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Quanto tempo pode durar o Purgatório de alguém?
Espiritualidade

Quanto tempo pode
durar o Purgatório de alguém?

Quanto tempo pode durar o Purgatório de alguém?

A fé não nos ensina qual seja a duração precisa das penas do Purgatório. Mas os santos e teólogos que escreveram sobre o assunto garantem: os sofrimentos para entrar no Céu podem se prolongar por muitos anos, e até por séculos.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Dezembro de 2017
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A fé não nos ensina qual seja a duração precisa das penas do Purgatório. Sabemos em geral que elas são medidas pela justiça divina e que, para cada pessoa, elas são proporcionais ao número e à gravidade das faltas ainda não expiadas.

Deus pode, no entanto, sem prejuízo de sua justiça, abreviar esses sofrimentos, aumentando a intensidade deles; e a Igreja militante também pode obter a remissão deles através do santo sacrifício da Missa e de outros sufrágios oferecidos pelos defuntos.

De acordo com a opinião comum dos doutores, as penas expiatórias são de longa duração. São Roberto Belarmino diz, por exemplo, que:

Não há dúvida nenhuma de que os sofrimentos do Purgatório não se limitam a dez ou vinte anos, e que em alguns casos eles duram séculos inteiros.

Mas, concedendo como verdadeiro que sua duração não excedesse dez ou vinte anos, podemos considerar como nada ter de suportar por dez ou vinte anos os sofrimentos mais excruciantes sem o menor alívio? Se se assegurasse a um homem que ele deveria sofrer alguma dor violenta em suas pernas, ou em sua cabeça, ou em seus dentes pelo espaço de vinte anos, e isso sem dormir nem ficar minimamente em repouso, não preferiria ele mil vezes morrer do que viver em um tal estado? E se lhe fosse dado escolher entre uma vida miserável assim e a perda de todos os seus bens temporais, hesitaria ele por acaso em sacrificar sua fortuna para se ver livre de um tal tormento?

Deveríamos achar difícil, então, abraçar o sacrifício e a penitência para nos livrarmos dos sofrimentos do Purgatório? Deveríamos temer praticar os mais dolorosos exercícios: vigílias, jejuns, esmolas, longas orações, e especialmente contrição, acompanhados de gemidos e lágrimas? [1]

Estas palavras condensam toda a doutrina dos santos e teólogos.

Um padre jesuíta, que escreveu um tratado “sobre a caridade para com os defuntos” [2], fala da longa duração do Purgatório com base em um abalizado cálculo de probabilidade. Ele parte do princípio de que, conforme as palavras do Espírito Santo, “o homem justo cai sete vezes ao dia” (Pr 24, 16), isto é, até mesmos aqueles que se aplicam mais perfeitamente ao serviço de Deus, não obstante sua boa vontade, cometem um grande número de faltas aos olhos infinitamente puros de Deus.

A Virgem Maria e o Menino Jesus com as almas do Purgatório, de Luca Giordano.

Basta-nos entrar em nossa própria consciência e aí analisar diante de Deus nossos pensamentos, nossas palavras e nossas obras, para nos convencermos desse triste efeito da miséria humana. Oh! quão fácil nos é faltar com o respeito à oração, preferir nosso conforto ao cumprimento do dever, pecar por vaidade, por impaciência, por sensualidade, por pensamentos e palavras sem caridade, por falta de conformidade com a vontade de Deus! O dia é longo; será que é assim tão difícil, mesmo para uma pessoa virtuosa, cometer, não digo sete, mas vinte ou trinta desse tipo de faltas e imperfeições?

Façamos uma estimativa moderada e suponhamos que você cometa cerca de dez faltas por dia; ao cabo de 365 dias, você terá um total de 3650 faltas. Diminuamos a cifra e, para facilitar o cálculo, estabeleçamos o número de 3000 por ano. Ao término de dez anos, esse número evoluirá para 30.000, e, ao fim de vinte anos, a 60.000. Suponha que, dessas 60.000 faltas, você tenha expiado metade com penitência e boas obras. Assim, ainda faltarão 30.000 por reparar.

Continuemos com nossa hipótese: você morre depois desses vinte anos de vida virtuosa e aparece diante de Deus com um débito de 30.000 faltas, das quais você deve se exonerar no Purgatório. Quanto tempo você precisará para fazer essa reparação? Suponha que, em média, cada falta requeira uma hora de Purgatório. Essa medida é muito moderada, se julgarmos a partir das revelações dos santos; mas, de qualquer maneira, isso dará a você um Purgatório de 30.000 horas. Pois bem, você tem ideia de quantos anos essas 30.000 horas representam? Três anos, três meses e quinze dias. Assim, um bom cristão que vigia a si mesmo, que se aplica na prática da penitência e das boas obras, encontra-se sujeito a três anos, três meses e quinze dias de Purgatório.

O cálculo que fizemos é baseado em uma estimativa extremamente leniente. Agora, se você estende a duração da dor e, ao invés de uma hora, você leve um dia para expiar uma falta; se, ao invés de ter apenas pecados veniais, você traz diante de Deus um débito resultante de pecados mortais, mais ou menos numerosos, que você cometeu previamente; se você atribui, em média, como diz Santa Francisca Romana, sete anos para a expiação de um pecado mortal, remido quanto à culpa, quem não vê que chegamos a uma duração espantosa, e que a expiação pode facilmente se prolongar por muitos anos, e até por séculos?

Anos e séculos de tormentos! Oh! se apenas pensássemos nisso, com que cuidado não evitaríamos o menor dos pecados? Com que fervor não faríamos penitência para satisfazer a nossos pecados neste mundo!

Referências

  1. S. Roberto Belarmino, De gemitu columbae sive de bono lacrymarum, l. 2, c. 9.
  2. Trata-se do Pe. Thomas Mumford. O título desta obra em inglês é: Treatise on Charity towards the Departed.

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Como entender que a Igreja é santa?
Doutrina

Como entender que a Igreja é santa?

Como entender que a Igreja é santa?

A Igreja é santa? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)16 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Igreja é santa? São Paulo escreveu aos fiéis de Éfeso as seguintes palavras: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25ss). Ora, esta afirmação do Apóstolo se cumprirá apenas na etapa escatológica da história da Igreja ou é uma realidade já existente aqui na terra? Eis o problema que muitos se propõem hoje em dia. 

