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Reações proféticas à encíclica do Papa sobre contracepção
Doutrina

Reações proféticas
à encíclica do Papa sobre contracepção

Reações proféticas à encíclica do Papa sobre contracepção

Há noventa anos, um Papa condenou a contracepção de forma inequívoca. As diversas reações ao documento papal revelaram-se proféticas, infelizmente para o mal. Porém, um leigo comentou a encíclica de forma brilhante.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É interessante revisitarmos as diversas reações à encíclica do Papa sobre contracepção. Encontrei as que transcrevo abaixo. Creio que elas falam por si e quase não requerem quaisquer comentários adicionais, a não ser para dizer como as coisas mudaram pouco.

Um líder de uma associação das principais denominações protestantes disse que “é a encíclica mais importante já promulgada em toda a história da sucessão papal”. Também disse: “Fico feliz por esse pronunciamento ser tão claro e rigoroso”. Ele estava feliz porque as pessoas tinham de ser favoráveis ou contrárias à encíclica. Não havia meio-termo.

E por que isso o deixou feliz?

“O documento marcará uma nova era para a ampla e profunda revolta contra o controle eclesiástico. Ele praticamente provocará uma revolta no interior da Igreja Católica Romana.” Ele disse que esse esforço da Igreja, com seu “domínio autocrático” para interferir em assuntos privados e íntimos, a deixará mais próxima de um inevitável colapso. O emprego do “poder hierárquico” com certeza seria recebido com “repúdio e indignação” pelos próprios católicos.

Em outras palavras, ele estava satisfeito com a clareza de posição da Igreja Católica, pois assim todos — inclusive os protestantes — poderiam rejeitá-la. Não havia meio-termo. E ele também previu que os católicos a rejeitariam.

Uma líder feminista disse que a Igreja havia se posicionado “diretamente contra o progresso”. Disse que a mensagem da encíclica era: “Prossiga e tenham um filho a cada ano, não importa se você é muito pobre e não tem condições de lhes dar um lar decente; não importa se nascerão doentes ou com alguma debilidade mental; não importa se nascerão deformados. O controle de natalidade é um crime terrível em quaisquer circunstâncias.” Ela disse que a denúncia do Papa sobre a contracepção provocaria mais pobreza e mais doenças. E elogiou congregações protestantes e judaicas que já haviam aprovado oficialmente a contracepção.

Um médico disse que o documento era “confuso”, particularmente quando falava da saúde e do bem-estar da mãe. Ele discordava da encíclica, que afirmava que a contracepção é contrária à natureza, e observou que a queda da taxa de natalidade entre católicos era um sinal de que a regra era “mais desobedecida do que seguida”.

Um pastor de uma igreja sem denominação de Nova York afirmou que a encíclica era um exemplo de “uma mentalidade do século X aplicada a problemas do século XX. Jamais chegaremos a lugar algum em relação ao matrimônio ou a qualquer outro assunto retornando a Santo Agostinho. A interpretação que o Papa faz do casamento é pura mitologia... Sua denúncia do controle de natalidade é intolerante.” 

Um porta-voz de uma organização atéia disse que o documento era uma evidência do fracasso da Igreja no reconhecimento de que a moral passa por mudanças. “A contracepção veio para ficar, e se a Igreja se recusa a aprová-la, pior para ela.” Ele observou que o número de mulheres católicas que já praticavam a contracepção era igual ao de protestantes ou judias.

Curiosamente, quando muitos bispos e sacerdotes foram instados a comentar o assunto, negaram-se a fazê-lo. No entanto, um proeminente leigo da Inglaterra aceitou ser entrevistado. Ele disse que a encíclica “nos obriga a enfrentar diretamente a seguinte questão: se o mundo seria realmente mais feliz vivendo na anarquia sexual defendida pela minoria barulhenta, ou se vivendo em conformidade com as regras prescritas pela Igreja”.

Ele argumentava que todos os problemas relacionados à sexualidade não resultavam “da aplicação da moralidade católica, mas do abandono dela”.

Quando lhe inquiriram sobre a impressão geral de que a doutrina da Igreja autoriza um marido a fazer o que bem entender com sua mulher e a desprezá-la, respondeu: “Alguém que supõe que isso seja verdadeiro, não interpreta mal apenas a doutrina católica, mas o espírito do cristianismo em sua integralidade. São Pedro disse: ‘Honrai a todos.’ Estamos mil vezes mais obrigados a honrar todas as mulheres, particularmente as nossas esposas.”  

