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Até quando vai a Quaresma?
Liturgia

Até quando vai a Quaresma?

Até quando vai a Quaresma?

Muitas pessoas nos têm perguntado quando, afinal, termina o tempo da Quaresma: é no Domingo de Ramos, na Quinta-feira Santa ou no Sábado Santo? A resposta é um pouquinho mais complicada do que se imagina. Por isso este texto.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Muitas pessoas nos têm perguntado quando, afinal, termina o tempo da Quaresma: é no Domingo de Ramos, na Quinta-feira Santa ou no Sábado Santo?

Na busca por respostas, o quadro com que nos deparamos é o seguinte.

As Normas Universais do Ano Litúrgico e o Novo Calendário Romano Geral, promulgadas pelo Papa Paulo VI, dizem expressamente: “O tempo da Quaresma vai de Quarta-feira de Cinzas até a Missa na Ceia do Senhor, exclusive” (n. 28). Isso significa que, na atual forma do rito romano, a Quaresma se encerra na Quinta-feira Santa, antes da Missa vespertina de lava-pés e da instituição da Eucaristia. 

A mesma definição é confirmada pela Carta Circular Paschalis Sollemnitatis (1988), da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, na qual se lê: 

Na Semana Santa a Igreja celebra os mistérios da salvação, levados a cumprimento por Cristo nos últimos dias da sua vida, a começar pelo seu ingresso messiânico em Jerusalém. O tempo quaresmal continua até à Quinta-feira Santa. A partir da Missa vespertina “in Coena Domini” inicia-se o Tríduo Pascal, que abrange a Sexta-feira Santa “da Paixão do Senhor” e o Sábado Santo, e tem o seu centro na Vigília Pascal, concluindo-se com as Vésperas do Domingo da Ressurreição (n. 27).

Para os fiéis que seguem, no entanto, a forma extraordinária do rito romano, a resposta é um pouco diferente, segundo o que se lê nas Rubricas Gerais do Missal antigo: “O tempo da Quaresma vai das Matinas da Quarta-feira de Cinzas até a Missa da Vigília Pascal, exclusive” (n. 74). Isso significa que, para quem reza com o Missal de S. Pio V, a Quaresma termina no Sábado Santo, antes da Missa da Vigília Pascal. (É curioso observar que a própria Missa da Vigília, no rito antigo, indica essa mudança de um tempo para o outro, pois o sacerdote começa a celebração com paramentos roxos e termina com paramentos brancos.)

Uma explicação para a mudança? O que certamente a Igreja quis realçar com esse “deslocamento” do Sábado para a Quinta-feira Santa é a importância do Tríduo Pascal, como uma espécie de tempo à parte dentro do próprio período de austeridade quaresmal. Mais do que isso, estes três dias em que se celebram a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor constituem como que o coração do qual promana todo o restante do ano. A Quaresma culmina justamente no Tríduo santo, que nos conduz pela mão até o tempo da Páscoa.

Há quem busque a resposta para a controvérsia no número exato de 40 dias para demarcar a Quaresma. Mas aí a controvérsia só piora, pois, matematicamente, contando também os domingos, o 40.º dia da Quaresma é o Domingo de Ramos — de modo que ficaria de fora a Semana Santa. Uma solução seria começar a contar a partir do 1.º Domingo da Quaresma, com o que nossa contagem terminaria exatamente na Quinta-feira Santa, opção que também tem o seu sentido, já que as práticas penitenciais da Quaresma começavam, em alguns tempos e lugares, justamente neste dia. Também seria possível contar a partir da Quarta-feira de Cinzas e descontar os domingos, e assim o nosso esforço terminaria… no Sábado Santo. 

A verdade é que o número 40, aqui, tem um sentido mais simbólico que literal. Ele faz alusão ao deserto, aos dias que Jesus passou lá em jejum e aos anos que o povo de Israel passou no mesmo lugar. É a eles que nos unimos quando nos penitenciamos na Quaresma.

