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Um pecado mortal, sete anos de Purgatório
Santos & Mártires

Um pecado mortal,
sete anos de Purgatório

Um pecado mortal, sete anos de Purgatório

Por cada pecado mortal perdoado, uma alma precisaria passar, em média, por sete anos no Purgatório. Conheça esta e outras revelações recebidas por duas místicas da Igreja Católica.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2018Tempo de leitura: 8 minutos
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Aprouve a Deus mostrar em espírito as sombrias moradas do Purgatório a algumas almas privilegiadas, as quais revelariam os mistérios dolorosos que aí se passavam para a edificação dos fiéis [1].

Foi deste número a ilustre Santa Francisca, fundadora das Oblatas, que morreu em Roma, a 9 de março de 1440. Deus a favoreceu com grandes luzes a respeito do estado das almas na outra vida. Ela viu o Inferno e os seus horríveis tormentos; viu também o interior do Purgatório e a ordem misteriosa — quase como uma “hierarquia de expiações” — que reina nesta parte da Igreja de Jesus Cristo.

“Santa Francisca Romana dando esmolas”, de Giovanni Battista Gaulli.

Em obediência a seus superiores, que se viram obrigados a lhe imporem esta obrigação, ela deu a conhecer tudo quanto Deus lhe havia manifestado; e suas visões, escritas a pedido do venerável cônego Matteotti, seu diretor espiritual, gozam de toda a autenticidade que se pode desejar nessas matérias.

A serva de Deus declara que, depois de ter suportado com horror indescritível a visão do Inferno, saiu daquele abismo e foi conduzida por seu guia celestial até as regiões do Purgatório. Ali não reinava nem o terror nem a desordem, nem o desespero nem a escuridão eterna; ali a esperança divina difundia sua luz, de modo que, como lhe disseram, este lugar de purificação também era chamado de “estadia de esperança”. Ela viu ali almas que sofriam cruelmente, mas anjos as visitavam e assistiam em seus sofrimentos.

O Purgatório, ela dizia, é dividido em três partes distintas, que são como que as três grandes províncias daquele reino de sofrimento. Elas estão situadas uma abaixo da outra, e são ocupadas por almas de diferentes ordens, estando estas mais profundamente submersas quanto mais contaminadas e distantes estiverem da hora de sua libertação.

A região mais baixa é repleta de um fogo violento, mas não tão obscuro quanto o do Inferno; trata-se de um vasto mar de fogo, do qual são expelidas chamas imensas. Inumeráveis almas encontram-se mergulhadas nessas profundezas: são aquelas que se tornaram culpadas de pecados mortais, devidamente confessados, mas não suficientemente expiados em vida. A serva de Deus então aprendeu que, por cada pecado mortal perdoado, resta à alma culpada passar por um sofrimento de sete anos [2]. Esse prazo não pode evidentemente ser encarado como uma medida definitiva, mas como uma pena média, já que pecados mortais diferem em enormidade. Ainda que as almas estejam envoltas pelas mesmas chamas, seus sofrimentos não são os mesmos: eles variam de acordo com o número e a natureza dos pecados cometidos.

Neste Purgatório mais baixo a santa notou a presença de leigos e de pessoas consagradas a Deus. Os leigos eram aqueles que, depois de uma vida de pecado, tiveram a alegria de se converterem sinceramente; as pessoas consagradas a Deus eram aquelas que não haviam vivido de acordo com a santidade do seu estado de vida.

Naquele mesmo momento, ela viu descer a alma de um sacerdote conhecido dela, mas cujo nome ela não revela: o padre tinha a face coberta com um véu que escondia uma mancha. Embora tenha levado uma vida edificante, este padre não havia sempre observado com rigor a virtude da temperança, tendo procurado mui ardentemente as satisfações da mesa.

