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O comovente retrato da Igreja dos mártires
SociedadeSantos & Mártires

O comovente retrato
da Igreja dos mártires

O comovente retrato da Igreja dos mártires

Enquanto, no Oriente, alguns sequer têm liberdade para proclamar a própria fé, o Ocidente é palco para cristãos que dão de ombros para a Cruz.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Maio de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Alguns jornais reportaram, no último mês, que "cristãos que se recusaram a professar a fé muçulmana ou pagar resgate foram crucificados por extremistas" na Síria [1]. A notícia, que rodou o mundo, chegou ao conhecimento do Papa Francisco, que admitiu ter chorado pela situação. Durante uma de suas homilias na Casa Santa Marta, o Santo Padre repudiou os que agem "matando e perseguindo em nome de Deus" e destacou a coragem dos cristãos que, como os apóstolos, "ficam felizes por serem julgados dignos de sofrer ultrajes devido ao nome de Jesus" [2].

O drama dos que confessam Jesus Cristo no Oriente Médio – e em outras regiões do mundo – é pouco exibido pelos meios de comunicação, fazendo que a realidade de tantas pessoas nos pareça distante e, às vezes, até ilusória. No entanto, as suas lágrimas, as suas dores e o seu sacrifício tantas vezes cruento são páginas verdadeiramente cruéis de uma história que está longe de seu termo final.

Pense-se, por exemplo, no sofrimento de pais de família que, antes de doarem a própria vida, foram obrigados a entregar aqueles que mais amavam: suas mulheres e seus filhos. Se pudessem se entregar a si mesmos para salvarem os seus, eles o fariam. Mas, tiveram de imitar aquela judia do livro dos Macabeus, que viu seus sete filhos pequenos morrerem, antes de ser martirizada [3]. Suas filhas foram levadas de seus braços, ou para receberem uma fé na qual não foram educadas e à qual não querem aderir, ou para serem assassinadas impiedosamente.

Entre as muitas histórias de perseguição que veem de todo o Oriente Médio, situa-se a desses jovens que foram crucificados por serem cristãos. Um deles, segundo o testemunho da irmã Raghid, ex-diretora da escola do patriarcado grego-católico de Damasco, "foi crucificado em frente a seu pai, que foi morto em seguida". De acordo com ela, depois dos massacres, os jihadistas "pegaram as cabeças das vítimas e jogaram futebol com elas". Também levarem os bebês das mulheres e "os penduraram em árvores com os seus cordões umbilicais".

Tais relatos devem nos comover e nos fazer dobrar os nossos joelhos por nossos irmãos perseguidos em terras estrangeiras. Afinal, somos todos membros da mesma Igreja, as orações que fazemos têm eficácia para as partes mais necessitadas do corpo místico de Cristo.

Mas, não apenas isso. O retrato de sangue dos cristãos martirizados precisa converter os nossos corações. Enquanto eles são perseguidos por viverem sua fé em lugares como Irã, Síria, Egito, Coreia do Norte e China, tendo que se esconder em espaços subterrâneos – como os primeiros seguidores de Cristo iam às catacumbas – ou viver debaixo da constante ameaça de milícias terroristas, nós, no Ocidente, temos vivido a fé de forma desleixada, transformando o dom da liberdade que recebemos em libertinagem, em ocasião para o pecado e para a própria destruição. Temos desperdiçado a oportunidade de participar diariamente da Santa Missa, de ter acesso ao sacramento da Penitência e de expor publicamente a Palavra de Deus, preferindo a isso a preguiça, a impenitência e a covardia – enquanto milhares de pessoas mundo afora dariam a própria vida para terem a liberdade que temos e usá-la para a maior glória de Deus.

Quanto à perseguição, é claro que o Ocidente não está isento dela. O Papa Bento XVI reconheceu, em nossos tempos, a existência de outro tipo de martírio: "Na nossa época, o preço que deve ser pago pela fidelidade ao Evangelho já não é ser enforcado, afogado e esquartejado, mas muitas vezes significa ser indicado como irrelevante, ridicularizado ou ser motivo de paródia" [4]. Se em muitos lugares o Senhor continua pedindo aos cristãos o martírio de sangue, a outros – e a todos, poderia se dizer – Ele pede o martírio espiritual, a morte diária e cotidiana para si mesmo e para o mundo, especialmente o mundo de hoje, profundamente hostil ao Evangelho e à Igreja.