Para a pergunta que parece persistir, portanto, é preciso dizer simplesmente que a resposta varia de acordo com o Missal adotado, em função do rito de que se participe. Não está errado nem quem diz que a Quaresma vai até a Quinta-feira Santa nem quem diz que vai até o Sábado Santo. Só precisamos tomar o cuidado de não “desprezar” sem mais uma das respostas, pois, como escreveu o Papa emérito Bento XVI na Carta Apostólica Summorum Pontificum:

O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da lex orandi (“norma de oração”) da Igreja Católica de rito latino. Contudo, o Missal Romano promulgado por S. Pio V e reeditado pelo Beato João XXIII deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma lex orandi e deve gozar da devida honra pelo seu uso venerável e antigo (art. 1).

Controvérsias à parte, o fato é que as pessoas fazem essa pergunta pensando principalmente nas penitências a que se propuseram no início do período quaresmal. Por isso, a questão não é ociosa. É preciso saber, afinal, até quando se penitenciar.

Bom, para essa pergunta a resposta é bem mais simples. Mesmo que a Quaresma termine na Quinta-feira Santa, seria muitíssimo inapropriado cessar as penitências e abandonar neste dia o espírito de mortificação com que se viveram todos os dias da Quaresma. É a mesma conclusão a que chegaram os Padres do Concílio Vaticano II, antes mesmo de a reforma de Paulo VI “mudar” o fim da Quaresma, por assim dizer:

Mantenha-se religiosamente o jejum pascal, que se deve observar em toda a parte na Sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor e, se oportuno, estender-se também ao Sábado Santo, para que os fiéis possam chegar à alegria da Ressurreição do Senhor com elevação e largueza de espírito (Sacrosanctum Concilium, n. 110).

Ou seja, para nós, católicos, a Quaresma e o espírito de penitência que a acompanha só devem cessar de fato na noite do Sábado Santo. Mais do que uma questão de datas e nomenclaturas, é uma questão de coerência. Não faz sentido preparar-se com afinco ao longo de todo um tempo, justamente para celebrar a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, e “pisar na jaca” nos dias em que celebramos esses mistérios. É como comer o bolo de casamento antes de a festa começar.

Sobre o jejum, a propósito, foi o próprio Senhor quem usou a imagem de um casamento para explicar o quando e o porquê de seus discípulos se mortificarem: “Virão dias em que lhes será tirado o esposo; então jejuarão nesses dias” (Lc 5, 35). Pois bem, em que momento fica mais evidente a ausência do Esposo, senão nos dias em que recordamos os fatídicos eventos da Paixão? Se Jesus não nos foi tirado quando preso, morto e sepultado, quando é que isso aconteceu? Como poderíamos, então, comer e beber tranquilos justamente nos dias em que a liturgia da Igreja nos põe diante dos olhos os mistérios para os quais nos preparamos ao longo da Quaresma?

Vale a pena lembrar que uma coisa são as penitências a que nós nos propomos e outra são as que a Igreja nos impõe como obrigatórias. As primeiras são livremente “pactuadas” entre nós e Deus; as segundas, porém, devem ser vividas por todos os fiéis católicos, sob pena de pecado mortal. Isso significa que, para um católico, deixar de comer carne às sextas-feiras e jejuar na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa não são “opções”; trata-se apenas do mínimo de penitência que a Igreja exige de todos os seus filhos. Neste texto, estamos falando de outras penitências, mortificações a mais que cada um de nós escolhe generosamente fazer tendo em vista a própria purificação e crescimento na vida da graça. 

Para que essas observâncias externas “funcionem”, no entanto, é preciso que as cumpramos não apenas com as mãos ou os lábios, mas com o coração. Só assim, fazendo nossas penitências com amor — e não com a pressa de quem quer se ver livre de um fardo —, poderemos ter uma Quaresma realmente santa e agradável a Deus. Até o fim.

