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A Oração de São Miguel

As preces depois da Missa

Talvez pouca gente saiba disso, mas antes da reforma litúrgica de Paulo VI era comum que, ao final das Missas privadas, o sacerdote se pusesse de joelhos ao pé do altar para recitar uma série de orações pela salvação dos pecadores e pela exaltação da Santa Igreja, pondo-se sob a especial proteção do Arcanjo São Miguel. 

Como e por que surgiram estas orações? O que nos dizem elas sobre a percepção que os Papas dos séculos passados tinham da situação da Igreja no mundo moderno? Eis o tema de mais esta aula do curso A Oração de São Miguel.

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Poucos fiéis o sabem hoje em dia, mas antes da reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, foi costume durante pouco mais de um século rezar, logo após a Missa, uma série de orações ao pé do altar. O teor delas, bem como o motivo por que foram instituídas, mostram que, desde meados do séc. XIX, a Igreja tem clara consciência de estar em um combate cada vez mais acirrado contra os poderes deste mundo, contra “as forças espirituais do mal espalhadas nos ares” (Ef 6, 12), segundo a conhecida frase do Apóstolo. 

A Igreja, é verdade, sempre soube de sua vocação militante, porque desde os seus primórdios ela é combatida tanto pelos homens como, sobretudo, pelos principados e potestades do inferno. Não é menos certo, porém, que ela pôde gozar de relativa tranquilidade após o término das perseguições romanas, com a consequente e progressiva cristianização da Europa e dos povos bárbaros que a foram ocupando.

No entanto, com o declínio da cristandade medieval, começaram a fervilhar, dentro e fora da Igreja, e isto com força crescente, elementos de aberta oposição ao que, até o momento, tinha ensinado e feito pelos povos a influência benéfica do catolicismo. Basta pensar na “Reforma” Protestante, que dividiu de maneira irremediável uma Europa unificada sob a mesma fé e a obediência a um único Magistério, ou na diabólica Revolução Francesa, que, apresentando-se como embaixadora da “Razão” e limiar de uma nova humanidade, quis refundar a sociedade sobre alicerces que não os postos pelo Evangelho, substituídos pelo naturalismo, pelo indiferentismo religioso, por tudo aquilo que, numa palavra, se tornou a mentalidade típica do mundo contemporâneo.

Os Papas do período, ao se darem conta desta oposição crescente ao espírito cristão, houveram por bem combater não só os fautores humanos destes erros, mas também a causa inteligente que está por trás de toda revolta contra Deus e a sua Igreja: os próprios anjos das trevas. É verdade que figuras proeminentes nesta batalha só a tomaram a peito um pouco tardiamente. O próprio Pio IX, antes de ser elevado ao sólio pontifício, teve por um tempo a ilusão de que talvez fôra possível chegar a um acordo prudente com essas forças anticristãs, a fim de preservar os direitos da Igreja; mas, uma vez na cátedra de Pedro, viu ser impraticável um tal acordo: as forças políticas pretendiam, de fato, extinguir a Igreja ou pelo menos reduzir ao mínimo sua autoridade moral sobre as almas.

Por isso, Pio IX, com a sabedoria de um bom pastor, recorreu à maior arma de um cristão: a oração de súplica. Assim, no ano de 1859, ordenou a todos os sacerdotes do domínio pontifício (isto é, dos Estados pertencentes ao Romano Pontífice, extintos em 1870, depois de inúmeras convulsões políticas) que rezassem de joelhos ao pé do altar algumas orações, após a celebração das Missas privadas. 

Quais foram essas primeiras orações? Consistiam elas, em primeiro lugar, em três Ave-Marias, seguidas da antífona Salve, Rainha. Além disso, prescreviam-se mais quatro orações. A primeira, extraída da coleta da Missa em honra à Virgem SS., sinal de luta contra o dragão do Apocalipse e de inimizade com a serpente infernal do Gênese, diz assim:

Senhor Deus, Vos pedimos, concedei a vossos servos perpétua saúde na alma e no corpo; e por intercessão gloriosa da Bem-aventurada sempre Virgem Maria, fazei que sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria.

A segunda era extraída da Missa pela remissão dos pecados. Desta forma, dava o Papa a entender que, neste combate espiritual, é imprescindível clamar a Deus pelo perdão de nossas próprias culpas. Esta é a atitude interior correta de quem combate o bom combate: não se trata de, com o dedo em riste, condenar os que se nos opõem, por mais infensos que sejam à Igreja Católica; antes, para alcançar a vitória, nesta e a na outra vida, há que se reconhecer que é dentro de nós que começa a luta, pois é ali que Satanás quer instalar o seu reino de oposição a Deus. Como a pecadores muito necessitados do perdão divino, mandava o Papa Pio IX que os padres rezassem:

Ó Deus, que a ninguém repelis, mas antes, em vossa misericordiosa bondade, Vos deixais aplacar pela penitência dos pecadores, por mais culpados que sejam, recebei favoravelmente as nossas humildes orações e iluminai os nossos corações, para que possamos cumprir vossos preceitos.

