O quase-beato Fulton Sheen brincou, certa vez, que “as perguntas de Deus satisfazem mais que as respostas do homem” — variação de uma frase de seu amigo G. K. Chesterton: “Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções do homem”. O Evangelho deste domingo, Mt 16, 13-20, confirma esta verdade. Deus não nos faz perguntas porque Ele precise das respostas, mas porque nós precisamos refletir e encontrar, em suas perguntas, mais fruto espiritual do que podem nos proporcionar as respostas humanas.
Nosso Senhor leva os Apóstolos para o território pagão da Cesareia de Filipe. É um lugar mais calmo, porque livre de escribas e fariseus. Ele pode falar abertamente, sem ter de lidar com suas armadilhas. Essa oportunidade de uma instrução mais explícita concentra-se em duas questões feitas aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” e “Quem dizeis que eu sou?”.
Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? A resposta a essa primeira pergunta logo revela quão insatisfatórias podem ser as respostas do homem: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. João, Elias e Jeremias: todos lembravam Cristo porque apontavam para Ele. As multidões confundem uma similaridade com Nosso Senhor mesmo. Trata-se apenas de opinião religiosa.
A primeira questão revela, portanto, nossa necessidade de instrução divina. Nós tomamos a iniciativa, procuramos com afinco pelo Deus verdadeiro, percebemo-lo vagamente e, de várias formas, aproximamo-nos da verdade. Mas, inevitavelmente, chegamos a imagens e percepções falsas a seu respeito. Os ídolos dos pagãos são um exemplo óbvio.
Nós porém que, como as multidões, seguimos, vimos e ouvimos Jesus por algum tempo, também podemos entendê-lo mal. Temos ideias e opiniões a seu respeito que se desviam, em algum grau, da verdade sobre Ele. Não quer dizer que não acreditemos, mas, sim, que nossa compreensão a respeito dele precisa de purificação e esclarecimento constantes. Em suma, não queremos ser como as multidões, resvalando em mera opinião religiosa.
Isso nos leva à segunda pergunta — E vós, quem dizeis que eu sou? —, pergunta que nos conduz a profundas declarações doutrinais sobre Jesus e sua Igreja. Mas, antes de entrar na doutrina propriamente dita, consideremos o propósito da pergunta. Jesus não a faz como parte de uma prova de catequese ou avaliação teológica. É, antes, um apelo pessoal de seu Coração Sagrado aos discípulos. Ele deseja que seus amigos e colaboradores mais próximos saibam quem Ele é. Todo coração humano deseja isso, é claro; quanto mais o Sagrado Coração de Nosso Senhor!
Por nós mesmos, nós não podemos responder corretamente. A resposta de Pedro — “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” — não é humana, mas divina: “porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Diferentemente das multidões, Pedro, por causa de sua fé, não tem uma opinião religiosa a respeito de Jesus. Ele tem a verdade, e alegra o Coração de Nosso Senhor ao dizê-la.
Com Pedro, nós recebemos do Pai a capacidade de confessar a verdadeira fé. Nossa resposta não é resposta de um homem, mas revelação de Deus; não é descoberta nossa, mas dom do Pai. Somente Ele nos dá a verdadeira fé, com que consolamos o Sagrado Coração de seu Filho.
Isso também nos ensina algo a respeito da Igreja. Edificada sobre Pedro e sua resposta divinamente inspirada, a Igreja proclama não só sabedoria humana, mas, sobretudo, a doutrina salvífica revelada pelo Pai. Ela está presente no mundo não como uma ONG ou outra participante qualquer nas discussões internacionais sobre o desenvolvimento humano integral. Ela é a voz autoritativa de Deus. Sim, a Igreja é “perita em humanidade” (Paulo VI), mas só porque possui a fé que “purifica o entendimento” (João Paulo II).
Voltando, porém, à dimensão pessoal desse intercâmbio: a doutrina nos é dada não simplesmente para que estejamos certos em matéria teológica; ela nos é dada sobretudo para que rezemos da maneira correta. O tio Screwtape [N.T.: Escritorpe, Fitafuso ou Maldanado, nas traduções portuguesas das Cartas de um Diabo a seu Aprendiz] sabe o quanto nos equivocamos ao rezar. O demônio teme que venhamos a reconhecer a natureza subjetiva dos nossos pensamentos e imagens a respeito de Deus; teme que venhamos a rezar não ao que pensamos ser Deus, mas ao que Ele de fato é [1].
Somos pobres em espírito, não sabemos rezar como convém. O Pai se revela através de seu Filho para que possamos nos dirigir a Ele, na oração, tal como Ele é, e não como imaginamos que Ele seja. A doutrina da Igreja é salvífica porque nos dá o entendimento correto a respeito de Deus e nos capacita a relacionarmo-nos corretamente com Ele, a rezarmos a Ele da forma correta, dizendo com Pedro: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Essa doutrina salvífica nos é dada, no fim das contas, para que possamos adorar corretamente. Isso explica o porquê de haver certa solenidade, e até cerimônia, nesta cena como um todo. Sem o ensino autoritativo da Igreja, não podemos adorar “em espírito e em verdade” (Jo 4, 24). “Se Deus não se revela a si mesmo, o homem se agarra ao vazio” (Cardeal Ratzinger).
A mente moderna se revolta contra a autoridade, vendo nela apenas opressão e escravidão. Essa passagem [bíblica] nos lembra que a autoridade dada a Pedro e, por extensão, à Igreja ordena-se a que entremos plenamente — e com abandono — naquele relacionamento correto e salvífico com Deus, que é a única libertação e liberdade verdadeiras.
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