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O Anticristo e seus disfarces
Espiritualidade

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo e seus disfarces

O Anticristo não se dará a conhecer como tal. Do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Como, então, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história?

Fulton J. SheenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2017
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Durante a última semana do ano eclesiástico, a Liturgia da Igreja dirige o nosso olhar para o juízo final e os sinais que o acompanharão. No Fim dos Tempos, ensina o Catecismo da Igreja Católica, o Anticristo logrará enganar a muitos, instaurando uma falsa religião em que o homem, fazendo-se Deus, pensará ter encontrado a solução para todos os males desta vida, embora à custa da verdade salvífica do Deus que se fez homem.

Nesta nova matéria, o Venerável Fulton Sheen descreve-nos, com visão quase profética e muitíssimo atual, como será essa derradeira e não tão distante impostura religiosa.

O texto que tornamos disponível abaixo é uma versão reduzida e adaptada de um sermão pregado por Fulton Sheen, via rádio, em 1947. O texto completo desta pregação se encontra logo a seguir, no decorrer da matéria.


O novo momento histórico em que estamos entrando poder-se-ia chamar o período religioso da história humana. Por “religioso”, contudo, não queremos dizer que os homens se voltarão para Deus, senão que, pelo contrário, a indiferença ao absoluto, traço distintivo do período liberal da civilização, dará lugar a uma busca apaixonada por outro absoluto. De agora em diante, lutar-se-á não mais por colônias e direitos nacionais, mas por almas. Não haverá espadas meio embainhadas, lealdades pela metade nem vagas reivindicações de uma ingênua tolerância. Não haverá sequer grandes heresias, já que elas pressupõem alguma aceitação, ainda que parcial, da verdade.

As frentes de batalha já têm sido claramente demarcadas e não há mais dúvida sobre o que está em jogo. De agora em diante, os homens estarão divididos em duas religiões, entendidas aqui como sujeição a um absoluto. O conflito do futuro será travado, pois, entre o Absoluto que é o Deus-homem, de um lado, e o absoluto em que se converteu o homem-deus, de outro; entre o Deus que se fez homem e o homem que se proclamou deus; entre os que são irmãos em Cristo e os que conluiam com o Anticristo.

O Anticristo, porém, não se dará a conhecer como tal; do contrário, poucos haveriam de segui-lo. Ele não trajará vermelho, não terá cheiro de enxofre nem um tridente ou uma cauda pontiaguda como o Mefistófeles de Fausto. Essa caricatura serviu-lhe para convencer a muitos de que ele não existe, pois o diabo sabe que tanto maior será o seu poder quanto menos acreditarmos em sua existência. É precisamente quando o ignoramos que maior é o poder que ele exerce sobre nós. Deus, com efeito, definiu-se como “Eu sou aquele que sou” (Ex 3, 14); o diabo, ao contrário, como “eu sou aquele que não sou”.

Em nenhuma passagem das Sagradas Escrituras se encontra qualquer referência à imagem popular do demônio como um bufão vestido de vermelho. A Bíblia o descreve como um anjo decaído, como o “príncipe deste mundo” (cf., por exemplo, Jo 12, 31; 16, 11), cuja principal ocupação é tentar persuadir-nos de que não há outro mundo além deste. Sua lógica é simples: se não existe nenhum céu, tampouco existe um inferno; ora, se não há inferno, então não existe pecado; mas se o pecado não existe, tampouco haverá um juiz; portanto, se não há julgamento, o que é bom é mau e o que é mau é bom.

Mas, além disso tudo, Nosso Senhor adverte que o Anticristo será tão parecido com Ele que até os eleitos se enganarão a seu respeito (cf. Mt 13, 22) — e é claro que nenhum desses diabos de gibi seria capaz de ludibriar um eleito.

Mas como, afinal de contas, ele arrebanhará seguidores nesta nova época da história? Ele virá travestido de grande humanitário, portador de paz, prosperidade e abundância, não como meios de nos conduzir a Deus, mas como fins em si mesmos. De sua pena sairão livros sobre um novo conceito de Deus, escritos com o fim de mudar nossa maneira de viver, de estimular a fé na astrologia, a fim de que o responsável pelo pecado sejam, não as nossas decisões livres, mas as estrelas.

Ele explicará a culpa com jargões psicológicos, como um “erotismo” inibido, de sorte que os homens se envergonharão de não ser liberais e “mente aberta” aos olhos dos colegas. De fato, ele será tão “mente aberta” a ponto de identificar tolerância com indiferença ao que é certo e errado, verdadeiro e falso.

Ele espalhará a mentira de que os homens não podem ser felizes enquanto não melhorarem a sociedade e, assim, abastecerem o egoísmo, que é o combustível das futuras revoluções.

Ele fomentará a ciência, mas com o único propósito de fazer com que os fabricantes de armas usem as maravilhas da ciência como instrumento de destruição; ele estimulará os divórcios com a alegação de que é impossível viver para sempre com o mesmo “parceiro”; ele alimentará o amor a si mesmo e matará por inanição o amor ao próximo; ele usará a religião para destruí-la; ele chegará inclusive a falar de Cristo como de um dos “maiores homens da história”; ele dirá que sua missão não é mais do que libertar os homens das superstições e do “fascismo”, termo aliás que ele deixará sempre por definir; ele será simpático às crianças, mas dirá às pessoas com quem devem casar-se ou não, quem pode ser pai e quem não pode.

A tentação de Cristo pelo demônio, por Félix-Joseph Barrias.

Ele tentará os fiéis com os mesmos ardis com que tentara a Cristo. A tentação de converter em pão um punhado de pedras será agora a tentação de trocar a liberdade pela segurança, na medida em que o pão se torna uma arma política e só os que lhe seguem a cartilha terão direito a comer. A tentação de atirar-se imprudentemente da torre do Templo à espera de um milagre será agora um apelo para abandonar os nobres pináculos da verdade em que reinam a razão e a fé e atirar-se às profundezas em que vivem as massas, alimentadas com slogans e chavões publicitários. O Anticristo não quer que a hierarquia da Igreja proclame princípios imutáveis, mas que organizações de massa, sob a direção de um sujeito qualquer, se sirvam de métodos de propaganda para orientar o gosto e a preferência das sociedades: ele quer opiniões, não verdades; palpiteiros, não professores; pesquisas de opinião, não princípios; natureza, não graça — e será para agrilhoar-se com estas mentiras que os homens sacudirão o jugo de Cristo.

A terceira tentação, com a qual Satanás prometeu a Cristo todos os reinos da terra, caso Ele, prostrado em terra, o adorasse, converter-se-á na tentação de criar uma nova religião sem cruz, sem liturgia, sem vida futura; uma cidade do homem sem uma cidade de Deus; uma política, enfim, de caráter religioso — ou seja, uma religião que nos exija dar a César até mesmo o que é de Deus.

No coração de todo esse aparente amor pela humanidade, floreado com envolventes discursos sobre liberdade e igualdade, o Anticristo guardará um segredo, desconhecido de todos: ele não acreditará em Deus, pois a religião por ele professada não será, no fundo, mais do que uma fraternidade entre os homens sem a paternidade de Deus. Assim ele há de enganar inclusive os eleitos.