Ele disse o seguinte sobre a insinuação de que a encíclica era “cruel” com as mulheres: “Com certeza a Igreja não está sendo cruel ao admoestar as mulheres a terem em devida consideração as suas obrigações como esposas e mães, e a não serem arrogantes e estéreis por negligência à consciência católica e à honra.” A essa grande verdade ele acrescentou simplesmente: “A querela entre os sexos não é provocada pela Igreja. Ela ocorre porque não se leva a sério o conselho da Igreja, que diz ao marido: ‘Honra tua mulher’, e à mulher: ‘Honra teu marido.’”

Também lhe perguntaram se o problema poderia resolver-se sozinho, partindo da seguinte premissa: as pessoas que praticam o controle de natalidade não deixariam de fazê-lo e as que não o praticam também não mudariam de postura; assim, os incrédulos não teriam filhos e as pessoas religiosas teriam. A resposta dele foi ainda mais simples: “Os mansos possuirão a terra.”   

Eu disse que essa encíclica foi publicada 38 anos antes da Humanae Vitae? Refiro-me à Casti Connubii (“Sobre o Matrimônio Cristão”). O Papa era Pio XI; o ano, 1930.

O leigo era G. K. Chesterton.

Notas

  • A imagem acima é obra de Giovanni Gasparro e chama-se justamente “Casti connubii” (óleo sobre tela, 2013).

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Entre numa boa briga em 2020!
Igreja Católica

Entre numa boa briga em 2020!

Entre numa boa briga em 2020!

Entre numa “boa briga” neste ano de 2020: debata com alguém sobre a fé católica, convença uma pessoa que não crê, traga alguém para a verdade que Deus tão misericordiosamente nos deu a conhecer.

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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É hora de os católicos começarem a discutir. Não entre si, pois já fazem isso. É hora de debaterem com não católicos. E não sobre política e esporte, mas sobre religião, sobre os grandes temas, sobre a fé católica.

Digo isso porque acabei de ver os resultados de uma pesquisa sobre religião, publicada pelo Pew Research Center. Uma das perguntas feitas foi: “Em sua opinião, qual é a melhor coisa a se fazer quando alguém discorda de você em matéria de religião?”

As opções de resposta eram:

  1. Tentar persuadir a outra pessoa a mudar de ideia.
  2. Tentar entender a crença da outra pessoa e aceitar a discordância.
  3. Evitar discutir sobre religião.

Foram entrevistados protestantes (das mais diversas denominações), católicos e ateus/agnósticos.

Em média, 5% escolheram a primeira opção, 67% a segunda e 27% a terceira. Em outras palavras, dois terços da população não têm medo de debater sobre religião com alguém que discorda deles, mesmo que o único resultado seja manifestar as suas diferenças. Quase um terço evita qualquer discussão sobre o tema. Uma pequena minoria dos entrevistados — apenas um em cada vinte — está disposta a se posicionar firmemente em defesa de sua fé e a convencer a outra pessoa de que ela está equivocada. 

Como os católicos se saíram nessa pesquisa, em comparação com os outros grupos?

Muito mal.

Na verdade, eles tiveram o pior desempenho em todas as categorias. Enquanto 10% de evangélicos ficaram na primeira categoria, apenas 2% de católicos estavam dispostos a tentar persuadir a outra pessoa a mudar de ideia. O dobro de ateus e agnósticos estava disposto a tentar convencer outra pessoa. Até as denominações históricas em declínio, conhecidas por sua tibieza em relação às doutrinas cristãs, atingiram a média de 5%. E os católicos? Dois por cento. Terrível. Patético.

No outro extremo, os católicos atingiram a porcentagem mais elevada entre aqueles que gostariam de evitar discussões sobre religião: 31%. Mesmo os ateus e os agnósticos se mostraram mais dispostos do que os católicos a discutir religião, apesar de não terem uma, e a defender a sua falta de fé. Os evangélicos tiveram o melhor resultado: apenas 18% se mostraram relutantes em participar de alguma discussão sobre religião. 

Até a porcentagem daqueles que estão na grande categoria do meio (os que estão dispostos a escutar outra pessoa a respeito da fé dela apenas para “concordar em discordar”) serve de matéria para acusar os católicos. É claro que deveríamos escutar os outros, mas também deveríamos falar. Quando alguém está disposto a ter uma discussão sobre religião, temos uma oportunidade de ouro para compartilhar a nossa fé. Não deveríamos ter medo de um debate. G. K. Chesterton diz que o propósito de uma discussão é discordar para concordar; ao passo que o fracasso de uma discussão está em concordar em discordar. Em outras palavras, discutimos porque cremos que estamos certos e, em última instância, queremos convencer o outro a concordar conosco: discordar para concordar. O nome disso é ganhar o debate. Significa que nos importamos tanto com a verdade, que queremos que outras pessoas acreditem nela.