A terceira oração provinha da Missa pela paz, fim almejado deste combate. Se, com efeito, é a paz o que queremos, não há outra saída senão preparar a guerra, não com violência, mas com a determinação interior de manter-se fiel a Cristo, sem negociações escusas com o mundo, e de dar testemunho do Evangelho sempre que as circunstâncias o exigirem, para a honra de Deus e a edificação do próximo. Não devemos, pois, ter medo nem vergonha de assumir nossa identidade cristã, falando com clareza, a quem nos pedir a razão da nossa esperança, sobre o que nos manda crer a Igreja e esforçando-nos sempre por atrair a todos ao único redil de Cristo, fora do qual ninguém pode estar seguro da própria salvação:

Ó Deus, que sois a fonte dos santos desejos e das ações justas, concedei a vossos servos esta paz que o mundo não pode dar, para que nossos corações se prendam aos vossos preceitos e, livres de temor dos inimigos, tenhamos dias tranquilos sob a vossa proteção.

A quarta e última oração rogava a Deus pelos inimigos, cuja conversão e salvação a Igreja insistentemente pede àquele que é Senhor de todos os homens, mas cujos erros não deixa ela de proscrever e condenar, como mestra e coluna da verdade, fidelíssima depositária de toda a doutrina revelada. Assim, o mesmo Papa que em diversas encíclicas e documentos condenou os erros do seu tempo e reforçou a excomunhão dos maçons ordenou aos padres dos Estados pontifícios que rezassem esta belíssima e comovedora oração:

Ó Deus, que amais e conservai a paz e a caridade, dai a todos nossos inimigos a verdadeira paz e a caridade, concedei-lhes a remissão de todos os pecados, e por vosso poder, preservai-nos de suas insídias. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

Anos mais tarde, em 1884, já eleito Papa, Leão XIII decidiu alterar estas orações, motivado talvez por sua “demasiada” extensão. À primeira vista, houve certo empobrecimento numérico, porque, além das costumeiras três Ave-Marias e da Salve, Rainha, teriam os padres de rezar uma única oração; por outro lado, houve certo ganho quantitativo, porquanto o Papa estendeu a obrigação aos sacerdotes, não já dos domínios pontifícios (então extintos), mas da Igreja inteira. Convém notar que a nova oração a ser rezada após a Missa tinha, em comparação com as ordenadas por seu antecessor, um tom menos incisivo, menos combativo, e talvez muito “piedoso”:

Deus, nosso refúgio e fortaleza, atendei às piedosas orações da vossa Igreja e concedei que, pela intercessão da gloriosa e Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, de São José, e dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os Santos, obtenhamos com eficácia nas necessidades presentes o que humildemente vos pedimos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

O decreto com que se alteravam e estendiam as preces depois da Missa explica as motivações do Papa: “Leão XIII julgou oportuno fazer recitar por todo o mundo católico estas mesmas orações modificadas em algumas partes, a fim de que o bem comum da religião cristã seja solicitado ao Todo-Poderoso pelas súplicas comuns do povo cristão; e pelo acréscimo do número de suplicantes, os benefícios da misericórdia divina sejam mais facilmente obtidos”. E, apesar do tom mais sereno e recolhido, o motivo fundamental dessas orações permanecia o mesmo, a saber: “a dificuldade e o rigor dos tempos” (tempora difficilia et aspera).

Entretanto, apenas dois anos depois, Leão XIII promulgou um segundo decreto, com o qual modificava a oração prescrita, dando-lhe um tom mais veemente, e lhe acrescentava uma súplica, composta por ele mesmo, ao Arcanjo São Miguel, invocado como príncipe da milícia celeste. A nova oração dizia assim:

Deus, nosso refúgio e fortaleza, atendei, propício, os clamores do vosso povo, e pela intercessão da gloriosa e Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, de São José, seu esposo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os Santos, ouvi, misericordioso e benigno, as súplicas que do fundo da alma vos dirigimos, pela conversão dos pecadores e pela liberdade e exaltação da Santa Mãe Igreja. Pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor. Amém.

Mas o que, afinal, teria levado o Papa Leão XIII, de uma hora para outra, a mudar de tom, impondo à Igreja súplicas aindas mais fortes do que as prescritas antes por Pio IX? Teria ele se apercebido da gravidade do combate em que a Igreja se achava? Foi-lhe realmente revelado, por uma visão especial, a ruína em que cairia a Igreja nos anos seguintes? Este será o tema da próxima aula.

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