Ele fundará uma contra-Igreja, que será uma contrafação ridícula da Igreja de Cristo, porque ele, o diabo, é o macaco de Deus. A igreja do diabo, com efeito, apresentará as notas e características da Igreja, mas todas às avessas, esvaziadas de seu conteúdo divino. Ela será o “corpo místico” do Anticristo, que aparentará, externamente, ser o Corpo Místico de Nosso Senhor. O homem moderno, em sua desesperada busca por um Deus a que ele, contudo, se recusa adorar, procurará afoitamente, frustrado e solitário, pertencer a alguma “comunidade”, que lhe dê um sentido e lhe expanda os horizontes, ainda que à custa de diluir-se numa vaga coletividade. Nesse momento, serão paradoxalmente os mesmos motivos por que o homem moderno deu as costas à Igreja que o levarão a aceitar a contra-Igreja do diabo.

Com efeito, o século passado rejeitou a Igreja por ela ser infalível; negou-se a acreditar que um suposto Vigário de Cristo pudesse ser imune ao erro ao pronunciar-se sobre temas de fé e moral na qualidade de Pastor de toda a cristandade. O século XX, no entanto, alistar-se-á nas fileiras da contra-Igreja justamente por ser ela infalível: a sua “cabeça visível”, sediada agora em Moscou, pronuncia-se ex cathedra em matérias de economia e política, enquanto “Pastor” do comunismo mundial.

Ao longo dos últimos séculos, a Igreja foi duramente criticada por proclamar-se católica e universal, unindo a todos os homens sob um só Senhor, em uma só fé e por meio de um só Batismo. Mas ninguém — dirá o século XIX — pode considerar-se um bom cidadão, seja americano, francês ou alemão, se consente em ser pastoreado, ainda que misticamente, por uma autoridade espiritual. Contudo, será precisamente a “catolicidade” e a “universalidade” da contra-Igreja o que mais irá atrair o pobre espírito moderno: ela porá abaixo todas as fronteiras nacionais; desdenhará dos sentimentos patrióticos, libertando-nos dos deveres de piedade para com o próprio país; fará os homens sentirem orgulho, não de serem americanos, franceses ou alemães, mas de pertencerem a uma classe revolucionária sob a batuta de seu “vigário”, cujas ordens vêm, não mais do Vaticano, mas do Kremlin.

O século XIX rejeitou a Igreja sob o pretexto de que ela era “intolerante”, sempre pronta para excomungar o primeiro herege que rejeitasse as tradições apostólicas, sempre insistindo em que Cristo fundou uma só Igreja, sempre ensinando que a Verdade é una e que os dogmas, ou se aceitam de todo, ou se rejeitam por inteiro. Mas nesta hora diabólica em que vivemos, os filhos e netos dos que assim se opunham à Igreja aderem à sua contrafação justamente por ela eliminar os seus hereges, exterminar os seus trotskistas, excomungar os que não aceitam a doutrina de que talvez não haja um só rebanho e um só pastor, mas, sim, um só formigueiro e um único tamanduá.

O mundo liberal rejeitou a Igreja porque ela era muito “dogmática” e “intransigente”, com suas definições precisas de “união hipostática” e “Imaculada Conceição”; era muito “hierárquica”, com seus Bispos, os sucessores dos Apóstolos, alegando ser os guardiões da fé e dos costumes dos povos. Mas, curiosamente, milhões de pessoas têm-se filiado à contra-Igreja por essas mesmíssimas razões: amam a infalibilidade com que ela define os dogmas do materialismo dialético, do determinismo econômico, da mais-valia; amam sua hierarquia e veneram os líderes do partido como se foram Bispos, sucessores dos “apóstolos” — Marx e Lênin —, cuja missão é preservar o depósito da fé do partido até a consumação dos séculos.

Ora, uma vez que os sinais dos nossos tempos parecem apontar para uma luta entre dois absolutos, há duas razões para crer que o futuro será um tempo de grandes provações.

Em primeiro lugar, para pôr fim à dissolução a que estamos assistindo. Se não houvesse catástrofes, a impiedade alastrar-se-ia sem freios. De fato, o que a morte é para um pecador, uma catástrofe o é para uma civilização má e corrupta. Por que Deus poria à porta do paraíso terrestre um anjo cingido de uma espada flamejante senão para impedir que nossos primeiros pais, depois da Queda, tornassem a entrar no Éden para comer da árvore da vida e, assim, imortalizassem a própria iniquidade? Deus não há de permitir que a injustiça se arraste pela eternidade afora. Revoluções, desintegração, caos, tudo isso é um aviso de que estamos errados, de que os nossos sonhos têm sido vãos e perversos.

A vingança da verdade moral é a ruína dos que a repudiam. O caos em que se revolve o tempo presente é, pois, o argumento negativo mais contundente a favor do cristianismo. As catástrofes testemunham o poder de Deus em um mundo sem sentido, já que por meio delas o Senhor reduz a nada uma existência sem sentido. A destruição que se segue à apostasia torna-se, deste modo, o triunfo do sentido, uma reafirmação de que há, sim, um propósito.

Adversidade: eis aí a palavra que melhor exprime a condenação divina do mal, o selo do julgamento divino. Assim como o inferno não é um pecado, mas sua consequência, assim também os tempos de tribulação não são um pecado, mas o salário do pecado (cf. Rm 6, 32). Sob o véu das catástrofes descobre-se que o mal, em realidade, é auto-destrutivo: é impossível que nos afastemos de Deus sem nos fazermos a nós mesmos uma grande violência.

A segunda razão por que as crises são necessárias é para evitar que a Igreja e o mundo se identifiquem. Nosso Senhor quis que os seus seguidores fossem diferentes em espírito daqueles que não O seguem: “Não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 19). Embora seja essa a vontade divina, é verdade, infelizmente, que a linha divisória entre os que seguem ou não a Cristo é com frequência pouco nítida. Em vez do preto e do branco, o que vemos é um borrão cinzento. Mediocridade e transigência são, pois, as notas características de muitos cristãos modernos: como os pagãos com quem vivem, eles se entregam aos mesmos divertimentos; educam os filhos no mesmo espírito mundano e ateu; assistem aos mesmos programas; abrem as portas de casa para certos costumes pagãos, como o divórcio, segundas uniões; permitem, enfim, que o comunismo destile seu veneno na política e no cinema.

Já não há mais o conflito, a oposição que, ao menos em tese, nos deveria caracterizar. O mundo nos influencia mais do que nós o influenciamos. Não há mais a fuga sæculi, a fuga do mundo. De modo que São Paulo pode dizer-nos sem injúria o que outrora dissera aos fiéis de Corinto: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial?” (2Cor 6, 14s).

O que São Paulo diz aqui, noutras palavras, é que os que foram encarregados de construir um centro de saúde adoeceram e, portanto, já não têm mais como curar ninguém. Ora, uma vez que a fusão entre o espírito cristão e o espírito pagão é um fato consumado — como ouro misturado com metais menos nobres —, não há meio de purificar a mistura a não ser lançando-a na fornalha e separando os elementos amalgamados. Eis o que farão as provações. É preciso, portanto, que o mal se instale para rejeitar-nos, desprezar-nos, odiar-nos, perseguir-nos, para que assim possamos, afinal, decidir de que lado estaremos, a quem seremos leais e fiéis. Como poderíamos distinguir as árvores rijas e firmes das débeis e fracas sem que o vento soprasse? Diminuiremos, sim, em número; mas aumentaremos em qualidade. Cumprir-se-á então o que dissera Nosso Senhor: “Quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 20, 30).

