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Homilia Dominical
9 Mai 2014 - 00:26

Eu sou a porta das ovelhas

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Homilia Dominical - 9 Mai 2014 - 00:26

Eu sou a porta das ovelhas

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João
(Jo 10, 1-10)

No Evangelho deste domingo, Jesus fala do “bom pastor”. Seguindo os passos de Ezequiel, que profetizou contra os maus pastores de Israel [1], Ele se serve de uma parábola para mostrar a diferença entre o verdadeiro pastor das ovelhas e aqueles que vêm “para roubar, matar e destruir”. O discurso de Cristo é enigmático, conforme atesta o próprio evangelista: “Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer”.

Jesus começa falando de um “redil” e, mais adiante, diz ser “a porta das ovelhas”. Para entender essa afirmação, é preciso compreender que, no tempo de Cristo, os pastores de ovelhas viviam como nômades e só juntavam o seu rebanho no período do inverno. Nos redis mais simples, com portas pouco confiáveis, os pastores deitavam-se em frente à porta do aprisco, servindo eles próprios de porta para guardar as ovelhas. Por isso Jesus fala que é “a porta das ovelhas”.

É claro que, com esse discurso, Jesus queria dizer algo muito mais profundo. Ele falava de outro redil, que é a Igreja, cujo pastor, Ele próprio, é responsável por conduzir o rebanho a outras pastagens. Essas, por sua vez, indicam o Céu, a morada definitiva das ovelhas. Ao falar de si mesmo como “a porta das ovelhas”, Jesus aponta para o único caminho possível de entrada neste redil: a Cruz, a passagem por Sua morte e ressurreição, a Sua Páscoa.

O Papa Bento XVI, ao comentar este Evangelho, ensina:

“‘Eu sou a porta’ (Jo 10, 7). É através dele que se deve entrar no serviço de pastor. Jesus põe em evidência de maneira muita clara esta condição fundamental, afirmando: ‘Quem... sobe por outro lado, é um ladrão e salteador’ (Jo 10, 1). Esta palavra, ‘sobe’ anabainei, em grego, evoca a imagem de alguém que escala um recinto para ir, ultrapassando, aonde legitimamente não poderia chegar. ‘Subir’ aqui pode-se ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar ‘ao alto’, de procurar uma posição por meio da Igreja: servir-se, não servir.”
“É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer tornar-se importante, ser uma personagem; a imagem daquele que tem em vista a sua própria exaltação e não o humilde serviço a Jesus Cristo. No entanto, a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a autêntica ascese, esta é a verdadeira porta. Não desejar tornar-se pessoalmente alguém mas, ao contrário, servir o outro, servir Cristo e, assim, através dele e com Ele, colocar-se à disposição dos homens que Ele procura, que Ele quer conduzir pelo caminho da vida. Entra-se no sacerdócio através do Sacramento e isto significa precisamente: mediante a entrega de si mesmo a Cristo, a fim de que Ele disponha de mim; a fim de que eu O sirva e siga o seu chamamento, mesmo que este venha a entrar em oposição com os meus desejos de auto-realização e estima. Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne um só com o seu.” [2]

“O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” [3]: eis o método de Cristo. Santo Tomás, ao comentar esse trecho do Evangelho, fica perplexo diante da ideia de um pastor que entrega a vida pelas ovelhas:

“Em relação aos pastores terrenos, não se exige do bom pastor que se exponha à morte para defender o rebanho. Mas já que a salvação espiritual da grei tem mais importância que a vida corporal do pastor, cada pastor espiritual deve aceitar a perda de sua vida pela salvação do rebanho.” [4]

No mundo natural, a vida do pastor, de um ser humano, é muito mais valiosa que a vida da ovelha, um animal irracional. Seria descabido, portanto, que, para salvar uma ovelha, uma pessoa entregasse a sua própria vida. Mas, no mundo espiritual, a vida da “ovelha” é a vida sobrenatural, é a salvação eterna de sua alma. Por isso, vale a pena perder a vida material para conceder a vida eterna ao rebanho; vale a pena doar a própria vida para que as ovelhas “tenham vida e a tenham em abundância”.

Aqui é possível ver intima associação entre o pastoreio e o sacerdócio. O sacerdote cristão não é um funcionário que trabalha para si mesmo, mas uma vítima, alguém que deve estar disposto a dar a sua vida, assim como Cristo entregou a sua na Cruz. Essa é a chave para distinguir os bons pastores, a porta pela qual eles devem entrar.

Santo Tomás recorda que Jesus, ao dizer que é o pastor e a porta, fá-lo, no entanto, de modo diferente. Ele se apresenta como “o bom pastor”, no singular, mas admite a existência de outros pastores; com a palavra “porta”, porém, não há transigência: Cristo é a única porta pela qual todos devem entrar, porque somente Ele tem acesso a Deus:

“Cristo disse que o pastor entra pela porta e que ele é a porta. Aqui diz ser ele o pastor; é preciso então que ele entre por si mesmo. Entra, na verdade, por si mesmo porque se manifesta a si e por si mesmo conhece o Pai. Nós, porém, entramos por ele, porque por ele somos cumulados de beatitude.”
“Contudo, atenta em que nenhum outro, exceto ele, é porta, porque nenhum outro é luz verdadeira, mas apenas por participação: Não era a luz, isto é, João Batista, mas veio para dar testemunho da luz (Jo 1, 8). De Cristo, porém, diz: Era a luz verdadeira que ilumina a todo homem (Jo 1, 9). Por este motivo ninguém diz ser porta; é propriedade exclusiva de Cristo. Quanto a ser pastor, comunicou-o a outros e deu a seus membros; Pedro é pastor, os outros apóstolos foram pastores e todos os bons bispos também. Dar-vos-ei, diz a Escritura, pastores segundo meu coração (Jr 3, 15). Os prelados da Igreja, que são filhos, são todos pastores; no entanto diz no singular: eu sou o bom Pastor, para seguir a virtude da caridade. Ninguém é bom pastor, se não se tornar pela caridade um só com Cristo e membro do verdadeiro pastor.” [5]

“Ninguém é bom pastor, se não se tornar pela caridade um só com Cristo e membro do verdadeiro pastor”. Pode parecer muito óbvio este apelo, mas os padres precisam amar a Jesus. Ele deve ser a razão de seus sacrifícios apostólicos, o “combustível”, por assim dizer, de seu celibato, o fundamento de seu ministério sacerdotal. Nos últimos tempos, infelizmente, as pessoas têm querido “baratear” o sacerdócio católico. Fazem uma campanha contra o celibato, por exemplo, esquecendo-se que o sacerdócio é dar a vida, é cultivar um amor indiviso a Cristo.

Urge que rezemos para que nós, Igreja do Ocidente, mantenhamos essa antiquíssima tradição do celibato eclesiástico. Que o padre seja aquele que, impelido pelo amor de Deus – “Caritas Christi urget nos” [6] –, ame a Cristo com o coração indiviso e, por causa desse amor, dê a vida por seu rebanho. Não se ama as ovelhas pelas ovelhas, mas por amor a Jesus. E que o Senhor nos conceda a graça de muitas e santas vocações, como Ele mesmo prometeu, pela boca do profeta: “Dar-vos-ei pastores segundo meu coração” [7].

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