Só faz sentido acreditar em algo se cremos que estamos certos. E se assim cremos, por que não estamos dispostos a falar isso? Por que não estamos dispostos a dizer o motivo pelo qual não acreditamos em outra coisa?

Na conclusão de O Homem Eterno, Chesterton diz que o Evangelho é a boa notícia que parece muito boa para ser verdadeira. “Não é nada menos que a afirmação de que o criador do mundo o visitou pessoalmente.” Deus se fez carne, sofreu na carne, morreu de forma estranha e terrível e ressurgiu dos mortos, e a história mudou completamente. O mundo inteiro teve um recomeço. Ele encarnou a maior promessa já feita: a vida eterna. Seus seguidores que testemunharam tudo isso estabeleceram uma instituição que ainda existe: a Igreja Católica. A eles foi confiada a missão de compartilhar a boa nova que lhes fora dada, e a mensagem tem sido passada de geração em geração por dois mil anos.

Chesterton diz que o mundo está dividido entre aqueles que levam a mensagem do Evangelho e aqueles que ainda não a escutaram ou não conseguem crer nela.

Pense nisso. Temos a mensagem. As únicas outras pessoas que há no mundo são as que ainda não a escutaram ou não conseguem crer nela. Embora, sem dúvida alguma, vivamos numa cultura pós-cristã, a maioria das pessoas tem alguma familiaridade com as afirmações fundamentais da Igreja Católica. Já ouviram falar delas. A nossa missão é ajudá-las a crer. Isso significa que temos de estar dispostos a debater com elas quando discordarem de nós, a defender a fé quando ela for atacada, a afirmá-la quando for questionada e a demonstrá-la quando for rejeitada.

Não somente temos a mensagem, mas também o que o resto do mundo deseja: alegria, paz, lucidez e a resposta definitiva para o enigma do universo. Todas as pessoas estão em busca dessas coisas. Como podemos silenciar a respeito delas? O mundo não terá nenhuma chance se apenas 2% de nós estivermos dispostos a falar.

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Ficamos loucos?
Cursos

Ficamos loucos?

Ficamos loucos?

Uma pessoa que entra num ônibus sem saber para onde ele vai: é mais ou menos como se comporta o incoerente homem contemporâneo, quando se recusa a responder às perguntas decisivas de sua existência.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Uma pessoa que entra num ônibus sem saber para onde ele vai: é mais ou menos como se comporta o incoerente homem contemporâneo, quando se recusa a responder às perguntas decisivas de sua existência. 

É sobre isso, e muito mais, que escreveu Gilbert Keith Chesterton, grande intelectual católico do século XX, e é sobre a sua vida e obra que Padre Paulo Ricardo quer falar em nosso próximo curso de férias

Graças a Deus, Chesterton não é mais uma figura desconhecida para o público brasileiro. Nos últimos anos, inúmeras iniciativas editoriais apresentaram seu pensamento aos leitores lusófonos, de modo que, hoje, dificilmente alguém já não ouviu falar dos clássicos Ortodoxia, Hereges, O Homem Eterno, ou mesmo do Padre Brown, um personagem fictício criado por Chesterton e que solucionava crimes e mistérios… 

Mesmo que seus livros se tenham popularizado, principalmente entre os católicos, o fato é que muitas pessoas ainda esbarram num problema: a dificuldade de compreender a fundo o que Chesterton escreveu, e que constitui um verdadeiro sistema de pensamento, exposto com uma sagacidade ímpar e em um estilo muito bem-humorado.

Daí a importância de um curso sobre Chesterton! Em poucas aulas (porque, afinal, estamos de férias…), Padre Paulo Ricardo quer nos tomar pela mão para que venhamos a aproveitar ao máximo tudo o que nos legou esse gênio do catolicismo. 

Mas chega de conversa… Confira nos teasers abaixo um pouco do que estamos preparando para nossos alunos!

Por isso, anote em sua agenda! No próximo dia 28 de janeiro tem lançamento em nosso site! Para receber todas as informações a esse respeito, e ainda por cima ganhar um desconto especial na hora de se tornar nosso aluno, cadastre-se aqui em nossa lista de e-mails e fique atento a nossas comunicações!

