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O valor da vocação
Espiritualidade

O valor da vocação

O valor da vocação

A fidelidade à própria vocação é o único caminho seguro para alcançar a verdadeira felicidade

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Janeiro de 2015Tempo de leitura: 3 minutos
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Nos campos de concentração nazistas, onde o ser humano era reduzido a uma existência deplorável, Viktor Frankl descobriu algo importante: o homem, quando possui uma razão para sua vida, é capaz de suportar as piores dores e humilhações. Isso explica o porquê de tantas pessoas, mesmo sob difíceis condições, entregarem-se a uma vocação, cujos resultados nem sempre são o dinheiro ou o prazer, mas a chacota e a incompreensão da sociedade.

Quem se dedica a uma vocação — seja ao sacerdócio ou à vida religiosa, seja ao matrimônio ou ao celibato laical —, dedica-se a um chamado interior. Não se trata de uma escolha arbitrária, pautada em interesses econômicos ou sentimentais. É, antes, uma entrega total, uma resposta ao projeto de Deus para aquele indivíduo. Por isso, no exercício de sua vocação, ele não procurará tanto o sucesso pessoal — embora isso também possa existir —, mas a perfeita realização de seu chamado.

O mundo moderno, marcado por uma mentalidade particularmente materialista, já não crê na vocação e, por esse motivo, escandaliza-se quando um jovem recém-formado ou uma bela moça decidem abandonar tudo (família, emprego, namoro etc.) para viverem o sacerdócio ou a vida religiosa. Inúmeros seminaristas, ao revelarem sua vocação para outras pessoas, tiveram de ouvir estas perguntas: "Você é assexuado?", "vai apenas estudar e depois sair, né?", "não gosta de trabalhar?". Na verdade, o que se esconde por detrás dessas questões é a indignação de quem não consegue buscar outra coisa, a não ser dinheiro e prazer. Não se concebe que alguém, sobretudo um jovem, possa renunciar ao sexo e ao bem-estar econômico por um projeto que, na concepção neopagã, já não tem espaço dentro da civilização. É justamente o que Bento XVI explicava aos sacerdotes, durante o Ano-Sacerdotal: "O celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade" [1].

O mesmo vale para o matrimônio quando vivenciado segundo o projeto originário de Deus, isto é, homem, mulher e filhos. Notem: quantos casais desejam, hoje, gerar muitos filhos, ter relações abertas à vida, lutar contra o fim da lei do divórcio e outras distorções perniciosas do casamento? Uma família numerosa gera tanto escândalo quanto um jovem celibatário, porque apesar de viverem suas vocações em diferentes estados, expressam uma única e verdadeira adesão vocacional. Ambos deram um "sim" definitivo, entregando-se de todo coração ao projeto de Deus. O casal, na fidelidade e vivência indissolúvel do matrimônio; o seminarista, no amor casto e, ao mesmo tempo, fecundo pela Igreja e Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esta razão, ensina o Catecismo da Igreja Católica, matrimônio e ordem são dois sacramentos de missão [2]. Importa, em primeiro lugar, salvar as almas dos que estão ao nosso lado do que alcançar a própria satisfação.

E é nesta doação incondicional de si mesmo que se revela e se experimenta a graça vocacional. "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á" ( Mt 16, 25). Dinheiro e prazer, os dois grandes bezerros de ouro de todas as épocas, são incapazes de trazer a felicidade plena. Ao contrário, aquele que se deixa levar por suas seduções, torna-se um escravo. Escravo das dívidas, das trapaças, da prostituição, escravo do pecado e da corrupção. É como naquele diálogo entre Jesus e a samaritana sobre a água do poço: "Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede" (Jo 4, 13). A pessoa que vive sua vocação, porém, encontra a face de Cristo em todas as circunstâncias, mesmo que venha a padecer sofrimentos, "dores de cabeças", perseguições e desprezo — "Mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede".