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A verdadeira história de Emily Rose
Testemunhos

A verdadeira história de Emily Rose

A verdadeira história de Emily Rose

Em 1978, a Justiça alemã condenou como homicidas tanto os pais de Anneliese Michel quanto os padres envolvidos em seu exorcismo. O que pareceu um fracasso aos olhos do mundo, no entanto, pode ter sido um verdadeiro triunfo aos olhos de Deus.

Matt C. AbbottTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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O texto abaixo é a tradução de um trecho do livro Anneliese Michel: A True Story of a Case of Demonic Possession [“Anneliese Michel: Uma História Real de um Caso de Possessão Demoníaca”, ainda sem tradução portuguesa], do Pe. José Antonio Fortea e de Lawrence E.U. LeBlanc. 

Trata-se do resumo de um caso célebre, que ficou ainda mais famoso nos cinemas, com “O Exorcismo de Emily Rose”. Diferentemente, porém, do alarde cinematográfico, conhecer a história real da jovem Anneliese Michel nada mais é que entrar em contato com as verdades que a Igreja Católica sempre ensinou, a saber: que há um Deus providente que governa o mundo; que existem anjos decaídos ao nosso redor, “procurando a quem devorar”; e que o sofrimento humano, por mais agudo e terrível que seja, sempre pode ganhar um sentido à sombra da Cruz de Cristo.

Os que desejarem — e não tiverem problemas, evidentemente, com esse tipo de conteúdo —, podem acessar depois, no YouTube, algumas gravações das sessões de exorcismo por que passou Anneliese Michel, na Alemanha, em 1976.


A 30 de março de 1978, no tribunal distrital de Aschaffenburg, Alemanha, começava o julgamento de Josef e Anna Michel, Pe. Arnold Renz e Pe. Ernst Alt. Os quatro foram acusados do homicídio culposo de Anneliese Michel. O tribunal estava ocupado principalmente por pessoas dos meios de comunicação da Alemanha e de outros países. Anneliese, sua família e alguns amigos próximos, os dois sacerdotes envolvidos e o bispo local acreditavam que ela sofria de possessão demoníaca. Na época, foi o primeiro caso oficial e público de exorcismo na Alemanha em aproximadamente cinquenta anos, e o único caso registrado em áudio de que se tem notícia. Depois de sessenta e sete sessões de exorcismo, Anneliese morreu em 1.º de julho de 1976, aparentemente de inanição. 

Anneliese Michel.

Quando o juiz Bohlender leu o veredito da corte no dia 21 de abril de 1978, as opiniões do especialista médico fornecidas pela acusação foram aceitas na íntegra. Os envolvidos no caso não poderiam ter sabido que uma epilepsia havia evoluído para uma psicose. Em maio de 1976, no máximo, Annelise já não tinha condições de determinar seu bem-estar nem de lidar com ele. As sessões de exorcismo agravaram a doença dela. Os réus deveriam ter buscado auxílio médico. A corte disse que, se Anneliese tivesse recebido tratamento médico ou recebido alimento à força até uma semana antes de sua morte, sua vida poderia ter sido preservada. Portanto, a sentença afirma que eles deveriam ter buscado cuidados médicos, mesmo convencidos de que o problema fosse espiritual. Isso significa que qualquer médico, psiquiatra ou funcionário público (talvez) que considerasse prejudicial para a saúde de uma pessoa a realização de um exorcismo, poderia intervir legalmente e assumir um caso como aquele.    

Uma de suas irmãs atestou que Annelise havia deixado claro que não queria ser enviada a um hospital psiquiátrico onde poderia ser sedada e alimentada à força.

Os quatro réus foram condenados a seis meses de prisão, que foi suspensa e substituída por três anos de liberdade condicional. Pe. Alt recebeu uma multa de 4.800 marcos alemães e Pe. Renz, uma de 3.600. Também foram responsabilizados pelos custos judiciais. Inicialmente, os quatro acusados recorreram da decisão da corte. Depois de refletirem sobre todo o processo, em parte por causa de razões financeiras e em parte porque os envolvidos não tinham certeza de que uma decisão justa poderia ser dada, decidiram retirar o recurso. É importante notar que as despesas judiciais dos sacerdotes foram assumidas pela Diocese de Wurzburg. Se tivessem mantido o recurso, os sacerdotes teriam sido responsáveis por quaisquer custos legais adicionais. Atualmente, todos os arquivos do processo e os da diocese relativos a essa história não estão disponíveis ao público.

