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A pandemia e os quatro cavaleiros do Apocalipse
Doutrina

A pandemia
e os quatro cavaleiros do Apocalipse

A pandemia e os quatro cavaleiros do Apocalipse

Pandemia do coronavírus, nuvem de gafanhotos, peste bubônica, guerra civil. Talvez seja o cenário ideal para um filme apocalíptico... mas é só a realidade mesmo. Estaríamos, então, vivendo os momentos finais descritos por São João no livro do Apocalipse?

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Doenças, pragas, ciclones, terremotos, conflitos políticos e sociais. Talvez seja o cenário ideal para um filme apocalíptico... mas é só a realidade mesmo. Desde que os primeiros casos de coronavírus surgiram, em dezembro de 2019, o mundo parece ter mergulhado num abismo sem fundo. Notícias perturbadoras chegam a cada minuto, disseminando pânico, irritação e o que nos leva à seguinte pergunta: estaríamos vivendo os momentos finais da história humana?

Se considerarmos apenas o que fala Jesus, no Evangelho de São Mateus, sobre o fim dos tempos, a resposta é não: “De fato, há de se levantar nação contra nação e reino contra reino. Haverá fome e terremotos em vários lugares. Tudo isso é o começo das dores” (24, 8). Acontecimentos infaustos, por mais graves que sejam, não indicam necessariamente a iminência do Juízo Final. Eles, na verdade, são um aviso de que devemos estar sempre preparados para o retorno de Nosso Senhor, que “virá como um ladrão” (1Pe 3, 10). Por isso, a nossa atenção deveria voltar-se, antes de tudo, para a santificação de nossas almas, a fim de que, quando Ele vier, nos encontre “puros e santos”.

Isso, porém, não quer dizer que não devamos estar atentos aos sinais dos tempos. Se, por um lado, não sabemos que dia será o fim do mundo podemos, por outro, ter certeza de que estamos no “tempo das dores”, na medida em que o cerco se vai fechando contra os filhos da luz, seja por projetos que pretendem nos levar aos tribunais, seja por perseguições explícitas nas ruas. O mundo moderno odeia tanto ou mais o cristianismo quanto um dia o odiou o Império Romano e demais opositores do Evangelho ao longo de dois milênios. As dores da Igreja, de fato, começaram no Calvário, e o que vemos em nossos dias é, por assim dizer, mais um capítulo dramático da grande batalha entre as forças de Deus e a prepotência do diabo. E essa batalha só vai terminar quando se tiver completado o número dos eleitos, pelo que “Ele está usando de paciência para convosco, pois não deseja que ninguém se perca” (1Pe 3, 9).

A “peste”, a “fome” e a “guerra” estão, biblicamente, ligadas à purificação pela qual os homens precisam passar, sobretudo quando aumenta entre eles a iniquidade e a idolatria. E é exatamente essa a condição atual do gênero humano: vemos coisas escandalosas acontecerem onde menos se esperaria. Em razão disso, o respeitado exorcista Pe. Duarte Sousa Lara recomenda, para estes tempos, um sério aprofundamento sobre os textos proféticos e as mensagens de Nossa Senhora, em sintonia com o Magistério da Igreja e os fatos históricos, a partir dos quais todo fiel pode formar um reto juízo sobre o que deve fazer para agradar a Deus e sobreviver às investidas do inimigo. “O coronavírus foi apenas um aperitivo” e, consequentemente, “devemos estar atentos ao que está acontecendo à nossa volta e ao que Deus nos diz”, adverte o sacerdote.

Todo esse quadro traz à tona um dos textos bíblicos mais comentados entre cristãos e não-cristãos: o Apocalipse de São João tem, sem dúvida, uma mensagem impressionante, sendo constantemente citado em livros, filmes, séries e novelas. Embora não seja uma obra propriamente “profética”, ela apresenta tal conjunto de “símbolos”, “imagens” e “exortações”, que é impossível não pensar nela neste estado de calamidade causado pela pandemia. Nesse sentido, e segundo a proposta do Pe. Duarte Sousa Lara, é importante conhecer mais esse texto bíblico, que fala abertamente da “peste”, da “fome” e da “guerra” que se abaterão sobre os homens, como uma “grande tribulação”, em consequência de seus pecados.

A interpretação do Apocalipse. — O livro do Apocalipse (do grego apokálypsis, “revelação”) foi escrito pelo Apóstolo São João, por volta do fim do séc. I, quando ele se encontrava na ilha grega de Patmos, por conta da perseguição de Domiciano. É preciso conhecer bem esse contexto para compreendermos a mensagem do livro. Não se trata de uma obra para anunciar desgraças, mas de uma composição literária que, tendo como pano de fundo o acossamento dos cristãos naquele período, recapitula a história da humanidade e da Igreja por meio de “símbolos” e “imagens”, cujo fio condutor é a luta entre o Cordeiro de Deus e a antiga serpente. Por isso, o livro do Apocalipse é o livro da esperança cristã, porque revela a mão providente de Deus, que governa o mundo e se aproveita até das artimanhas do maligno para conduzir o gênero humano à salvação eterna.

Com efeito, grande parte dos exegetas tende a adotar a “teoria da recapitulação”, proposta pelo dominicano Pe. Ernest-Bernard Allo, no livro Saint Jean, L’Apocalypse, como a mais adequada para interpretar o último livro da Sagrada Escritura. Segundo essa teoria, os números, símbolos e imagens que São João apresenta não se devem entender de forma literal, mas como uma composição literária lógica pela qual o Apóstolo, cujo estilo é o de uma águia sobrevoando a presa, vai encaminhando pouco a pouco o leitor até o destino desejado: a certeza de que Deus está no controle de todas as coisas. “Levando em conta essa peculiaridade de estilo”, explica Dom Estêvão Bettencourt, “podemos dizer que o autor sagrado não expõe os sucessivos acontecimentos concretos da história do cristianismo, mas apresenta a realidade invisível que se vai afirmando constantemente por detrás dos episódios visíveis da história”.

