Hódie siléntium magnum in terra est. Assim começa uma antiga homilia de Sábado Santo. "Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos."

Jesus, ao mesmo tempo em que tem o Seu corpo no sepulcro, desce com Sua alma aos abismos – como confessamos no Credo, Ele "desceu à mansão dos mortos". Não podendo o homem, por si mesmo, ascender à companhia de Deus, Ele próprio descende à companhia dos mortos, para, com Sua graça, fazê-los santos.

Cumpre-se, hoje, mais uma profecia: "Quanto a ti, meu povo, por causa da aliança que contigo fiz, selada com sangue, vou libertar teus cativos desta cisterna sem água" ( Zc 9, 11). O seu povo são os justos do Antigo Testamento que, pela dívida do pecado original, jazem "cativos" e sedentos na "cisterna sem água" das profundezas; a aliança "selada com sangue" é o sacrifício que Ele consuma na Cruz e, também, a causa de sua descensão. Se os méritos da paixão de Nosso Senhor se aplicam aos vivos pela graça dos Sacramentos, aplicam-se aos mortos pela descida de Cristo aos infernos. Sim, Ele desce aos infernos. Não ao inferno dos condenados, de onde nem mesmo Deus, o autor da liberdade, os pode tirar; mas ao "seio de Abraão", o lugar onde os santos Patriarcas esperam, aflitos, o dia de sua libertação. Desce aos infernos, para aspergir com Seu sangue os filhos de Adão e instaurar a nova Páscoa. Desce aos infernos para dar aos homens aquilo que, desde o príncipio, Ele lhes havia preparado.

"Vosso pai Abraão – disse Jesus, certa vez, aos judeus – exultou por ver o meu dia. Ele viu e se alegrou" (Jo 8, 56). Ei-lo, é hoje o Seu dia. Exultemos e alegremo-nos com os santos Patriarcas, porque também nós fomos conduzidos, pela assombrosa descida do Verbo ao mundo, da morte à vida, das trevas à luz, do pecado à graça, dos infernos ao Céu.

"Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos". Enquanto Ele não ressuscita dentre os mortos, porém, silentium magnum in terra manet. "Um grande silêncio reina sobre a terra".