Não deveríamos ficar surpresos com o veredito dado pelo tribunal ou pelo desprezo que o público nutria pelos réus. Geralmente, o público apoia os réus quando os tribunais julgam casos controversos. Nesse caso, os pais e os dois sacerdotes acusados estavam sob enorme pressão, já que as leis, a Igreja, a mídia e a opinião pública estavam majoritariamente contra eles.

Annelise, sua família, Peter, os Heins, os sacerdotes e o bispo acreditavam que soluções médicas e psicológicas não foram bem-sucedidas. Também acreditavam que, em última instância, a situação de Anneliese preenchia os critérios de possessão. Depois de muito tempo, consultas e diversas solicitações ao bispo, receberam autorização para começar as orações de exorcismo. Num mundo moderno em que as crenças religiosas foram marginalizadas e muitas das verdades sustentadas há tempo pela Igreja Católica começaram a sofrer ataques internos e externos, não deveria haver muitas dúvidas de que as opiniões a respeito do que realmente aconteceu com Anneliese Michel ficariam divididas. Os que não creem em Deus também não creem na existência de demônios, e isso faz do exorcismo algo “próprio da Idade Média”. Embora Anneliese nunca tenha passado por uma avaliação psiquiátrica detalhada, a epilepsia e a doença psicológica eram causas prováveis dos sintomas que ela apresentava. 

No entanto, ocorreram coisas que não podiam ser explicadas por esse diagnóstico. Para os que acreditam em Deus e no Novo Testamento, a possessão é uma causa plausível para o sofrimento de Annelise. Está claro que ela, seus familiares, amigos e muitos sacerdotes familiares com o caso acreditavam que ela sofria de possessão; a fé dela em Deus e na Igreja Católica não foram questionadas e, acima de tudo, ela sofreu bastante e ofereceu esse sofrimento por Jesus Cristo… 

Quando os autores se familiarizaram com as circunstâncias do caso, puderam afirmar sem sombra de dúvida, levando em conta o campo das patologias mentais e reconhecendo a existência do mundo espiritual, que Anneliese Michel não sofria de doença mental. O que vemos no comportamento dela não vem de um estado de doença mental, mas da possessão demoníaca que a acometia. A depressão que ela enfrentou foi uma consequência normal da situação em que se encontrava. Durante a última parte de sua vida, ela sofreu de uma compulsão provocada pela influência dos demônios sobre sua mente. Isso ficou manifesto por meio da repetição de atos piedosos como genuflexões e orações. Era parte da cruz que Deus lhe permitiu carregar.

Anneliese sofreu física, mental e espiritualmente. Sofria os efeitos físicos das convulsões ou sintomas semelhantes, breves períodos de inconsciência, às vezes dificuldade de comer, dormir, caminhar e falar. Houve sintomas semelhantes aos da depressão que se tornaram constantes. Às vezes, seu desejo espiritual de rezar, confessar-se, ir à Missa e receber a Sagrada Eucaristia sofriam interferência ou não podiam ser realizados. Ela sofria porque ninguém parecia ser capaz de ajudá-la, exceto por meio da oração, algo que causava alívio em diferentes graus. Ela ficava apavorada com rostos demoníacos e outras provações semelhantes. Apoiando-se na fé, aceitava esses sofrimentos e os oferecia a Deus em expiação pelos pecados de outras pessoas. Continuava a viver sua vida de forma heroica, apesar dos formidáveis desafios. Afora tais sofrimentos, ela parecia viver e funcionar como uma pessoa feliz e normal.      