Mas, embora nos refiramos aqui ao advento do Anticristo e a sua oposição a Nosso Senhor, não é pela Igreja que tememos; é pelo mundo. Não é a infalibilidade que nos preocupa, mas o abismo do erro em que se lança o mundo. Não tememos que Deus um dia venha a ser destronado, mas que a barbárie volte a governar o mundo. Não é a transubstanciação que desaparecerá, mas talvez os lares; os Sacramentos não deixarão de existir, mas talvez a lei moral. A Igreja não pode ter outras palavras para a mulher que se lamenta e bate no peito além daquela de Nosso Senhor em direção ao Calvário: “Não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos” (Lc 23, 28).

Em seus dezenove séculos de existência, a Igreja sobreviveu a outras grandes crises, e ela continuará a lamentar os males dos tempos atuais. A Igreja tem as suas Sextas-Feiras Santas, as quais porém não são mais do que um prelúdio de seus Domingos de Páscoa, pois permanecem de pé as promessas divinas: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18); “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20); “Todo o que cair sobre esta pedra ficará despedaçado” (Lc 20, 18).

Nunca antes na história houve tão forte argumento a favor do cristianismo: os homens têm-se dado conta de que suas misérias e angústias, suas guerras e revoluções, aumentam quanto mais negam a Cristo. Porque o mal se destrói a si mesmo; só o bem é capaz de perdurar.

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Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo
Espiritualidade

Quem não se recolhe,
não escuta o Espírito Santo

Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo

“Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a doce voz do Espírito Santo “e as insinuações do seu amor”.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Junho de 2019
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“O homem espiritual não se move principalmente a realizar alguma coisa pelo movimento de sua própria vontade, senão pelo instinto do Espírito Santo.”

(Pe. Antonio Royo Marín)

Depois de termos falado da “vida na carne” em seu sentido mais literal, por assim dizer, ou seja, de quem vive na lama do pecado mortal e vai se arrastando miseravelmente, dia após dia, até a condenação eterna, é chegado o momento de falarmos sobre a “vida na carne” que levam inclusive os que se encontram em estado de graça. A ideia aqui é darmos um passo a mais, deixando de lado o fosso e olhando para as pessoas que já entraram no “castelo interior” de suas almas.

Sim, porque ainda que o pecado grave continue sendo “uma tragédia possível para todos”, “para as almas fervorosas ou desejosas de sê-lo, o problema constante não é a luta contra o pecado, mas o esforço positivo pela perfeição” [1].

Ou seja, os cristãos precisamos tomar consciência de que não basta observar os Mandamentos: o jovem rico, depois de dizer ao Senhor que não matava, não cometia adultério, não furtava, não mentia etc., teve ainda de ouvir do Mestre: “Uma coisa te falta” (Mc 10, 21). Jesus fixou nele o olhar e amou a sua vida, mas não é suficiente deixar, ainda que sob o impulso do Espírito Santo, de fazer as coisas erradas; é preciso invocar o auxílio do mesmo Espírito também para fazer as coisas certas, e fazê-las bem.

Afastemos aqui, desde já, um grande erro: o de acharmos que a intervenção divina na história cessou com a vinda de Cristo, ou que se limita à vida de alguns poucos escolhidos, a uma “casta” separada para chegar à sétima morada, e pronto. A muitos parecerá “presunção”, de fato, esse clamor pelo Espírito, para que nos oriente e ilumine os caminhos que devemos seguir, mas o pe. Antonio Royo Marín garante que, considerando que a terceira Pessoa da Santíssima Trindade habita na alma do justo,

se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida [2].

Essa doutrina é confirmada por ninguém menos que Santo Tomás de Aquino, o qual explica que os filhos de Deus, que se deixam mover pelo Espírito Santo, “são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” [3].

Ainda que seja um exemplo tomado das alturas, olhemos para como São José, pensando em abandonar em segredo a Santíssima Virgem, foi visitado pelo Anjo e decidiu desposá-la. Sua primeira ideia não era pecaminosa; era a postura correta e que se esperava de um “homem justo”. A santidade, no entanto, pede que sejamos não apenas justos, no sentido mais comezinho da palavra, mas que ajamos sobrenaturalmente. Foi o que fez São José, preterindo sua primeira resolução e dispondo-se a seguir o conselho do Anjo. Não o tivesse feito, em que apuros não teriam ficado Maria e seu divino Filho? E a obra de nossa salvação, que riscos não teria corrido?

Também a nós é pedido que sigamos, no caminho da perfeição, algo mais do que a justiça simplesmente humana, sob pena de levarmos uma vida “na carne”, e não no Espírito: “A maior parte das pessoas religiosas, mesmo as boas e virtuosas, não seguem em sua conduta particular e na dos outros senão a razão e o bom senso, no qual muitos deles se sobressaem. Essa regra é boa, mas não é suficiente para a perfeição cristã” [4].

É por isso que, só para citar o exemplo de algo que faziam todos os santos, o Beato Carlos da Áustria, “antes de qualquer escolha importante, [...] retirava-se para a capela, sozinho, para poder ponderar a sua decisão diante do Santíssimo e ‘rezar a seu respeito’, como costumava dizer” [5]. Era um homem que tinha fé menos em cálculos humanos que no Espírito, o qual não só “nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer”, como dá todas as forças necessárias para que ponhamos mãos à obra.

A essas iluminações e forças que a terceira Pessoa da Trindade transmite a nossas almas a teologia mística dá o nome de graças atuais, e é da fidelidade a elas que depende o grande negócio da nossa salvação eterna. O Santo Cura d’Ars dizia que, “se se perguntasse aos condenados: por que estais no inferno?, eles responderiam: por ter resistido ao Espírito Santo; e se se perguntasse aos santos: por que estais no céu?, estes responderiam: por haver escutado o Espírito Santo” [6].

Mas — batamos uma vez mais nessa tecla, porque há muitos falando do Espírito, mas poucos vivendo nEle — quem poderá escutar a voz de Deus sem oração, sem “retiro” e sem recolhimento? Quem poderá sentir-lhe as inspirações estando no barulho de uma rave? Como poderá ser guiado pelo Espírito Santo quem o que faz é deixar-se conduzir, a todo momento, pelas solicitações do mundo? Como ouvirá a voz do doce Hóspede da alma quem o que faz é atender aos impulsos da própria carne? Como perceberá o toque suave da graça quem não é capaz de desligar, por alguns minutos que seja, as notificações do seu smartphone, as séries da sua Netflix ou as músicas de seu serviço de streaming?

Se deixássemos de lado todas as coisas da terra” — atentemo-nos de novo ao que diz o Pe. Royo Marín — “e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a voz de Deus “e as insinuações do seu amor”. Se não o ouvimos, portanto, nostra culpa, nostra maxima culpa: falta-nos “uma vida cristã seriamente vivida”; falta-nos deixarmos de lado as coisas da terra. Exemplo sumamente perfeito desse recolhimento tão necessário foi o de Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado: antes de seu ministério público,

quarenta dias de deserto precedidos de trinta anos de silêncio. A este preço se salva o mundo. Recolher-se, e somente depois de recolher-se, dar-se. A “solidão” é quem nos julga. Não sejamos jamais “o vagabundo que nunca está em casa”. E recordemos sempre que “mede-se o valor de uma pessoa pela capacidade de isolamento que nela existe” [7].