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Uma conspiração contra o Natal
Liturgia

Uma conspiração contra o Natal

Uma conspiração contra o Natal

Não é de hoje que atacam o Natal, mas as ofensas não vêm apenas lá de fora, do mundo. É do meio dos cristãos, é de dentro do cristianismo que vem a acusação mais esdrúxula e insensata contra tão bela e augusta festa.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Normalmente, um cristão bem formado não daria dois minutos de atenção às bobagens que, todos os anos, são escritas (ou gravadas) para desmistificar o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas os tempos são outros, e a formação catequética (ou a falta dela) também. Hoje, infelizmente, a fé já não é um pressuposto evidente, de modo que precisamos nos dar ao trabalho de explicar com detalhes quase cirúrgicos o que para outras gerações seria óbvio, especialmente quando uma festa tão importante para o cristianismo é posta em xeque.

Comecemos por reiterar que não é de hoje que atacam o Natal. Na década de 1970, Gustavo Corção teve de descer à liça para defender a Encarnação de Cristo contra figurões da época que pelejavam, por exemplo, em Jornal do Brasil, O Pasquim e Manchete e insistiam em publicar artigos blasfemos sobre Jesus às vésperas do dia 25. O imbróglio rendeu uma série de crônicas do escritor, apoiado então por inúmeros católicos, todos prontos a entrar em campo para defender o sagrado depósito da fé.

O que surpreende, porém, é que essa ofensa à grande solenidade do nascimento de Nosso Senhor não vem apenas lá de fora, do mundo. É do meio dos cristãos, é de dentro do cristianismo que vêm as acusações mais esdrúxulas e insensatas contra tão bela e augusta festa. Durante muito tempo o Natal foi proibido na América protestante porque, para os seguidores de Calvino, se trataria de uma “celebração genuinamente pagã”. E é aí, nas fábulas protestantes, que muita gente vai buscar informações para desacreditar a sagrada noite de Belém.

“Eu vos anuncio uma grande alegria…”

Qualquer um que consultasse, pouco que fosse, a bibliografia disponível sobre o cristianismo, saberia que Wikipédia e almanaques protestantes são o último lugar para quem deseja conhecer, com o mínimo de rigor científico e transparência intelectual, a história da Igreja Católica e de suas tradições. Prova disso é a confissão nada suspeita de ninguém menos que Adolf von Harnack, teólogo luterano que afirmou certa feita: “Estou convencido, pela experiência constante, de que os alunos que deixam nossas escolas têm ideias mais desconexas e absurdas a respeito de história eclesiástica” [1]. E ele falava das faculdades protestantes da Alemanha. A ideia, no entanto, facilmente se aplica aos alunos de outras escolas, cujo conhecimento sobre Igreja Católica é, como dizia ele, “uma terra incógnita”, com “noções completamente triviais, incertas e, muitas vezes, nitidamente sem sentido” [2].

Também nesta matéria temos um misto-quente de críticas desconexas, absurdas e (convenhamos) triviais sobre a solenidade do Natal. Em primeiro lugar, acusa-se a Igreja Católica de ter-se rendido aos desmandos de Constantino, aceitando uma síntese indigesta entre cristianismo e paganismo. O Natal, portanto, não passaria de uma festa pagã com verniz cristão, a fim de enganar os incautos e levá-los, sem se darem conta, à adoração do diabo. Por isso, conclui-se, nenhum cristão sinceramente empenhado em seguir os ensinamentos de Cristo e a Sagrada Escritura deveria comemorar a data. Afinal, não há sequer evidências, bíblicas ou históricas, de que Jesus tenha nascido no dia 25 de dezembro.

Mas os anjos do céu, naquela noite feliz, desceram a esta terra para dizer aos homens: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2, 10). Sem dúvida, a noite do Natal é, sim, uma noite de alegria, de celebração e encontro, e que não devemos temer, como advertiram os anjos, pois foi nessa noite gloriosa que Jesus veio assumir a nossa condição miserável e estabelecer conosco uma nova aliança, “muito mais admirável que a primeira”. Em razão disso, a Igreja Católica se serviu de todos os meios para proclamar a mesma alegria a todo o povo.

No Natal, os católicos não celebramos o aniversário de Jesus, mas o mistério da Encarnação do Verbo divino, com todas as suas implicações para a nossa vida. Sendo assim, a data exata do natalício de Cristo não é necessária, no fundo, para a celebração do mistério, porque a Liturgia nos insere no presente eterno de Deus, por meio de gestos, orações, símbolos e cantos. Na Missa de Natal, recorda-nos Dom Henrique Soares, não dizemos: “Há dois mil anos nasceu Jesus”; dizemos, ao contrário: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz”.

