Quando Jesus responde aos escribas e fariseus: “Uma geração má e adúltera pede um sinal” (Mt 12, 39), Ele não condena o simples desejo de compreender. Em toda a Escritura, Deus concede sinais a quem os pede com humildade: Gedeão, Ezequias, Zacarias e tantos outros. O problema não está em pedir um sinal, mas na disposição interior com que ele é pedido.

À primeira vista, a acusação parece desproporcional. Que relação existe entre pedir um milagre e ser chamado de “adúltero”? 

A resposta encontra-se na própria teologia da Aliança.

Desde Oseias, Jeremias e Ezequiel, Israel é apresentado como a esposa de Deus, e a idolatria recebe constantemente o nome de adultério. Não se trata apenas de uma metáfora literária: o matrimônio é o sinal visível da Aliança, de modo que romper a fidelidade a Deus é espiritualmente o mesmo que romper a fidelidade conjugal.

Ora, os fariseus não adoravam Baal nem ofereciam incenso aos ídolos. Sua idolatria era muito mais sutil. Os Evangelhos deixam entrever diversos “deuses” que haviam ocupado o lugar de Deus.

“Os fariseus questionam Jesus”, quadro de James Tissot.
“Os fariseus questionam Jesus”, quadro de James Tissot.

Havia, antes de tudo, a própria justiça. São Lucas descreve o fariseu como alguém que “confiava em si mesmo, como se fosse justo” (Lc 18, 9): sua segurança já não repousava na misericórdia divina, mas na própria observância.

Havia também a glória humana. Jesus pergunta: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5, 44). Cristo não diz apenas que eles buscavam a honra dos homens; afirma que essa busca os tornava incapazes de crer.

E havia o apego ao poder religioso. Após a ressurreição de Lázaro — precisamente um dos maiores sinais de Jesus —, os chefes do povo não se perguntam se o milagre é verdadeiro, mas concluem: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele” (Jo 11, 48). Poucos versículos depois, deliberam matá-lo.

São Lucas observa ainda que muitos fariseus eram “amigos do dinheiro” (Lc 16, 14), e Jesus os acusa de invalidarem a Palavra de Deus por causa de tradições humanas (cf. Mc 7, 13). O dinheiro, a reputação, a posição religiosa e certas tradições haviam deixado de ser meios para servir a Deus e se tornado fins em si mesmos — o que é a definição mesma da idolatria.

À luz da antropologia escolástica, esse fenômeno torna-se ainda mais inteligível. Comentando a sentença de Aristóteles segundo a qual o fim aparece a cada um conforme aquilo que ele é, Santo Tomás reconhece que a disposição concreta do sujeito inclina o modo como ele julga e escolhe: Qualis unusquisque est, talis finis videtur ei — “A cada um, o fim lhe parece conforme aquilo que ele é” (cf. Aristóteles, Ética a Nicômaco III apud STh I 83, 1 ad 5).

Santo Tomás, contudo, não converte essa constatação em determinismo. Ao responder à objeção, restringe a sentença à qualidade corpórea e conclui que, por tal disposição, o homem é inclinado a escolher ou a recusar algo — inclinado, não forçado. A vontade não cria a verdade; dispõe o intelecto diante dela.

É por isso que a incredulidade dos fariseus não pode ser reduzida a um problema de argumentos. Os sinais já eram abundantes: cegos viam, paralíticos andavam, leprosos eram purificados, demônios eram expulsos e até mortos ressuscitavam. Aceitar Jesus significaria renunciar aos bens que haviam ocupado o centro de suas vidas.

“Imprecações contra os fariseus”, quadro de James Tissot.
“Imprecações contra os fariseus”, quadro de James Tissot.

Aqui se compreende o mecanismo espiritual que Cristo denuncia, e os profetas o haviam descrito antes dele. A esposa infiel de Oseias não deixa de ouvir a voz do marido porque lhe faltem provas de amor; deixa de reconhecê-la porque já segue outros amantes: “Irei atrás dos meus amantes, que me dão o pão e a água” (Os 2, 7). Ela recebe do Senhor o trigo, o vinho e o azeite, e os atribui a Baal (cf. Os 2, 10). Não é a evidência que falta, mas a fidelidade que a tornaria legível. Rompida a aliança, cada demonstração passa a exigir outra, porque a suspeita já não nasce da insuficiência das provas.

Essa dinâmica foi formulada admiravelmente por Blaise Pascal, num fragmento em que, ele diz, Deus temperou o conhecimento de si, dando marcas visíveis de sua presença a quem o procura e não a quem não o procura: Il y a assez de lumière pour ceux qui ne désirent que de voir, et assez d’obscurité pour ceux qui ont une disposition contraire — “Há luz suficiente para os que desejam apenas ver, e obscuridade suficiente para os que têm disposição contrária” (Pensées, Fr. Sellier 274, Fondement).