A estrutura que o Apocalipse segue, de maneira geral, é a da descrição por septenários: as sete igrejas, os sete selos, as sete trombetas e as sete taças. O sete é um número que indica perfeição e se refere também à totalidade ou plenitude das coisas mencionadas por São João. A partir do cap. 6, temos o “septenário dos selos”, em que aparecem as figuras dos quatro cavaleiros, cuja simbologia muito nos interessa. É nesse capítulo que São João descreve minuciosamente como Deus atua com relação aos acontecimentos da história humana e como a ação do maligno no mundo, por meio da “peste”, da “fome” e da “guerra”, não é algo absoluto, mas que está limitado pela própria vontade divina, que age silenciosamente para fazer com que tudo concorra para o bem dos que amam a Deus.

Os quatro cavaleiros do Apocalipse. — De início, o coração dos leitores já é consolado pela afirmação de que “o Cordeiro abriu o primeiro dos setes selos”. Toda a mensagem que se segue deve, portanto, ser entendida a partir do alto, porque o Cordeiro é Nosso Senhor. Nessa passagem, temos também a figura do primeiro dos quatro animais — o leão, segundo Ap 4, 7 —, que diz: “Vem”. É tradição interpretar os quatro animais como figuras dos quatro evangelistas, que anunciam a vinda de Cristo. E surge, em resposta ao chamado do primeiro animal, o cavalo branco e seu cavaleiro. “Tinha um arco e foi lhe dada uma coroa”, completa São João, dizendo: “Saiu vencendo, e para vencer ainda mais”.

Destaque de “Morte num cavalo amarelo”, de Benjamin West.

Alguns querem ver nesse cavaleiro branco a imagem do Anticristo. Todavia, uma leitura canônica tende a nos convencer do contrário: o cavaleiro branco é ninguém menos que Jesus glorioso, que desce do Céu para pôr fim às maquinações do inimigo de Deus. O arco que São João menciona aparece no livro das Lamentações, quando o escritor sagrado menciona a fúria do Senhor contra a idolatria de Israel (cf. 2, 4). Também em Deuteronômio se pinta o retrato de Deus como um guerreiro que afia a espada para se vingar de seus inimigos e dar a paga aos que o odeiam (cf. 32, 41). São João tinha um conhecimento profundo do Antigo Testamento, de modo que muitas imagens presentes no Apocalipse são retiradas de lá. Finalmente, a própria revelação de São João, no cap. 19, mostra quem é o guerreiro misterioso: “Vi então o Céu aberto, e apareceu um cavalo branco. Aquele que o montava chama-se Fiel e Verdadeiro: ele julga e combate com justiça” (v. 11).

Após essa visão, São João fala da abertura do segundo selo e do pedido do segundo animal, o touro: “Vem”. Esse pedido não pode ser interpretado como uma súplica por calamidades, mas como a aceitação do plano de Deus, que permite a ação do mal para misteriosamente revelar a soberania do bem. Vem, por isso, o cavalo vermelho, e ao seu cavaleiro é “dado o poder de tirar a paz da terra”. Notem que o poder do cavaleiro não procede dele mesmo. Como na história de Jó, o diabo recebe permissão de Deus para atormentar a humanidade. A cor vermelha indica o derramamento de sangue e as perturbações provocadas pela guerra. É também a cor do dragão (cf. Ap 12, 3) e das vestes da mulher prostituta (cf. Ap 17, 13). A guerra que esse cavaleiro provoca tem mais um caráter de guerra civil que de um conflito entre nações. Como lemos no texto, a sua incitação leva os homens a se matarem uns aos outros.

Do mesmo modo, depois da abertura do terceiro selo, o terceiro animal, o homem, pede e o cavalo preto vem. A este é dada a permissão para atacar as colheitas da primavera (trigo e cevada), mas não as do outono (azeite e vinho). O seu poder, como o do cavaleiro vermelho, é igualmente limitado. Todavia, a cor preta e a balança são símbolos da morte provocada pela fome, que chega em decorrência da guerra e da destruição das plantações.

Outro detalhe do mesmo quadro de Benjamin West.

O último animal, a águia, acompanha a abertura do quarto selo e a vinda do cavalo verde. “O seu cavaleiro era chamado ‘a morte’, e o ‘Hades’ o acompanhava”, diz o texto do Apocalipse. A cor verde é a dos cadáveres em decomposição, dos milhares de mortos, “a quarta parte da terra”, conta São João, “pela espada, pela fome e pela peste”. Com essas figuras, o Apóstolo retoma os três flagelos contra a humanidade rebelde, que a Sagrada Escritura geralmente menciona em diferentes passagens (cf. Lv 26, 23–29; Dt 32, 24s; Ez 5, 17; 6, 11–12; 7, 15; 12, 16).

O desfecho do cap. 6 e o que se segue nos caps. 7 e 8 mostram, finalmente, a diferença entre os que se mantêm fiéis à promessa de Deus e os que renegam a fé diante da calamidade. Estes últimos, “os reis da terra, os epígonos e os chefes militares, os ricos, os poderosos” etc., fogem apavorados, pedindo aos montes para esconderem seus rostos “da face daquele que está sentado no trono e da ira do cordeiro” (6, 15); aqueles, por outro lado, recebem a marca de “servos do Senhor” e saem da “grande tribulação” com suas túnicas lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro. E eles “nunca mais terão fome, nem sede, nem os molestará o sol, nem algum calor ardente”, revela São João, “porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes das águas da vida” (7, 16–17). Em outras palavras, o cavaleiro branco, que vem para vencer, não permite que nada de mau lhes aconteça, concedendo-lhes a graça para suportarem qualquer tribulação. E o septenário é finalizado com a abertura do sétimo selo e o silêncio contemplativo da corte celeste diante da obra de Deus (8, 1).