Como quer que seja, documentos históricos indicam que já no séc. III a Igreja celebrava o Natal no dia 25 de dezembro. Entre os que mencionam a data está S. Hipólito de Roma, um ardente defensor da ortodoxia, que jamais aceitaria qualquer forma de sincretismo religioso. Cai por terra, com isso, a afirmação de que o Natal seria resultado de uma “paganização” promovida por Constantino, a quem os protestantes, diga-se de passagem, gostam de culpar por todas as legítimas tradições católicas que eles mesmos rejeitaram.

Ora, não foi o imperador romano que dominou a Igreja; foi a Igreja que venceu o Império, de modo que este precisou rever toda a sua política externa e interna. “A influência da Igreja […] imprimiu um caráter diferente no processo como um todo. Os ideais da Igreja eram opostos a todas as principais características da sociedade imperial anterior”, afirma o historiador Christopher Dawson [3].

A cristianização nessa época aconteceu por meio da Liturgia, que “não era somente uma fonte de teologia cristã, mas também um dos elementos primários na formação de uma cultura” [4]. A Igreja, como era de esperar, varreu do mapa as antigas celebrações pagãs pelo culto cristão, transformando templos dedicados a falsos deuses em basílicas para nosso Senhor Jesus Cristo. É o caso do Panteão e da Basílica de Nossa Senhora sobre Minerva, em Roma, símbolos concretos da vitória de Cristo sobre o paganismo. Ninguém ajuizado diria que a mesquita construída sobre o Templo de Salomão, em Jerusalém, é um templo sincretista para muçulmanos e judeus. Faz parte de uma religião suplantar o culto adversário. A Igreja fez isso com o paganismo.

Vale lembrar ainda que, após o Concílio de Niceia, Constantino assumiu o partido dos arianos. Se a Igreja, de fato, estivesse amarrada aos ideais do imperador, nós estaríamos hoje rezando o credo herético de Ário, e não o niceno-constantinopolitano. As acusações contra o Natal não batem minimamente.

Uma conspiração natalina?

Já comentamos aqui um artigo de Monsenhor Nicola Bux que prova como a data de 25 de dezembro tem bases bíblicas e históricas. Recomendamos aos nossos leitores que assistam ao vídeo abaixo, que responde se “Jesus nasceu mesmo no dia 25 de dezembro”:

Importa agora desfazer outras afirmações absurdas. Para provar que o Natal é uma festa pagã, muitos recorrem à técnica das “religiões comparadas” e afirmam que, no mesmo período, outras festividades pagãs aconteciam, como a “festa de Mitra”, a “festa da Saturnália” ou do “Sol Invicto”. Portanto, todas essas festividades na mesma data indicam que o Natal é uma celebração igualmente pagã de culto ao demônio. Trata-se de um raciocínio “irretocável”: dadas duas coisas, se ambas coincidem em algum aspecto, é porque são idênticas em todos… Se, portanto, ao tempo do Natal se celebravam quiçá outras festas pagãs, é porque o Natal era, também ele, uma festa do gênero.

Ainda a respeito da comparação entre religiões politeístas e o cristianismo, Chesterton observava o seguinte [5]:

A religião comparada é de fato muito comparativa. Quer dizer, é a tal ponto uma questão de grau que apenas comparativamente ela é bem-sucedida quando tenta comparar. Quando a examinamos de perto, descobrimos que ela compara coisas que são realmente incomparáveis.

O Natal é realmente incomparável a quaisquer festas pagãs, e apenas uma pessoa com visão muito distorcida pode metê-las no mesmo saco. No Natal, não celebramos “tempo de colheita” nem adoramos algum corpo celeste, senão o Corpo do Menino Jesus, o Filho de Deus encarnado que veio a este mundo para dar à nossa vida um rumo decisivo. A diferença é abissal.

Além disso, a “festa da Saturnália” ocorria de 17 a 22 de dezembro comumente. Pela lógica, o Natal então deveria ser celebrado nesse período, e não em 25 de dezembro. Não faz sentido, como também não faz sentido a ideia de que a “festa do Sol Invicto” seja a base para o Natal cristão. Aquela festividade pagã foi instituída no tempo do imperador Juliano, o Apóstata, justamente para combater a Igreja Católica. “O imperador procurou restabelecer e reformar a religião idólatra, dando-lhe no neoplatonismo um novo fundamento e imitando várias instituições que viera a conhecer no cristianismo”, explica Frei Dagoberto Romag [6]. Tratava-se, portanto, de dois eventos antagônicos, não coincidentes.