A santa foi conduzida então ao Purgatório intermediário, destinado para as almas que haviam merecido um castigo menos rigoroso. Aí havia três distintos compartimentos: um que lembrava um imenso calabouço de gelo, cujo frio era indescritivelmente intenso; o segundo, ao contrário, era como um grande caldeirão de óleo e massa fervente; o terceiro tinha a aparência de um lago de metal líquido semelhante a ouro ou prata fundidos.

O alto Purgatório, que a santa não descreve, é a morada temporária das almas que menos sofrem — com exceção da pena de perda [3] —, e estão muito próximas do feliz momento de sua libertação.

Tal é, em substância, a visão de Santa Francisca Romana relativa ao Purgatório.

O que segue, agora, é um registro de Santa Maria Madalena de Pazzi, uma carmelita de Florença, tal como vai relatado em sua biografia, escrita pelo pe. Cepare. Sua revelação dá uma figura mais completa do Purgatório, ao passo que a visão precedente não faz senão traçar os seus contornos.

Santa Maria Madalena de Pazzi, em uma pintura de Pedro de Moya.

Algum tempo antes de sua morte, que aconteceu em 1607, a serva de Deus, M.ª Madalena de Pazzi, estando uma noite com várias outras religiosas no jardim do convento, foi arrebatada em êxtase e viu o Purgatório aberto diante de si. Ao mesmo tempo, como ela deu a conhecer depois, uma voz lhe fez o convite para visitar todas as prisões da Justiça divina e contemplar como são verdadeiramente dignas de compaixão todas as almas detidas neste lugar.

Neste momento, ouviu-se ela dizer: “Sim, eu irei”, consentindo em empreender esta dolorosa jornada. De fato, ela caminhou por duas horas em torno do jardim, o qual era muito grande, fazendo pausas de tempos em tempos. A cada vez que interrompia o passo, ela contemplava atentamente os sofrimentos que lhe eram mostrados. Ela foi vista, então, apertando com força as mãos e pedindo compaixão, seu rosto tornou-se pálido e seu corpo curvou-se sob o peso do sofrimento, em presença do terrível espetáculo com o qual ela se confrontava.

A santa começou a lamentar em alta voz: “Misericórdia, meu Senhor, misericórdia! Descei, ó Sangue Precioso, e libertai estas almas de sua prisão. Pobres almas! Sofreis tão cruelmente e, no entanto, estais tão contentes e alegres. Os cárceres dos mártires, em comparação com estes, eram jardins de deleite. Não obstante, existem outros ainda mais profundos. Quão feliz sorte seria a minha, se não fosse obrigada a descer para estes lugares!”

Ela desceu, no entanto, porque foi forçada a continuar seu caminho. Tendo dado alguns passos, porém, ela parou aterrorizada e, suspirando, gritou: “Quê? Até religiosos nesta morada sombria! Bom Deus, como eles são atormentados! Ah, Senhor!” A santa não explica a natureza dos sofrimentos que tinha diante dos olhos, mas o horror que ela manifestava ao contemplá-los fazia com que ela suspirasse a cada passo que dava.

Daí ela passou a lugares menos obscuros. Eram as prisões das almas simples e de crianças nas quais a ignorância e a falta de razão extenuaram muitas faltas. Seus tormentos pareciam à santa muito mais suportáveis que os das outras pessoas. Nada havia ali a não ser gelo e fogo. Ela notou que estas almas tinham consigo seus anjos da guarda, os quais as fortificavam enormemente com sua presença; mas ela também via demônios cujas formas pavorosas faziam aumentar seus sofrimentos.

Avançando um pouco mais o passo, ela viu almas ainda mais desafortunadas, e ouviu-se ela gritar: “Ó, quão horrível é este lugar! Ele é cheio de demônios horrendos e tormentos inacreditáveis! Quem, ó meu Senhor, são as vítimas dessas cruéis torturas? Ai! Elas estão sendo perfuradas com espadas afiadas, elas estão sendo cortadas em pedaços.” Foi-lhe revelado, então, que aquelas eram as almas cuja conduta havia sido contaminada pela hipocrisia.