Pois bem, dado que a Igreja de Cristo não é um ser abstrato, senão que se compõem de cristãos concretos, podemos dizer em verdade que estes são santos? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pusillus grex, este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja? Árduo problema, que devemos estudar no presente artigo. Antes de tudo, porém, é necessário investigar nas fontes primárias da Revelação o conceito de santidade.

1. O adjetivo “santo” na Sagrada Escritura.a) Aplicado a Deus. — O adjetivo “santo”, que por sua etimologia indica a ideia de pureza, isenção de toda falta e pecado, se aplica no Antigo Testamento principalmente a Deus. Isaías é, quiçá, o autor inspirado que mais vezes chama assim a Deus, sobretudo com o nome “o Santo de Israel” (cf. Is 1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 12, 6; 17, 7; 29, 13.23; 30, 11.12.15; 41, 14.16.22; 43, 3.14; 45, 11), ou chamando-o também três vezes santo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo” (Is 6, 3). Mas também em muitos outros livros do Antigo Testamento se dá com muita frequência este título a Deus.

No Novo Testamento, ao manifestar-se Deus no mistério da SS. Trindade, se dá o nome de santo em primeiro lugar ao Pai: “Pai santo, guarda-os em teu nome” (Jo 17, 11). E, como derivação de sua santidade, os cristãos, filhos seus, se santificam ou purificam à semelhança dele, como nos diz São João em sua primeira epístola: “Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus […]. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem essa esperança torna-se puro, como ele é puro” (1Jo 3, 2s).

Também ao Filho encarnado, Jesus Cristo, se dá o epíteto de “santo”. O anjo Gabriel anuncia a Maria que o fruto de suas entranhas se chamará “o Santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35). Os próprios demônios o reconhecem como o “Santo de Deus” (Lc 4, 34). Pedro o chama assim em seu segundo discurso aos judeus depois da vinda do Espírito Santo: “Vós renegastes o Santo e o Justo” (At 3, 14). Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7, 26).

À terceira pessoa da SS. Trindade se dá também este nome de santo, e isso de tal maneira que ele chega a ser um dos componentes do seu nome próprio: Espírito Santo. Assim aparece tanto nos evangelhos (cf. Mt 1, 18ss; Lc 1, 35; 4, 1; Jo 14, 26; 20, 22 etc.) como nos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 2.5.16; 2, 38; 5, 3; 10, 38.44 etc.) e em várias passagens de São Paulo (cf., por exemplo, Rm 5, 5; 2Cor 13, 13; Ef 1, 13 etc.).

b) Aplicado às criaturas. — Não somente a Deus se aplica na Sagrada Escritura o epíteto “santo”, mas também às pessoas e inclusive às coisas, enquanto pertencem ou estão consagradas a Deus. Tudo o que está mais estreitamente vinculado ao culto divino se chama santo. Assim, chama-se “o santo” à parte do tabernáculo ou do Templo que continha o altar dos perfumes e o candelabro de sete braços (cf. Ex 26, 33; 28, 29; 43, 20; e Hb 9, 2 etc.). E à parte onde estava a Arca da Aliança se chamava “o santo dos santos” (cf. Ex 26, 34; 3Rs 6, 16; Hb 9, 3). Santos eram chamados os ornamentos do Sumo sacerdote (cf. Ex 28, 36), os vasos sagrados (1Rs 21, 5) etc. Jerusalém é a “cidade santa” (cf. Mt 24, 25; Mc 13, 14; Lc 21, 20), e São Pedro chama “santo” ao monte da transfiguração, onde se manifestou a divindade de Jesus Cristo (cf. 2Pd 1, 18). 

Mas com muito maior razão que as coisas, chamam-se santas as pessoas consagradas a Deus. No Levítico se repete muitas vezes esta frase: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11, 44s; 19, 2; 20, 26; 21, 8). E São Pedro recorda este texto do Antigo Testamento aos cristãos, exortando-os à santidade (cf. 1Pd 1, 15s). Também São Paulo chama com este nome a todos os cristãos, por estarem consagrados a Deus por meio do Batismo, como se pode ver o início de quase todas as suas epístolas (cf. Rm 1, 17; 1Cor 1, 2; 2Cor 1, 1; Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 2), e a tudo aquilo que Deus pôs na Igreja para santificar os cristãos, como os livros da Sagrada Escritura (cf. Rm 1, 2; v. também 2Pd 1, 21) e os Mandamentos de sua Lei (cf. 2Pd 2, 21).

2. Em que consiste essencialmente esta santidade. — O Novo Testamento, muito mais que o Antigo, nos ensina que a santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior. Assim, São Paulo diz aos seus fiéis que eles hão-de ser “santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos [de Deus]” (Ef 1, 4), e em suas epístolas identifica praticamente santidade com renovação interior, que essencialmente consiste em afastar-se das criaturas, na medida em que o amor desordenado a elas nos leva ao pecado, e unir-se com o Criador, fim último de todas as coisas, pela graça e o exercício das virtudes. Assim expressa o Apóstolo estas ideias: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22ss).

De toda esta doutrina essencialmente bíblica sobre a santidade, que aqui não podemos mais do que esboçar, se deduz que a santidade do homem pode ser considerada sob dois aspectos: a) como santidade ontológica, ou consagração a Deus pela graça santificante; e b) como santidade moral, ou reta ordenação a Deus, fim último de todas as coisas, mediante a prática de atos moralmente bons. Em concreto, como a Igreja está constituída pelos cristãos, ao falarmos da santidade da Igreja devemos levar em consideração: 1.º) uma santidade ontológica, que há-de consistir nos elementos sobrenaturais (graça, sacramentos etc.) que unam os membros da Igreja com Deus; 2.º) uma santidade moral, que há-de consistir  nos atos de virtude praticados pelos fiéis sob o impulso do Espírito Santo. Nesse sentido, a santidade vem a identificar-se, ao menos em parte, com a virtude da religião, como explica Santo Tomás de Aquino: 

Chama-se santidade a aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, portanto, com a religião não é essencial, mas apenas de razão. A religião, com efeito, proporciona o serviço devido a Deus, no que de modo especial se refere ao culto divino, como o sacrifício, a oblação e coisas semelhantes. A santidade, além disso, ordena a Deus os atos das outras virtudes ou faz com que o homem se disponha, por meio de certos atos, ao culto divino (STh II-II 81, 8 c.).