O número dos eleitos, 144 mil, é símbolo da universalidade da salvação de Deus, que não faz distinção de pessoas: a Igreja é católica e, por isso, reúne santos dos quatro cantos da terra, das doze tribos de Israel à geração dos doze Apóstolos. Multiplicados um pelo outro e por mil, representam “a multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”, que estarão de pé no Juízo Final para proclamar: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao cordeiro” (6, 9).

O Apocalipse da pandemia. — Esse “septenário dos selos” é, de acordo com Dom Estêvão Bettencourt, o “mais sóbrio e nítido, que, pode-se dizer, resume o livro inteiro”. A partir desse texto, podemos identificar os quatro cavaleiros que também vieram em nosso tempo, neste momento de pandemia, e fazer a nossa profissão de fé no guerreiro branco, que vem para vencer. Como nos conforta a visão do Apocalipse de São João, pois em cada infortúnio da história humana se esconde um propósito divino, ao qual devemos nos aferrar para sobrevivermos espiritualmente à “grande tribulação” infligida a nós pelas mãos do inimigo de Deus. 

Se esta será objetivamente a última tragédia antes da vinda definitiva de Nosso Senhor é coisa que não podemos saber, nem deve nos interessar tanto quanto a necessidade de formarmos um coração profundamente dócil e conformado ao Sagrado Coração de Jesus. Porque, se não estamos na iminência do Juízo Final, isso não nos exclui da possibilidade imediata de um juízo particular, considerando o grande número de vítimas do coronavírus e de outras pestes.

“Sede sóbrios e vigiai”, aconselha-nos São Pedro. Porque, de fato, o nosso adversário, o diabo, está nos rodeando “como um leão a rugir, procurando a quem devorar”. E é somente “firmes na fé”, certos de que iguais sofrimentos atingem também nossos irmãos pelo mundo, que poderemos, nesta vida, resistir às suas maquinações, sejam elas “guerras”, “pestes” ou “fome” (cf 1Pe 5, 6–11). Ao fim, o que importa é sermos incluídos entre os bem-aventurados que lavam suas vestes no Preciosíssimo Sangue do Cordeiro; só eles “poderão fruir da árvore da vida e entrar na cidade pelas portas” (Ap 22, 14).

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Jejuar ainda? Por quê?
Espiritualidade

Jejuar ainda? Por quê?

Jejuar ainda? Por quê?

O jejum é um dos costumes religiosos mais antigos da história. Sua prática, no entanto, tem sido bastante desprezada por nossa sociedade consumista e sem autocontrole. Por que, então, mesmo assim, a Igreja continua a recomendá-la?

Pe. Blake BrittonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O jejum é uma das práticas religiosas mais antigas da história. Hoje, porém, numa sociedade dominada pelo consumismo, pelo materialismo e por uma falta de autocontrole generalizada, a disciplina do jejum é bastante desprezada. A Igreja Católica ainda é uma das poucas instituições no mundo que defende a dignidade dessa prática e a sua importância para a vida espiritual. Portanto, devemos nos perguntar: por que a Igreja é tão “inflexível” a respeito desse antigo costume e quais as origens dele?

S. Basílio Magno, em suas homilias para a Quaresma, observa que o jejum é tão antigo quanto a humanidade. Na verdade, foi a primeira ordem que os seres humanos receberam de Deus: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2, 17). De acordo com S. Basílio, foi a incapacidade de jejuar que levou à Queda no Éden. O jejum como tal é um dos remédios para recuperar a dignidade original de nossa identidade como filhos de Deus: “Fomos banidos do Paraíso porque não jejuamos. Portanto, jejuemos para retornar a ele” (Hom. 1 sobre o jejum).

S. Basílio reconhece um duplo propósito nessa ordem primordial de jejuar. Primeiro, o jejum ajuda a alma a amadurecer. Qualquer psicólogo reconhecerá que a falta de disciplina e autocontrole são sinais claros de imaturidade. A incapacidade de ser paciente, tomar decisões sensatas e desfrutar com responsabilidade de comida, bebida ou relacionamentos representa uma grave lacuna no desenvolvimento humano. É por isso que a prática regular da autodisciplina por meio do jejum é tão crucial para a vida espiritual. Não se trata apenas de renunciar a algo porque a Igreja assim o determina. Quanto mais praticamos a abstinência, mais maduros nos tornamos, saindo da imaturidade da satisfação imediata para a maturidade do consumo regrado. Pois o jejum é o “companheiro da sobriedade e o artesão do autocontrole” (Ibid.).  

Portanto, o jejum nos ajuda a fomentar uma virtude específica — a saber, o autocontrole, uma qualidade não muito comentada em nossa época. São Paulo o identifica como um dos frutos do Espírito Santo: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 22–23). O termo grego usado por Paulo é enkrateia (ἐγκράτεια), que é composto de duas outras palavras: en (de dentro) e kratos (de uma raiz que significa “aperfeiçoar”). Portanto, ter autocontrole significa literalmente “aperfeiçoar-se desde dentro”. Essa definição nos ajuda a entender melhor a segunda afirmação de S. Basílio a respeito das consequências do jejum.