Na verdade, os bons exegetas observaram que no dia do Natal cristão também se celebrava a Dedicação do Templo de Jerusalém, conforme a prescrição de Judas Macabeu em 164 a.C. “A coincidência de datas”, diz Bento XVI, “significaria então que com Jesus, que apareceu como luz de Deus na noite, se realiza deveras a consagração do templo, o Advento de Deus nesta terra”.

Insiste-se, por outro lado, que o nascimento de Jesus em 25 de dezembro é improvável porque, nesse período, é inverno na Palestina, e o Evangelho de São Lucas registra a existência de pastores cuidando de suas ovelhas à noite (2, 8). 

É preciso recordar, porém, que a Palestina não é a Inglaterra ou a Rússia. Esses pastores provavelmente trabalhavam numa região que fica à leste de Belém, onde a temperatura costuma ser mais amena, por estar mais próxima do mar Morto. Além disso, eles costumavam agrupar o rebanho num mesmo redil durante a noite, cabendo aos pastores revezar-se em turnos para vigiá-lo. Além disso, Taylor Marshall explica que Belém está numa latitude semelhante à da cidade de Dallas, nos Estados Unidos, onde no inverno se pode sair de shorts e regatas normalmente. (Talvez não nós, brasileiros, acostumados ao calor intenso o ano todo.)

Para espanto de qualquer historiador, há também quem se lance contra a existência histórica de São Nicolau e insinue que a árvore de Natal seja um “objeto pagão”. Um pouco mais de atenção, no entanto, nos revelaria o zelo e a piedade verdadeiros do valente bispo de Mira, como também a milagrosa vitória de São Bonifácio sobre o ídolo nórdico Thor, da qual surgiu a tradição da árvore de Natal. Foi justamente por ter derrubado a árvore do falso “deus do trovão” que São Bonifácio instituiu a “árvore do Menino Jesus”.

Além dos livros, essas informações estão aí à disposição, na internet. É só procurar no lugar certo.

Um conto de Natal

Está na boca do povo a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Talvez nos interessasse saber, portanto, que, durante a Primeira Guerra Mundial, soldados alemães e ingleses decidiram estabelecer uma trégua para celebrarem juntos o nascimento do Menino Jesus. Houve uma Missa, eles enterraram os mortos, repartiram o pão, trocaram presentes e jogaram uma partida de futebol. Por alguns dias, a solenidade católica do Natal foi capaz de neutralizar o mais sangrento combate até então, tocando o coração duro daqueles soldados. A história virou um filme chamado “Feliz Natal”.

De fato, se os homens se detivessem mais diante do Menino Jesus, certamente não precisaríamos temer outro conflito mundial. Na liturgia natalina, a Igreja prepara os fiéis espiritualmente, durante as semanas do Advento, para que recebam Cristo em suas vidas, porque “Cristo é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só” (Ef 2, 14). É preciso, portanto, “que tenham um coração unânime os que foram recriados segundo a mesma imagem”, diz São Leão Magno [7]. Daí toda a tradição das novenas, das Antífonas do Ó, das Têmporas e das decorações com luzes, árvore e, sobretudo, um presépio.

Mas os arautos da divisão dos cristãos não querem celebrar o Natal, não se alegram pela Encarnação do Menino Deus, porque acreditam ser uma “festa pagã”. Com isso, eles transformam a noite feliz em uma noite qualquer, sem sentido nem significado, apenas para refeições e outros prazeres mundanos; e não percebem que quem está levando o Natal para o paganismo são eles mesmos e os que comungam de suas ideias.

Essa, sim, é a verdade. Doa a quem doer.

Referências

  1. Adolf von Harnack. Aus Wissenschaft und Leben, vol 1. Giessen, A. Topelmann, 1911, p. 97.
  2. Idem.
  3. Christopher Dawson. A formação da cristandade. São Paulo: É Realizações, 2014, p. 216.
  4. Ibidem, p. 230.
  5. G. K. Chesterton. O homem eterno. Cajamar: Mundo Cristão, 2010, p. 95.
  6. Frei Dagoberto Romag. Compêndio de História da Igreja: a antiguidade cristã. Petrópolis: Vozes, 1949, p. 181.
  7. São Leão Magno, Sermo 6 in Nativitate Domini, 2-3, 5: PL 54, 213-216.

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