3. Três graus de santidade. — Logicamente, conforme a realização mais ou menos perfeita deste separar-se do pecado e unir-se a Deus, podemos distinguir, em escala ascendente, três graus de santidade:

  1. Uma santidade ordinária, que se confunde com o estado habitual de graça possuído pelos membros da Igreja que não estão em pecado mortal. Exige, por um lado, uma tendência habitual a fugir do pecado (eis o seu elemento negativo) e, por outro, a observância habitual dos preceitos que obrigam sob pecado grave (eis o seu elemento positivo).
  2. Uma santidade perfeita, que, além da ausência de pecado mortal, exige a inclinação habitual a evitar também o pecado venial (elemento negativo) e a guardar as regras de perfeição mais altas propostas por Cristo no Evangelho, e em particular as que recebem o nome de “conselhos evangélicos” (elemento positivo).
  3. Uma santidade heroica, que implica fugir do pecado venial e seguir os caminhos de perfeição nos casos mais difíceis e árduos, até chegar ao ponto de dar a vida por Cristo e pelo próximo.

Os limites entre estes três graus não são nem podem ser linhas perfeitamente definidas. No entanto, existem casos claríssimos que podemos enquadrar em cada um deste graus, e isto basta para poder distingui-los. Seguir a Cristo em pobreza, castidade e obediência com toda fidelidade será, pois, um ato de santidade perfeita. E o ato mais claro de santidade heroica é entregar-se a Cristo até chegar a dar por Ele a própria vida, segundo aquelas palavras do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seu amigo” (Jo 14, 13).

Por fim, não seguindo precisamente em progressão ascendente, mas como graça inteiramente extraordinária, concedida por Deus a quem e quando Ele quer, há a santidade chamada “carismática”, que é uma como que confirmação da santidade acompanhada de dons extraordinários, entre os quais se contam principalmente os milagres. 

4. Precisão exata do problema. — Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores; mais ainda: nem sequer que o número de santos supere o dos que não o são, desde que esses defeitos se davam à fragilidade humana, a que muitos não sigam os Mandamentos, os exemplos e os meios de santificação existentes na Igreja. Mas implica, sim, como teremos ocasião de ver mais adiante, quando explicarmos em que sentido há-de entender-se esta propriedade essencial da Igreja, que esta santidade deve aparecer de modo manifesto, conforme as palavras do Senhor: “Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

II. Orientação histórica. — 1. Doutrinas errôneas. — Diante do espetáculo que é a multidão de pecadores que há na Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo surgiu a tentação de selecionar e discriminar os bons dos maus, os justos dos pecadores; somente os justos, os puros, seriam membros verdadeiros da Igreja. Assim pensavam os montanistas e os donatistas dos sécs. IV e V da nossa era, assim pensavam os cátaros ou puritanos da Idade Média, bem como os primeirosreformadores” do séc. XVI, sobretudo Lutero, para quem a Igreja era apenas a congregação dos justos. E como somente Deus pode conhecer com toda certeza quem são os justos, só Deus poderá conhecer a sua própria Igreja: daqui nasce a sua teoria da invisibilidade da Igreja. 

Mas advirtamos que os luteranos, que, por um lado, caem em excesso de puritanismo ao excluir da Igreja todos os aqueles que não são justos, se encontram, por outro lado, muito aquém do verdadeiro conceito de santidade ao pôr a justificação somente na imputação dos méritos de Cristo, sem verdadeira transformação interior, o que está em clara oposição à doutrina de uma verdadeira reforma interior, que São Paulo pressupõe e explica continuamente em suas epístolas. Além disso, Lutero desprezava a observância dos conselhos evangélicos como uma clara manifestação de santidade. Escolhamos somente um trecho entre milhares: “Esta classe de vida [a religiosa] é contra o Evangelho […], e é coisa evidentíssima que os seus votos são nulos, ilícitos, ímpios e contrários ao Evangelho” (Obras, ed. Weimar, VIII 688).

Os dissidentes orientais se aproximam muito mais, no conceito que têm da santidade, do modo católico de a conceber; no entanto, não poucas vezes em seus escritos parece que somente dão importância à santidade ontológica e ativa, deixando de lado a santidade passiva ou dos membros da Igreja.

Nos sécs. XVII e XVIII, alguns católicos de diversos matizes jansenistas, como os que se congregaram no Sínodo de Pistóia, também caíram no erro de querer formar uma Igreja santa expulsando os pecadores. Foram condenados pelo Papa Pio VI (cf. DH 2615).

2. Doutrina da Igreja. — A santidade da Igreja é a primeira das propriedades que aparecem nos símbolos, ao fazermos nossa profissão de fé na Igreja. A fórmula mais primitiva que nos foi conservada de tais símbolos, fórmula brevíssima, provavelmente da metade do séc. II, diz assim: “Creio no Pai dominador do universo, e em Jesus Cristo, nosso Salvador, e no Santo Espírito Paráclito, e na Santa Igreja, e na remissão dos pecados” (DH 1). Nos documentos do Magistério eclesiástico, tanto dos Sumos Pontífices como dos Concílios ecumênicos, dá-se continuamente à Igreja o título de “santa”. Em especial, fala o Concílio Vaticano I da “exímia santidade da Igreja” ou da “Santa Igreja que Cristo resolveu fundar”.

III. Valoração teológica. — É de fé divina e católica que a Igreja de Cristo é verdadeiramente santa. Por outro lado, consta que os pecadores, desde que não abandonem a fé ou obediência à hierarquia da Igreja, continuam sendo membros da Igreja, já que foi condenada como herética a proposição contrária, defendida pelo Sínodo de Pistóia (cf. DH 2615). Daqui podemos deduzir que é teologicamente certo que a existência de pecadores na Igreja não está em conflito com a santidade mesma da Igreja. 

IV. Ensinamento bíblico.1. A Igreja é santa com santidade ontológica. — Em primeiro lugar, porque Jesus Cristo, que é Cabeça da Igreja, é santo; todas as páginas do Evangelho dão testemunho desta santidade de Jesus Cristo tanto no sentido de ausência total de pecado como no sentido de exercício de todas as virtudes. Lembremo-nos ainda dos escritos dos Apóstolos, testemunhas imediatas de sua vida na terra, que o chamam continuamente de “o justo”, “o santo” (cf., por exemplo, São Pedro em At 3, 14; 1Pd 1, 18s; 2, 22ss; São Tiago em sua carta, 5, 6; São João em sua primeira epístola, 2, 1; 3, 5; São Paulo muitas vezes: 2Cor 5, 21; Hb 4, 15; 7, 26), e também de seus próprios inimigos, pois aquela pergunta de Jesus: “Quem de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 56) não recebeu contestação.