Para S. Basílio, o jejum feito de forma correta ordena os apetites do nosso corpo para o bem da alma: “Quanto mais negar a carne, mais radiante de saúde espiritual se tornará a alma” (Hom. 2 sobre o jejum). Aqui vemos a influência dos Padres do Deserto na espiritualidade de S. Basílio. Esses cristãos da Antiguidade eram inflexíveis quanto à reconquista da dignidade perdida por Adão no Éden. Reconheciam que o erro de Adão estava relacionado à falta de disciplina. Ele cedeu aos seus desejos mais básicos, perdeu de vista a elevada vocação da humanidade como imago Dei (a “imagem e semelhança de Deus”). Assim, monges como Abbá João (525 d.C.) fizeram o seguinte alerta: “Deveríamos sempre evitar o apego [às coisas terrenas], pois isso é prejudicial à alma”. 

Jesus mesmo ensina que “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Os seres humanos não são meros animais. Temos apetites que vão além do carnal. Nossa vontade não está orientada pelo instinto. Deve haver uma razão mais profunda para as nossas ações. Quando meu estômago ronca por causa do jejum, tenho nisso um lembrete da fome espiritual que a minha alma experimenta em todos os momentos da minha existência. Essa também é a lógica do jejum antes da recepção da Sagrada Eucaristia. Por meio do jejum eucarístico, meu corpo fica temporariamente “fundido” à fome da minha alma por Cristo no Santíssimo Sacramento.

A alma anseia constantemente pela misericórdia e bondade de Deus. Estamos alimentando esse desejo ou deixamos a nossa alma faminta? Estamos alimentando o nosso espírito com os alimentos nutritivos da Eucaristia, da Confissão, da Sagrada Escritura e da oração contemplativa? 

Sabemos que o jejum foi parte integrante da vida de Jesus, tanto que passou quarenta dias no deserto abstendo-se de alimento terreno. O Senhor não faz nada por acaso ou sem planejar. Todos os acontecimentos de sua vida nos ensinam algo profundo sobre a nossa própria existência como pessoas e a nossa vocação como cristãos. Encontramos no jejum de Cristo uma forma de participar da vida divina de Deus. Ao crescermos no autocontrole a partir dos nossos impulsos imaturos e ao alimentarmos a nossa alma de forma adequada por meio do jejum, sem dúvida cresceremos na intimidade com o Senhor, que nos ama.

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A justiça social, explicada por um Papa
Doutrina

A justiça social, explicada por um Papa

A justiça social, explicada por um Papa

Um dos maiores pensadores da modernidade, o Papa Leão XIII esboçou para o mundo moderno uma filosofia do homem e da sociedade singularmente católica. Visite neste texto alguns excertos de suas atualíssimas encíclicas.

Piers ShepherdTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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O Papa Leão XIII, cujo nascimento completa 210 anos neste ano, é talvez mais conhecido por seu marianismo. Ele foi um dos maiores promotores do Santo Rosário e foi o primeiro Pontífice a aplicar o título de Medianeira a Nossa Senhora. Porém, ele foi um dos maiores pensadores da modernidade, tendo esboçado para o mundo moderno uma filosofia do homem e da sociedade singularmente católica.

Antes de debatermos os escritos de Leão XIII, é necessário analisar o contexto em que foram elaborados. O nome de batismo de Leão XIII era Vicente Joaquim Pecci. Ele nasceu em 1810, numa Itália em que o Papa era mantido prisioneiro por Napoleão. Apesar da posterior derrota de Napoleão e da restauração dos Estados Pontifícios, as sementes da revolução já haviam sido lançadas, e durante as décadas seguintes a Igreja sofreria constantes ataques dos que buscavam unificar a Itália sob um governo liberal laico. Em 1870, Roma foi ocupada pelo novo Estado italiano. Pela primeira vez em mais de mil anos, o Papa não tinha posses temporais. Quando Leão XIII foi eleito em 1878, foi o primeiro Papa em séculos a não exercer nenhum poder temporal e a ficar integralmente à mercê de um Estado hostil. Leão XIII foi o primeiro Papa a passar seu pontificado inteiro atrás dos muros do Vaticano, impossibilitado de sair, para que não se tornasse vítima de uma agressão secular.

Embora a perda dos Estados Pontifícios tenha sido uma tragédia, ela permitiu que o Papa voltasse sua atenção para assuntos espirituais e para o ensino dos fiéis. Foi nesse contexto que Leão XIII desenvolveu seu grande corpus doutrinal, que procurou abordar os problemas centrais da sua e da nossa época.

As encíclicas de Leão XIII parecem ter sido escritas hoje e lidam com problemas que ainda perturbam a mente da sociedade moderna. Primordiais entre eles estão o papel da religião na sociedade e o problema do indiferentismo religioso, o papel do matrimônio e da família, o problema da criação de uma sociedade justa, e as ideologias que militam contra uma visão cristã da sociedade. 

Na modernidade, estamos acostumados a viver numa sociedade secular que exila a religião para a esfera privada. “Não falamos de Deus”, proclamou há alguns anos um político britânico de destaque. Nada poderia se opor mais à visão católica da sociedade tal como enunciada por Leão, particularmente em sua encíclica Immortale Dei. Embora a Igreja não tenha preferência por nenhum tipo de governo, toda autoridade na sociedade tem origem em Deus e está sujeita à lei divina

Apesar de Igreja e Estado serem domínios com funções distintas, Leão XIII afirma: 

Necessário é, pois, que haja entre os dois poderes um sistema de relações bem ordenado, não sem analogia com aquele que, no homem, constitui a união da alma com o corpo...: um tem por fim próximo e especial ocupar-se dos interesses terrenos, e o outro proporcionar os bens celestes e eternos (n. 19).