As imagens criminosas de cristãos mortos no Oriente não passam de manifestação externa de um ódio que já está no coração de muitas pessoas no Ocidente. Quando "artistas" se pensam "esclarecidos" fazendo chacota da religião, cuspindo na Cruz de Cristo e abusando dos mistérios fundamentais da fé cristã, já são cúmplices morais das perseguições físicas perpetradas contra os cristãos. As suas agressões verbais já são o tortuoso caminho que conduz às perseguições físicas e abertas à religião cristã.

No entanto, não podemos desanimar. Como disse o Papa, devemos nos alegrar por "ser julgados dignos de sofrer ultrajes devido ao nome de Jesus"; porque, quase dois milênios depois da crucificação de Cristo e da grande perseguição perpetrada pelo Império Romano aos Seus apóstolos, a Igreja Católica continua sendo a vigorosa "Igreja dos mártires". Mártires de cujo testemunho de sangue serão gerados os futuros filhos de Deus e herdeiros da Pátria Celeste. Nos conforte e encoraje a dar a vida a esperança da verdadeira vida. Afinal, "se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima" [5].

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As pérolas jogadas aos porcos
Sociedade

As pérolas jogadas aos porcos

As pérolas jogadas aos porcos

Nada é tão terrível quanto um tesouro afundado em um lamaçal. Nada é tão péssimo quanto a corrupção das coisas santas.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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Não existe nada mais terrível que ver um grande tesouro afundado em um denso lamaçal. Por isso a advertência do Evangelho: "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas" [1]. A pérola é algo muito precioso. A simples razão ensina ao homem que aquilo que é precioso deve ser guardado, tratado com bastante zelo e cuidado. Aos porcos, lança-se lavagem, não pedras preciosas; aos porcos, lançam-se as sobras, não aquilo que se tem em alta conta.

No mundo antigo, no entanto, certas pérolas jaziam afundadas na lama e foi o Cristianismo, com a verdade de sua doutrina e o vigoroso testemunho de seus adeptos, que recuperou a razão e a justiça então obscurecidas pelos pecados dos homens. Em tempos como os nossos, em que um malfadado feminismo prega ódio e desrespeito à religião, nada melhor que lembrar o respeito e a dignidade que a religião cristã devolveu às mulheres "em sua condenação do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal e da poligamia" [2].

O Império Romano foi escolhido por Deus para presenciar a "plenitude dos tempos" [3]. Era o ambiente apropriado para a visita de um Senhor preocupado mais com os enfermos e pecadores que com os saudáveis e justos [4]. De fato, a situação em que aí se encontravam os homens – e principalmente as mulheres – era degradante. As leis e escritos da época pressupunham "o direito de abandonar os filhos do sexo feminino" e a "a prerrogativa [dos homens] de determinar às esposas e amantes que praticassem o aborto" [5]. Uma sociedade permissiva como a antiga – em que o divórcio era plenamente acessível e a poligamia amplamente praticada – dava à figura masculina poder de subjugar as mulheres, tornando-as mais escravas que seres humanos de verdade.

Assim se encontrava o mundo antigo – com louváveis exceções, verificadas num e noutro lugar – até a chegada de Cristo. Com Ele, que, no seio do Pai, escolheu uma mulher para ser a mais virtuosa criatura que a terra viria a conhecer; com Ele, que, ressuscitado, apareceu primeiro a mulheres [6]; com Ele, que, pela boca de São Paulo, abolia todas as distinções entre as pessoas – já não havia mais "judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" [7], mas todos eram um só em Cristo; com Ele, restaurou-se a esperança à feminilidade então tão suja e obscurecida pelo pecado e pela vileza humana. Historicamente, é inegável: "a mulher em si mesma (...) nunca foi tão exaltada como no cristianismo" [8].

"A Mulher Pega em Adultério", no estilo inconfundível de Guercino.