A doutrina que Cristo nos legou é santa com uns quilates tão sublimes de perfeição, que tem maravilhado até mesmo os pagãos que leem sem preconceitos o Evangelho; bastaria, para se convencer disso, ler os capítulos 5 a 7 de São Mateus, que se chamam comumente “o Sermão da Montanha”. Acrescente-se a isto os sacramentos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelos quais recebemos o Espírito Santo; o sacrifício de Jesus Cristo, que se renova continuamente de forma incruenta, mas realíssima, em todo o mundo; e, por fim, o influxo misterioso do Espírito Santo, alma da Igreja, que atua em todos aqueles que são templos dele pela graça santificante. 

2. A Igreja é santa com santidade moral. — A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral nos membros da Igreja. 

a) Em primeiro lugar, a santidade ordinária

  1. porque, se Cristo estabeleceu em sua Igreja os meios de santificação que acabamos de indicar, é necessário que eles produzam frutos de santidade nos membros da mesma Igreja, segundo as palavras do Senhor: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7, 17ss). 
  2. porque se o fim da Igreja é, como vimos noutro artigo, a santificação dos homens, é impossível que tal fim, atribuído por Cristo à sua obra, não consiga, em um número bastante grande, o seu efeito, e para isto necessita ele chegar pelo menos ao primeiro grau de santidade ordinária; 
  3. porque a Palavra de Deus é como a semente que cai em terra boa e produz fruto, em uns de trinta, em outros de sessenta, em outros ainda de cem (cf. Mt 12, 13). Por fim, também São Paulo supõe esta santidade em seus cristãos, quando diz que eles devem estar “mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rm 8, 9s) e crucificar o homem velho, a fim de destruir o corpo de pecado (cf. Rm 6, 6), sem levar em conta aqui as exortações a fugir dos vícios e praticar as virtudes, as partes parenéticas de suas epístolas aos Romanos, Gálatas, Efésios etc.

b) Santidade moral perfeita. — Na Igreja de Jesus Cristo se dá também, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita. A razão é que o fim de toda a Lei nova, enquanto se contrapõe o Novo Testamento à Lei antiga, é precisamente a santidade perfeita, coisa que aparece sobretudo no capítulo 5 de São Mateus, já que ali Cristo exige de seus seguidores: o cumprimento de seus Mandamentos, inclusive dos menores (v. 19); dominar a ira até conseguir perdoar aos inimigos (v. 22ss); a pureza em grau sumo (v. 28); não só não resistir ao que nos faz mal, mas ainda oferecer a outra face ao que nos agride (v. 29ss); amar os inimigos (v. 43s); dar esmola em segredo e fugir dos louvores dos homens (6, 1ss); servir a Deus, desprezando o dinheiro e confiando unicamente em sua Providência (v. 24ss). E quem não é capaz de ver que tudo isso requer uma santidade não ordinária, mas em grau exímio?

Jesus Cristo convida a abraçarem a pobreza e a castidade perfeita os que aspiram a um grau maior de santidade. A tradição dos primeiros séculos da Igreja interpretou assim duas passagens de São Mateus (19, 12.16-25). Sempre haverá, pois, quem não olhe para trás, como aconteceu com o jovem rico, mas que siga os caminhos da perfeição em pobreza e castidade.

c) Santidade heroica. — Muito do que acabamos de dizer supõe, em circunstâncias especialmente difíceis, não só uma santidade exímia, mas heroica. Ademais, Jesus Cristo nos deixou o exemplo desta santidade heroica, sobretudo no amor aos homens até o sacrifício da própria vida e no sofrimento das perseguições do mundo contra Ele, e anuncia, como se vê claramente nos capítulos 13, 15 e 16 do evangelho de São João, que não faltarão pessoas que sigam esses exemplos. Era isto mesmo que supunham os Apóstolos como coisa evidente quando exortavam os fiéis cristãos à perfeita imitação de Cristo. Assim diz o Apóstolo São João: “Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16); e São Pedro: “É para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2, 21).

São Paulo, sobretudo, supõe uma santidade extraordinária nos cristãos. Recordem-se umas poucas passagens de suas cartas, que poderiam multiplicar-se sem problema. Aos romanos escrevia: 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43, 23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).

E aos coríntios:

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entre­gues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida (2Cor 4, 10ss) […] De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).

Estas últimas palavras, ainda que São Paulo as tenha dito referindo-se a si mesmo, são sem dúvida um ideal que ele propõe a seus fiéis discípulos.

d) Santidade carismática”. — Jesus a anuncia como algo característico de sua Igreja: diz a seus discípulos que eles hão-de fazer as obras que Ele mesmo fez, e inclusive maiores do que as dele (cf. Jo 14, 12). E, em sua última aparição, ao enviá-los para pregar por todo o mundo, lhes dá o poder de fazer milagres (cf. Mc 16, 17).

A existência destes carismas na Igreja aparece já no epílogo do evangelho de São Marcos (cf. Mc 16, 17-20); nos Atos dos Apóstolos, com muita frequência (recordem-se, por exemplo At 3, 1-11; 5, 15ss; 10, 44-47; 16, 16ss), e em São Paulo, que dá normas acerca da maneira com que se devem portar na Igreja os fiéis com dons carismáticos (cf. 1Cor 12, 1-31).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 879-886, nn. 771-787.

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Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande
Espiritualidade

Não pode ser pequeno
o que ofende a um Deus tão grande

Não pode ser pequeno o que ofende a um Deus tão grande

“Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!”, exclamava Santa Teresa d’Ávila. “Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade!”

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Julho de 2019
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Em um episódio ao vivo recente sobre pecados veniais (abaixo), Padre Paulo Ricardo explicou a importância do combate a essas faltas que, por “leves” que sejam — e, portanto, não chegarem a ferir de morte a vida da graça em nós —, são verdadeiras ofensas a Deus, com as quais não podemos “brincar”, pois, como se nada fossem. 

Para entender melhor a gravidade de um só pecado venial, talvez nos fosse necessário sair de nossos raciocínios carnais e consultar um pouco a sabedoria dos santos, os quais, justamente pelo muito que amaram a Deus, tinham horror à menor das coisas que pudessem desagradá-lo.

