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A Oração de São Miguel

A visão de Leão XIII

Teria realmente o Papa Leão XIII visto Roma ser invadida por hordas de demônios, a quem Deus mesmo teria permitido tomar conta da Igreja por certo tempo? 

Quando e como surgiu essa história, que tanto circula hoje pela internet? Onde está a verdade histórica por trás desta suposta “revelação” que, no último quarto do século XIX, teria enchido de pavor e preocupação o Papa de São Miguel Arcanjo? É esta a história que o Padre Paulo Ricardo vai contar em mais uma aula exclusiva do curso A Oração de São Miguel.

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Qual é a história por trás da oração ao Arcanjo São Miguel? Tivemos já a oportunidade de ver na aula passada que, em 1886, depois de alterar repentinamente um decreto publicado apenas dois anos antes, o Papa Leão XIII impôs a toda a Igreja que se rezassem no final das Missas privadas algumas orações ao pé do altar. Com elas, pretendia o Santo Padre rogar a Deus pela exaltação da Igreja e a conversão dos pecadores, ao mesmo tempo que confiava à proteção e ao comando de São Miguel Arcanjo os fiéis do mundo inteiro.

Existem muitas “lendas” sobre a origem destas orações e sobre o porquê de Leão XIII as ter imposto de forma aparentemente tão abrupta. Para saber o que de fato aconteceu naqueles últimos anos do séc. XIX, pode ser útil consultar o livro Pope Leo XIII and the Prayer to St. Michael, publicado em 2015 por Kevin J. Symonds, que se deu ao trabalho de compulsar as fontes primárias do ocorrido.

A história que vez por outra se conta na internet, ao que tudo indica, parece ter surgido ainda na década de 1930, entre pessoas que não tiveram contato direto com o Papa Leão XIII, falecido em julho de 1903. Isso explica, em parte, por que a versão corrente da história seja um pouco “teatralizada”. Reunido com os cardeais depois da celebração de uma Missa, Leão XIII teria de repente desmaiado em público, devido a um forte mal-estar. Como não fosse possível chamar um médico a tempo, o Papa teria recobrado a consciência horas depois. Apesar de ter voltado a si em perfeito estado, o Santo Padre teria dito, aterrado e empalidecido: “Tive uma visão terrível!”, na qual espíritos malignos estariam rondando a cidade de Roma, e S. Miguel desceria do céu para os precipitar no inferno.

Existe, porém, uma versão mais sóbria dos acontecimentos, por estar mais apegada a fontes históricas de primeira mão, e que nos permite afirmar, com alto de grau de probabilidade, que, de fato, Leão XIII teve alguma visão ou revelação sobrenatural, ainda que não a possamos determinar em todos os seus detalhes. Sem, com efeito, admitir a existência de uma tal revelação, seria inexplicável a brusca mudança de proceder do Papa, que, como dito na aula passada, alterou sem avisos o decreto de 1884, acrescentando-lhe a oração ao Arcanjo São Miguel.

Essa “nova” versão da história está registrada pelo então Cardeal Giovanni Battista Nasalli Rocca di Corneliano, que em 1946 (portanto, 60 anos depois do segundo decreto) afirmou no Bollettino della Diocesi di Bologna (Ano 36, nn. 1-3 [1946],1ss.) ter tido contato direto, na Cúria romana, com o secretário pessoal de Leão XIII, Mons. Rinaldo Angeli, com quem se teria certificado de que:

Leão XIII realmente teve uma visão dos espíritos infernais, que se reuniam sobre a Cidade Eterna, e foi desta experiência, que ele confidenciou ao Monsenhor e certamente a outras pessoas, com a devida reserva, que veio a oração que ele queria em toda a Igreja.

Ora, que ao Papa se tenham revelado estas coisas, confirma-o o fato de em 1890, apenas quatro anos depois de escrever para toda a Igreja a oração de São Miguel, ter ele publicado um novo exorcismo in Satanam et angelos apostaticos, “contra Satanás e os anjos apóstatas”, que se encontra ainda hoje, com algumas modificações de que se falará no momento oportuno, em algumas edições do Ritual Romano. Este exorcismo, destinado especialmente aos Bispos, mas também aos padres por eles autorizados, tinha a peculiaridade de não se destinar aos possessos, mas à Igreja inteira, ao mundo, às dioceses e à cidade de Roma.

Pois bem, a relação entre a visão do Papa e a prece de São Miguel aparece corroborada no relato do Pe. Domenico Pechenino, que afirmou em 1947, na revista La Settimana del Clero (Ano 2, n. 12 [23 mar. 1947], p. 1; Ano 2, n. 13 [30 mar. 1947], pp. 1-2), ter ouvido uma história semelhante de uma pessoa que, segundo ele, teria presenciado os fatos. São notáveis as concordâncias de Pechenino com o artigo de Nasali, como, por exemplo, o fato de que o Papa não só mandara fazer o exorcismo, senão que o levava consigo a todos os lugares, num livrinho guardado no bolso da batina, para o poder rezar constantemente, inclusive durante seus passeios pelos jardins do Vaticano.