Em meio a esses sofrimentos, sua família e os sacerdotes acreditavam que Anneliese recebia consolações divinas sob a forma de locuções e que sentia a presença de Jesus, Maria, vários santos e muitos parentes já falecidos. Mais tarde, Anneliese recebeu visões de Jesus e Maria, tal como a descrita por Anna Michel e Thea Hein, na qual Maria apareceu a ela e lhe perguntou se estava disposta a oferecer seus sofrimentos a Deus.

A lápide de Anneliese Michel, lugar de peregrinações.

Anneliese, sua família, Peter, os Heins, Pe. Renz, Pe. Alt, Pe. Rodewyk, Bispo Stangl e vários outros sacerdotes que tinham familiaridade com o caso acreditavam que Anneliese sofria de possessão demoníaca. Consequentemente, o único remédio para aliviar a situação de Anneliese era rezar as orações de exorcismo. Eles acreditavam que essas orações terminariam sendo bem-sucedidas e que Anneliese seria libertada. Se o exorcismo tivesse dado certo, talvez somente a família, amigos e sacerdotes teriam tomado conhecimento dos episódios ocorridos na vida de Anneliese, a qual em abril ou maio de 1976 parecia ter concluído que sua oferta poderia incluir o oferecimento da própria vida. Quando lhes perguntavam por que não saíam do corpo de Anneliese, os demônios respondiam que não tinham autorização para fazê-lo. Como Annelise ofereceu seus sofrimentos a Deus e morreu em 1.º de julho de 1976 (data que, segundo previsão dela mesma, marcaria a resolução da situação), podemos especular que isso aconteceu por permissão divina.    

Uma vez que esses acontecimentos podem ser interpretados como uma forma de participação nos sofrimentos de Cristo, se considerados de uma perspectiva espiritual, a morte de Anneliese não representou de modo algum o fracasso do exorcismo. Deve ser entendida da mesma forma que a morte de Cristo. O que pode ser visto como fracasso aos olhos do mundo pode, na verdade, ser um triunfo aos olhos de Deus. Anneliese fez tudo o que estava ao seu alcance para libertar-se da tirania dos demônios, e os sacerdotes fizeram tudo o que estava ao alcance deles para libertá-la. Então, por que Deus permitiu que ela morresse? Como um sacrifício expiatório?

A ideia de que sofrimentos oferecidos com amor, resignação e paciência possuem valor salvífico é central na teologia cristã. Tais sofrimentos tornam-se graças para a salvação de outras pessoas. O sacrifício na cruz ocorrido há dois mil anos não pode ser compreendido sem esse conceito de expiação. Nessa nova versão alemã do Calvário, todos fizeram o que consideraram mais adequado, mas Deus aceitou o sacrifício e permitiu a morte de Anneliese.  

Deus permitiu que os demônios impedissem Anneliese de comer, assim como, ao longo da história, permitiu que carrascos martirizassem suas vítimas, apesar de elas terem rezado e pedido sua libertação. Os Michels e os dois sacerdotes sofreram muito após a morte de Anneliese e o veredito do tribunal. Sob alguns aspectos, sofreram pelo resto de suas vidas com o terrível fardo de serem cercados de pessoas que os consideravam culpados, mesmo sabendo em boa consciência que fizeram por Anneliese o melhor que puderam.       

Esse caso teve outra consequência: interrompeu efetivamente os exorcismos na Alemanha. Embora não fossem comuns no país naquele período, depois desse doloroso episódio parece que ninguém mais quis se envolver com o poder de expulsar demônios, dado por Jesus aos seus Apóstolos. Raras foram as vezes em que um episódio desse tipo afetou a Igreja de modo tão negativo num país.


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Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?
Doutrina

Deus se arrependeu
alguma vez de ter criado o homem?

Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?

No livro do Gênesis, o relato do Dilúvio é precedido por uma frase desconcertante: “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor”. Mas como isso pôde ser, se Deus tudo sabe?

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Gn 6, 6 está escrito: ‘O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor’. Como o Senhor se arrependeu sendo onisciente? Ele não sabia que isso aconteceria?”