Esses homens e mulheres viviam da fé (cf. Rm 1, 17); suas existências estavam ancoradas nas realidades sobrenaturais, invisíveis a olhos humanos. Nós, porém, movidos como somos pelos sentidos, damos mais valor às tragédias deste mundo do que às que se passam no interior de nossas almas. Assim é porque pequena, fraca, quase insignificante, é a nossa fé.

Mas um Cardeal Newman, por exemplo — cuja canonização a Igreja já confirmou para o próximo dia 13 de outubro —, assegurava que, para a Igreja Católica, “é preferível o sol e a lua caírem do céu, a terra desaparecer, os milhões de seres humanos que a povoam morrerem de fome na pior das agonias, até onde possa chegar a aflição temporal, a admitir que uma só alma, não digo, se perca, mas cometa um único pecado venial” [1]. Nisso crê a Igreja, de fato, ciente de que “nada acontece no mundo exterior que não tenha acontecido dentro de uma alma” [2]. É aí que se passa o verdadeiro drama da humanidade; é aí que acontece a mais importante de todas as batalhas; é aí que se decide deveras o futuro do homem. 

E se muitos de nós, dizendo-nos católicos, não mais cremos nisso; se muitos de nós achamos a preservação das florestas ou do mico-leão dourado mais importante do que a salvação das almas; o respeito às culturas humanas, mais do que o cumprimento do mandato de Nosso Senhor de evangelizar todos os povos; o combate das catástrofes e misérias naturais, mais do que o combate à desgraça espiritual do pecado… somos nós que nos distanciamos do que é a Igreja. Não foi ela que mudou — porque a Igreja, em sua essência, sendo continuação da Encarnação do Verbo de Deus na história, é a mesma ontem, hoje e pelos séculos (cf. Hb 13, 8) —, mas nós que miseravelmente mudamos, abandonando a fé que nos legaram os Apóstolos, os mártires e os santos de todos os outros séculos.

Vejamos, por exemplo, com que zelo a grande Santa Teresa de Jesus pedia a suas irmãs que se preservassem das mínimas faltas, por amor a Deus. Cuidando antes de distinguir “entre (i) os pecados veniais de pura fragilidade, cometidos por surpresa ou com pouca advertência e deliberação, e (ii) os que se cometem friamente, dando-se perfeita conta de que com isso se desagrada a Deus” [3], ela não deixava de deplorar profundamente essa última espécie de faltas:

Quanto aos [pecados] veniais, cuidai muito para não fazê-los. Refiro-me aos que se cometem com advertência, pois, de outra maneira, quem estará livre de cometer muitos? Mas há uma advertência irrefletida. E há outra tão rápida que, na prática, cometer o pecado venial e refletir sobre ele são uma única coisa. Sequer chegamos a entender o que fazemos. 

Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja! Tanto mais que não pode ser pequena coisa, já que se volta contra tão grande Majestade e uma vez que sabemos que Ele está nos observando! Isso me parece pecado premeditado, como se alguém dissesse: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.” Não creio que haja pouco em coisas deste teor, por mais leve que seja a culpa, mas muito, e muitíssimo [4].

I. Concentremo-nos, primeiro, nos pecados veniais inadvertidos, a respeito dos quais se perguntava Santa Teresa: “Quem estará livre de cometer muitos?” A distinção é importante contra a ilusão de que o ser humano, na sua ascensão até Deus, pudesse desenvolver uma espécie de impecabilidade, como se deixasse de ser “livre” à medida que crescesse na união com Ele, ou como se pudesse ter, já nesta vida, a plena segurança de não mais o ofender. 

Contra essa ideia, o Concílio de Trento alerta que “nesta vida mortal, também se santos e justos, alguma vez os cristãos caem ao menos em pecados leves e quotidianos, que se chamam também veniais, sem por isso deixar de ser justos” [5], ajuntando que dessas faltas inadvertidas, cometidas por fragilidade, só “por especial privilégio de Deus” os homens podem ser poupados, como o foi a Virgem Maria, e como o pode ter sido, também, São José, seu Esposo castíssimo [6]. 

Esses pecados, explica ainda o Pe. Royo Marín, nós “nunca o poderemos evitar de todo, e Deus, que conhece muito bem o barro de que somos feitos, apieda-se facilmente de nós”. Só o que nos cabe fazer com relação a eles é “tratar de diminuir seu número até onde seja possível e evitar o desalento, que seria fatal para o avanço na perfeição e que supõe sempre um fundo de amor próprio mais ou menos dissimulado” [7].

Essa verdade lança uma luz extraordinária sobre nossa própria vida, porque nos recorda que a graça de Deus é um tesouro precioso que trazemos em vasos de barro (cf. 2Cor 4, 7). Embora seja, de fato, muito mais difícil para um santo “de sétima morada”, por exemplo, cometer um pecado mortal, ou mesmo um pecado venial plenamente advertido e deliberado — dado o progresso espiritual em que se encontra —, nesta vida ninguém pode se sentir absolutamente seguro nesse ponto. 

É por isso que, respondendo se a caridade nesta vida pode ser perfeita, no sentido de o coração do homem estar elevado sempre e atualmente para Deus, Santo Tomás de Aquino explica tratar-se de uma perfeição possível apenas na pátria celeste (cf. STh II-II 24, 8 c.). Noutro lugar ele explica ainda que, no estado de viator em que nos achamos (isto é, de viandantes, a caminho do Céu), a caridade pode, sim, ser perdida (cf. STh II-II 24, 11 c.). “Essa segurança não a teremos em vida”, advertia Santa Teresa, “porque constituiria grande perigo” [8]. Em outras palavras, o ser humano, por mais luzes e graças que tenha recebido de Deus, nesta vida ainda pode enganar-se, fazer mal a si mesmo e perder a glória do Céu.

Isso é importante para andarmos sempre desconfiados de nós mesmos e não nos esquecermos que, se viermos a nos salvar, será por pura misericórdia de Nosso Senhor, ao mesmo tempo que, se nos perdermos, será por nostra culpa, nostra maxima culpa, e de mais ninguém.

II. Voltando, porém, aos pecados veniais cometidos com pleno juízo do que se está fazendo, prestemos atenção ao realismo com que Santa Teresa os descreve. Esta santa Doutora diz que é como se nos aproximássemos de Deus e lhe disséssemos: “Senhor, farei isto mesmo que vá contra Vós; sei que o estais vendo, que não o desejais e o compreendo, mas quero antes seguir o meu capricho e o meu apetite do que a Vossa vontade.”