O Concílio Vaticano II, meditando sobre "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" [3], foi firme ao afirmar que "todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" [4]. Trata-se de um chamado universal. A santidade é, prestem atenção, o horizonte para o qual todos devemos caminhar. É a nossa verdadeira vocação. Neste sentido, é urgente uma redescoberta do valor vocacional, a fim de que todos experimentem dessa água que o próprio Cristo tem a oferecer-nos: "Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna" ( Jo 4, 14). Maria é o melhor modelo de confiança no projeto divino, dizendo o seu fiat.

Diante das provações do mundo, é preciso coragem para assumir o chamado de Deus. Meditemos sempre nesta exortação de um santo que muito pregou sobre vocação: "Por que não te entregas a Deus de uma vez..., de verdade..., agora!?" [5].

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A oração de Tomás
Santos & Mártires

A oração de Tomás

A oração de Tomás

A vida de Santo Tomás de Aquino é a prova: não se pode ser sábio sem estar na presença de Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Janeiro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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O que explica o gênio extraordinário de Santo Tomás de Aquino? Livros? Disciplina? Dedicação aos estudos? Muitas respostas podem ser dadas a esta pergunta, mas nenhuma será completa, se ignorar a principal ferramenta de trabalho do Doutor Angélico: a oração. Todas as obras de Tomás – desde os seus comentários às Escrituras, até a grande Summa contra Gentiles e a incompleta Summa Theologiae – só são o que são, porque nasceram de uma profunda amizade de seu autor com a própria Verdade, que é Deus.

À sua época, de fato, ainda não tinha acontecido a cisão – tão danosa à modernidade – entre a fé e as ciências, entre a vida interior e a vida intelectual. Quando surgiram as universidades, o conceito que se tinha de um erudito era que fosse também uma pessoa de intensa oração e busca de santidade pessoal. Não sem razão, os bons pensadores e filósofos do passado eram profundamente religiosos – como foi Santo Alberto Magno, São Boaventura ou Santo Tomás de Aquino. Para o homem medieval, esta unidade era bastante lógica: quem procurava a verdade por meio dos estudos, devia também viver de acordo com ela, com retidão e integridade.

Hoje, no entanto, os assim chamados "cientistas" ousam fazer suas pesquisas e trabalhos acadêmicos prescindindo de Deus. Em alguns ambientes, o ateísmo chega a ser obrigatório para integrar um currículo ou alavancar uma carreira de prestígio. As universidades, que, fundadas pela Igreja e envolvidas por um resplendor sobrenatural, engendravam verdadeiros santos, infelizmente se tornaram fábricas de deformação moral em série, às quais as pessoas vão, não mais para aprender a verdade, senão para montar os seus próprios sistemas e ideias – perfeitamente lógicos... e completamente falsos.

Neste sentido, a vida de Tomás de Aquino lança um grande ponto de interrogação sobre todo o pensamento contemporâneo, em cuja base está tão somente o homem – artífice do universo e de si mesmo. É realmente intrigante que queiramos investigar e compreender as criaturas sem nos dirigirmos – ou sequer lançarmos o olhar – Àquele que as projetou e criou.

Era isto o que fazia assiduamente o Aquinate, como atesta o seu biógrafo e discípulo, Guillelmus de Tocco:

"Durante o tempo da noite dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar. (...) Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado" [1].

Mesmo com tantos momentos de oração pessoal, a devoção de Tomás alcançava seu cume na celebração diária da Santa Missa, quando o monge comungava da própria Sabedoria que o iluminava. Importa apresentar, como corolário desta verdade, o que se passou durante os seus últimos meses de vida:

"No convento de Nápoles frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto.

Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. E, com grande espanto, observa que seu corpo se levanta no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no altar: 'Tomás, escreveste bem sobre mim. Que receberás de mim como recompensa pelo teu trabalho?'

De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico: ' Senhor, nada senão Vós!'" [2]

Pouco depois disto, no dia 6 de dezembro de 1273, após rezar o Santo Sacrifício da Missa, acontece em Tomás "uma grande mudança, que impressiona a todos os assistentes". Depois daquele dia, de fato, o santo não mais colocará as mãos em sua Suma Teológica, a qual ele passa a considerar como unicamente palha, em comparação com aquilo que viu e lhe foi revelado [3].