A tradição cristã impregnou na cultura ocidental a consciência de que a mulher é muito mais que seus atributos físicos e naturais; que a mulher não é um pedaço de carne a ser idolatrado, mas um todo de humanidade através do qual é possível vislumbrar a eterna beleza do Criador. Ainda hoje, mulheres que aceitaram a doutrina cristã sobre a modéstia dão testemunho da leveza, da delicadeza e da simplicidade da autêntica beleza feminina.

"[A mulher] tem outras belezas muito mais excelentes e nobres: a beleza da sua inteligência, a beleza dos seus sentimentos e, sobretudo, a beleza da sua virtude e do seu caráter. Não se pode prescindir desta beleza espiritual, sob pena de rebaixar e degradar a mulher à condição vil dos irracionais. Seria o mesmo que entregar uma criatura humana, a pretexto de que é composta de carne e ossos, aos cuidados e ao laboratório do veterinário" [9].

Por isso, não é possível olhar para certas reivindicações de movimentos ditos "progressistas" senão com ceticismo e vergonha. Feministas que vão às ruas pelo direito de ser "vadias" ou que se proclamam "prostitutas" [10] podem estar fazendo o que for, menos defendendo a dignidade da mulher. Rebaixar-se à disposição aparentemente "livre" dos próprios corpos – como se fossem apenas matéria –, expor totalmente as próprias pernas e partes íntimas ao público – como se fossem pedaços de carne num açougue –, pedir o "direito" de matarem os próprios filhos que são concebidos em seu ventre – como se esses fossem mera "extensão" de seus membros –, não só é desconsiderar o alto valor que têm as mulheres – muito maior que o preço das pérolas e das joias mais caras! É como entregá-las "aos cuidados e ao laboratório do veterinário"; é transportá-las ao nível dos animais; é, real e lamentavelmente, lançá-las aos porcos.

O que querem essas senhoritas – que dizem "representar" as mulheres – é a volta à Antiguidade, no mais horrível e decadente de seus aspectos; a volta ao aborto e ao infanticídio, ao divórcio e à poligamia, à degradação sexual e à permissividade dos costumes... na ilusão de que tudo isso as liberte. Só que a história é uma grande mestra: esses instrumentos que as feministas de hoje consideram "libertadores" são, miseravelmente, as mesmas armas que as prenderam à escravidão noutros tempos. Não as tornam "mais mulheres"; au contraire, colocam-nas abaixo de sua própria natureza e vocação; lançam-nas, terrivelmente, aos cães e aos porcos.

Corruptio optimi pessima est, diz um adágio latino. A corrupção dos ótimos é péssima, a corrupção de quem deveria, por sua alta dignidade, ser melhor, é ainda pior que as outras corrupções. A corrupção da mulher, pelo feminismo, deforma-a a ponto de torná-la irreconhecível... como uma pérola escondida em um chiqueiro, como uma joia cujo brilho é ofuscado por uma porção de lama.

Ainda hoje – e especialmente hoje –, ressoam firmes as palavras de Cristo: "Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas". Que as mulheres tomem consciência do grande dom e do alto valor que possuem – e correspondam com coragem à sua dignidade.

Referências

  1. Mt 7, 6
  2. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 119
  3. Gl 4, 4
  4. Cf. Mt 9, 12-13
  5. Rodney Stark. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 137
  6. Cf. Mt 28, 9; Mc 16, 9; Jo 20, 11-18
  7. Gl 3, 28
  8. Dom Aquino Corrêa. Elevação da mulher, 9 de dezembro de 1934. In: Discursos, vol. II, tomo II. Brasília, 1985. p. 137
  9. Dom Aquino Corrêa. Concursos de beleza, 27 de dezembro de 1930. In: Discursos, vol. II, tomo II. Brasília, 1985. p. 68-69
  10. Veja-se, por exemplo, o vídeo de um grupo feminista (sic), disponível no YouTube. Avisamos que possui palavras ofensivas e de baixo calão.

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Santa Catarina de Siena, a voz profética de Deus
Santos & Mártires

Santa Catarina de Siena,
a voz profética de Deus

Santa Catarina de Siena, a voz profética de Deus

Com sua pregação, Catarina conduziu inúmeras almas a Deus e levou o próprio Papa de volta à Cidade Eterna.