Explicado assim o pecado venial, não há como não nos saltar aos olhos a sua malícia. Se à pessoa que ama contrista o mínimo ato ofensivo à pessoa amada, as faltas “leves” que de propósito fazemos questão de cometer contra Nosso Senhor nada mais são do que sinais de pouco amor… Dentro de um casamento, atitudes assim, repetidas e não reparadas, vão pouco a pouco minando o relacionamento e tornando impossível a união própria do sacramento, e na vida espiritual não é diferente. O Pe. Royo Marín explica que “quando os pecados veniais se cometem friamente, dando-se perfeita conta, com plena advertência e deliberação”, eles “representam um obstáculo insuperável para o aperfeiçoamento da alma” e torna-se como que “impossível dar um passo firme no caminho da santidade” [9].

Por isso, só o que nos resta é exclamar com Santa Teresa: “Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja!” Talvez, agora, sintamo-nos meio que forçados a dizer essas palavras, sem conseguir penetrar muito a profundidade delas. A nossos sentimentos talvez parecerá um “exagero”, uma “extravagância”, lidar assim com as faltas que tantos de nós já transformamos até em “pecados de estimação”, por assim dizer. Mas isso só acontece — convençamo-nos de uma vez para sempre — porque estamos muito distantes do que somos chamados por Deus a ser, e é para essa direção (a mesma que seguiram os santos), que devemos olhar, não para nós mesmos, não para nosso egoísmo.

Peçamos, pois, a Deus que nos envie sem cessar as suas graças, para irmos compreendendo cada vez mais a malícia do pecado — não só do pecado mortal, mas também a malícia das “pequenas” ofensas, dos “pequenos” descuidos, das “pequenas” negligências. Pois é só na aparência que essas coisas são insignificantes: não pode ser realmente pequeno um pensamento, uma palavra ou uma ação que ofenda a um Deus tão grande.

Referências

  1. Card. John Henry Newman, Apologia pro vita sua (c. 7). London: Oxford University Press, 1913, p. 339.
  2. Fulton Sheen, A paz da alma. Trad. port. de Oscar Mendes. São Paulo: Molokai, 2015, p. 7.
  3. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana. Madri: BAC, 2015, pp. 288-289.
  4. Caminho de Perfeição, XLI, 3.
  5. Concílio de Trento, Decreto sobre a justificação, s. VI, 13 jan. 1547 (DH 1537).
  6. Ibid. (DH 1573).
  7. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.
  8. Caminho de Perfeição, XLI, 9.
  9. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit., loc. cit.

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O que vestimos importa sim, senhor!
Doutrina

O que vestimos importa sim, senhor!

O que vestimos importa sim, senhor!

O modo como nos apresentamos não é uma “particularidade” espiritualmente irrelevante. Também com isso nós manifestamos ao mundo ou a vida de Jesus ou um espírito contrário ao dEle.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Julho de 2019
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Todos os anos, ao entrarmos nos meses mais quentes do ano [1], volta à tona o problema da modéstia no vestir — agora ainda mais, dado que no Ocidente as pessoas parecem ter perdido até mesmo as mais elementares posturas morais e costumes sociais que antes garantiam um mínimo de autorrespeito e consideração pelos outros. Nós precisamos de nada menos que uma revolução moral, uma reconstrução de nossos mais básicos conceitos de virtude. Nem é necessário dizer que será um trabalho custoso, e que nós não seremos capazes de “virar a maré” da cultura geral (a qual seria mais acertadamente descrita, a esse ponto, como uma “anticultura”). Todavia, de modo algum é impossível reconstruir esses conceitos dentro das comunidades cristãs, contanto que haja uma vontade corajosa de tratar, com clareza e serenidade, dos assuntos que estão em jogo. É o que procurarei fazer em linhas gerais. 

De acordo com S. Tomás de Aquino, a noção de modéstia no vestir, no falar e no modo de se comportar deriva da noção de moderação, de fazer algo de uma maneira adequada, bem sopesada, e que observe um meio entre os extremos (cf. STh II-II 168; 169). No caso em exame, os extremos são, por um lado, a indecência (de longe muito mais comum nos dias de hoje) e, por outro, uma afetação de virtude e uma inibição malsã.

Como todas as virtudes morais, o hábito da modéstia não só capacita a pessoa para querer e escolher o que é certo a esse respeito, mas também a impele a fazê-lo; a modéstia torna-se uma segunda natureza, uma disposição a agir. Tomás nos recordaria, também, que essa virtude nos ajuda a apreciar os bens corporais em seu devido lugar. Quando o exigem as pessoas, o lugar e a ocasião, as paixões do apetite concupiscível são boas, instrumentos de ação virtuosa queridos por Deus.

A pessoa modesta é aquela cujas ações e aspecto externo consistentemente refletem autodomínio, bom juízo do que seja apropriado, um controle firme dos próprios sentimentos, bem como uma habilidade serena de expressar a si mesmo e de “ser” quem se é sem necessidade de alarde. Por isso, a verdadeira modéstia começa na alma para só depois chamar a atenção dos olhos ou dos ouvidos alheios. Essa modéstia interior consiste em regular toda a própria vida de uma maneira que seja calma, gentil, reverente e pura. Vestir roupas modestas ou evitar danças imodestas é algo que simplesmente “transborda” dessa condição interior.

As sociedades modernas, no Ocidente, descartaram a modéstia mais importante para a saúde básica do convívio social: a de vestir-se e comportar-se de modo a não despertar o tipo errado de atenção do sexo oposto — uma atenção animalesca, possessiva e reducionista. Na verdade, o que se ostenta, obviamente, é o vício oposto.

Infelizmente, muitos cristãos sinceros que querem levar uma vida casta parecem estar inconscientes da ligação que existe entre a pureza de coração e a modéstia exterior, entre o compromisso com a virtude e a forma de apresentar o próprio corpo às outras pessoas — uma ignorância ainda mais surpreendente quando se considera a obviedade dessa associação, que foi compreendida com muita clareza por todas as épocas, com exceção da nossa.

Por exemplo, existem jovens católicos que procuram viver a pureza, mas que continuam a se vestir como seus pares do mundo, com estilos de roupa provocativos ou inapropriados. É possível ver isso vividamente nas Jornadas Mundiais da Juventude, onde, além da imodéstia, também é bastante comum uma impressionante falta de consciência a respeito do que seja apropriado para um evento sagrado e solene. 

