98. As Sagradas Escrituras e a nossa vida espiritual

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Antes de meditar sobre a importância das Sagradas Escrituras para a nossa vida espiritual, é importante assinalar qual o seu lugar na vida da própria Igreja.

Santo Agostinho recorda que a missão dos bispos, que pastoreiam o rebanho de Cristo, é meditar a Palavra de Deus e ensiná-la ao povo. Para tanto, é importante que eles se debrucem sobre as Sagradas Escrituras, alimentando-se primeiramente a si mesmos, já que “verbi Dei enim inanis est forinsecus praedicator, qui non est intus auditor – em vão prega a Palavra de Deus exteriormente quem não a escuta interiormente” [1].

São João Crisóstomo, em sua obra sobre o sacerdócio, indicando o que a Igreja deve fazer em tempos de crise, escreve:

“Ou, por acaso, não sabes que este Corpo (Místico de Cristo) está exposto a maior número de doenças e perigos do que a nossa carne mortal; que ele mais fácil e rapidamente se corrompe e mais lentamente sara? Para o nosso corpo carnal os médicos já inventaram vários remédios, confeccionaram diversos instrumentos e prepararam alimentos salutares para os doentes. Muitas vezes até basta mudança de ar para recuperar a saúde. Acontece até que só um sono profundo dispensa maiores cuidados do médico. Aqui, porém, não se pode empregar nada disso; aqui, fora o bom exemplo, existe um único meio e um único caminho, isto é o aconselhamento pela palavra.

Este é o instrumento adequado, é o alimento certo, o ar salutar; é a palavra que representa remédio, fogo e ferro. É dela que se deve fazer uso quando se tornar necessário cortar e queimar. E onde a palavra nada conseguir, todas as outras coisas também não têm valor. Com a palavra levantamos a alma caída, tranqüilizamos a irritada. Pela palavra removemos eventuais excrescências da alma, acrescentamos o que falta, providenciando, desta maneira, tudo o que possa ser proveitoso para o seu bem-estar.

Encontrando alguém com vida perfeita, o exemplo dele poderá conseguir despertar o zelo e a vontade de imitá-lo; se, porém, encontrarmos alguma alma adoentada por falsas doutrinas de fé, tornar-se-á necessário o emprego intensivo da palavra, não só para a segurança da própria fé, mas também para a defesa da mesma contra os ataques inimigos de fora. Pois se alguém estivesse armado com a espada da inteligência e o escudo da fé de tal maneira que conseguisse praticar milagres, tapando com eles a boca dos insolentes e atrevidos, não necessitaria do auxílio da palavra. Ainda assim o poder da palavra de maneira alguma seria inútil, mas antes de grande proveito. O próprio Paulo serviu-se dela, apesar de provocar admiração geral com seus milagres. Ainda outro apóstolo nos recomenda o emprego da palavra dizendo: Estai sempre prontos a defender-vos contra quantos exigirem justificativas da esperança que há em vós.

Pelo mesmo motivo os apóstolos entregaram o cuidado das viúvas a Estêvão e seus colegas, para poderem dedicar-se eles mesmos, mais assiduamente, ao ministério da palavra. Entretanto, não precisaríamos dedicar tanto esforço ao ministério da palavra se ainda possuíssemos o dom de praticar milagres. Já que deste dom não nos restou nem vestígio, ao passo que os inimigos nos atacam continuamente e de todos os lados, vemo-nos na necessidade de armar-nos com a palavra, quer para defender-nos dos ataques dos inimigos, quer para nós atacarmos a eles.” [2]

Em tempos de crise, portanto, nada é mais importante que “o aconselhamento pela palavra”. Porque o que verdadeiramente move o ser humano é a verdade.

Certa vez, em uma das usuais Quaestiones Quodlibetales, Santo Tomás de Aquino, indagado jocosamente por um aluno a respeito do que era mais forte – “o rei, a verdade, o vinho ou as mulheres” –, respondeu, com seriedade:

“Nesta questão que nos é proposta pelos jovens deve-se considerar primeiro que estas quatro coisas, isto é, o vinho, o rei, as mulheres e a verdade, não são comparáveis segundo si mesmas, pois não são todas de um único gênero. Todavia, poderemos compará-las se as considerarmos segundo sua concorrência sobre um mesmo efeito, isto é, o coração do homem.

Consideremos no homem, em primeiro lugar, o apetite concupiscível, relacionado com o desejo venéreo. Sobre ele, enquanto tal, age a mulher. Segundo um determinado aspecto, portanto, na medida em que age sobre o concupiscível, a mulher é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos porém, em segundo lugar, o apetite irascível, relacionado com o temor da morte. Sobre ele, enquanto tal, age o rei, através de seu exército. Segundo um determinado aspecto, portanto, na medida em que age sobre o irascível, o rei é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos, em terceiro lugar, a imaginação. Sobre ela age, enquanto tal, o vinho, pelo seu efeito embriagante. Segundo um determinado aspecto, portanto, na medida em que age sobre a imaginação, o vinho é a maior força que existe sobre o homem.

Consideremos, em quarto lugar, a potência intelectiva, cujo bem, enquanto tal, é a verdade. Segundo um determinado aspecto, isto é, na medida em que é o bem e a perfeição da inteligência, a verdade é a maior força que existe sobre o homem.

Considerando, porém, que o homem é por natureza um animal racional, em que todas as potências se ordenam a uma submissão à inteligência, as corporais se submetendo às animais e estas às intelectuais, deve-se dizer que, não sob um determinado aspecto, mas simplesmente falando, a verdade é a maior força que existe sobre o homem.” [3]

Então, engana-se quem pensa que pode resolver os problemas atuais da Igreja simplesmente com uma “ação pastoral” ou com uma adaptação aos novos tempos. É preciso pregar a Palavra, pois, de fato, “a verdade é a maior força que existe sobre o homem”.