Convençamo-nos de uma vez que não há outra forma de nos tornarmos cristãos de verdade senão silenciando e rezando; senão se recolhendo e, depois, entregando-se; senão correspondendo, em tudo o que fizermos — e não apenas em uma área específica da nossa vida, e não apenas indo à Missa aos domingos, e não apenas realizando este ou aquele ato de piedade —, às graças atuais com que Deus quer nos fazer santos, e grandes santos.

Se nos parece demasiado alta a meta, não nos deixemos desanimar! Exorcizemos de nossos corações a tristeza com que o jovem rico deixou a famosa cena evangélica; inflamemo-los diante do nobre ideal que Deus nos coloca diante dos olhos; combatamos com todas as forças esse espírito de tibieza, essa pusilanimidade, esse “ânimo pequeno” e falta de “ambição” espiritual, que pouco a pouco vai debilitando e paralisando, até a inércia — isso quando não faz voltar à vida velha nos pecados mortais... pois é certo que, na vida espiritual, quem não avança inevitavelmente recua.

Referências

  1. Pe. Raul Plus, La fidelidad a la gracia, trad. esp. de A. de Miguel Miguel, [s.l.: s.n.], 1951, p. 59.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana (n. 638), 14.ª ed., Madri: BAC, 2015, p. 781.
  3. Santo Tomás de Aquino, Super Epistulam ad Romanos, c. VIII, l. 3.
  4. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit. (n. 637), p. 780.
  5. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, p. 41.
  6. Apud Pe. Raul Plus, op. cit., p. 6.
  7. Id., p. 36.

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São José, o maior de todos os santos
Santos & Mártires

São José, o maior de todos os santos

São José, o maior de todos os santos

“Constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem”, São José “transcende em dignidade todos os outros santos”, pois “foi estabelecido em uma ordem superior a todas as outras na Igreja”.

Edward Healy ThompsonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Junho de 2019
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Tudo o que Deus ordena está disposto em maravilhosa e perfeita ordem. Por isso, a Igreja que Jesus veio fundar na terra imita a Sião celestial. Como no céu existem hierarquias angélicas, e nessas hierarquias há ordens diferentes, assim também na terra existe uma hierarquia de graça, e nessa hierarquia estão incluídas várias ordens ou ministérios que, de acordo com o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, destacam-se em proporção à sua proximidade a Deus (cf. STh I, q. 107, a. 6).

A mais alta de todas essas ordens, sejam elas angélicas ou humanas, é a ordem da união hipostática, à qual pertence Jesus Cristo, Deus e homem. Por união hipostática entende-se que o Filho eterno de Deus, em sua Encarnação, assumiu a natureza humana e uniu-se a ela em unidade de pessoa. Em outras palavras, a única Pessoa divina de Jesus Cristo subsiste  em duas naturezas, divina e humana, distintas em si mesmas, mas agora inseparáveis e para sempre unidas.

Se é maravilhosa a ordem que se vê em todas as obras da natureza, é sumamente perfeita a que existe em todas as obras da graça, especialmente por sua relação com a Encarnação do Verbo. Entre essas ordens da graça, algumas precedem no tempo o mistério da Encarnação, enquanto outras o seguem.

  • Entre as que o precedem, a mais remota é a dos Patriarcas, escolhidos como progenitores de Jesus, até São Joaquim e Sant’Ana. A alguns deles, como Abraão e Davi, foi expressamente revelado que de seu sangue e família o Salvador dos homens havia de vir ao mundo.
  • A ordem seguinte é a levítica e sacerdotal, que foi predestinada por Deus como prefiguração, em todos os seus ritos, do sacerdócio de Jesus, de sua Igreja e sacramentos, do sangrento Sacrifício da cruz e do sublime Sacrifício do Altar.
  • A terceira é a dos profetas, destinados a predizer e anunciar ao mundo, tantos séculos antes da vinda de Jesus, seu nascimento de uma Virgem, seu país, o lugar de sua Natividade, sua fuga para o Egito, seus Apóstolos, sua pregação e milagres, sua Paixão, Morte e Ressurreição e sua Ascensão gloriosa ao céu. O maior de todos esses profetas foi João Batista (cf. Lc 7, 28), predestinado a ser o Precursor imediato de Cristo, a fim de apontar que Ele estava realmente presente na terra; donde o próprio Jesus ter afirmado que entre os nascidos de mulher não havia nenhum profeta maior do que João Batista.

São essas as ordens que sob a Antiga Lei precederam Nosso Senhor.

Outras ordens o sucederam, e estas são as várias ordens ou ministérios que, na Santa Igreja, formam a hierarquia eclesiástica, começando pelos Apóstolos.

São José, Patrono da Igreja, em um altar lateral da Basílica do Sagrado Coração, em Roma.

Os Apóstolos deviam dar à terra inteira e todas as idades o seu solene testemunho da divindade de Jesus Cristo. Eles deviam anunciar toda a sua doutrina, sua Lei, seus sacramentos; deviam difundir a sua Igreja por todo o mundo, para que todos possam alcançar a salvação eterna. E como a ordem apostólica era a mais próxima do que qualquer outra a Jesus, por isso mesmo, diz o Angélico Doutor, os Apóstolos receberam mais graça do que qualquer santo nas demais ordens da Igreja (cf. In Epistolam ad Ephes. I, 8). Das ordens inferiores não precisamos falar aqui.

Acima de todas estas se ergue supremamente a ordem da união hipostática. Todas as outras ordens, incluindo as angélicas, estão subordinadas e sujeitas a ela. Por esse motivo, Jesus é o princípio, o autor e a cabeça desta ordem, e de Jesus, como príncipe soberano, depende toda hierarquia, todo principado sagrado no céu e na terra, visto que Ele, como diz o Apóstolo, é o fim de toda a Lei (cf. Rm 10, 4). Jesus é a pedra angular sobre a qual repousa todo o edifício sagrado da Igreja (cf. Ef 2, 20). Jesus, de acordo com o profeta Isaías (11, 10.12), é o estandarte para o povo, é o desejo de todas as nações, é o centro da esperança universal. É Ele a única e verdadeira fonte de salvação para todos os homens.

Pela fé naquele que viria, foram salvos todos os que viveram desde Adão até a Natividade de Cristo; e todos os que viveram e viverão em justiça, desde a sua vinda, foram e serão salvos por Ele. Somente nele, a partir dele, e somente através dele, está a verdade, a salvação e a vida, de modo que, assim como os planetas no firmamento giram ao redor do Sol, recebendo dele luz, calor e poder, assim também ao redor de Jesus, Sol eterno de justiça, todas as várias ordens da graça circulam, dele mesmo recebendo a sua luz, a sua virtude e o seu poder, para cumprir fielmente os santos ofícios para os quais foram ordenados. E tanto o mais como o menos agraciado dele recebem graça, segundo a medida em que estão mais ou menos próximos de Jesus, Autor da graça, segundo seus ministérios próprios, assim como o que está mais perto do fogo participa mais amplamente do seu calor. É evidente, portanto, que a ordem da união hipostática transcende e ultrapassa as outras ordens subordinadas, da mesma forma como o Sol transcende as estrelas inferiores.