O que viu Tomás? O que lhe foi revelado? Tais perguntas só podem ser respondidas com propriedade pelos santos, que associam o fenômeno místico experimentado pelo Doutor Angélico à promessa de Nosso Senhor: "Aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a mim mesmo a ele" (Jo 24, 20). Assim, Cristo dava ao Aquinate aquilo por que tanto aspirava, desde a sua juventude: Ele próprio.

" Quaerere Deum – procurar Deus": o que viviam os primeiros monges cristãos, foi o que viveu Santo Tomás de Aquino. Que, do Céu, ele nos alcance a graça de buscar perseverante e incessantemente o Senhor, sem o qual qualquer Summa é "palha" e qualquer vida não tem, absolutamente, nenhum sentido.

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Entre rebeldes e caretas
Sociedade

Entre rebeldes e caretas

Entre rebeldes e caretas

A inquietação de todo jovem é a inquietação de todo ser humano que sente a necessidade do infinito, mas não sabe ao certo onde encontrá-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Janeiro de 2015Tempo de leitura: 4 minutos
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Canais de televisão, jornais e outros veículos de informação frequentemente exaltam a juventude como um período de rebeldia e liberdade. Grande parte da publicidade voltada a esse público se destina a iniciá-lo no abandono dos ensinamentos familiares, na vida sexual, no consumo de bebidas e outras atividades consideradas "descoladas" e, dizem, próprias do espírito juvenil. Mas não é só a mídia que impõe padrões. Ainda na puberdade, muitos jovens são como que forçados a adquirir hábitos dos colegas mais velhos, e já cooptados pelo discurso liberal, a fim de não serem excluídos. O rapaz ou a moça, porém, que, respeitando a educação paterna e suas tradições, se recusam a adequar-se à so called "vida louca" — ora imposta pela mídia, ora pelo novo grupo de amigos — recebem o título de "caretas".

Não é nada espantoso que um jovem, ao entrar na faculdade, onde tanto os professores como os estudantes veteranos sentem asco todas as vezes em que veem um símbolo cristão ou escutam alguém falar bem da Igreja, termine por abandonar sua fé. Ele até poderá guardá-la em seu coração, como sói acontecer na maioria dos casos. Mas a guardará no fundo do baú, como o mais terrível de todos os seus defeitos, e não a tirará de lá enquanto a ameaça da exclusão for um perigo real. Alguns tentarão dissimular, confessando-se cristãos, mas não tão cristãos assim. Outros, em nome do modismo e das novas experiências, procurarão o sobrenatural — já que a juventude não neutraliza a natureza religiosa do ser humano —; porém, em searas exóticas, cheias de meditações transcendentais e dietas malucas. Sim, procurarão a verdade; mas, na rua, no exterior. Nunca no lar, na herança de fé deixada por seus pais. "Eis que estavas dentro e eu fora", confessava Agostinho.

O jovem, de fato, possui um coração revolucionário, que não se contenta com a superficialidade. A sua rebeldia, no entanto, diante das pressões do ambiente — e levando em consideração sua imaturidade —, tende a voltar-se contra o alvo mais fácil: os pais. Trata-se de uma rebeldia infantil, cujas manifestações procuram esconder um dado óbvio: o medo da rejeição, o espírito de subserviência ao grupo e às modas, o desejo de atenção etc. É mais fácil revoltar-se contra os pais, porque, diz sabiamente Olavo de Carvalho, "sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total" [1]. É mais fácil revoltar-se contra a Igreja, porque as grades do confessionário são muito menos sombrias — e mais misericordiosas — que as da vexação pública. Qualquer bobalhão consegue perceber a falsidade dessa escravidão juvenil fantasiada de liberdade e rebeldia.

