ó príncipe gloriosíssimo, assistir-me na última luta e com a vossa arma poderosa lançai para longe, precipitando nos abismos do inferno, aquele anjo quebrador de promessas e soberbo que um dia prostrastes no combate no Céu. 

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no supremo juízo.

5. Oração final. — Levanta-se Deus, pela intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e todas as milícias celestes; sejam dispersos os seus inimigos e fujam de sua face todos os que o odeiam. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

6. Oração “Augusta Rainha”. — Augusta Rainha dos céus, soberana mestra dos Anjos, Vós que, desde o princípio, recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, nós vo-lo pedimos humildemente, enviai vossas legiões celestes para que, sob vossas ordens, e por vosso poder, elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte, reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo. Quem é como Deus? Ó Mãe de bondade e ternura, Vós sereis sempre o nosso amor e a nossa esperança. Ó Mãe divina, enviai os Santos Anjos para nos defenderem, e repeli para longe de nós o cruel inimigo. Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos. Amém.

Notas

  1. Na liturgia atual, S. Gabriel e S. Rafael também são celebrados no dia 29 de setembro, quando se encerra essa devoção. Mas vale a pena recordar, aos amantes do rito tradicional, que no calendário antigo os três arcanjos eram festejados separadamente: Gabriel em 24 de março, véspera da Anunciação, e Rafael em 24 de outubro (ambas festas de 3.ª classe, o equivalente às nossas memórias). São Miguel manteve o dia 29 de setembro, mas antes era honrado com uma festa de 1.ª classe (o equivalente às nossas solenidades).

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A banda que foi “mais popular do que Jesus”
Sociedade

A banda que foi
“mais popular do que Jesus”

A banda que foi “mais popular do que Jesus”

No auge do sucesso dos Beatles, John Lennon declarou, sem medo de errar: “Agora nós somos mais populares do que Jesus”. E, de certo modo, ele não estava errado… Mas qual é o preço da popularidade que o mundo dá?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em março de 1966, durante uma entrevista, o músico John Lennon, dos Beatles, afirmou: “O cristianismo irá acabar. Ele desaparecerá e encolherá. Eu não preciso discutir isso; estou certo e isso ficará provado. Agora nós somos mais populares do que Jesus…”

Como se sabe, suas afirmações repercutiram muitíssimo mal na ocasião: no sudeste dos Estados Unidos, de forte penetração protestante, algumas estações de rádio pararam de tocar músicas dos Beatles e discos da banda foram publicamente queimados. 14 anos depois, em Nova Iorque, a própria morte de John Lennon seria tragicamente associada a esse episódio: seu assassino alegou razões religiosas para o injustificável crime e chegou a citar, em uma entrevista posterior, a polêmica frase do cantor britânico.

Os Beatles.

O fato é que, de certo modo, Lennon não estava errado. A afirmação de que o cristianismo desapareceria foi muito pretensiosa, sem dúvida — e no fim foram os Beatles que não duraram muito tempo —, mas o “encolhimento” da fé era um drama que já se desenrolava a olhos vistos aquela época. Apenas alguns anos mais tarde, mas na mesma década, um homem que depois viria a tornar-se Papa repetiria em essência a mesma “profecia”: “A Igreja diminuirá de tamanho”, disse o então jovem sacerdote Joseph Ratzinger. E foi o que aconteceu.

A popularidade dos Beatles em relação à de Cristo também tem a sua verdade. Principalmente se se leva em conta que, ao contrário dos artistas modernos, que se apresentam em palcos e congregam multidões em torno de si para fazer uma performance, Nosso Senhor ia por um caminho muito diferente, com o que o adjetivo “popular” não seria o mais apropriado para descrevê-lo.