Pois bem, São José, por divina predestinação, foi colocado nesta ordem soberana. Apenas três tiveram essa honra, e foram justamente Jesus, Maria e José. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Maria é verdadeira Mãe de Deus e Mãe dos homens; José, por sua vez, é o verdadeiro esposo de Maria e pai adotivo e virginal de Nosso Senhor. Jesus é o centro da Encarnação e o Redentor do mundo; Maria é a imediata cooperadora e aquela em cujo seio se deu a Encarnação; José, enfim, é o fiel depositário dessas duas dádivas preciosas, a fim de garantir que este sublime mistério da Encarnação e da Redenção fosse realizado da melhor forma possível, preservando intacta a honra da Mãe e do Filho.

Que São José deveria estar compreendido nesta ordem suprema não é uma mera opinião devota ou fruto de piedosa meditação. É, antes, uma conclusão segura da mais sensata teologia. Suárez, o eminente teólogo, depois de ter falado da ordem dos Apóstolos, à qual disse terem sido concedidas as maiores graças, prossegue afirmando:

Há outros ministérios relativos à ordem da união hipostática, que em sua espécie é a mais perfeita, como afirmamos a respeito da dignidade da Mãe de Deus, e nesta ordem está constituído o ministério de São José; e, embora esteja no grau mais baixo dela, no entanto, supera todas as outras, porque subsiste em uma ordem em si mesma superior.

Assim falou Suárez, mais de quatrocentos anos atrás, quando a opinião dos fiéis a respeito de São José e da devoção a ele devida não tinha ainda sido tão aberta e geralmente proclamada.

Mas os Doutores que se lhe seguiram falaram com ainda maior clareza. Giovanni di Cartagena, contemporâneo de Belarmino e Barônio, muito querido do Papa São Pio V por sua piedade e ciência, das numerosas homilias que redigiu, treze quis dedicar aos louvores de São José. Após falar da ordem apostólica, ele passa a tratar da ordem da união hipostática e diz que, em sua espécie, é ela a mais perfeita que as anteriores, e que nessa ordem o primeiro lugar é ocupado pela humanidade de Cristo, que está substancialmente unida à Pessoa do Verbo; o segundo lugar é ocupado pela Santíssima Virgem, que concebeu e trouxe em seu ventre a Palavra encarnada; o terceiro lugar, enfim, é ocupado por São José, a quem foi confiado por Deus o cuidado especial, nunca dado a ninguém mais, de alimentar, educar e proteger o Deus feito homem. Depois de Cartagena vem Giuseppe Antonio Patrignani, muito elogiado por Bento XIV, que, três séculos atrás, assim escreveu de São José: “Ele, constituído chefe da Sagrada Família, posto imediatamente a serviço do Deus-Homem, transcende em dignidade todos os outros santos. Ele, por conseguinte, foi estabelecido em uma ordem que é superior a todas as outras ordens na Igreja” (Il Divoto di S. Giuseppe, Novena, Gior. VI).

Poderíamos aduzir outros Doutores de elevada autoridade, mas continuaremos a considerar algumas das consequências legítimas que fluem dessa doutrina:

1. É uma grande honra para São José ser compreendido na mesma ordem em que está Jesus, o próprio Filho de Deus, o Rei dos reis, e Maria, Mãe de Deus e Rainha do universo, para se unir a eles nas mais íntimas relações e desfrutar da sua maior confiança.

Os nobres da terra consideram-se altamente honrados por poderem desfrutar de íntima relação com monarcas conhecidos, ocupando os lugares mais importantes em seus tribunais e sendo os mais confiáveis em seus conselhos. O que diremos, então, do glorioso São José, que, colocado na ordem da união hipostática, foi destinado por Deus não apenas para ser o primeiro em sua corte e o mais próximo em sua confiança, mas ainda para ser honrado como pai do Rei dos reis, e para ser não só o amigo confidencial, mas o cônjuge exaltado da Imperatriz do universo? Ao lado da maternidade divina, nenhuma honra no mundo é comparável a isso.

2. Ser compreendido na ordem da união hipostática implica ser, depois de Jesus e Maria, superior a todos os outros santos, tanto do Antigo como do Novo Testamento. E a razão disto é clara: como esta ordem é superior a todas as outras ordens na Igreja, segue-se que quem quer que tenha nela um lugar, ainda que seja em seu mais baixo grau, como José, é anterior a todos os que estão no grau mais elevado das ordens inferiores, como a dos Apóstolos, que é a mais eminente entre elas.

3. Daí se segue que São José é superior, não em natureza, mas em dignidade, aos próprios anjos, já que as ordens angélicas estão subordinadas à ordem da união hipostática, por estarem sujeitas a Jesus, seu Rei e Cabeça, e a Maria Santíssima, sua Rainha. Logo, como declara o Apóstolo, quando o Pai eterno enviou seu Filho divino à terra, Ele ordenou que todos os anjos o adorassem (cf. Hb 1, 6). E por causa de Jesus, os anjos se tornaram sujeitos também a Maria e a São José. Não é acaso assim que os vemos na Escritura, a servi-lo, avisá-lo, consolá-lo de bom grado: uma vez, para assegurá-lo de que sua esposa concebera o Filho de Deus; outra, para o fazer conhecer a trama de Herodes; depois, para que ele pusesse a Virgem e seu divino Filho em segurança, fugindo para o Egito; e, enfim, para lhe anunciar que era já seguro retornar à terra de Israel (cf. Mt 1, 20-21; 2, 13.19-20)?

4. Podemos concluir ainda que José foi compreendido nesta ordem porque era, verdadeiramente, o chefe e guardião da Sagrada Família. Maria e José, exaltados segundo a sua dignidade, eram no entanto apenas criaturas; mas Jesus quis dar exemplo da mais perfeita humildade. Foi vontade sua engrandecer o nosso santo e conceder-lhe esta alta glória, fazendo dele cabeça e guardião de sua Família, de modo que José tivesse verdadeiro domínio e autoridade sobre o próprio Filho de Deus e sobre a Mãe do Filho encarnado. São José, estando assim destinado a ser defensor e guardião de Jesus, cabeça e defensor de Maria, tornou-se ao mesmo tempo Patrono e guardião de toda a Santa Igreja, que é a esposa de Cristo e, de certo modo, filha de Maria Santíssima. Daí que o Papa Pio IX, de feliz memória, ao proclamar São José Patrono da Igreja, não só lhe conferiu um novo título de honra como, ademais, confirmou e declarou esta sua prerrogativa, que não tinha antes sido tão expressamente promulgada pela Igreja.