“Santo Agostinho”, por Philippe de Champaigne.
“Santo Agostinho”, por Philippe de Champaigne.

Mas Pascal não faz senão desenvolver uma intuição muito mais antiga. Santo Agostinho dirige-se a Deus chamando-o secretissime et praesentissime (Confissões I, 4, 4) — “ocultíssimo e presentíssimo” —, numa cadeia de superlativos em que o mais escondido e o mais próximo se dizem num mesmo fôlego. Deus não se manifesta com uma evidência que suprima a liberdade, nem se oculta de tal modo que torne impossível encontrá-lo. É o mesmo Deus que, adiante, será dito interior intimo meo et superior summo meo (Confissões III, 6, 11): “mais íntimo do que o meu íntimo e mais elevado do que o que há de mais alto em mim”. A revelação possui essa delicadeza: oferece-se suficientemente para ser encontrada por quem a ama, e permanece suficientemente velada para que possa ser recusada por quem não deseja acolhê-la.

O Evangelho de São João, porém, leva a análise mais longe. Enquanto Mateus fala de uma geração “má e adúltera”, João revela a raiz última dessa infidelidade. Jesus declara: “Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos de vosso pai” (Jo 8, 44).

A linguagem é fortíssima, mas não deve ser entendida em sentido ontológico. Santo Agostinho é explícito ao comentar a Primeira Carta de São João: Nam neminem fecit diabolus, neminem genuit, neminem creavit: sed quicumque fuerit imitatus diabolum, quasi de illo natus, fit filius diaboli imitando, non proprie nascendo — “O diabo não fez ninguém, não gerou ninguém, não criou ninguém; mas quem quer que o imite torna-se filho do diabo por imitação, e não propriamente por nascimento” (Comentário à Primeira Carta de São João, tract. 4).

Adão, prossegue Agostinho, foi feito por Deus; mas, quando consentiu ao diabo, nasceu do diabo, e gerou todos os outros tais qual ele mesmo era. A filiação, portanto, é moral — e Santo Tomás retoma essa interpretação ao distinguir a filiação natural da filiação por semelhança.

Qual é, então, o traço próprio dessa paternidade? O próprio Cristo responde: o diabo “não permaneceu na verdade” e é “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44). Seu pecado fundamental consistiu em recusar a verdade conhecida. Não lhe faltou luz; faltou-lhe submissão da vontade.

É exatamente o itinerário que João descreve nos adversários de Jesus. Primeiro discutem com Ele; depois recusam seus sinais; em seguida atribuem seus milagres ao demônio; por fim decidem matá-lo. A mentira torna-se necessária para justificar uma vontade que já escolheu outro senhor.

“Os fariseus e herodianos conspiram contra Jesus”, quadro de James Tissot.
“Os fariseus e herodianos conspiram contra Jesus”, quadro de James Tissot.

Poucos versículos antes, Jesus pronunciara uma frase decisiva: “Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis” (Jo 8, 42). Observe-se: Ele não diz “vós compreenderíeis”, mas “vós me amaríeis”. O reconhecimento do Filho nasce do amor ao Pai.

Santo Tomás oferece a chave desse mistério ao tratar do dom de sabedoria. Há dois modos de julgar retamente: pelo uso perfeito da razão, ou por uma certa conaturalidade com aquilo mesmo sobre o que se julga. Em matéria de castidade, quem estudou a ciência moral julga bem por investigação racional; mas quem possui o hábito da castidade julga bem por conaturalidade. Assim também nas coisas divinas: o juízo reto pode nascer da inquirição da razão ou de uma afinidade com elas. E Tomás precisa a origem dessa afinidade: Huiusmodi autem compassio sive connaturalitas ad res divinas fit per caritatem, quae quidem unit nos Deo — “Essa compaixão, ou conaturalidade com as coisas divinas, realiza-se pela caridade, que nos une a Deus” (STh II-II 45, 2c.).

Quando a vontade se apega desordenadamente às criaturas, essa conaturalidade se perde. O intelecto continua vendo os mesmos sinais, mas já não consegue julgá-los retamente, porque o coração passou a amar outro bem como fim último.

Assim se revela toda a profundidade da expressão de Cristo. “Uma geração má e adúltera” não é uma coleção de pecados, mas o diagnóstico de uma aliança rompida — e, uma vez rompida a fidelidade, os sinais deixam de conduzir à fé, não porque sejam insuficientes, mas porque nenhum milagre convence uma vontade que já entregou seu amor a outro senhor. A quantidade de luz permanece a mesma. O que muda é a disposição daquele que a contempla.

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