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Abril de 2014Tempo de leitura: 5 minutos
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Nascida em Siena, na Itália, por volta de 1347, "Catarina ouvira o chamamento de Deus desde a mais tenra infância, numa idade em que, normalmente, só se pensa em brincar" [1]. Passava sua infância aproveitando o silêncio e a solidão de sua casa para rezar e, em segredo, flagelar seus ombros com uma corda, por amor a Deus.

"O desejo de isolamento e as lendas dos padres do deserto, que tanto lhe ocupavam a imaginação, levaram-na a sonhar com um gruta solitária onde pudesse esconder-se para entreter-se exclusivamente com Deus". De fato, um dia, cruzando o portão de sua cidade, Catarina saiu à procura de uma dessas grutas onde se escondiam os eremitas. Achando uma, entrou e, pondo-se de joelhos, rezou fervorosamente. Nessa experiência, aconteceu-lhe de "ser levantada do solo e flutuar livremente sob a abóbada". A humilde criança, "temendo tratar-se de uma tentação do diabo para impedi-la de rezar, redobrou de ardor e de firmeza na oração" [2].

A pequena Catarina não se preocupava com as coisas com que normalmente dispendiam seus familiares. Ainda com sete anos, ansiando entregar-se exclusivamente a Deus, sem nenhuma ligação com o mundo aborrecedor dos homens, Catarina suplicou à Virgem Maria que a conservasse casta, a fim de tornar-se esposa de Jesus. "Amo-O com toda minha alma – dizia a Nossa Senhora – e prometo a Ele e a Ti jamais aceitar outro esposo" [3].

Para fugir de seus pais, que queriam vê-la casada, Catarina cortou sua longa cabeleira, sem lhes dizer uma palavra. Para castigá-la, a mãe impediu-a de ter um quarto próprio, pondo-a para viver com o irmão Stefano. Mas nem isso a podia afastar de seu Bem-Amado. "Durante o dia, enquanto Stefano se atarefava no porão diante dos caldeirões da tinturaria, Catarina tinha o aposento só para ela; e à noite Stefano dormia como uma pedra, sem se aperceber das longas vigílias que a irmã passava em oração, a mil léguas deste mundo terrestre" [4]. Mais tarde, depois de uma experiente vida de oração, Catarina aconselhava aos seus filhos: "Construí uma cela no fundo de vossa alma e de lá não vos afasteis mais" [5]. Parecia prefigurar a bela analogia feita por Santa Teresa de Ávila, ao comparar a alma a um castelo em cujo centro está Jesus.

Visitada em sonho por São Domingos de Gusmão, Catarina tomou a firme resolução de tornar-se "mantelata" – como eram chamadas as leigas da ordem dominicana. Quando comunicou a decisão aos familiares, as reações foram as mais negativas possíveis. O seu virtuoso pai, no entanto, acalmou a todos, com maturidade: "Deixem-na inteiramente livre para servir a seu Esposo e rezar assiduamente por nós. Jamais teríamos sido capazes de proporcionar-lhe tão gloriosa aliança. Não nos lamentemos, pois, se, ao invés de tomar por esposo um homem mortal, ela se entregar ao Deus feito homem, que é eterno" [6].

Voltando a ter um quarto só para si, Catarina entregou-se com assiduidade à vida de penitência. Consciente de que, como ela mesma escreveu mais tarde, "a satisfação se dá pelo amor, pelo arrependimento e pelo desprezo do pecado" e que "os gestos finitos são insuficientes para punir ou satisfazer, sem a força da caridade" [7], unia às suas severas mortificações corporais e a seus rigorosos jejuns um amor filial a Jesus.

Admitida, então, na Ordem Terceira de São Domingos, não demorou muito para que sua vida de virtudes atraísse as pessoas à sua volta. Em torno dela, nota o Papa Bento XVI, "foi-se constituindo uma verdadeira família espiritual. Tratava-se de pessoas fascinadas pela respeitabilidade moral desta jovem mulher de elevadíssimo nível de vida, e por vezes impressionadas também pelos fenômenos místicos aos quais assistiam, como os frequentes êxtases. Muitos se puseram ao seu serviço e sobretudo consideraram um privilégio ser orientados espiritualmente por Catarina" [8]. Daniel-Rops ainda faz notar que, "nesse núcleo de cristãos autênticos, lia-se a Divina Comédia, meditavam-se os místicos e perscrutavam-se os artigos da Suma de São Tomás de Aquino". Todos carinhosamente chamavam Catarina de "dolcissima mamma" [9], pois se consideravam seus filhos espirituais.