Portanto, é terrível para a Igreja defender um conjunto de valores enquanto o Estado arvora-se em princípios completamente opostos aos dela. Na sociedade moderna, todas as religiões são tratadas igualmente como verdadeiras, falsas ou com indiferença. A perspectiva da Igreja é radicalmente diferente. Leão XIII afirma que a obrigação de seguir a verdadeira religião vincula indivíduos e Estados: 

O maior de todos os deveres é abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas. Assim também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo seu beneplácito (n. 11). 

O Estado moderno, diz Leão:

não se julga jungido a nenhuma obrigação para com Deus, não professa oficialmente nenhuma religião, não é obrigado a perquirir qual é a única verdadeira entre todas, nem a preferir uma às outras, nem a favorecer uma principalmente; mas a todas deve atribuir a igualdade em direito, com este fim apenas, de impedi-las de perturbar a ordem pública (n. 32).

Relativamente à religião, pensar que é indiferente tenha ela formas disparatadas e contrárias equivale simplesmente a não querer nem escolher nem seguir qualquer delas (n. 37).

Esses ensinamentos parecem severos aos ouvidos modernos, mas realçam uma verdade essencial. A religião é importante. A religião professada por uma pessoa é importante. A religião professada pelos nossos governante é importante. Ela não é um assunto puramente neutro ou privado.

Igualmente inaceitável para o Papa Leão XIII é a prática — tão comum entre os políticos modernos! — de expressar em privado um conjunto de convicções religiosas e morais e outro em público. Como se estivesse prevendo a existência dos políticos contemporâneos [1], Leão XIII escreve o seguinte: 

Não é, tampouco, permitido ter duas maneiras de proceder: uma em particular e outra em público, de modo a respeitar a autoridade da Igreja na vida privada e a rejeitá-la na vida pública; isso seria aliar juntos o bem e o mal e pôr o homem em luta consigo mesmo (n. 59).

É necessário que um Estado tenha sólidos fundamentos religiosos. Mas isso não é tudo o que é necessário a uma ordenação adequada da sociedade. Um dos alicerces de qualquer sociedade estável e civilizada é a família baseada no casamento. A encíclica de Leão XIII Arcanum tinha por objetivo a defesa da união conjugal contra as ingerências de um Estado secular que a considerava apenas um contrato que poderia ser dissolvido como qualquer outro. Na encíclica Rerum Novarum, Leão XIII descreve a família como uma sociedade mais antiga que o Estado, que tem “certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado” (n. 6).

Na Arcanum, ele chama ao casamento base da união familiar, seu “início” e “fundamento”. Diz Leão XIII que o casamento “se deve dar somente entre dois, isto é, o homem e a mulher”; e que, “por vontade de Deus, o vínculo nupcial é tão íntima e fortemente unido, que ninguém entre os homens pode desfazê-lo ou rompê-lo” (n. 7). 

Essa afirmação pode não ter sido muito controversa em 1880, mas hoje Leão XIII seria denunciado por “discurso de ódio”. Numa época, porém, em que o “casamento gay” é autorizado pelo Estado e na qual já se fala em normalizar a chamada “não-monogamia consensual” [2], as palavras dele são mais relevantes e revigorantes do que nunca. 

O casamento é mais do que um contrato cujos termos podem ser ajustados para se adequar às preferências modernas. Nas palavras de Leão XIII: “Como o matrimônio seja, naturalmente, por sua própria natureza e força, uma coisa sagrada em tudo, é bem justo que seja regulado e moderado não pelo poder dos príncipes” (n. 29). Em outro ponto ele lança um alerta: “Ninguém se deve deixar impressionar por aquela distinção tão celebrada pelos regalistas com a qual distinguem o contrato nupcial do casamento, com a intenção de deixar o contrato em poder e arbítrio dos chefes de Estado, reservando para a Igreja as razões do sacramento” (n. 35). 

Antevendo a miséria que as leis de divórcio liberais causariam na sociedade, Leão XIII lamentou: 

Em verdade, é custoso ter necessidade de dizer quantas consequências funestíssimas encerra em si o divórcio. Pois por seu meio, tornam-se instáveis os matrimônios; diminui-se a benevolência mútua; prestam-se incitamentos perniciosos à infidelidade; causam-se prejuízos ao bem-estar e à educação dos filhos; dá-se ocasião à dissolução das sociedades domésticas; semeiam-se as sementes da discórdia entre as famílias... Por isso é claro que é um absurdo e uma loucura esperar a salvação pública dos divórcios, que levarão a sociedade à ruína certa (n. 46.54).

Deveríamos prestar atenção nessas palavras, pois as leis de divórcio sem culpa têm se tornado onipresentes em nações outrora conhecidas como cristandade. 

A verdadeira religião e a família fundada no matrimônio são base essencial para uma sociedade que busca o bem comum. Religião e família, porém, são cultivadas de forma mais eficaz no seio de uma sociedade justa do ponto de vista social. Hoje, o termo “justiça social” evoca imagens de esquerdistas agressivos promovendo uma agenda marxista que considera injusta a propriedade privada. Mas a perspectiva marxista ou socialista da propriedade coletiva é inteiramente contrária à imaginada por Leão XIII.

Em sua histórica encíclica Rerum Novarum, Leão XIII defendeu o direito fundamental do homem à propriedade, um direito resguardado pela lei natural. Porém, ele também deixa claro que é desejável que a propriedade seja distribuída da forma mais ampla possível e que, quanto maior o número de proprietários, melhor. A propriedade privada é necessária ao desenvolvimento da família, e todas as famílias devem adquirir propriedade a fim de transmiti-las aos filhos. No entanto, o Papa reconheceu que, na economia moderna, a aquisição de propriedade pode não ser fácil e que um homem, caso queira obter propriedade, deve receber um salário suficiente. Por isso, encorajou os empregadores a pagarem um salário justo para que o trabalhador pudesse garantir uma vida digna para si e para sua família:

O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e agirá de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se se não começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares (n. 28).