Para demonstrar como não era essa a intenção de Jesus, basta folhear (sem ceticismo e preconceitos materialistas, é claro) as páginas dos Santos Evangelhos. De sua impopularidade e absoluta despretensão nesse sentido dão testemunho sua vida oculta até os 30 anos; seu pedido, aos que eram agraciados com milagres, para que não contassem nada do que viram a ninguém; sua recusa em “voltar atrás” quando palavras mais duras desagradavam e faziam muitos irem embora; e, por fim, prova-o de modo máximo a sentença final de sua vida, pronunciada pelo próprio povo da época, que o condenou à morte numa cruz enquanto clamava por Barrabás. Se era para ser popular aos moldes do mundo, ali o “plano” de Cristo teria fracassado definitivamente.

É claro que, depois de morto, Nosso Senhor ressuscitou e mandou que seus discípulos ensinassem pelo mundo inteiro as coisas que dele haviam aprendido, e aí, sim, o cristianismo se fez “popular”. Se observarmos porém o modo como se disseminou o Evangelho — numa época em que o homem sequer sonhava em inventar a TV e os outros meios de comunicação de que hoje dispomos —, essa popularização se revelará aos nossos olhos muito mais admirável do que o fenômeno de qualquer banda moderna de rock n’roll (ou seja lá qual for o gênero musical de sua preferência). Santo Tomás de Aquino o expõe de forma brilhante ao defender, contra os pagãos, o caráter sobrenatural da fé cristã:

Os segredos da sabedoria divina, ela mesma — que conhece tudo perfeitamente — dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes. Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou ações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, ressurreição dos mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência.

Depois de termos considerado tais fatos, acrescente-se agora, para confirmação da eficácia dos mesmos, que uma enorme multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, acorreu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, nem pela promessa de prazer, mas também — o que é maravilhoso — sofrendo a perseguição dos tiranos. Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina… (Summa contra gentiles, I, 6).

Essa reflexão de cunho simplesmente racional que o Doutor Angélico escreveu há quase 800 anos tem o poder de abrir os olhos aos incrédulos ainda hoje; poderia ter convencido, quem sabe, o próprio sr. Lennon...

“Cristo cravado na cruz”, de Vincenzo Campi.

Como um homem que morreu crucificado, numa região relativamente afastada do mundo antigo, e que reuniu em torno de si doze pobres discípulos, com pouquíssima erudição — dos quais apenas um permaneceu aos pés de sua Cruz —, pôde conquistar tantas pessoas, em tempos e lugares diversos, e ainda por cima contra todas as expectativas humanas, contra todos os apelos naturais dos sentidos? Ou seja, Jesus fez seguidores sem prometer a ninguém nem poder nem prazer nem riquezas materiais. Tampouco veio para encantar os homens com canções ou apresentações artísticas: a melodia divina que saía de seus lábios, por assim dizer, tinha as notas dissonantes de sua agonia no Horto e de um chamado insólito a que os homens tomassem a própria cruz para segui-lo. “Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto”... só por milagre mesmo poderia acontecer, e dos grandes.

Contra essa maravilha sobre a qual, infelizmente, não meditamos o suficiente, está o moderno fenômeno das massas hipnotizadas com bandas de rock, duplas sertanejas e DJs. Em um só show, esses artistas conseguem reunir muito mais pessoas do que Nosso Senhor reuniu em torno de si durante toda a vida. Na verdade, em uma só live, dentro de suas próprias casas, esses músicos conseguem congregar em frente a TVs, computadores e dispositivos móveis multidões inimagináveis para qualquer outra época da história humana. Depois dos Beatles, de fato, quantos mais não poderiam gabar-se de ser “mais populares do que Jesus”, à vista da fama e do sucesso que fazem? 

E no entanto o que geralmente move as pessoas a quase idolatrar essas personalidades senão o apelo aos sentimentos mais baixos do ser humano? É muito fácil seduzir as multidões com o iê-iê-iê, quando é justamente o iê-iê-iê o que elas querem. Difícil é apresentar aos homens a verdade nua e crua que se esconde em seu interior, repreender-lhes o pecado e mandar que mudem de vida, e ser seguido mesmo assim ao longo dos séculos. 