Ao lado de uma sólida vida interior, Santa Catarina de Siena desempenhou um papel fundamental na história da Igreja, ao pedir ao Papa Gregório XI o fim do terrível "grande cisma do Ocidente". Ela exortou o Sumo Pontífice a sair do exílio em Avinhão e voltar para Roma, a fim de devolver a unidade ao povo católico. Fê-lo por amor à Igreja, ao Papa – a quem chamava de "doce Cristo na terra" – e aos sacerdotes – que ela tinha em altíssima conta, mesmo consciente de suas faltas humanas. Sobre esses, ela escrevia, repetindo palavras do próprio Senhor:

"Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: 'Não toqueis nos meus cristos' (Sl 105, 15). (...) Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros.
Não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. (...) Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: 'Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos'!" [10]

Com seus ensinamentos, Catarina não só pedia a volta do clero à pureza dos costumes, mas também o respeito devido aos sacerdotes pelo caráter que receberam no sacramento da Ordem. Quando se procura os sacerdotes para receber os sacramentos ou quando se beija as suas mãos ungidas, não se faz isso "por eles mesmos", mas pelo poder que Deus lhes deu de trazer à humanidade a Eucaristia e a remissão dos pecados.

Ao fim de sua vida, a santa de Siena configurou-se inteiramente a Nosso Senhor, sendo coroada com os santos estigmas. Ela – "que era capaz de não tomar, durante cinquenta e cinco dias, outro alimento senão uma hóstia" – converteu-se em um milagre vivo de Deus. Por isso, ainda em 1461, menos de um século depois de seu nascimento para o Céu, foi canonizada pelo Papa Pio II.

"Nunca, ao longo da sua breve existência, se rompeu o seu contato com Aquele que a chamava pelo nome" [11], escreveu Daniel-Rops. E, agora, na Pátria Celeste, nada mais pode romper os laços tão estreitos que unem o seu coração ao Sagrado Coração de Jesus. Que a sua intercessão nos torne fiéis e perseverantes na oração e na penitência e fortaleça os nossos laços com a Igreja triunfante, de cuja plenitude pretendemos, com a graça de Deus, participar.

Santa Catarina de Siena, rogai por nós!

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 20
  2. Sigrid Undset. Catarina de Siena. Trad. Maria Helena A. L. Senise. Agir: Rio de Janeiro, 1956. p. 15
  3. Ibidem, p. 17
  4. Ibidem, p. 24
  5. Ibidem, p. 25
  6. Ibidem, p. 30
  7. O Diálogo, 3
  8. Audiência Geral, 24 de novembro de 2010
  9. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 22
  10. O Diálogo, 116
  11. Henri Daniel-Rops. A Igreja da renascença e da reforma (I). Trad. Emérico da Gama. Quadrante: São Paulo. p. 21

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São Luís de Montfort e o primado de Deus
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São Luís de Montfort
e o primado de Deus

São Luís de Montfort e o primado de Deus

“Para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias”, diz São Luís de Montfort. O caminho da salvação continua sendo o caminho da Cruz.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Abril de 2014Tempo de leitura: 4 minutos
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O lema que inspirou a vida e o apostolado de São Luís Maria Grignion de Montfort resume-se em duas breves palavras: "Só Deus". Toda a sua existência – a ânsia de humilhações, desde muito cedo; o incansável ardor missionário, que o fez atravessar a pé grandes porções de terra; o amor à pobreza, que consagrou fazendo-se escravo de Maria Santíssima –, tudo apontava para o alto.

Para defender esse primado de Deus, São Luís não media palavras nem ficava "cheio de dedos": "Se a prudência consiste em não empreender nada de novo por amor de Deus e em não dar que falar, os Apóstolos cometeram um grande erro quando saíram de Jerusalém, São Paulo não devia ter viajado tanto nem São Pedro levantado a cruz no Capitólio" [1], dizia. Contra o respeito humano, ele ostentava, com coragem, o seu terço e um grande crucifixo, com os quais partia em missão França afora, pregando, levantando cruzeiros e reconstruindo igrejas.