Leão XIII acrescenta:

O homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa fartura. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos desta duplicação da atividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira utilidade será a suspensão do movimento de emigração; ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável (n. 28).

Numa época em que muitos podem considerar difícil obter propriedade para si e em que ocorre imigração em massa entre países, as palavras de Leão XIII são especialmente relevantes.

Na Rerum Novarum, Leão XIII apresentou uma perspectiva de justiça social verdadeira. Porém, milita contra essa perspectiva a ideologia moderna do socialismo. Os socialistas, encorajados por uma falsa noção de igualdade, endossam a apreensão estatal da propriedade em nome da justiça para todos. Leão XIII denuncia isso de forma inequívoca, afirmando que “nem a justiça nem o bem público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de que não há igualdade” (n. 21).

Dado que em 1891, ano da publicação da Rerum Novarum, ainda não havia existido um governo socialista, é bastante profética a previsão de Leão XIII a respeito do fracasso do socialismo na passagem abaixo:

Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas consequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria (n. 7).

Do mesmo modo, Leão XIII também critica o liberalismo laissez-faire, particularmente sua hostilidade à religião e às necessidades morais do trabalhador. 

No século XXI, a religião é considerada irrelevante e o casamento, reduzido a uma “preferência de estilo de vida”; condições sociais e econômicas tornam cada vez mais difícil a obtenção de propriedade, enquanto as ideologias liberal e socialista continuam a atacar os valores da civilização cristã. Neste contexto, não podemos senão restabelecer a ligação com os valores apresentados por Leão XIII, os quais poderiam formar a base para a reconstrução de nossa sociedade destroçada e lançar as sementes de uma contrarrevolução cristã.

Notas

  1. No texto original, o autor cita, nesta passagem, duas personalidades políticas de seu país: Nancy Pelosi e Joe Biden, ambos do Partido Democrata norte-americano. Preferimos omitir os nomes por se tratar de uma crítica específica do contexto dos Estados Unidos. Mas os leitores brasileiros podem fazer uma rápida pesquisa na internet sobre essas figuras e fazer os devidos paralelos com o que temos aqui (n.d.t.).
  2. Também aqui, o autor cita a iniciativa de um conselho profissional dos EUA, a Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association), que dirige um grupo de trabalho sobre a “não-monogamia consensual”. Como o termo, infelizmente, também tem as suas ocorrências na língua portuguesa, preferimos manter a expressão e omitir o fato que, mais uma vez, só tem sentido dentro do contexto específico norte-americano (n.d.t.).

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Uma oração para os médicos
Oração

Uma oração para os médicos

Uma oração para os médicos

Oferecemos a nossos leitores tradução privada de uma oração, publicada por Pio XII, a ser recitada pelos médicos. Nela se pedem a Jesus Redentor, “Médico das almas e dos corpos”, as graças necessárias para o reto exercício dessa tão importante profissão.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Oração dos médicos,
promulgada e indulgenciada [1]
pelo Sumo Pontífice Pio XII

Ó divino Médico das almas e dos corpos, Jesus Redentor, que durante a vossa vida mortal tivestes predileção pelos enfermos, curando-os com o toque da vossa mão onipotente, nós, chamados à árdua missão da medicina, Vos adoramos e em Vós reconhecemos o nosso excelso modelo e sustentáculo.

Guiai sempre nossa mente, coração e mãos, de modo que mereçamos o louvor e a honra que o Espírito Santo tributa ao nosso ofício (cf. Eclo 38).

Aumentai em nós a consciência de que somos, de algum modo, colaboradores vossos na defesa e no desenvolvimento das criaturas humanas, e instrumentos da vossa misericórdia.

Iluminai as nossas inteligências na áspera provação contra as inumeráveis enfermidades do corpo, a fim de que, valendo-nos retamente da ciência e seus progressos, não nos sejam ocultas as causas dos males nem nos induzam em engano os seus sintomas, mas possamos indicar com seguro juízo os remédios dispostos pela vossa Providência.

Dilatai com o vosso amor os nossos corações, de modo que, reconhecendo a Vós mesmo nos doentes, particularmente nos mais abandonados, respondamos com incansável solicitude à confiança que depositam eles em nós.

Fazei que, imitando o vosso exemplo, sejamos paternos no compadecimento, sinceros no aconselhamento, diligentes no tratamento, alheios à ilusão, suaves no prenúncio do mistério da dor e da morte; sobretudo, que sejamos firmes ao defender, contra os assaltos do egoísmo e dos instintos perversos, a vossa santa lei do respeito à vida.

Como médicos que nos gloriamos do vosso nome, prometemos que a nossa atividade se moverá constantemente na observância da ordem moral e sob o império das suas leis.

Concedei-nos, enfim, que nós mesmos, pela conduta cristã da vida e pelo reto exercício da profissão, mereçamos um dia escutar dos vossos lábios a beatificante sentença, prometida àqueles que Vos visitaram enfermo nos irmãos: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado” (Mt 25, 34). Assim seja.

10 de maio de 1957

Nosso Emin.º Sr., Papa por providência divina, Pio XII benignamente se dignou conceder aos médicos indulgência parcial de três anos sempre que, de coração contrito, recitarem devotamente a oração acima referida. Não obstante quaisquer disposições contrárias.