Pechenino acrescenta ainda alguns detalhes sobre como teria ocorrido a visão:

[Leão XIII] havia celebrado a Santa Missa e estava assistindo a uma outra em ação de graças, como era seu costume. A certa altura, ele foi visto levantando energicamente a cabeça, depois fixou o olhar, observando fixamente alguma coisa acima da cabeça do celebrante. Ele olhou firme, sem piscar, mas com uma sensação de terror e admiração, mudando a cor do rosto. Algo de estranho e grandioso acontecia nele… Finalmente, como permanecendo em si mesmo e dando um leve mas enérgico golpe com a mão, ele se levantou. Foi visto então indo em direção a seu escritório particular. Os membros da família [familiari] foram atrás dele com preocupação e ansiedade. “Santo Padre!”, gritaram com veemência. “Não está se sentindo bem? Precisa de algo?” – “Nada, nada!”, respondeu. Trancou então a porta. Depois de meia hora mandou chamar o secretário da Sagrada Congregação dos Ritos e, entregando-lhe uma folha, ordenou que fosse impressa e enviada para todos os Ordinários do mundo. O que havia na folha? A oração que recitamos no final da Missa com o povo.

Trata-se, como se vê, de um relato coerente com o de Nasali, confirmado por muitas outras testemunhas históricas, arroladas no livro de Symonds. É claramente um relato menos “espetacular” do que a versão corrente, e talvez por isso mesmo mais fiável.

No entanto, Pechenino conclui o seu testemunho com algumas considerações de cuja veracidade histórica não podemos, no fundo, estar muito certos: elas parecem, antes, uma reelaboração que ele mesmo fez dos acontecimentos, não para os distorcer, mas para lhes captar o sentido espiritual profundo. Pergunta-se ele, após registrar a visão e a composição da prece: “O que aconteceu?”, e responde por si mesmo: “Isto: Deus havia mostrado ao Vigário de seu divino Filho Satanás na terra”, acrescentando logo em seguida: “como outrora a Jó, em conversa com Ele”.

Não sabemos ao certo se o que afirma Pechenino neste trecho corresponde à substância do relato histórico ou se, na verdade, se trata apenas de um paralelo que ele crê poder estabelecer entre a situação em que se encontrava a Igreja, quando Leão teve sua visão, e a história de Jó. Escreve o Pe. Pechenino:

Satanás se gabava de que já havia devastado a Igreja em larga escala. De fato, aqueles eram tempos muito difíceis para a Igreja na Itália, em muitas nações da Europa, e um pouco em todo o mundo. A Maçonaria dominava e os governos se tornaram instrumentos dóceis [a ela]. Com um ar de fanfarrão, Satanás lançou um desafio a Deus: “Se me desses um pouco mais de liberdade, verias o que eu faria com a vossa Igreja!”. – “O que farias com ela?” – “Eu a destruiria”. – “Ah! é? Vamos ver, então. De quanto tempo precisas?” – “Cinquenta, sessenta anos”. – “Está, pois, à vontade e usa o tempo de que precisares. Depois faremos as contas”.

Esta última parte do artigo de Pechenino costuma circular na internet como se fôra um fato histórico líquido e certo, ou seja, como se Leão XIII houvera realmente assistido em sua visão a esta suposta “negociação” entre Deus e o demônio. O problema aqui é que, com base no texto de Pechenino, não se pode afirmar com segurança que isto seja parte do relato histórico: ao contrário, o único que estaríamos autorizados a concluir é que se trata de uma consideração teológica que, sem pretender tocar nos fatos narrados, afirma contudo a verdade que neles se manifesta: como se vê na história de Jó, Deus permite à Igreja ser provada por Satanás, assim como permitiu outrora a seu Filho encarnado ser perseguido, maltratado e morto.

Nesse sentido, as palavras de Pechenino apontariam para a íntima relação entre o conteúdo da visão do Papa (a saber, as investidas do inferno contra a Santa Igreja Católica) e o decreto permissivo em virtude do qual a Providência divina permite a existência de males e a perseguição dos justos.

Como quer que seja, outro dado que lança certas suspeitas sobre a historicidade do trecho acima citado são alguns detalhes introduzidos por Pechenino. Donde teria ele, afinal de contas, tirado os “cinquenta, sessenta anos” de que o diabo disse precisar para pôr a Igreja abaixo? Ora, é sabido que a beata Anna Catarina Emmerich, em seu conhecido livro sobre a Paixão de Cristo, diz ter ouvido dizer que, após ser acorrentado por Cristo nas profundezas do inferno, Lúcifer seria novamente solto por certo tempo, cinquenta ou sessenta anos antes do ano 2000 da era cristã [1].

Teria, pois, o Pe. Pechenino lido as revelações privadas da beata Emmerich? Não o podemos afirmar com certeza; mas nada impede, a princípio, que ele as houvesse lido ou, no mínimo, delas tivesse algum conhecimento. Influenciado por tais ideias, poderia ele ter “projetado”, de forma mais ou menos consciente, em sua reflexão pessoal sobre a visão de Leão XIII alguns elementos do livro de Anna Catarina. Isso, porém, é terreno para especulações difíceis de comprovar e nas quais não vale a pena insistir aqui.

Na próxima aula, começaremos a ver detidamente o conteúdo da oração ao Arcanjo São Miguel e estudaremos o que nos estava pedindo o Papa Leão XIII ao compô-la e estendê-la à Igreja inteira.

Referências

  1. Cf. Anna Catarina Emmerich. Vida e paixão do Cordeiro de Deus. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 374.
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