Nesse quesito, as pessoas de hoje parecem ter adotado um critério único: o conforto físico. Qualquer coisa que possa causar o mais remoto dos desconfortos ou dos incômodos é imediatamente rejeitada. Como resultado, ao se vestirem em dias de alta temperatura, os cristãos de maneira geral com muita frequência caem nos mesmos maus hábitos de seus pares mundanos, que não pensam nem no que é agradável a Deus, nem no que ajudará a si próprio e aos outros a viver a castidade, mas tão-somente no que é “mais fresco” ou “mais prático” de se usar. Como parte pequena de um ascetismo sadio, os cristãos devem rejeitar esse tipo de complacência e bajulação do corpo. São Paulo descreve aqueles que cremos como pessoas que “trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo” (2Cor 4, 10).

Quem nunca se impressionou com fotografias antigas e em preto e branco de nossos antepassados, os quais, debaixo de um calor sufocante de verão, usavam roupas longas e amplamente cobertas? Embora eu não sugira que voltemos ao mesmo guarda-roupas que eles tinham, digo que sim, nós faríamos bem em imitar-lhes o vigor e a propriedade. É óbvio que se deve levar em consideração circunstâncias de temperatura e de atividades, como longos passeios ao ar livre, mas há soluções modestas e imodestas para qualquer que seja a situação. Com os materiais modernos de que dispomos, vestir-se modestamente não significa vestir-se “de modo opressivo”; há à disposição, por exemplo, roupas que cobrem os ombros e chegam até os tornozelos, sendo ao mesmo tempo de um material leve, opaco e agradável.

Nós não podemos fazer de conta que o modo como tratamos nosso corpo, o modo como comemos e nos vestimos, o modo como nos apresentamos, o modo como nos comportamos, não importando se o fazemos com disciplina ou desleixo, educação ou irreflexão, responsabilidade ou ingenuidade, sejam “particularidades” espiritualmente irrelevantes. Trata-se, ao contrário, de coisas essenciais: elas também irão manifestar a vida de Jesus ao mundo, ou promover um espírito contrário ao dEle. O modo como alguém trata, exibe e faz uso de seu corpo revela muito dos trabalhos de sua própria alma: quem ela (ou ele) pensa ser, o que pensa a respeito de si mesma ou dos outros, o que espera de si e dos outros. De mais maneiras do que normalmente as pessoas imaginam, as aparências não enganam: o meio é a mensagem.

Como acontece com qualquer tópico de importância, também para este a Revelação divina tem as suas orientações: 

Quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade (1Tm 2, 9-10). 

Há uma maneira de se comportar e de se apresentar que é inseparável do modo de vida cristão; é um dos sinais que, neste mundo, distingue aqueles que crêem. A modéstia, assim como a paz, ainda que seja um bem da alma em primeiro lugar, não pára na alma, mas tem um efeito sobre todos os aspectos da vida em sociedade. O mundo moderno carece de modelos de autocontrole e de autoapresentação digna; os cristãos podem e devem ser este exemplo. A própria falta de excesso faz com que valha a pena fazer conhecida a sua presença.

A virtude da religião, por meio da qual damos de volta ao Deus infinito aquilo que somos capazes de dar, inclui a oferta a Ele daquilo que somos, nossos corpos e almas, como expressão de um amor fiel. É por isso que a modéstia é, ao mesmo tempo, consequência e salvaguarda da religião

S. Tomás diz que a santidade denota duas coisas: permanecer puro e permanecer firme. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8): felizes aqueles que, por amor a Deus e com todo o seu ser, preservam firmemente a pureza de alma e de corpo. A visão face a face de Deus, a grande meta e alegria da vida cristã, é a razão última pela qual devemos manter não só nossos corações, mas também nosso falar, nosso agir e nosso apresentar-se, puros, sem mácula, simples e sóbrios. Ao fazer isso, nosso modo de vida é conformado ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, tornando presente, em um mundo decaído e sujo, alguma coisa da límpida inocência, da paz serena e do frescor incorruptível do Espírito Santo.

Notas

  1. O autor do texto fala, evidentemente, a partir do hemisfério norte (onde o nosso inverno é verão). O Brasil, no entanto, particularidades regionais à parte, é ele todo “um país tropical”, de modo que as considerações aqui a respeito da modéstia no vestir servem-nos como uma luva o ano todo, e não somente nos meses mais quentes do ano. Também por isso, tomamos a liberdade de dar a esta tradução um título diferente do original: em inglês, este era A Christian’s guide to modesty in the hot summer months (lit.: “Um guia cristão para a modéstia nos meses quentes de verão”).

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Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?
Doutrina

Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?

Afinal, Jesus fundou a Igreja para quê?

“Construir um mundo novo”, promovendo assistencialismo, ou salvar as almas, conduzindo-as à santidade? Para que foi instituída a Igreja, dois mil anos atrás, sobre o fundamento dos Apóstolos?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)9 de Julho de 2019
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I. O problema. — A Igreja foi fundada por Cristo sobre os Apóstolos para continuarem a sua missão. E esta preposição para indica um fim, uma finalidade a ser cumprida. Ora, depois de termos estudado a Igreja como sociedade, podemos compreender melhor o fim que lhe assignou o seu divino Fundador. Agora, pois, é chegada a hora de tratarmos a fundo deste problema e dele deduzirmos todas as suas consequências.

II. Classes de fim.1. O fim último da Igreja: a glorificação de Deus. — Sendo a Igreja obra de Cristo, perguntar-se pelo fim da Igreja é o mesmo que perguntar-se para que Jesus Cristo instituiu a Igreja. No nosso modo habitual de agir, os homens costumamos ter uma série de fins subordinados aos quais nos dirigimos. Assim, o carpinteiro trabalha a madeira para construir uma porta ou uma janela; e, em última instância, para ganhar o dinheiro necessário ao seu sustento e ao de sua família. 

Também na Igreja, obra de Jesus Cristo, podemos distinguir um fim imediato e um fim último. O fim último da Igreja, como o de toda a Criação, é a glória de Deus, fim altíssimo que ela realiza ao refletir em si mesma os atributos divinos: o poder, a bondade e a misericórdia de Deus. Este reflexo de Deus na Igreja, que podemos chamar “glória objetiva” de Deus, se manifesta de mil maneiras e, sobretudo, nos sacramentos da Igreja, os quais produzem tanto a destruição do pecado (no Batismo e na Penitência) quanto o aumento da vida sobrenatural (nos chamados “sacramentos dos vivos”, sacramenta vivorum, quer dizer, destinados aos que já estão em estado de graça).