N. Card. CANALI, Penitenciário-Mor

S. Luzio, Regente

Notas

  1. De acordo com as normas para a concessão de indulgências, uma “indulgência anexa a alguma oração pode ganhar-se em qualquer língua em que se recite, desde que a tradução seja fiel, por declaração da Sagrada Penitenciaria ou de um dos ordinários ou jerarcas locais” (Enchiridion Indulgentiarum, n. 25). Como a tradução que aqui apresentamos é privada (feita por um aluno, a quem agradecemos a generosidade, e adaptada por nossa equipe), não goza da aprovação eclesiástica necessária à aquisição da indulgência a ela anexa. Os que quiserem lucrá-la, no entanto, podem encontrar a versão italiana original em AAS 49 (1957), p. 428.

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Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos
Sociedade

Santa Sofia
e a Sabedoria que perdemos

Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos

Sem a fé dos que as construíram, de nada adianta ter igrejas belíssimas. É triste dizê-lo, mas, com a transformação de Santa Sofia em mesquita, os muçulmanos só tomaram o que, já há muito tempo, nem nosso era.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Calma! 

Ninguém aqui quer convocar uma “cruzada” ou algo do tipo pela retomada de Santa Sofia, a antiga igreja recém-convertida em mesquita (de novo!) pelo sr. Erdogan, presidente da Turquia… 

Esse texto é, antes, sobre a Άγια Σοφία (Hagia Sophia) propriamente dita, isto é, a Santa Sabedoria, a quem foi dedicada essa igreja. 

Interior de Santa Sofia, hoje.

Ao contrário do que poderia pensar alguém que lê a expressão pela primeira vez, não, não se trata de um “ente abstrato” e fantasioso, nem de uma mulher chamada Sofia, nem mesmo do dom do Espírito Santo: a basílica da antiga Constantinopla, então capital do Império Bizantino, foi dedicada no dia 25 de dezembro de 537 à Sabedoria que “se fez carne e habitou entre nós”, Jesus Cristo. É o templo cristão por excelência, poderíamos dizer, pois que consagrado não a este ou àquele santo, mas ao Santo dos Santos, por assim dizer, a fonte da própria santidade, a Segunda Pessoa da divina Trindade. Colocando de forma mais simples: estamos falando de um templo antiquíssimo, originalmente dedicado ao Deus verdadeiro.

Foi a Ele que perdemos em primeiríssimo lugar, muito antes de perder um mero templo religioso, por mais significativo que seja o seu valor histórico, artístico e cultural. Sim, nós perdemos a Santa Sabedoria. E isso significa que deixamos de ser sábios, tornamo-nos (com o perdão da palavra) burros, de modo que a palavra da Escritura nunca pareceu tão apropriada quanto à nossa época: Stultorum infinitus est numerus, “O número dos estultos é infinito” (Ecl 1, 15).

Emburrecemos já faz um tempo, e poderíamos trazer muitos fatos para ilustrá-lo. (Os jornais e noticiários estão cheios deles.) Mas resumamos o desastre identificando a sua causa: segundo S. Tomás (cf. STh II-II 15, 3), a cegueira da mente está intimamente associada aos vícios carnais, que são a gula e, ainda mais, a luxúria. Ou seja, é por ter-se rendido desenfreadamente aos prazeres do sexo, chegando a fazer uma “revolução” em maio de 1968, que a humanidade experimenta hoje um anestesiamento geral das consciências. Hipnotizadas, as pessoas se tornaram incapazes de elevar-se acima do que podem ver, tocar, sentir. Em consequência, a sua capacidade de compreender a verdade ficou comprometida. Nunca antes as ideologias floresceram com tanta força e ganharam tanta adesão, graças também aos modernos meios de comunicação. Os homens deixam-se seduzir pela primeira filosofia barata que aparece, estão alienados em relação à completude da realidade que os rodeia.

A própria perda de Santa Sofia (agora, do templo) é interpretada por nossos “especialistas” em termos meramente materialistas: segundo um portal de notícias, “ao mudar o status de museu histórico, o presidente Erdogan distrai atenção de eleitores dos graves efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus”. É o velho vício marxista de sempre: seja qual for a notícia, nossos intelectuais só sabem interpretá-las sob a lente do dinheiro. Na cabeça da elite ateia que detém os meios de comunicação, nada mais há além de jogos políticos de interesses e poder. E é até compreensível que eles pensem assim, porque é mais ou menos isto mesmo: por não haver Deus (na cabeça deles, é claro), todos querem ser deuses. (Eles, inclusive, são os primeiros: basta pensar no sr. Xi Jinping, presidente da China, que tem obrigado famílias cristãs que recebem auxílio do governo a trocar, em suas casas, Jesus por uma imagem ou dele mesmo ou de Mao Tsé-Tung.)

Trata-se de uma deformação da realidade, sim, mas só o enxerga, só o pode enxergar, quem olha para o mundo com os olhos da fé. Mesmo a luz natural da razão, devido ao pecado original, só consegue iluminar um pouco o homem; se ele está dominado pelos vícios, então, sobra bem pouca esperança.

Por isso, a reconstrução da civilização, muito antes da retomada de uma igreja em particular, como Santa Sofia, é obra daqueles que já têm esta, viva e ardente, habitando em seus corações. São os cristãos, os discípulos da Sabedoria encarnada; sem eles, que são o sal da terra e a luz do mundo, não há esperança alguma neste vale de lágrimas.

É evidente que os cristãos não são, por si mesmos, a salvação, mas apenas na medida em que se configuram a Cristo salvador, que é a divina Sabedoria. Por isso, o que nos resta é:

1. Rezar. Por muitos séculos os cristãos cantaram, no hino Adoro te devote, composto por S. Tomás de Aquino, os seguintes versos:

O memoriále mortis Dómini,
Panis vivus, vitam praestans hómini,
Praesta meae menti de te vívere,
Et te illi semper dulce sápere.

“Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo, que dás vida ao homem,
Dá à minha alma de ti viver
E de ti ter sempre um doce saber.”

O verbo latino sapio, aqui no infinitivo, significa “saborear”, mas também é a palavra donde proveio a nossa “sabedoria”. Ou seja, aquilo que conhecemos através da fé, também precisamos saboreá-lo, e isso é feito através da oração contínua, frequente e perseverante. Precisamos rezar tanto quanto precisamos comer. Sem um trabalho de consideração, meditação, ruminação das verdades divinas, teremos sempre o horizonte limitado, estaremos sempre presos às nossas sensações, àquilo que esse mundo efêmero nos oferece… E, assim, passaremos também nós com as coisas do mundo.

2. Aceitar com alegria os sofrimentos que se nos apresentam. Que devamos conhecer e saborear o memorial da morte do Senhor, sabia-o também o Apóstolo São Paulo:

Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 1–2).

Esse último acréscimo do Apóstolo, aqui, não é ocioso: é preciso conhecer Cristo, mas Ele crucificado; isto é, o caminho para chegar a Ele nesta vida, o caminho para nos unirmos a Ele, é a cruz, o sofrimento, a provação. 

E não é que precisemos sair à procura de cruzes a carregar: as próprias circunstâncias da vida, cuidadosamente ordenadas por Deus, encarregam-se de nos trazer dificuldades muitas vezes suficientes. Talvez seja uma doença que descobrimos, que nos provoca dor, nos desconforta e debilita; talvez seja uma tragédia que se abateu sobre nossa família e que precisamos suportar com coragem; talvez seja a necessidade econômica, que nos priva do básico e quebra o orgulho. 

Colocando todas essas coisas na oração, como dissemos acima, vamos saber que Deus está por trás de tudo o que nos acontece; que, como diz o Beato Carlos da Áustria, “estamos nas mãos da divina Providência”e, portanto, “tudo o que nos acontece está bem”; que, de fato, “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28); que só o que nos resta é confiar e saborear o zelo de Deus para conosco, que nos permite o mal para crescermos no bem. Assim, também estaremos testemunhando aos mais próximos como Deus nos governa com santa sabedoria.

3. Ter filhos. Se há uma sabedoria que precisamos resgatar com urgência — e está nas nossas mãos fazê-lo —, é aquela que Deus escreveu no próprio ser do homem e da mulher. Quando eles se unem, naturalmente nascem filhos! Redescobrir essa verdade óbvia, tão óbvia quanto o fato de a grama ser verde, é não só o remédio para os vícios da carne, de que nossa época padece de modo especial, mas também a receita para fortalecer a sociedade e a Igreja. (Os muçulmanos já estão fazendo a sua parte nesse sentido; se seus numerosos filhos seguirem a religião paterna, os átrios de suas mesquitas dificilmente ficarão vazios.)

4. Ensinar a fé. É claro que não basta ter filhos; importa sobretudo educá-los, e fazê-lo bem. O Papa Pio XI, na Encíclica “Casti Connubii” (que completa seu 90.º aniversário em dezembro próximo), ensina que os pais devem ser fecundos não apenas para, segundo a ordem divina, propagar e conservar na terra a família humana, tampouco para “educar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus”, mas principalmente para “subministrar filhos à Igreja” e “propiciar concidadãos santos e familiares de Deus” (n. 14). Ou seja, uma vez instruídos pela divina Sabedoria, na vida de oração, na aceitação contínua e perseverante da vontade de Deus em nossas vidas, é preciso que passemos adiante o que recebemos.

Se fizermos esse quádruplo “dever de casa”, retomando em nossas próprias vidas a Santa Sabedoria que perdemos por nosso egoísmo e incredulidade, quem sabe em alguns anos não possamos retomar, também, o templo que há tanto tempo nos foi tirado pelos muçulmanos. Sem o primeiro passo, no entanto, qualquer conjectura de “reconquista” não passará de inútil esforço humano. 

A frase parecerá clichê, mas é verdadeira: a Santa Sabedoria que por tanto tempo habitou o templo de Constantinopla precisa voltar a habitar, primeiro, em nossos corações e nos de nossas famílias. Só poderemos pensar em retomar as igrejas que a Igreja tem perdido, não só na Turquia, mas na Europa inteira, no dia em que nos convencermos de que há um Deus verdadeiro pelo qual vale a pena dar não só uma hora dos nossos domingos, um bocado de dízimo ou uma novena em tempos de crise… Por Ele vale a pena gastar a nossa vida inteira, transformar os nossos maus hábitos, desfazer-nos de nossos apegos infantis e enfrentar com coragem a aventura desta breve vida.

Hoje, se os cristãos retomassem Santa Sofia, a única coisa que eles conseguiriam fazer seria transformá-la no que ela vinha sendo desde 1930: um museu, um “patrimônio histórico”. E nada mais. E também isso é de se lamentar. Não tanto quanto nos lamentamos, agora, pela islamização de Santa Sofia, é claro. Mas se o máximo que o Ocidente pode oferecer ao Deus verdadeiro é um museu; ou melhor, se o ente máximo de que devemos esperar algum reconhecimento é a UNESCO (que considerou Santa Sofia um “patrimônio histórico” da humanidade); se a máxima expressão da religiosidade moderna é um templo cristão dessacralizado, é porque já há muito perdemos a de nossos pais, que construíram a Basílica de Santa Sofia. 

E, sem a fé deles, de nada adianta ter igreja alguma. Só nos restarão ruínas e devastação.

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