Não, o entusiasmo com o Evangelho nem de longe se compara ao frenesi com que as fãs dos Beatles assistiam aos seus concertos. Mas é que a atração que o Deus feito homem exerce sobre os corações não é como o furacão, o terremoto ou o fogo… O Deus todo-poderoso, podendo arrasar qualquer que seja o lugar por onde passe, prefere esconder-se na brisa ligeira e pedir o silêncio do homem para fazer-se ouvir (cf. 1Rs 19, 11–12); ao invés de palcos, microfones e alto-falantes, Ele prefere revelar-se no humilde casebre de Nazaré e soprar lenta e gradualmente ao longo da história, convocando um exército de adoradores que em número pode até ser subestimado, mas não em qualidade.

Olhando tudo isso à luz da vida eterna, importa-nos concluir dizendo que esta é, verdadeiramente, a única glória e “popularidade” que importa: pertencer ao povo de Deus; poder ser contado, um dia, entre os santos e santas do Céu. Todo o resto não passa de vaidade: vanitas vanitatum et omnia vanitas, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecle 1, 2)! 

Além do que, o preço a ser pago pela popularidade mundana é muito alto, nesta e na outra vida. O pobre rapaz de Liverpool a que nos referimos ao longo de todo esse texto, infelizmente, foi morto a tiros em frente ao prédio onde morava. E agora, quem sabe onde ele se encontra? A que destino foi submetido pelos séculos? Toda a fama que ganhou durante a vida de que lhe valeu na trágica hora da morte? Toda a multidão que o seguia, e os poucos que ainda o seguem, continuarão a aplaudi-lo no lugar onde ele estiver? Eis as perguntas que ficam, eis o que deve nos preocupar.

Por John Lennon, que já partiu deste mundo, só nos resta oferecer a Deus as nossas mais sinceras orações. Aos famosos que ficam, no entanto, sejam eles artistas de TV, músicos profissionais ou influenciadores digitais (com um celular na mão e uma conta no YouTube, nunca foi tão fácil ser popular), sirva de reflexão o ritual que era feito, até pouco tempo atrás, nas coroações pontifícias. O Papa recém-eleito, na sédia gestatória, partia em procissão da Basílica de São Pedro e era parado três vezes pelo mestre de cerimônias que, de joelhos, queimava na sua frente uma mecha de estopa e dizia, também por três vezes: Pater Sancte, sic transit gloria mundi! — “Santo Padre, assim passa a glória do mundo!

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O que vale mais, o templo ou a fé?
Igreja Católica

O que vale mais, o templo ou a fé?

O que vale mais, o templo ou a fé?

“Também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora. Eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora.”

Santo Atanásio de AlexandriaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Advertência prévia da edição de J.-P. Migne [1]. — Eis aqui um fragmento, erudito leitor, das cartas festivais [2] de Atanásio, cuja perda é verdadeiramente deplorável. Foram escritas em grande número pelo santo pastor quando, no exílio, vivia em regime de solidão. Mesmo nos mais remotos lugares do deserto, tendo na memória a sua grei, oprimida por dificuldades e tragédias diárias por conta do furor dos arianos, enviava-lhe cartas, quase sempre consolatórias, para serem lidas na reunião dos irmãos, as quais foram daí compiladas em um só corpo epistolar [...].

A carta abaixo, por nós descoberta em manuscrito antiquíssimo [3], data do ano 356, quando as igrejas de Alexandria, roubada aos católicos, foram entregues por ordem de Constâncio II aos arianos, razão por que escreveu Atanásio esta carta consolatória. Desta, extraiu o editor somente dois fragmentos, omitidos os trechos em que Atanásio, como é de crer, tratava com mais vagar e detalhe dos atos dos arianos em sua invasão das igrejas. Seja como for, por pequenas que sejam essas linhas, aqui vingadas da obscuridade e da injúria do tempo, revelam-nos coisa digna de saber: que os arianos converteram igrejas em casas de negócios e domus veli, isto é, tribunais de justiça.