A verdadeira liberdade não se encontra no seguimento de modismos e ofertas baratas. Neste sentido, o jovem cristão sabe viver a sua fé com autêntica parresía, isto é, a coragem de ir contra a corrente, contra a "cultura do provisório, da superficialidade e do descartável", que não o considera capaz de "assumir responsabilidades e enfrentar os grandes desafios da vida." [2] Essa é a verdadeira rebeldia a qual todos os jovens são chamados a apoiar. Não a rebeldia das roupas esquisitas, do sexo, das tatuagens, da bebida, mas a rebeldia contra o pecado: "O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" (Mt 11, 12). A Igreja, mais do que qualquer outra instituição, conhece o coração do homem, porque é perita em humanidade. Por isso, sabendo das grandes aspirações da juventude, exorta cada pessoa a um ideal superior. Disse o Papa Emérito Bento XVI, na apresentação do Catecismo Jovem: "Este subsídio ao catecismo não vos adula; não oferece fáceis soluções; exige uma nova vida da vossa parte; apresenta-vos a mensagem do Evangelho como a 'pérola de grande valor'" [3].

Alguém poderia acusar: a Igreja não aceita as diferenças. É uma crítica que nasce justamente das falsas diferenças inventadas pelos modismos. Quantos jovens se deixam levar por esse discurso, assumindo personalidades e vestimentas extravagantes, sem se darem conta de que estão reproduzindo estereótipos das revistas, novelas, filmes e tutti quanti. A Igreja, pelo contrário, sabe conviver muito bem com as verdadeiras diferenças, sabe respeitar as individualidades de cada ser humano. Basta lembrar: não é a fé católica a defensora dos coletivismos. A fé católica é defensora da genialidade de Santo Tomás de Aquino e da simplicidade de São João Maria Vianney, da pobreza evangélica de São Francisco de Assis e da majestade real de São Luís da França, da maturidade espiritual de Santa Teresa d'Ávila e da infância espiritual de Santa Teresinha do Menino Jesus. E isso o faz porque sabe que na casa do Pai há muitas moradas [4].

Quem procura a verdade — ensina Santa Edith Stein —, procura Deus. A inquietação de todo jovem é a inquietação de todo ser humano que sente a necessidade do infinito, mas não sabe ao certo onde encontrá-lo. Quer ser livre e, por isso, rebela-se. Rebela-se porque ainda não descobriu, como no caso de Santo Agostinho, que o que procura está dentro, não fora.

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A correção que leva para o céu
Espiritualidade

A correção que leva para o céu

A correção que leva para o céu

A primeira preocupação de um coração enamorado por Cristo é a de levar seus irmãos para o céu.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Janeiro de 2015Tempo de leitura: 5 minutos
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Uma resposta inequívoca sai da boca de Jesus, quando provado pelos fariseus sobre qual seria o principal mandamento da Lei divina: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. O amor fraterno constitui um princípio basilar do cristianismo. O homem retribui a solicitude de Deus, amando-O no irmão, isto é, ajudando os outros em suas necessidades, sobretudo espirituais, a fim de que levem uma vida marcada pela santidade pessoal, voltada para o céu. Trata-se da lógica do amor: Deus nos ama e nós o amamos de volta por meio da caridade — pois "todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes" (Mt 25, 40).

Essa caridade, por sua vez, não se resume a uma preocupação meramente terrena, não significa tão somente um zelo pelo bem físico e material da pessoa, embora isso também seja necessário. A primeira preocupação de um coração enamorado por Cristo é a de levar seus irmãos para o céu. Neste sentido, faz-se imprescindível uma atenção para os modelos de vida que não correspondem às máximas do Evangelho. A chamada correção fraterna é uma prática recomendada várias vezes no Novo Testamento. Na carta aos hebreus, vemos São Paulo dizer: "Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras" (Hb 10, 24). Nos livros sapienciais também está escrito: "Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber" (Pr 9, 8-9). Finalmente, é o próprio Jesus quem nos convida a cuidar da alma de nosso próximo: "Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão" (Mt 18, 15). E esse "ganhar teu irmão" significa verdadeiramente ganhá-lo para Deus.