Fiel às palavras de Jesus – "Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me" [2] –, não se gloriava em nada senão na Cruz de nosso Senhor. Assim como São Paulo que, tendo "muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis (...), mas afirmou: "Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo" [3], São Luís proclamava:

"Encontro-me mais que nunca empobrecido, crucificado, humilhado. Os homens e os demônios fazem-me uma guerra bem amável e bem doce. Que me caluniem, que escarneçam de mim, que despedacem a minha reputação, que me metam na cadeia: esses dons são preciosos para mim, esses manjares são deliciosos para mim! Ah! Quando serei crucificado e perdido para o mundo?" [4]

Para seguir a Cruz, o próprio Luís fazia questão de pregar-se ao madeiro com Cristo. E indicava o mesmo caminho aos seus filhos: " Para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias. (...) Se não morrermos para nós mesmos, e se as nossas devoções mais santas não nos levam a esta morte necessária e fecunda, não daremos fruto que valha" [5]. E advertia aos que chamava de "amigos da Cruz": "Tende bem cuidado para não admitir em vossa companhia os delicados e sensuais, que temem a menor picadela, que se queixam de mínima dor, que nunca provaram a crina, o cilício, a disciplina e, entre as suas devoções em moda, misturam a mais disfarçada e refinada delicadeza e falta de mortificação" [6].

Devotíssimo da Virgem Maria, recebia seus favores desde a mais tenra infância. Na idade adulta, escreveu um livro no qual explicou, com piedade e clareza impressionantes, em que consiste o verdadeiro amor à Mãe de Deus. O hoje conhecido "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem" ficou desconhecido por vários séculos. Como São Luís mesmo previu em seu livro – "muitos animais frementes virão em fúria para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito (...) ou pelo menos procurarão envolver este livrinho nas trevas e no silêncio duma arca, a fim de que não apareça" [7] –, esta grande preciosidade permaneceu escondida por muito tempo.

Quando foi encontrada, porém, não só estimulou os fiéis a amarem mais Nossa Senhora, mas influenciou o magistério de pontífices como Leão XIII, São Pio X e, nos últimos anos, de São João Paulo II.

Nesta obra, São Luís responde com força aos escrupulosos: "Maria ainda não foi suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço" [8]. E aponta com insistência ao fundamento desta devoção: "Se a Devoção à Santíssima Virgem afastasse de Jesus Cristo, deveríamos repeli-la como uma ilusão do demônio" [9]. Mas, como pode a lua ofuscar o brilho do sol, se, ao contrário, é do próprio sol que vêm a sua glória e a sua majestade? Do mesmo modo, como pode Maria "obstruir" o caminho até Jesus, se é justamente em virtude d'Ele que Deus a preservou da mancha do pecado original e a cumulou de todas as graças? Se é justamente para melhor honrá-Lo e glorificá-Lo que se estabeleceu o seu culto na Igreja universal?

A devoção que ensinou São Luís não pretendia ser uma "nova revelação", mas simplesmente, nas palavras do próprio sacerdote francês, "uma renovação perfeita dos votos ou promessas do Santo Batismo" [10]. Recomendando a escravidão a Nossa Senhora, São Luís não pretendia criar uma "casta" de pessoas separadas e diferentes, mas tão somente apontar para as águas do Batismo, pelas quais todos aqueles que se tornam filhos de Deus devem passar; não pretendia inventar um caminho diferente, mas dar novo ânimo para que os fiéis pudessem trilhar a mesma estrada do Evangelho, rumo ao Calvário.

"Só Deus": isso basta. Eis a grande lição de São Luís de Montfort. Que ele nos ajude a amar, buscando a coroa de glória do Céu, mas sem rejeitar a coroa de espinhos que este "vale de lágrimas" nos reserva. Afinal, "nada existe que seja tão necessário, tão útil, tão doce ou tão glorioso quanto sofrer alguma coisa por Jesus Cristo" [11].

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