Começa a carta de S. Atanásio, bispo de Alexandria, a seus filhos

Santo Atanásio, retratado por Francesco Bartolozzi.

[1]. Que Deus vos console! Tomei conhecimento de que não só isso vos contrista, mas de que também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora; eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora; mas vós, conquanto estejais fora dos templos, tendes a fé dentro <de vós>. Vejamos pois o que é maior: se o templo, se a fé; ora, é evidente que a verdadeira fé. Quem, portanto, mais perdeu, ou quem mais possui: o que ocupa o lugar, ou o que retém a fé? Sim, é bom o templo, quando ali é pregada a fé apostólica; é santo, se ali habita o Santo. […] 

[2]. Bem-aventurados sois vós, que estais, pela fé, na Igreja: habitais nos fundamentos da fé, e tendes suficiente satisfação, a grandeza da fé, que em vós permanece inconcussa; ela, com efeito, vos foi transmitida pela Tradição apostólica, e frequentemente a tentou abalar a execranda inveja, mas não <o> pôde: na verdade, mais se apartaram eles pelas maquinações que <contra ela> urdiram. É isso, pois, o que está escrito: “Tu és o Filho de Deus vivo”, confessado por revelação do Pai pela boca de Pedro, que mereceu ouvir: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai, que está nos céus” etc. Ninguém, portanto, irá prevalecer jamais contra a vossa fé, diletíssimos irmãos: se porventura nos devolver Deus algum dia as igrejas — e nisto acreditamos! —, independente da devolução das igrejas, basta-nos a fé. E para não soar talvez demasiado duro falando sem Escrituras, é bom que vos aduza testemunhos das Escrituras.

Lembrais-vos de que o Templo estava, de fato, em Jerusalém: o Templo não estava em lugar deserto, e gentes estranhas o invadiram. Depois disso, estando o Templo ainda em Jerusalém, desceram exilados <os judeus> para a Babilônia, por juízo de Deus que não só os provava, mas corrigia e, assim, manifestava a pena <reservada> aos ignorantes por intermédio de inimigos sedentos de sangue. Tomaram, sim, o Templo gentes estranhas, mas desconheciam o Senhor do Templo. Mas <Ele>, entrementes, nem lhes respondia nem lhes dirigia palavra, porque estavam separados da verdade. Que lhes aproveita o lugar, pois? Eis que agora os que ocupam os templos são acusados pelos que amam a Deus, porque fizeram deles espelunca de ladrões, casa de negócios e, ensandecidos, transformaram para si em tribunais de justiça o lugar santo, onde não lhes é lícito entrar.

Ouvimos estas coisas, diletíssimos, dos que de lá vieram, e até piores do que estas. Quanto mais parece que é deles a Igreja, tanto mais fora dela se encontram. E julgam estar dentro da verdade, quando são eles os exilados e cativos, e nenhum ganho têm em ter só para si a Igreja, porque é a verdade das coisas que se julga…

Notas

  1. Cf. PG 26, 1189-1190.
  2. As cartas festivais (epistulæ festales), também chamadas cartas pascais, eram uma forma de notificação anual do Patriarca de Alexandria, endereçada a todas as cidades e mosteiros de sua jurisdição eclesiástica, sobre a data de início do jejum quaresmal e, portanto, sobre o dia da celebração da Páscoa. O costume parece ter começado pouco depois do Concílio de Niceia, que, além de condenar a heresia ariana, também se ocupou de matérias disciplinares, como a uniformidade do calendário litúrgico, com a determinação precisa das principais festividades do ano (cf. W. Cureton, The Festal Letters of Athanasius. Londres, 1848, p. xxxvii). Não parece haver evidências, contudo, de que o fragmento aqui apresentado provenha de alguma carta pascal de S. Atanásio. (Nota da Equipe CNP.)
  3. Trata-se de um códice (Colb. 1783) do ano 800 d.C. (Nota da Equipe CNP.)

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