Resposta: As palavras “penitência” e “arrependimento” significam, em sentido próprio, certa dor e detestação da alma por ter cometido um mal ou omitido um bem, com o propósito de agir diferente no futuro. De fato, quando nos arrependemos de alguma coisa, costumamos dizer para nós mesmos: “Por que fiz isto? Queria não tê-lo feito!”, o que expressa nosso desejo de, em iguais circunstâncias, fazer o contrário do que fizemos.

Ora, que Deus não possa, em sentido próprio, se arrepender de nada, por ser onisciente e sumamente sábio, mostram-no com clareza vários trechos da S. Escritura, dentre os quais destacamos os três seguintes:

  • “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31).
  • “Deus não é homem para mentir, nem alguém para se arrepender. Alguma vez prometeu sem cumprir? Por acaso falou e não executou?” (Nm 23, 19).
  • “Aquele que é a verdade de Israel não mente, nem se arrepende, pois não é um homem para se arrepender” (1Sm 15, 29).

Logo, a passagem de Gn 6, 6 deve ser entendida em sentido impróprio ou metafórico, isto é, como certo antropomorfismo para significar que Deus aborreceu ou detestou os pecados da humanidade e, por isso, decidiu punir os homens, a saber: deixando de conservá-los, o que Ele não levaria a cabo se a maldade humana não tivesse chegado às proporções descritas pouco antes, em Gn 6, 5. Se, com efeito, a mesma Escritura diz que Deus “caminhava no jardim”, mas sem lhe atribuir pés, e afirma que Ele tudo faz com força de seu “braço”, mas sem lhe atribuir membros corpóreos, quando diz que Ele se “arrepende”, por que lhe atribuiríamos as imperfeições e inconstâncias de nossa própria vontade?

Aliás, o verbo que se lê no texto grego de Gn 6, 6 é ἐνεθυμήθη (aoristo de ἐνθυμέομαι), que também se pode traduzir por “reconsiderou em sua mente”, “deliberou”, “ponderou de si para si”, “reflexionou” etc., ideias que, aplicadas a Deus, não significam a retratação formal de uma vontade anterior, mas a simples efetivação, no tempo, do único ato eterno e imutável, embora condicional com respeito às criaturas, da vontade divina: “Castigar com penas justas os entes racionais e livres, se persistem obstinadamente em sua maldade” [1].

Notas

  1. Como lembra o Aquinate (cf. STh I 19, 7c.), querer que as coisas mudem não equivale a mudar de querer. Assim, e.g., Deus pode querer desde toda a eternidade que, num tempo tal, Pedro esteja vivo, mas que, depois, esteja morto, sem que isso implique que a vontade mesma de Deus — tão imutável quanto sua própria substância — tenha-se alterado. Do mesmo modo, Deus pode, com um só ato de vontade, querer absolutamente (i.e., desconsiderando quaisquer circunstâncias) que os homens vivam, mas, condicionalmente (i.e., supostas certas condições), que morram (e.g., no caso de se tornarem indignos, por seus pecados, de dons naturais como a vida biológica).

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Escândalos e corrupção na Igreja: o que diria o Venerável Fulton Sheen?
Igreja Católica

Escândalos e corrupção na Igreja:
o que diria o Venerável Fulton Sheen?

Escândalos e corrupção na Igreja: o que diria o Venerável Fulton Sheen?

Diante de tanto escândalo e corrupção dentro da Igreja, o que fazer? Abandoná-la? Criar outra para que as coisas funcionem? Não é o que nos recomendaria o grande Arcebispo Fulton Sheen, ou o Papa emérito Bento XVI.

Mark HaasTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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“Eu não sei mais como lidar com a Igreja Católica”, “Há escândalo e corrupção demais”, “A Igreja está cheia de hipócritas e eu a estou deixando”.