5. Segue-se, além disso, que José foi posto nessa ordem e Família em função da mais elevada missão que é possível conceber, na medida em que ele foi constituído representante do Pai divino, a quem cabe o direito de chamar a Jesus seu Filho natural, por gerá-lo desde toda a eternidade. E esse mesmo Deus, que pela boca do profeta Isaías (42, 8) protestou que nunca daria sua glória a outrem; esse Deus, que ao comunicar ao Verbo e ao Espírito Santo sua única e indivisa essência divina, não lhes transmite contudo sua divina paternidade, foi, não obstante, tão generoso para com São José, que lhe quis conceder sua glória e comunicar-lhe seu nome e paternidade: não em sentido próprio, pois isso seria impossível, mas de modo que ele pudesse estar em seu lugar e ser chamado pai do Verbo Divino, e que o próprio Verbo o pudesse chamar com este dulcíssimo nome, para que, assim, a São José se pudesse apropriar felizmente aquela passagem na Sagrada Escritura: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (Hb 1, 5).

Aqui vemos, pois, manifestar-se o grande amor que as três Pessoas da Santíssima Trindade têm para com São José e a confiança que nele depositam, porquanto o Pai eterno incumbiu-o totalmente do cuidado de seu Filho bem-amado; o Filho divino, por seu turno, entregou-se-lhe inteiramente, tanto aos seu cuidados como à sua vontade; e o Espírito Santo, por fim, encomendou-lhe sua esposa imaculada. Tudo isto para que a Sagrada Família, da qual José foi constituído chefe, fosse como que outra trindade na terra,  imagem resplandecente da Santíssima Trindade no céu: José, representante do Pai eterno; Jesus representando e sendo em verdade a Palavra eterna; e Maria, representando o Amor eterno, o Espírito Santo. Este pensamento, tomamo-lo de empréstimo a São Francisco de Sales, Doutor da Igreja (Entretien, 19): “Podemos dizer”, são palavras dele, “que a Sagrada Família foi como uma trindade na terra, que representava de certa forma a própria Trindade celestial”.

6. Finalmente, conclui-se que José, por estar compreendido nesta ordem sublime, superior à de todos os outros santos, deve, como consequência natural, ter sido predestinado a receber maiores dons e graças do que todos os outros santos, de maneira que ele fosse digno de estar tão perto de Jesus e Maria e, além disso, preparado para cumprir mais fielmente os altos ministérios para os quais foi escolhido. Confirma-o o piedoso Bernardino de Bustis com ousada afirmação:

Uma vez que José havia de ser o guardião, companheiro e governante da Santíssima Virgem e do Menino Jesus, é quiçá possível conceber que Deus pudesse ter cometido um erro em sua eleição? Ou que Ele pudesse ter permitido que São José fosse imperfeito em algum aspecto? Ou pudesse ainda ter falhado em torná-lo perfeito? A própria ideia soa como o erro mais grosseiro. Quando Deus escolhe alguém para realizar um grande trabalho, Ele concede toda a virtude necessária à sua realização (Mariale, Sermo XII).

Alegremo-nos, pois, com o nosso Patriarca amorosíssimo, porque ele foi exaltado a uma ordem tão sublime e obteve tamanha graça, poder e dignidade como ninguém mais, depois de Jesus e Maria, jamais recebeu, para a glória de Deus, que o fez tão grande, e para nosso bem e de toda a Igreja.

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O Espírito que deixamos do lado de fora
Espiritualidade

O Espírito que deixamos do lado de fora

O Espírito que deixamos do lado de fora

“Eis que estou à porta e bato”, diz o Espírito Santo. Mas e se ninguém lhe ouvir a voz? E se ninguém lhe abrir a porta? Então não acontecerá comunhão alguma e o Espírito… ficará do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2019
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— Ora, se “o Espírito Santo não toca em carne morta”, então você há de convir que estão todos perdidos, não?

— Comecemos por lembrar que essa frase não é nossa, mas de São João d’Ávila, Doutor da Igreja, e nós não temos pretensão alguma de “corrigir” o santo ou sua linguagem.

Não nos custa fazer, todavia, os devidos esclarecimentos, porque a frase, isolada, pode sim gerar confusão. Se, absolutamente, o Espírito Santo não tocasse em carne morta — isto é, nas pessoas que estão vivendo na carne e, de modo mais específico, nas que se encontram afastadas de Deus pelo pecado mortal —, então estaríamos de fato todos perdidos. Afinal de contas, é justamente por ação da graça que os pecadores podem vir à conversão. Não é o esforço do pecador que precede a vinda do Espírito Santo; ao contrário, é a graça que tudo precede, ela vem antes. Por isso, a teologia lhe dá o nome de graça preveniente. Todos os homens recebem de Deus luzes para se converter; a ninguém Ele priva de sua graça suficiente.

Dizer o contrário disso seria pelagianismo ou, na “melhor” das hipóteses, semipelagianismo (mas ambas as ideias estão erradas). É Deus quem opera em nós, diz o Apóstolo, o querer e o fazer (Fl 2, 13). Assim, continuando na analogia da “carne morta”, esta só poderia se vivificar pela ação do Espírito Santo. Sem o toque da graça, nenhuma carne morta pode “ressuscitar”, nenhuma alma em pecado pode se reconciliar com Deus.

Mas voltemos à ideia da graça suficiente, cujo significado, muito simples, é: Deus quer a conversão de todos os homens. Quando o Espírito Santo disse pela boca de São João: “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3, 20), é da porta do coração de todos os homens que Ele falava, sem exceção.

Só que existe uma grande diferença — e é isso que muitos não entendem (ou se recusam a entender) — entre o Espírito Santo que está à porta, bate, mas permanece do lado de fora, e o Espírito que está à porta, bate e é convidado a entrar. Deste o Apocalipse continua a dizer: “Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). Mas e se ninguém ouvir a voz do Espírito? E se ninguém lhe abrir a porta? Então não acontecerá comunhão alguma e o Espírito… ficará de fora.

Continuando com a linguagem da porta, poderíamos dizer que o Espírito Santo não “arromba” os corações. A Igreja canta que Ele é hospes animae, não burgator animae; Ele é “hóspede da alma”, e um hóspede só entra num lugar em que é convidado; quem arromba, quem entra sem ser chamado, é ladrão e salteador.

Quando São João d’Ávila, portanto, diz que “o Espírito Santo não toca em carne morta”, ele está se referindo à obstinação daqueles que, dentro de suas casas, vivendo nas obras da carne de que fala o Apóstolo — “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes” (Gl 5, 19-21) —, não querem deixar os seus pecados, mas ainda assim querem se dizer espirituais, “católicos”... O Espírito está fora; vivendo no pecado grave, essas pessoas escorraçaram o Espírito de suas almas… talvez até lhe dêem algum prato de comida, até lhe façam algum “agrado” — ou seja, talvez até clamem por seu nome, talvez até digam “Senhor, Senhor” — mas o Senhor, no entanto, permanece do lado de fora.

Porque, lembremo-nos das palavras do próprio Cristo:

Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus (Mt 7, 21-23)!

Com esses versículos, retomamos a ideia do último texto: não bastam os carismas! Esses dons não são nada em comparação com a graça santificante, que nos torna agradáveis a Deus. Pois de nada adianta ter o nome do Senhor nos lábios, de nada adianta clamar pelo Espírito Santo, pregar, expulsar demônios e até fazer milagres em seu nome, se Ele não atravessa a porta de nossa alma e não ceia no íntimo de nosso coração!

