Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 2, 13-17)
Naquele tempo, Jesus saiu de novo para a beira do mar. Toda a multidão ia ao seu encontro e Jesus os ensinava. Enquanto passava, Jesus viu Levi, o filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me”. Levi se levantou e o seguiu. E aconteceu que, estando à mesa na casa de Levi, muitos cobradores de impostos e pecadores também estavam à mesa com Jesus e seus discípulos. Com efeito, eram muitos os que o seguiam. Alguns doutores da Lei, que eram fariseus, viram que Jesus estava comendo com pecadores e cobradores de impostos. Então eles perguntaram aos discípulos: “Por que ele come com os cobradores de impostos e pecadores?”. Tendo ouvido, Jesus respondeu-lhes: “Não são as pessoas sadias que precisam de médico, mas as doentes. Eu não vim para chamar justos, mas sim pecadores”.
Celebramos hoje a Memória de Santo Antão, Abade — é importante lembrarmos aos brasileiros e às pessoas de língua portuguesa que o nome Antão é simplesmente a forma arcaica de dizer Antônio. Logo, estamos falando de Santo Antônio do Deserto, um monge dos primeiros séculos, que não devemos confundir com Santo Antônio de Lisboa, frade medieval.
Santo Antão viveu na mesma época em que a Igreja estava deixando de ser perseguida, aproximadamente na virada do século III para o IV, e foi um grande eremita do deserto do Egito. A sua biografia, escrita por Santo Atanásio, conta que um dia ele entrou na igreja enquanto o diácono lia a seguinte passagem: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu; depois vem e segue-me” (Mt 19, 21), e Antão, por iluminação divina, considerou que aquela Palavra era, literalmente, para ele. Então, vendeu os seus bens e foi viver no deserto, fazendo penitência e dedicando-se à oração.
Essa entrega total de Santo Antão pode parecer a algumas pessoas absurda e inútil, uma vez que, havendo tantas coisas para fazer no mundo, como ajudar os pobres e pregar o Evangelho, ele aparentemente não “arregaçava as mangas”. Como um eremita recluso e retirado no deserto cuidaria da própria santidade? Não era um grande egoísmo por parte dele?
Para bem compreender o sacrifício desse santo, primeiro é importante notar que na Santa Igreja Católica nunca fazemos nada sozinhos: existe o mistério da comunhão dos santos. Quando um membro da Igreja se aperfeiçoa, os outros saem ganhando. Santo Antão não foi para o deserto para aperfeiçoar a si mesmo como um monge budista no Tibete. Quando um católico se dedica à vida monástica, o que o leva a isso é um grande amor por Jesus.
É exatamente isso o que Cristo pediu ao jovem rico na passagem do Evangelho escutada por Santo Antão: “Vai, vende tudo e segue-me”. Ele nos pede um amor incondicional, e portanto devemos amá-lo de todo coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso ser. Essa é a vocação de todos. Entretanto, Santo Antão sentiu, por inspiração divina, que aquela era a forma com que ele iria manifestar o seu amor por Jesus como seu Senhor, Deus e Salvador.
Além de ser movido por um grande amor a Nosso Senhor, o monge também possuía um grande amor ao próximo, porque se dedicava à oração e à penitência não somente por sua própria santificação, mas pela santificação da Igreja inteira, principalmente dos pecadores. Os santos têm na vida um período em que trabalham na própria purificação; mas, chegados a certo ponto, já não têm o que purificar. Então, eles começam, de forma vicária, a se purificar por nós, pagando em seus corpos e em suas vidas as penas e misérias que nós deveríamos pagar, e carregando as cruzes que nós deveríamos carregar. Eis o amor universal dos santos.
Santo Antão passou sua vida no deserto do Egito, mas as consequências de seus nobres atos persistem ainda hoje em nós graças à sua entrega, ao seu sacrifício e ao seu amor. Quem de nós pode avaliar as consequências espirituais devidas a tantos santos e santas que se entregaram escondidos? No Céu, ficaremos enormemente surpresos ao vermos revelados diante de nossos olhos os frutos espirituais que colhemos graças a homens e mulheres desconhecidos que, nos desertos da vida monástica, entregaram-se por nós e fizeram-nos o bem sem que o soubéssemos.




























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