Em segundo lugar, a Igreja dá glória a Deus — glória que podemos chamar “subjetiva” — ao lhe oferecer um sacrifício de louvor e, antes de tudo, por meio do santo sacrifício da Missa, e também em todas as orações e sacrifícios com os quais louvam o nome de Deus os sacerdotes e fiéis da Igreja e lhe oferecem sacrifícios de expiação pelos pecados dos homens.

Evidentemente, não podemos aqui estudar mais a fundo esta primeira classe de fim da Igreja sem, com isso, invadir o campo da teologia dogmática, principalmente a sacramental, sem contar o da ascética e da litúrgica; no entanto, cremos ser necessário fazer ao menos uma rápida alusão a este respeito, porque sem isso a questão da finalidade da Igreja ficaria necessariamente incompleta.

2. Fim imediato da Igreja: a salvação dos homens. — De uma maneira breve e precisa nos diz qual é o fim imediato da Igreja o preâmbulo da constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano I: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas (cf. 1Pd 2, 25), querendo perpetuar a salutar obra da redenção, resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Perpetuar a obra da redenção, ou seja, tornar efetiva a salvação sobrenatural para todos os homens: eis aqui o fim imediato da Igreja. Esta afirmação não contém nada que já não saibamos: se a Igreja é a continuação de Cristo na terra e se, além disso, Cristo veio ao mundo para salvar todos os homens, a obra de Cristo não pode ter uma finalidade distinta do fim do próprio Cristo. Foi para isto que o divino Fundador constituiu na Igreja o tríplice poder de governar, ensinar e santificar, e prometeu sua assistência perene aos sucessores dos Apóstolos, para que até o fim do mundo pudessem eles ajudar as almas a encontrar o caminho da salvação.

III. Orientação histórica. 1. Doutrinas errôneas. — Os protestantes, que afirmam que a justificação do homem se deve somente à fé e à ação imediata do Espírito Santo, que atua na alma do fiel ao ler este a Palavra de Deus, rejeitam a mediação da Igreja na consecução da salvação. A Igreja tem, sim, o ministério de tornar mais fácil o contato do homem com a Palavra de Deus por meio da pregação; mas, uma vez realizada esta função, ela já não tem outra finalidade. Parece-lhes que a teoria católica “anula” o contato imediato entre Cristo e o homem e “diminui” o valor da ação redentora de Cristo.

2. Solução católica e doutrina da Igreja. — Mas nós, católicos, distinguimos dois aspectos essencialmente distintos na obra salvífica de Cristo: de um lado, a Redenção, que apenas Cristo realizou pelo sacrifício da cruz; e, de outro, a aplicação desta obra redentora a todos os homens. No primeiro sentido, como há um só Deus, “há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (1Tm 2, 5s). Mas, no segundo sentido, Jesus Cristo quis por libérrima vontade (Ele bem poderia, é claro, ter disposto as coisas de outra maneira) instituir a Igreja, a fim de que nela encontremos a santificação, ou seja, a vida da graça, que é neste mundo o penhor mais seguro de nossa felicidade perpétua no céu, vida sobrenatural que, no homem, radica no conhecimento e no amor de Deus pela fé e pela caridade.

Afirma-o claramente o proêmio do Concílio Vaticano I, que citamos mais acima (cf. DH 3050). E também o Papa Pio XII, na Encíclica “Mystici Corporis”, escreveu que Jesus Cristo quis fundar a Igreja “para perdurar na terra a obra salutífera da Redenção” (n. 63). E mais à frente: “O seu fim é altíssimo: a contínua santificação dos membros do mesmo Corpo para a glória de Deus e do Cordeiro” (n. 68), onde se expressa o duplo fim, imediato e último, da Igreja.

IV. Valoração teológica. — Já que esta verdade está contida claramente na Sagrada Escritura, como veremos mais adiante, e por ser objeto de ensinamento do Magistério ordinário como algo pertencente à fé, podemos dizer que é verdade de fé divina e católica a afirmação de que o fim da Igreja é a santificação dos homens. 

1. Ensinamento bíblico. — Os testemunhos da Sagrada Escritura que demonstram este ponto são muito numerosos. Em primeiro lugar, não há verdade mais frequentemente repetida no Novo Testamento do que esta: Cristo veio para salvar o mundo, para a santificação dos homens: 

  • “Ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1, 21);
  • “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10); 
  • “Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 17); 
  • “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância” (Jo 10, 10); 
  • “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12); 
  • “Deus enviou seu Filho […], a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a sua adoção” (Gl 4, 4s); 
  • “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter envia­do ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por Ele […], para expiar os nossos pecados” (1Jo 4, 9s).

Pois bem, quando Cristo envia solenemente os Apóstolos mundo afora, Ele o faz para que tanto eles quanto os seus sucessores continuem a mesma missão de Cristo: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 18s). Ao instituir o sacrifício do Novo Testamento na Última Ceia, Jesus manda os Apóstolos fazerem em memória sua o que Ele mesmo fez, ou seja, perpetuarem o sacrifício eucarístico até a segunda vinda do Senhor (cf. Lc 22, 19s; 1Cor 11, 23-36). E os Apóstolos, por sua vez, se consideram ministros de Cristo, dispensadores, administradores, embaixadores dos mistérios de Deus e de sua Palavra (cf. 1Cor 3, 5; 4, 1; 2Cor 4, 18.20).

Por conseguinte, se a finalidade da vinda de Cristo a este mundo foi a santificação de todos os homens, também o será a finalidade da Igreja, continuadora de sua missão na terra. Terão também o mesmo fim os que são embaixadores de Cristo e administradores dos seus mistérios.

2. Crítica da solução protestante. — A solução protestante que afirma ter a Igreja como finalidade única o ministério da Palavra e a pregação do Evangelho contradiz abertamente a Sagrada Escritura. São Paulo, por exemplo, insiste em suas cartas em falar de um verdadeiro poder de santificação conferido ao ministro da Igreja: não, obviamente, como causa principal ou por direito próprio, mas como causa instrumental e por direito recebido de Cristo, na medida em que o ministro da Igreja é vigário de Cristo na terra. É por isso que ele diz: “Que os homens nos conside­rem, pois, como simples ope­rários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), “operários com Deus” (1Cor 3, 9).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 797-800, nn. 603-613.

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