É dessa máxima presença de Deus na alma que o Papa Leão XIII fala em sua encíclica Divinum Illud Munus:

Deus está presente e dentro de todas as coisas: “por seu poder, enquanto tudo está sujeito à sua potestade; por sua presença, enquanto tudo está descoberto a seus olhos; por sua essência, enquanto é a causa da existência de todos os seres” (STh I, q. 8, a. 3). No homem, porém, Deus está presente não apenas como nas coisas; mais que isso, é por ele conhecido e amado, pois a mesma natureza nos impele a que espontaneamente amemos, cobicemos e procuremos alcançar o bem. Enfim, Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis.

Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo (Papa Leão XIII, Carta Encíclica Divinum Illud Munus, de 15 mai. 1897, n. 15-16).

O problema é que muitos de nós já não cremos nisso. Não acreditamos mais na distinção entre “justos” e “perversos”, entre peixes bons e maus, entre joio e trigo, entre os que subirão ao Céu e os que descerão ao Inferno (ainda que tenha sido o próprio Senhor a falar de tudo isso). Fomos tomados por uma visão igualitarista não só de sociedade, mas também de salvação. Nossos discursos se limitam a chavões como: “Deus te ama do jeito que você é”, “Deus não condena ninguém”, “Todo o mundo é igual”; nossas pregações parecem mais palestras motivacionais do que sermões religiosos, mais trechos de livros de autoajuda que trechos do Evangelho.

E por quê?

Porque é mais fácil falar o que as pessoas querem ouvir do que pregar o que sempre ensinou a Igreja — a vida sobrenatural! — e, com isso, desagradar as pessoas, incomodá-las e chamá-las à conversão; é mais fácil falar do Espírito que “afaga e consola” que falar do Espírito desprezado, à porta de nossas almas, e que tantos não deixamos entrar por causa de nossas vidas depravadas…!

Para que clamamos pelo Espírito Santo, afinal? Para que fazemos novenas de Pentecostes e cantamos tantos hinos em seu nome? É para que Ele simplesmente venha saciar nossos desejos mundanos, ou é para que Ele venha realmente renovar os nossos corações a fim de nos tornar justos, a fim de nos tornar dignos do Céu?

Paremos de criar ilusões para justificar uma vida levada na carne. Não queiramos igualar as pessoas na mediocridade. Falemos do Céu, falemos da vida eterna, falemos da santidade! Isso irá, sim, separar os homens entre bons e maus, entre justos e injustos… Mas essa “santa desigualdade”, Nosso Senhor não pediu a ninguém, a nenhum apóstolo, que a eliminasse. Ela é simplesmente consequência do livre-arbítrio humano, que pode dizer “sim” ao Espírito ou preferir… a “carne morta”.

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“O Espírito Santo não toca em carne morta”
Espiritualidade

“O Espírito Santo
não toca em carne morta”

“O Espírito Santo não toca em carne morta”

“Desenganem-se os carnais, que a nenhum deles virá o Espírito Santo… O corvo come a carne morta, mas a pomba a detesta. A pomba é figura do Espírito, e o Espírito Santo não toca em carne morta.”

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Junho de 2019
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Sem sombra de dúvida, um grande desafio a ser encarado por todas as pessoas que já estão (teoricamente) caminhando com Deus é o de viver não segundo a carne, mas segundo o Espírito Santo. Às vésperas que estamos da grande solenidade de Pentecostes, poucas reflexões são tão necessárias quanto essa.

É trágico, de fato, que haja tanta gente “de igreja”, batizada, indo à Missa e até confessando e comungando com frequência, mas sem que suas vidas tomem impulso, sem que seus corações sejam mudados, sem que se note algo de real e substancialmente diferente em suas conversas e condutas. Sem o Espírito Santo, os católicos são como sal que não salga, luz que não ilumina, e em nada parecem diferir dos demais homens.

Consideremos nestas linhas, por exemplo, como nada pode haver de mais deplorável do que estarmos na Igreja apenas “de corpo presente”, mas com a alma em pecado mortal — sem dúvida, a ilustração mais crua do que é viver segundo a carne. Sim, porque as pessoas nesse estado não só não vivem segundo o Espírito, como aborrecem esse mesmo Espírito, não o têm em suas almas. Em suas vidas, o que sobressai é justamente o oposto: o espírito maligno, o espírito das trevas. Nas palavras do Apóstolo:

Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros… Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!... Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito (Gl 5, 16-17.19-21.24-25).

São Paulo está dizendo com muita simplicidade: não é possível ser ao mesmo tempo de Deus e do demônio, e nesta matéria não há meio-termo. Ou se está com Cristo, ou se está longe dEle (cf. Mt 12, 30). Os pecados que ele enumera, de modo especial, têm uma característica em comum: são, em sua maioria, pecados externos, que realmente “separam” os cristãos, destroem a ilusão de que eles podem ser “como todo o mundo”, estabelecem uma espécie de “limite” que quem deseja ser de Cristo não deve ultrapassar. Trata-se de obras carnais as mais grosseiras, por assim dizer, e quem quer que as pratique não só não tem o Espírito Santo, adverte o Apóstolo, como não herdará o Reino de Deus

Como comentário a essa passagem tão contundente das Escrituras, atentemo-nos ao que diz São João d’Ávila em um de seus sermões:

Que quereis? O Espírito Santo? Pois sabei que Ele não é amigo da carne [...].

Desenganem-se os amancebados, desenganem-se os carnais, que a nenhum deles virá o Espírito Santo. A pomba que saiu da arca de Noé tomou um raminho de oliveira e não quis pôr o pé sobre corpo morto; voltou limpa à arca. O corvo come a carne morta; a pomba detesta-a. A pomba é figura do Espírito, e o Espírito Santo não toca em carne morta. Limpai, pois, vossos corações dos desejos carnais. Jejuai nesta semana os que tiverem forças para isso; pois, já que quer carne, seja a carne mortificada e com jejuns enfraquecida. E como alvíssara e favor vo-lo peço, varrei com muita devoção a vossa casa mediante a confissão, pois há de vir vosso Hóspede, e não convém que encontre suja a casa [1].

A mensagem deste Doutor da Igreja é muito clara, tão clara que dispensa maiores comentários. Se não fugirmos das obras da carne, será impossível receber o Espírito Santo. Sem isso, não haverá Pentecostes em nossas vidas.

Expliquemos, antes de mais nada, que é o próprio Espírito que inspira a alma a buscá-lo e a evitar o pecado, de modo que a inspiração mesma de procurar fazer a vontade divina só acontece por obra da graça. Deus busca a todos, não privando ninguém do auxílio necessário para a própria salvação. Mas na alma daquele que corresponde a esse chamado de Deus acontece uma união que não acontece na alma em que se extinguiu a chama da caridade. Nas palavras do Papa Leão XIII, explicando o mistério da inabitação trinitária: “Também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo” [2].

Concentremo-nos, porém, nestas palavras do santo: “Desenganem-se os carnais”. Se ele diz “desenganem-se”, é porque andam enganados os que vivem segundo a carne: estão como que com os olhos vendados, são incapazes de ver a realidade, encontram-se aprisionados longe da verdade. Talvez os seus pecados lhes tenham inclusive cegado a mente, como Santo Tomás de Aquino diz que sói acontecer com quem vive na carne, especialmente com quem se entrega aos pecados sexuais (cf. STh II-II, q. 15, a. 3).

Mas de que modo andam enganados os carnais? Com o que eles se enganam? Perguntando com mais propriedade: com o que tantos de nós mesmos nos enganamos?