Em uma sociedade cada vez mais secularizada, onde se vive muito mais voltado para as coisas da terra que para as do céu, surge evidentemente a tentação do materialismo, a qual conduz para um isolamento pessoal, mesmo dentro da Igreja. Quando a pregação dos pastores demonstra uma preocupação maior com "as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária", aí também se revela uma espécie de anestesia espiritual, que tende a considerar a fé como um dado secundário ou, muitas vezes, irrelevante para o desenvolvimento humano [1]. Ora, não seria isso exatamente uma das raízes da crise institucional que se apresenta hoje no seio da Igreja? [2] Lembra-nos o Papa Bento XVI: "Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro" [3]. Nas páginas do Evangelho é Jesus mesmo quem nos exorta a "buscar as coisas do alto" em primeiro lugar — "e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo" ( Mt 6, 33).

Com efeito, é mister que os cristãos do mundo moderno digam não ao indiferentismo, à tendência de querer "adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem" [4]. O exemplo dos santos, sobretudo daqueles que preferiram o martírio a negar as verdades cristãs, impele-nos a isso. "O nosso amor pelo próximo — escrevia Santa Teresa Benedita da Cruz — é a medida do nosso amor a Deus" [5]. Trata-se de uma decisão: com Cristo ou contra Cristo. Não há neutralidade nesse caso. É justamente o que recorda São João Paulo II, na sua encíclica dedicada particularmente aos bispos, Veritatis Splendor [6]:

O martírio desautoriza como sendo ilusório e falso, qualquer «significado humano» que se pretenda atribuir, mesmo em condições «excepcionais», ao ato em si próprio moralmente mau; mais ainda, revela claramente a sua verdadeira face: a de uma violação da «humanidade» do homem, antes ainda em quem o realiza do que naquele que o padece.

Por outro lado, a correção fraterna exige um procedimento reto, que tenha em vista o bem espiritual da pessoa. Deve-se, por isso, rechaçar toda espécie de moralismo, a fim de que os mandamentos de Deus não sejam resumidos a um conjunto de negações, mas encarados como uma autoestrada que conduz à verdadeira liberdade do ser humano, isto é, a vida eterna. Na correção de um amigo, por conseguinte, o cristão necessita "fazer-se tudo para todos" ( 1 Cor 9, 22), pois "uns são como crianças recém-nascidas, outros como adolescentes e outros, finalmente, já são efetivamente adultos" [7]. Desse modo, faz-se necessário que o educador pondere "com toda a diligência quais são os que precisam de leite e quais os que carecem de um alimento mais sólido", adaptando "suas palavras à mentalidade e à inteligência dos seus ouvintes" [8]. De fato, é preciso cuidado para não quebrar a cana já rachada e apagar a chama que fumega (cf. Is 42, 3).

O princípio da correção fraterna traz em seu bojo outra verdade fundamental para o cristianismo: a fraternidade em Cristo. Pelo batismo, tornamo-nos todos irmãos. Assim, fazem todo sentido as palavras de São Paulo aos efésios: "Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor" (cf. Ef 4, 1-6). Uma comunidade que não se preocupa com as necessidades básicas do outro está fadada ao fracasso, por mais supostamente piedosa que seja. A verdadeira espiritualidade nunca se fecha em si mesma; ao contrário, leva-nos a enxergar Jesus no outro, ajudando-o a carregar a cruz, tal qual fez o cirineu com Cristo. Também a Virgem Santíssima nas bodas de Caná — "Eles não têm mais vinho" (Jo 2, 3) — dá-nos o modelo de amor ao próximo, como também na sua partida apressada para a casa de Isabel — "Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá" (cf. Lc 1, 39-45) —, a fim de servi-la e ajudá-la.

O amor de Deus pede uma resposta. E esta resposta, é preciso sempre repetir, está no amor aos irmãos: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (...) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" ( Mt 22, 34-40).

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