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As santas crianças de Nossa Senhora de Fátima

Às vésperas da canonização de Jacinta e Francisco Marto, videntes de Nossa Senhora de Fátima, Padre Paulo Ricardo faz um programa especial para mostrar, a partir das Memórias da Irmã Lúcia, por que a Igreja aceitou elevar duas crianças, sem martírio de sangue, à honra dos altares.

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Talvez em nenhuma outra época da história a infância tenha sido profanada como o é hoje. Sob diversos aspectos, desde a família ao recanto da imaginação, tudo é posto em xeque. Aos pais católicos, resta a esperança na Providência divina, que jamais abandona seus filhos à sorte do mundo, mas lhes assegura remédios para cada enfermidade da alma. Se, portanto, a infância está doente, é no exemplo de duas crianças santas que podemos encontrar respostas a essa “crise pediátrica”. Francisco e Jacinta Marto, os dois videntes de Fátima canonizados pelo Papa Francisco, são modelos inequívocos de virtude e heroísmo, sobre os quais vale a pena meditar.

Para forjá-los na santidade, Deus usou de uma “pedagogia do desenvolvimento”, por assim dizer, precedendo as aparições de Fátima pelas do Anjo de Portugal, que preparou os videntes para uma vida de oração e ascese. Recebendo das mãos do mensageiro celeste o Sangue do Redentor, Francisco e Jacinta experimentaram como que um presságio de suas vocações. Aos 13 de maio de 1917, a Virgem SS os convocou para a missão de expiar os pecados da humanidade: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” perguntou-lhes a Mãe. “Sim”, responderam.

E aos videntes de Fátima foi concedida a graça, não só de crer em Cristo, mas também de sofrer por Ele, como diz S. Paulo aos filipenses (1, 29). A crônica daqueles dias conta que, após o consentimento das crianças, “a Senhora abriu pela primeira vez as mãos e delas saiu uma luz tão intensa” que encobriu os pequeninos, fazendo-os enxergar as profundezas de suas almas [1]. Em seguida, eles caíram de joelhos e começaram a recitar a oração que haviam aprendido do anjo: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu vos amo no Santíssimo Sacramento”. Sim, eles tinham recebido graças extraordinárias do amor de Deus, com as quais iriam colocar no coração do gênero humano a mesma chama de amor que ardia em seus peitos, tornando-os amantes tanto do Coração de Jesus como do de Maria SS.

É mesmo fascinante que crianças tão pequenas tenham aceitado padecer as mais difíceis provações. Iluminadas pela graça, elas foram capazes de vencer as próprias tendências para dar um testemunho heroico de santidade, participando da Paixão de Cristo como meio de salvação a toda a humanidade. A partir do testemunho delas, entendemos que o sacrifício pelos pecadores, núcleo da mensagem de Fátima, não é uma prerrogativa de eleitos, mas um chamado universal. Por isso, assim como os jovens videntes, todos nós temos o dever de oferecer nossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12, 1), como resposta ao imenso amor que Cristo derramou sobre a humanidade, por sua Paixão no Calvário. Esse é, afinal, o remédio não só para os problemas da educação infantil, mas para todas as mazelas sociais derivadas do pecado.

A dificuldade é que hoje pouco se fala sobre a espiritualidade da cruz. A meditação sobre a vida de Francisco e Jacinta é, nesse aspecto, muito salutar, porque coloca diante de nós a seriedade do pecado e como nós, simples criaturas de carne, podemos reparar os seus efeitos mediante a graça de Deus e uma oferta diligente de nossas dores, unindo-nos aos méritos de Cristo na cruz.