Avançando um pouco, ela viu uma grande multidão de almas que eram feridas, por assim dizer, e esmagadas sob uma prensa; e ela entendeu que aquelas eram as almas que se haviam apegado à impaciência e à desobediência durante suas vidas. Ao contemplá-las, os olhares, os suspiros e toda a atitude da santa exprimiam compaixão e terror.

Um momento depois sua agitação aumentou, e a santa soltou um grito terrível. Era o cárcere dos mentirosos que agora se abria diante dela. Depois de o considerar atentamente, ela gritou bem alto: “Os mentirosos são confinados em um lugar na vizinhança do Inferno, e seus sofrimentos são excessivamente grandes. Chumbo fundido é derramado dentro de suas bocas; eu os vejo queimar e, ao mesmo tempo, tremer de frio.”

Ela foi então à prisão daquelas almas que haviam pecado por fraqueza, e ouviu-se ela exclamar: “Ai! Eu havia pensado que os encontraria entre aqueles que haviam pecado por ignorância, mas eu me enganei; vós queimais com um fogo mais intenso.”

Mais adiante, ela observou almas que se haviam apegado demais aos bens deste mundo e haviam pecado por avareza. “Que cegueira”, ela disse, “ter buscado tão ardentemente uma fortuna perecível! Aqueles a quem as riquezas não puderam saciar o suficiente aqui são devorados com tormentos. Eles se fundem como metal na fornalha ardente.”

Daí ela passou ao lugar onde as almas aprisionadas haviam se manchado com a impureza. Ela as viu em um cárcere tão sujo e pestilento que a visão lhe deu náuseas, e ela imediatamente deu as costas àquele espetáculo repugnante. Vendo os ambiciosos e os orgulhosos, ela disse: “Vede aqueles que quiseram brilhar diante dos homens! Agora estão condenados a viver nesta escuridão pavorosa.”

Foram-lhe mostradas, então, aquelas almas que haviam sido culpadas de ingratidão para com Deus. Elas eram vítimas de tormentos indescritíveis e afogadas, por assim dizer, em um lago de chumbo fundido, por haver feito secar, com sua ingratidão, a fonte da piedade.

Finalmente, em um último cárcere, foram-lhe mostradas as almas que não se tinham dado a nenhum vício em particular, mas que, por falta da devida vigilância sobre si mesmas, cometeram todo tipo de faltas triviais. A santa notou que estas almas tomavam parte nos castigos de todos os vícios, em um grau moderado, porque as faltas que elas cometeram apenas de tempos em tempos tornaram-nas menos culpadas do que aqueles que as tinham cometido habitualmente.

Após esta última estação, a santa deixou o jardim, implorando a Deus que nunca mais a fizesse testemunha de um espetáculo tão desolador: ela sentia que não tinha forças para suportá-lo.

Seu êxtase continuou, no entanto, e conversando com Jesus ela falou: “Dizei-me, Senhor, qual era o vosso desígnio em descobrir-me aquelas terríveis prisões, das quais eu sabia tão pouco e agora compreendo ainda menos? Ah, agora eu vejo: quisestes dar-me o conhecimento de vossa infinita santidade e fazer-me detestar cada vez mais a mínima mancha de pecado, tão abominável aos vossos olhos.”