O primeiro problema que se impõe a quem se aproxima da Bíblia é a sua hermenêutica. O cardeal Karl Becker, enquanto professor, insistia que “a Bíblia foi escrita por católicos e para católicos”. A esse respeito, o Papa Bento XVI, na exortação apostólica Verbum Domini, lembra que:

“o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da Igreja. Esta afirmação não indica a referência eclesial como um critério extrínseco ao qual se devem submeter os exegetas, mas é uma exigência da própria realidade das Escrituras e do modo como se formaram ao longo do tempo. De fato, 'as tradições de fé formavam o ambiente vital onde se inseriu a atividade literária dos autores da Sagrada Escritura. Esta inserção englobava também a participação na vida litúrgica e na atividade externa das comunidades, no seu mundo espiritual, na sua cultura e nas vicissitudes do seu destino histórico. Por isso, de modo semelhante, a interpretação da Sagrada Escritura exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da comunidade crente do seu tempo'. Por conseguinte, 'devendo a Sagrada Escritura ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita', é preciso que os exegetas, os teólogos e todo o Povo de Deus se abeirem dela por aquilo que realmente é: como Palavra de Deus que Se nos comunica através de palavras humanas (cf. 1 Ts 2, 13).” [4]

De fato, as Sagradas Escrituras, ao mesmo tempo escritas por vários autores humanos, têm em comum um autor divino, o Espírito Santo. Assim como Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” [5], a Bíblia foi escrita por Deus e pelos homens, estando, todavia, imune de erros. Com efeito, a inspiração das Escrituras não foi um processo extático em que o hagiógrafo teria ficado fora de si, como em uma “psicografia espírita”. O Espírito Santo inspirou os autores sagrados respeitando a sua liberdade e a sua autonomia.

Portanto, se é importante fazer um exame científico e racional das Escrituras, consultando os textos originais, visitando as edições críticas e procurando entender o seu sentido literal – a exegese histórico-crítica, desde que não seja preconceituosa e avessa ao sobrenatural, pode oferecer uma leitura autenticamente científica da Bíblia –, importa muito mais ler as Sagradas Letras em seu sentido espiritual, dando destaque ao autor divino que as inspirou. Sobre isso, preleciona o Catecismo da Igreja Católica:

“Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual (…). A concordância profunda dos quatro sentidos assegura a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja:

O sentido literal. É o expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as regras da reta interpretação. 'Omnes sensus (sc. Sacrae Scripturae) fundentur super litteralem' – 'Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) se fundamentam no literal'.

O sentido espiritual. Graças à unidade do desígnio de Deus, não só o texto da Escritura, mas também as realidades e acontecimentos de que fala, podem ser sinais.” [6]

O sentido espiritual subdivide-se, ainda, em outros três, a saber:

“1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo o seu significado em Cristo: por exemplo, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e, assim, do Batismo.” [7]

Para compreender devidamente tanto o Antigo quanto o Novo Testamento é preciso lê-los a partir da figura de Cristo. São os próprios escritores cristãos quem nos ensinam isso: como São Mateus, que vê na “virgem” prometida pelo profeta Isaías a Virgem Maria [8]; São Paulo, que vê Jesus em Adão [9]; São Pedro, que vê o Batismo nas águas do dilúvio [10]; e o autor da Carta aos Hebreus, que vê nos sacrifícios antigos preparações para o sacrifício de Nosso Senhor. Finalmente, também Jesus recorreu a alegorias, principalmente quando falou por meio de parábolas, mas também quando disse, falando de Seu corpo: “Destruí vós este templo e em três dias eu o reerguerei” [11].

“2. O sentido moral. Os acontecimentos referidos na Escritura podem conduzir-nos a um comportamento justo. Foram escritos 'para nossa instrução' (1 Cor 10, 11).” [12]

As Escrituras também devem mudar o nosso comportamento, conformando-o à vontade de Deus. “Vossa palavra é uma luz para os meus passos, é uma lâmpada luzente em meu caminho” [13], canta o salmista.

“3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos no seu significado eterno, o qual nos conduz (em grego: 'anagoge') em direção à nossa Pátria. Assim, a Igreja terrestre é sinal da Jerusalém celeste.” [14]

Ao ler a Bíblia, também é importante ter os olhos fixos no Céu. Infelizmente, as pessoas têm transformado as Escrituras num livro puramente humano, interpretando-o tão somente para fazer “transformações sociais” e esquecendo-se da Jerusalém celeste.

O Catecismo, enfim, resume nestes versos latinos a lição sobre os sentidos da Bíblia: “Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia. – A letra ensina-te os fatos [passados], a alegoria o que deves crer, a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender.” [15]

Recomendações

Referências bibliográficas

  1. Santo Agostinho, Sermo 179, 1: PL 38, 966
  2. De Sacerdotio, IV, 3
  3. Quaestiones Quodlibetales, XII, q. 14, a. 1
  4. Verbum Domini, 29
  5. Hb 4, 15
  6. Catecismo da Igreja Católica, 115-117
  7. Ibidem, 117
  8. Cf. Mt 1, 22-23
  9. Cf. 1 Cor 15, 21-22
  10. Cf. 1 Pd 3, 20-21
  11. Jo 2, 19
  12. Catecismo da Igreja Católica, 117
  13. Sl 118, 105
  14. Catecismo da Igreja Católica, 117
  15. Ibidem, 118

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