De início, pensemos um pouco sobre Francisco. Se considerarmos como quis Nossa Senhora aparecer aos três pastorinhos, teremos a impressão de que Francisco era o menorzinho deles, uma vez que apenas podia ver a Mãe de Deus, ao passo que Jacinta era capaz também de escutá-la e Lúcia, além disso, podia lhe fazer perguntas e pedidos. A Virgem ainda o advertiu de que só entraria no Céu depois de ter rezado muitos Terços, ao que o pequeno correspondeu com grande solicitude. Francisco fez grandes atos de fé, confiando em cada palavra da Virgem Maria, conforme Jacinta e Lúcia lhe contavam.

Por esse perfil, talvez ele seja o vidente mais imitável. Embora fosse uma criança inocente, Francisco precisou fazer algumas penitências para se purificar de pequenos pecados. Além disso, ele assumiu mesmo a missão de consolar o Coração de Cristo por tantas ofensas, sempre recordando as meninas da necessidade de oferecer sacrifícios expiatórios pelos pecadores. “Como é Deus”, indagava-se, “não se pode dizer...”. “Mas”, prosseguia Francisco, “que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar” [2]. 

Era, sim, um menino de poucas palavras, dado mais à contemplação; mas que, na hora oportuna, tinha força para encorajar Lúcia e Jacinta até o martírio, como no episódio da prisão em Ourém. Decerto, se tivesse vivido mais tempo, Francisco teria se tornado um grande pai, seja na vocação matrimonial, seja na sacerdotal. Morreu no dia 4 de abril de 1919, aos 10 anos de idade, depois de uma santa Confissão e de ter recebido o seu Jesus escondido na Eucaristia.

Já em Jacinta, por outro lado, notamos a fragilidade feminina, que depois se transformou numa grande fortaleza. Impactada pela visão do inferno e a possibilidade da condenação eterna, ela se lançou numa verdadeira cruzada para retirar as almas do pecado. Doente no hospital, a Virgem Maria lhe deu a oportunidade de ficar ainda um tempo naquele estado, a fim de sofrer mais pelos pecadores. E a menina prontamente aceitou. No orfanato de Nossa Senhora dos Milagres, em Lisboa, Jacinta não só fez o seu oferecimento de amor como nos deixou um verdadeiro compêndio de sabedoria, que confirma o testemunho da Ir. Lúcia acerca dos pedidos de Nossa Senhora. Vejamos algumas notas:

“Nossa Senhora disse que as muitas guerras e discórdias outra coisa não são senão castigos dos pecados do mundo”.

“Os pecados que mais levam pessoas ao inferno são os pecados da carne”.

“Virão certas modas que ofenderão muito Nosso Senhor”.

“As pessoas que servem a Deus não devem seguir as modas. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo”.

“Os sacerdotes deveriam ocupar-se somente das coisas da Igreja e das almas”.

“Os sacerdotes devem ser puros, muito puros”.

“A desobediência dos sacerdotes e dos religiosos aos próprios superiores e ao Santo Padre desagrada muito a Nossa Senhora”.

Jacinta faleceu no dia 20 de fevereiro de 1920, aos 9 anos de idade, depois de muita agonia. A enfermeira a encontrou com “as faces rosadas e um sorriso celeste nos lábios” [3]. Tanto ela como seu irmão, Francisco, levaram a cabo a mensagem da Virgem Maria, doando-se livremente pela salvação das almas. Não há dúvida de que eles sabiam perfeitamente o que estavam fazendo, porque nenhuma criança se sujeitaria a uma missão tão árdua senão por um esforço da própria vontade guiada pela inteligência e movida pela graça. O seu testemunho heroico de amor a Cristo nos deve impelir a agir do mesmo modo, completando em nossa carne as dores que faltaram na Paixão de Cristo (cf. Cl 1, 24). Porque somente assim chegaremos à unidade da fé e, no conhecimento do Filho de Deus, à estatura de Cristo em sua plenitude (Ef  4, 13).

Referências

  1. William Thomas Walsh, Nossa Senhora de Fátima. São Paulo: Quadrante, 2015, p. 66.
  2. Id, p. 106.
  3. Id., p. 206.
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