Notas

  1. Vale a pena recordar aquilo que ensina o Catecismo da Igreja Católica a respeito de revelações como estas: “No decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela com mais plenitude em determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou de seus santos à Igreja.” (§ 67)
  2. Importante frisar: o título desta matéria diz respeito aos pecados mortais devidamente confessados, dos quais a alma, antes de morrer, efetivamente se arrependeu. Caso contrário, a pena devida por eles não é o Purgatório, mas o Inferno
  3. “A pena de perda consiste em estar privado, por um tempo, da visão de Deus, que é o supremo Bem, o fim beatífico para o qual foram feitas as nossas almas, assim como nossos olhos são para a luz. É um desejo ardente (moral thirst, lit., ‘sede moral’) que tormenta a alma.” (“Purgatory...”, p. 24)

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Os mártires não são “pop”
Santos & Mártires

Os mártires não são “pop”

Os mártires não são “pop”

Com sua vida e, sobretudo, com sua morte, os mártires escancaram a falsidade do indiferentismo religioso reinante. Por isso, o que pode explicar a atual impopularidade deles, mesmo entre os católicos, senão a apostasia da fé?

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“É mártir que não acaba mais”: nestes últimos dias, em seu rito antigo, a Igreja celebra, em sequência, Santa Prisca (18), os santos Mário, Marta, Audíface e Ábaco (19), São Fabiano e São Sebastião (20), Santa Inês (21), São Vicente e Santo Anastácio (22). Atualmente, conservou-se como obrigatória na liturgia apenas a memória de Santa Inês, cujo nome consta na mais antiga oração eucarística da Igreja, o Cânon Romano

Mas, ainda que a liturgia atual tenha reduzido bastante o número de santos do calendário, todo católico pode ter contato diário com os mártires de sua fé através de um livro chamado Martirológio Romano. Em dois mil anos de história, foram tantas as pessoas que testemunharam Cristo a ponto de derramar o próprio sangue que, para cada dia do ano, há pelo menos alguma delas para celebrar, recordar e invocar [1].

O fato, porém, é que não só perdemos contato com os mártires como a própria “teologia do martírio”, por assim dizer, saiu um pouco de moda. Como vivemos em um tempo de apostasia generalizada, a verdade é que muitos já não creem que realmente valha a pena ter os mártires como inspiração, admiração ou modelo a ser imitado. Diante de um Deus “avô”, que não castiga mais o pecado nem condena ninguém ao inferno, o peso dos atos humanos foi totalmente relativizado. Assim, não faz diferença, na prática, obedecer ou não a Deus, seguir ou não os seus Mandamentos, cometer aqui e ali um “deslize” ou outro. Desde que haja uma disposição geral e abstrata para “seguir Jesus”, “ser bom”, “viver o amor” — ainda que ninguém saiba, na prática, o que isso significa —, o que o ser humano faz ou deixa de fazer não importa. 

Essa moral laxa casa muitíssimo bem com o indiferentismo religioso reinante: tanto faz ser católico, protestante, espírita, umbandista, budista ou o escambau. O importante é seguir algum deus — ou, às vezes, nem isso, pois dá para ser ateu também e seguir simplesmente uma “filosofia de vida”. 

É principalmente por isso que os mártires não estão na moda. Porque eles, com sua vida e, sobretudo, com sua morte, denunciam e escancaram a falsidade desse pensamento. Os mártires apenas acreditavam no que a Igreja lhes tinha transmitido (ou seja, eles não criam em qualquer coisa), e por isso, simplesmente por isso, morriam. As mentes modernas, ao se depararem com qualquer relato do Martirológio, dizem: “São loucos”. E que seja assim não nos deve impressionar, pois a sabedoria de Cristo é, de fato, loucura para o mundo (cf. 1Cor 1, 18-25). Estranho mesmo é que os próprios seguidores de Cristo pensem assim e desprezem sua própria história e antepassados. 

Não deveria ser dessa forma, mas de fato é.

O martírio e a caridade

Como remédio para essa mentalidade mundana que infelizmente contaminou muitos membros da Igreja, é preciso que repassemos rapidamente algumas noções sobre o martírio. Guiar-nos-á neste breve artigo Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 124). 