Nós todos já ouvimos comentários assim de irmãos católicos (ou chegamos, nós mesmos, a ponderá-los). Não é difícil encontrar exemplos de escândalo e corrupção dentro da Igreja. Para os fiéis católicos, pode às vezes ficar cansativo ler sobre as falhas humanas de leigos e líderes religiosos. Talvez seja mais fácil sair. Talvez devamos simplesmente “entregar os pontos” e ir embora.

O Venerável Arcebispo Fulton Sheen refletiu certa vez sobre essa preocupação dos católicos: 

A Igreja é como a Arca de Noé, que estava repleta tanto de animais limpos quanto de animais sujos. Ela certamente tinha um terrível mau cheiro, mas estava transportando oito pessoas para a salvação. O mundo hoje está rasgando as fotografias de uma boa sociedade, de uma boa família, de uma vida pessoal individual feliz. Mas a Igreja está guardando os negativos. E quando chegar o momento em que o mundo quiser uma reimpressão, nós os teremos.

Imagine você a vida na Arca de Noé: os espaços apertados, os animais querendo comer uns aos outros, os barulhos, os fedores, uma tempestade constante de quarenta dias agitando a embarcação, o enjôo causado pelo mar, a família numa proximidade asfixiante... Quem jamais gostaria de ter vivido um episódio semelhante?

“A Arca de Noé no monte Ararat”, por Simon de Myle.

Agora imagine o tempo que Noé passou construindo a arca. Imagine esse homem e sua família edificando esta barca grande e espalhafatosa. Imagine os vizinhos zombando desta família maluca: se eles soubessem o que nós sabemos hoje, imagino que teriam pulado a bordo; teriam alegremente subido na arca. A outra alternativa seria nadar — e ela não funcionou muito bem.

Você alguma vez já se sentiu como a “família maluca” de Noé? Seus vizinhos já olharam para você e balançaram a cabeça? Talvez você seja “esquisito” por confessar seus pecados a um padre. Talvez receba olhares estranhos por se abster de carne nas sextas-feiras, especialmente durante a Quaresma. Talvez se tenha aferrado à doutrina moral da Igreja numa sociedade que está constantemente gritando o contrário. É com razão que Fulton Sheen nos diz: a Igreja Católica é a Arca de Noé. A Igreja nos conduzirá ao porto seguro do Céu.

“Mas a música na minha paróquia é horrível.”

“Mas meu padre faz homilias terríveis.”

“Não há grupos para os jovens e as crianças.”

“A igreja protestante tem música legal, pregação legal e atividades em família.”

“Será que não deveríamos simplesmente pegar outra estrada no próximo domingo?” Com todo respeito: não, nós não devemos. É o próprio Jesus quem diz: “Ninguém que põe a sua mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62).

Arar o campo, isto é, ser discípulo de Jesus e um membro obediente de sua Igreja, pode ser uma tarefa solitária e difícil. A agricultura é um trabalho duro. O Sol aquece, o suor escorre, seus braços doem, você pode estar fazendo todo o trabalho sozinho. Mas Jesus nos manda não olhar para trás. S. Paulo nos urge a manter fixos “os olhos no autor e consumador da nossa fé” (Hb 12, 2).

O que fazer, então, se somos oprimidos e desmoralizados por causa de nossa pertença à Igreja? O Papa emérito Bento XVI diz: 

O que deve ser feito? Talvez devêssemos criar outra Igreja para que as coisas funcionem? Bom, essa experiência já foi feita e já fracassou. Somente a obediência e o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo podem indicar-nos o caminho (A Igreja e os abusos sexuais, III). 

A obediência indicará o caminho. Pode ser difícil praticá-la no mundo de hoje. Não se trata de sugerir uma capitulação completa ao “pague, reze e obedeça”. Ao contrário, somos chamados a seguir o modelo de Nosso Senhor mesmo, que nos mostra a última forma de amor através do ato sacrificial de sua obediência. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Fl 2, 8). 

Neste mundo, teremos tribulações, mas tenhamos ânimo: Ele venceu o mundo (cf. Jo 16, 33). Permaneça na Arca, e deixe que Nosso Senhor acalme as tempestades.

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