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Homilia Dominical
10 Set 2015 - 29:06

Para trás de mim, Satanás!

Diante do anúncio da Cruz, a reação de São Pedro é de fuga e negação. “Vai para trás de mim, Satanás!”, Jesus responde ao Apóstolo. Por que Nosso Senhor repreende o primeiro dos Seus discípulos com termos tão duros? Nesta pregação, Padre Paulo Ricardo explica por que não se pode conciliar a mentalidade do mundo com a vontade de Deus. Ainda hoje, se alguém quer seguir a Cristo, deve renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz.
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Homilia Dominical - 10 Set 2015 - 29:06

Para trás de mim, Satanás!

Diante do anúncio da Cruz, a reação de São Pedro é de fuga e negação. “Vai para trás de mim, Satanás!”, Jesus responde ao Apóstolo. Por que Nosso Senhor repreende o primeiro dos Seus discípulos com termos tão duros? Nesta pregação, Padre Paulo Ricardo explica por que não se pode conciliar a mentalidade do mundo com a vontade de Deus. Ainda hoje, se alguém quer seguir a Cristo, deve renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc
8, 27-35)

Naquele tempo, Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe. No caminho perguntou aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?"

Eles responderam: "Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas". Então ele perguntou: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Pedro respondeu: "Tu és o Messias".

Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a respeito. Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias.

Ele dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo. Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: "Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens".

Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la".

*

Desse relato da profissão de fé de São Pedro, é omitido, por humildade do próprio Apóstolo – que se sabe ser a mente por trás do Evangelho de São Marcos –, o grande elogio que lhe faz Jesus, e que São Mateus deixou registrado em seu livro (cf. Mt 16, 17-19). Não se omite, porém, a repreensão de Nosso Senhor ao "evangelho analgésico" de Pedro, que não quer o sofrimento.

A resposta dura de Cristo – "Vai para longe de mim, Satanás!" (v. 33) – também pode ser traduzida como: "Vai para trás (ὀπίσω) de mim, Satanás!". A primeira sentença – explica São Jerônimo [1] – é dita ao próprio demônio, porquanto não lhe é possível mudar de vontade e converter-se – "para longe de mim", significa, portanto, o inferno; a segunda é dirigida a São Pedro, convidando-o a mudar de mentalidade e seguir o Cristo sofredor.

Prossegue Jesus: "Tu não pensas como Deus, e sim como os homens" (v. 33), ao que São João Crisóstomo comenta:

"Jesus quis mostrar o que o homem pode por si e o que pode pela graça de Deus: acima, pela graça de Deus, [Pedro] reconheceu a divindade de Cristo; mas, onde Deus retirou a Sua graça, apareceram a humanidade e o defeito, a ponto de ele ser chamado de Satanás." [2]

É um escândalo que Pedro, o primeiro dos Apóstolos, tenha sido tão severamente repreendido por Jesus – mais do que os próprios fariseus, a quem o máximo que se disse foi que tinham o diabo por pai (cf. Jo 8, 44). No entanto, esse episódio é importante para que enxerguemos como, abandonados às nossas próprias capacidades humanas, cairemos clamorosamente e tornar-nos-emos não somente homens frágeis, mas até mesmo satânicos. "Com Deus nós faremos proezas" (Sl 59, 13), diz o salmista; com Ele, seremos capazes de atos heroicos, da altura dos grandes santos da história. Se, porém, nos deixarmos arrastar por nossos pecados, influenciar pela mentalidade mundana e seduzir por Satanás, fatalmente nos separaremos da Igreja.

Às portas do Sínodo para as Famílias e do Jubileu da Misericórdia, são muitas as pessoas, dentro do próprio clero, tentadas a ver o plano de Deus para os casais cristãos como uma espécie de fardo. Sob o pretexto de fazer misericórdia, elas querem afastar a cruz e o sofrimento para longe de si e dos seus – como fez o Apóstolo, no Evangelho deste Domingo –, terminando por substituir a verdadeira boa nova do amor e do sacrifício pelo "evangelho" do egoísmo e da comodidade.

Também hoje, todavia, assim como nos tempos apostólicos, é preciso repelir essa perigosa tentação, contra a qual o próprio Senhor alertou, quando disse à multidão: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga (ἀκολουθείτω). Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la" (v. 34-35). Não existe salvação sem sofrimento.

Mas, ao mesmo tempo, não se deve pensar que a santidade seja um ideal impossível e inalcançável, pois Jesus torna o Reino dos céus acessível a todos, através de Sua graça. Em uma recente conferência nos Estados Unidos, o Cardeal Raymond Burke "rejeitou firmemente a noção de que as pessoas seriam muito fracas para se conformar à lei de Deus sobre o matrimônio, dizendo que Nosso Senhor assegurou dar-nos toda a graça que precisamos para viver nossas existências em Sua vontade".

Não se trata de colocar-se contra o Papa Francisco, contra o Ano da Misericórdia ou contra o Sínodo dos Bispos, mas de contrapor-se a uma mentalidade mundana, que pretende pregar um Cristo sem Cruz. Embora se diga que isso é misericórdia, tal atitude acaba se revelando a maior falta de caridade que existe. Quem quer que faça uma aliança de amor com Deus, deve declarar uma guerra sem tréguas contra o seu egoísmo e contra o mal no mundo – e é disso que se trata a verdadeira caridade, a qual só existe quando um se dispõe a abraçar a Cruz e levar as almas para Deus. Se, porém, a nossa mensagem para as famílias significa simplesmente passar a mão sobre as cabeças de quem fracassou, para onde vão a dignidade e a sacralidade do Matrimônio?

Com relação às pessoas vivendo em segunda união, a postura da Igreja continua a mesma: pôr-se à procura da verdade sobre o primeiro matrimônio que elas contraíram. A atitude motus proprii i.e., de iniciativa do próprio Pontífice – de simplificar o processo que declara a nulidade matrimonial [3] não significa usar de "mangas largas" para um malfadado "divórcio católico". A Igreja não tem poder para dissolver um casamento contraído validamente. A menos que uma investigação minuciosa comprove que determinado matrimônio nunca existiu, unir-se em novas núpcias significa incorrer no pecado do adultério. Não foi nada menos do que isso o que ensinou Nosso Senhor, quando afirmou que "quem despede sua mulher – fora o caso de união ilícita – e se casa com outra, comete adultério" (Mt 19, 9). A solução apresentada para essas pessoas é que vivam a castidade na situação em que se encontram – o que, embora soe absurdo para a sociedade moderna, sempre foi o chamado da Igreja a todos os católicos, sem exceção.

São Pedro, repreendido no Evangelho deste Domingo por não pensar "como Deus, e sim como os homens" (v. 33), anos depois entregará a sua alma a Deus no patíbulo da Cruz: ele entendeu que era preciso amar até a renúncia da própria vontade e o derramamento do próprio sangue. Também nós entenderemos isso?

Referências

  1. Cf. São Jerônimo apud Catena Aurea in Matthaeum, 16
  2. Cf. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São Mateus, 16
  3. Cf. Carta Apostólica Mitis Iudex Dominus Iesus (15 de agosto de 2015)

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