Nossa falta de fé no que ensina a Igreja nos denuncia com muita facilidade: encontramo-nos iludidos com “novas” doutrinas que não a de Cristo, possuídos por um “espírito” que, ousaríamos dizer, de santo não tem nada.

Vejamos por exemplo como tantos hoje se dizem porta-vozes do Espírito Santo, ao mesmo tempo que se esquecem de uma verdade elementar: só se tem o Espírito de Cristo na medida em que se ama o Corpo de Cristo, que é a Igreja [3]; falam tanto do novo, mas se esquecem que “a novidade nunca foi por si mesma um critério de verdade, e só pode ser louvável quando confirma a verdade e leva à retidão e à virtude” [4]; falam tanto de “renovação” — pois, de fato, o Espírito vem renovar a face da terra (cf. Sl 103, 30) —, mas se esquecem do que disse Jesus antes de subir aos céus: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome [...] vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26).

Ou seja, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade não viria aos homens para lhes ensinar nada de diferente do que havia ensinado Nosso Senhor. (Era o que faltava, afinal, a Trindade contradizer a própria Trindade!) Se há um tal “espírito”, não é o Espírito Santo; está mais ou para um “espírito revolucionário”, que perverte a doutrina e mantém as pessoas no egoísmo de seus pecados, ou para um “espírito de confusão”, que obscurece a doutrina, mas cujo resultado prático é o mesmo.

Por que tantos se rendem a essas “novidades” não é difícil compreender: quem vive na carne e não quer deixar de viver segundo a carne, para justificar seus comportamentos, precisa recorrer a algum subterfúgio. “Quem não vive conforme aquilo em que acredita”, diz um velho adágio, “termina acreditando no modo como vive”.

O que aparece, então? A ilusão da “graça barata”, do Deus que tudo aceita, que com tudo condescende e que a todos salvará. O Espírito consolador do Evangelho é transformado, assim, em um ente abstrato que vem para afagar os nossos sentimentos, ao invés de nos chamar ao que realmente importa, e que constitui a essência da vida cristã: nossa conversão.

Nesse ponto pessoas até bem intencionadas terminam perdendo de vista o essencial. Até com o fim de não “causar problemas”, elas falam do Divino Espírito Santo exclusivamente como Doador de dons carismáticos extraordinários  — as graças chamadas gratis datae —, mas o mais importante, que é a vida de união com Deus, é solenemente ignorado.

Talvez lhes fosse necessário recordar que o Espírito Santo é o Espírito das profecias, é o Espírito das línguas, é o Espírito das curas, sim; mas é também — e principalmente — o Espírito da conversão e da mudança de vida. Porque, não nos esqueçamos, o máximo milagre de Deus é a justificação do pecador (muito mais do que falar línguas estranhas, operar curas físicas e profetizar). Como explica o Doutor Angélico (STh I-II, q. 111, a. 5):

O Apóstolo, depois de enumerar as graças gratis datas (cf. 1Cor 12, 4-11), acrescenta: “Vou mostrar-vos um caminho ainda mais perfeito”. E como fica claro pelo que segue, fala da caridade que se refere à graça que torna agradável a Deus. Portanto, a graça que torna agradável a Deus é superior à graça gratis data [...].

Uma virtude é tanto mais excelente na medida em que se ordena a um bem mais elevado. Pois sempre o fim está acima daquilo que é apenas um meio em vista do fim. Ora, a graça que torna agradável a Deus ordena o homem imediatamente à união com o fim último. As graças gratis datae, ao contrário, ordenam o homem ao que é uma preparação para o fim último. Assim, a profecia, o milagre e tudo o que é do mesmo gênero nos levam ao que une ao fim último. Eis por que a graça que torna agradável a Deus é bem superior à graça gratis data.

Dizendo bem claramente, nós, que temos pedido tanto a efusão do Espírito Santo com orações, canções e pedidos de carismas, em que medida temos procurado realmente viver segundo o Espírito, dando o primeiro passo de abandonar as obras da carne, que lhe são contrárias? Importa muito que o amor que certos grupos e movimentos dentro da Igreja mantêm ao Espírito Santo — ouçamos o conselho do Papa Leão XIII, muito próximo da Beata Elena Guerra — “não se limite a umas áridas noções teóricas e a uma homenagem puramente exterior, mas que se distinga pela pronta ação, principalmente pela fuga do pecado, o qual de modo muito particular ofende o Espírito Santo” [5].

Se acreditamos, pois, que o Espírito de Deus realmente intervém na história humana, que Ele realmente age na vida das pessoas, qual é o principal fim com que Ele atua, senão para nos levar à vida divina, à vida da graça, à vida sobrenatural? E como chegaremos aí se continuarmos afundados na lama do pecado mortal, sem fazer uma Confissão sincera, bem feita e com um propósito firme de emenda? Como o Espírito agirá em nós se continuarmos fingindo clamorosamente ser espirituais, enquanto, no fundo, vivemos na carne?

— Que quereis? O Espírito Santo? — pergunta-nos São João d’Ávila. — Pois sabei que Ele não é amigo da carne.

Nunca se insistirá o suficiente nisso. Nós, católicos, não somos protestantes, que nos acreditamos salvos por uma imputação jurídica, ainda que nosso coração esteja podre, apegado ao pecado e aferrado ao mal… Não, a graça realmente opera uma transformação em nossa alma e, a menos que procuremos com sinceridade conformar o nosso coração ao que Deus quer de nós (ao invés de tentarmos encaixar Deus em nossos esquemas humanos), não acontecerá em nós a salvação que o Espírito Santo quer operar em nossa alma.

Fujamos, pois, da tentação de um “espiritualismo” sem doutrina, autorreferencial, inventado por nós mesmos. Uma religião assim não salva verdadeiramente; só engana. Ser de fato guiado pelo Espírito Santo significa ser transformado profundamente por Ele, significa não se deixar arrastar pelo que enumera o Apóstolo: “fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias”. Se estivermos nessas coisas, ainda que clamemos mil vezes o Espírito Santo, ainda que cantemos, ainda que nos agitemos, não haverá Pentecostes em nossas almas.

Por isso, aproveitemos a solenidade que se aproxima e fujamos das obras da carne. Convertamo-nos. Desfaçamo-nos de nossa cegueira. “Se viverdes segundo a carne, haveis de morrer”, diz o Apóstolo, “mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 13-14).

“Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Mas quem não é conduzido pelo Espírito é simplesmente… carne morta. E à carne morta só o que resta é entregar aos corvos.

Não seja esse o nosso destino.

Referências

  1. Quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo, Sermão no Domingo da infra-oitava da Ascensão, 29 de maio de 1552, in: Sermões do Espírito Santo, trad. Roberto Leal Ferreira, São Paulo: Molokai, 2018, pp. 57-58.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Divinum Illud Munus (15 de maio de 1897), n. 16.
  3. Cf. Santo Agostinho, In Evangelium Ioannis, t. 26, 13 (PL 35): “Queres pois viver também tu do Espírito de Cristo? Faz-te, portanto, membro do Corpo de Cristo.”
  4. Papa Pio XII, Carta Encíclica Menti Nostrae (23 de setembro de 1950), n. 110.
  5. Papa Leão XIII, op. cit., n. 22.

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