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Homilia Dominical
12 Fev 2016 - 26:39

As tentações de Cristo e as nossas tentações

O Evangelho retrata Nosso Senhor sendo guiado pelo Espírito Santo ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Mas por que se sujeita a isso o Redentor? Como é possível que o próprio Verbo encarnado de Deus quisesse ser provado pelo demônio? De que modo as tentações que Ele sofreu podem ajudar-nos a vencermos as nossas próprias tentações?
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Homilia Dominical - 12 Fev 2016 - 26:39

As tentações de Cristo e as nossas tentações

O Evangelho retrata Nosso Senhor sendo guiado pelo Espírito Santo ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Mas por que se sujeita a isso o Redentor? Como é possível que o próprio Verbo encarnado de Deus quisesse ser provado pelo demônio? De que modo as tentações que Ele sofreu podem ajudar-nos a vencermos as nossas próprias tentações?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
4, 1-13)

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: "Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão". Jesus respondeu: "A Escritura diz: 'Não só de pão vive o homem'"

O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: "Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu".

Jesus respondeu: "A Escritura diz: 'Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás'".

Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: "Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: 'Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!' E mais ainda: 'Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'".

Jesus, porém, respondeu: "A Escritura diz: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'".

Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

*

É do brilhante comentário do Doutor Angélico à passagem da tentação de Cristo (cf. Suma Teológica, III, q. 41) que foram retiradas as pérolas para esta meditação. A todos que puderem e quiserem ler as suas próprias palavras, na íntegra, remetemos as conhecidas palavras do Papa Pio XI, em sua encíclica Studiorum Ducem: "Ide a Tomás".

O Evangelho deste domingo carrega um traço característico da pena de São Lucas, que é a sua constante referência ao Espírito Santo. Também quando vai ao deserto para ser tentado, Jesus é "guiado pelo Espírito" (v. 1). São João Crisóstomo explica essa ligação dizendo que:

"Não só Cristo foi levado pelo Espírito ao deserto, mas o são também todos os filhos de Deus, que têm o Espírito Santo. Estes não se contentam em ficar ociosos, mas o Espírito Santo os urge a empreender grandes obras; e isso, para o diabo, é estar no deserto, onde não há a injustiça com que ele se compraz. Toda boa obra também é deserto para a carne e para o mundo, já que contraria a vontade tanto de uma quanto de outro." [1]

Note-se a menção que São João Crisóstomo faz dos três inimigos da alma. Quem quer que tenha rompido com os dois primeiros, abandonando as obras da carne e a mentalidade mundana, é guiado pelo Espírito ao deserto, onde deve combater contra o demônio. Trata-se do grande desafio de quem quer aderir ao #ProjetoSegundaMorada e avançar na vida interior. "Não há dúvida de que a alma passa aqui por grandes sofrimentos – adverte Santa Teresa d'Ávila –, em particular quando, por seus costumes e condições, o demônio percebe que ela pode avançar muito no caminho de Deus. Todo o inferno se juntará para obrigá-­la a sair dessa morada" [2]. A razão disso é que quem se esforça "para chegar ao auge da perfeição (...) nunca vai sozinho ao céu, levando sempre muita gente consigo" [3].

Alguém pode pensar que, se é para ser assaltado pelo demônio, melhor é nem entrar no deserto e deixar tudo como está. Acontece que quem decide fugir desse combate espiritual, na verdade, já se alistou para as fileiras do inimigo. O diabo nem se preocupa mais em tentar essas pessoas, uma vez que elas já lhe entregaram a alma. Trata-se, pois, de uma falsa paz, essa de quem cruza os braços e se contenta com a ociosidade.

Ao contrário, aqueles que se determinam a fazer a vontade de Deus são realmente atazanados pelo maligno. Por isso, Cristo, guiado pelo Espírito Santo, vai para o deserto como um atleta [4], como um combatente que se dirige ao "campo de batalha" (S. Th., III, q. 41, a. 2), a fim de dar-nos o exemplo.

Ele também o faz para nos trazer auxílio contra as tentações. "Não era indigno de nosso Redentor – ensina São Gregório Magno – que quisesse ser tentado, ele que veio para ser morto; ele quis vencer as nossas tentações com as suas, assim como venceu com a sua a nossa morte" [5]. Há, portanto, uma dimensão redentora nas tentações sofridas por Cristo: vencendo o diabo com a Sua carne, Ele ajuda os homens a vencerem-no também.

De fato, a Sua vitória é alcançada pela Sua humanidade, conforme explicam os Santos Padres, porque "o diabo devia ser vencido não pelo poder de Deus, mas por sua justiça" [6], ao que acrescenta São Leão Magno: "Cristo assim agiu não só para mais honrar o homem, mas também para mais punir o adversário, uma vez que o inimigo do gênero humano seria vencido não como por Deus, mas como pelo próprio homem" [7].

Há, por fim, uma última dimensão a ser considerada sobre essa passagem da vida de Cristo. No mesmo Evangelho de S. Lucas (22, 31-32), Nosso Senhor diz a São Pedro: "Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos". Depois de auxiliar-nos nas tentações, Cristo quer que também nós ajudemos o próximo a vencê-las. Ele ora por nós, e nós, uma vez confirmados, devemos constituir uma família espiritual e gerar a salvação para os outros.

Ninguém se espante que a sentença de Cristo a Pedro possa ser aplicada também a cada um de nós. Como ensina o Papa Pio XII em sua encíclica Mystici Corporis, "ele, pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico" (n. 75). Ele não amou a humanidade genérica, mas a cada um, individualmente; permite que todos sejam tentados, mas, ao mesmo tempo, intercede continuamente para que não desfaleçamos; pede que todos anunciemos a Sua boa nova e confirmemos os nossos irmãos.

Vivamos, pois, esta Quaresma para responder generosamente a esse amor tão grande de Deus por cada um de nós. A Sua graça verdadeiramente opera em nossas almas, mas depende de que nós cooperemos com ela. Que esses quarenta dias de oração e de penitência sejam um marco em nossas vidas e um tempo de verdadeira ascensão espiritual. Cristo está conosco e intercede por nós. Maria Santíssima, que esmaga com seus pés a cabeça da serpente, também nos precede no deserto (cf. Ap 12, 6).

Referências

  1. Obra imperf. sobre S. Mateus, 5, super 4, 1 (PG 56, 662-663).
  2. Moradas, II, 5.
  3. Livro da Vida, 11, 4.
  4. Orígenes, Homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, 31, super 4, 9 (PG 13, 1879B).
  5. Sermões sobre os Evangelhos, I, 16, 1 (PL 76, 1135C).
  6. Santo Agostinho, Da Trindade, XIII, 13 (PL 42, 1026).
  7. Sermões, 39, 3 (PL 54, 265A).
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