Antes, porém, de passar ao que diz o Aquinate, importa considerar que esta valiosa lição de sua pena vem, na verdade, do próprio Evangelho e parte de um pressuposto muito simples: o de que existe uma “escala” de bens, sendo que, pelos superiores, vale a pena sacrificar os inferiores. Melior est misericordia tua super vitas, diz a Deus o salmista: “A tua misericórdia é melhor que todas as vidas” (Sl 62, 4). Numa análise simples de quem tem fé, morrer para ganhar a vida eterna não é (ou não deveria ser) nenhuma loucura. Trata-se simplesmente de escolher o bem maior. 

Os carrascos dos mártires geralmente lhes apresentavam uma saída aparentemente bem “simples”: realizar um determinado ato, pecaminoso, e livrar-se da morte. Bastava lançar um punhado de incenso diante da imagem do imperador. Bastava pisar uma imagem da Virgem Maria ou de Jesus. O mártir, porém, diz Santo Tomás, “nos propõe desprezar o mundo visível pelas realidades invisíveis” (4c.), a terra pelo Céu, o prazer momentâneo pela glória eterna, a vida deste mundo pela vida com Deus. Convenhamos: uma troca justa e, à luz da fé, perfeitamente racional.

É por isso que todo cristão deve estar disposto a sofrer o martírio, caso se lhe apresente a ocasião (1c.), como se repetisse com o salmista: Paratum cor meum, Deus, paratum cor meum — “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2). E por que isso? Porque o martírio é um ato de virtude, ao qual faz referência o próprio Jesus, nas suas bem-aventuranças: “Felizes aqueles que sofrem perseguição pelo amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 10).

Sofrer perseguição, no entanto, é diferente de buscá-la. É preciso ter o coração sempre pronto, mas isso não significa oferecer-se presunçosamente ao martírio. Cristo, por exemplo, por várias vezes saiu do meio de seus perseguidores, quando eles pegaram em pedras para matá-lo (cf. Mt 12, 14-15; Jo 8, 59). “Um homem nunca deve oferecer a outro uma ocasião de agir injustamente”, diz o Doutor Angélico. “Mas se o outro agir injustamente, o primeiro deve suportá-lo na medida do que sente” (1 ad 3).

Além disso, o martírio é um ato impossível sem a graça de Deus e sem a virtude da caridade, que o anima. Sem amor, recorda o Apóstolo, de nada valeria entregar o próprio corpo às chamas (cf. 1Cor 13, 3). Mas é tal a ligação entre o martírio e a caridade que Santo Tomás chega a ensinar o seguinte:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (3c.).

Um mártir incomum

Para exemplificar a supremacia desse testemunho dos mártires, contemos a história de um mártir tanto quanto incomum: um que, diferentemente de uma Santa Prisca ou de uma Santa Inês, levou uma vida pouco íntegra; um que morreu como santo, mas viveu mal — um “filho” de São Dimas, em suma.

E por que contar uma vida assim? Para animar-nos! Pois, ao celebrarmos na liturgia santos de estatura elevada, de vida íntegra e reputação ilibada, talvez nos sintamos um pouco intimidados e até desanimados. Prisca e Inês, por exemplo, além de mártires, foram virgens — termo que nos assusta porque, infelizmente, nós somos aquela sociedade profetizada por Nossa Senhora do Bom Sucesso, na qual quase já não existem mais “almas virgens”. (Isto é, com a atmosfera de impureza que respiramos, até as pessoas que, “tecnicamente”, são virgens, infelizmente estão com o coração contaminado.) Cristo, porém, como lemos no Evangelho, veio não para os justos, mas para os pecadores. Foi justamente 

[…] o caso de Santo André Wouters, um padre diocesano em Gorcum, na Holanda. Ele era conhecido por sua embriaguez pública, pelos múltiplos casos amorosos que mantinha e por ser pai de inúmeros filhos, apesar de seu voto de celibato. Corsários calvinistas tomaram a cidade e começaram a matar padres e religiosos. De acordo com alguns relatos, ele escolheu juntar-se a eles no cativeiro, onde foi ridicularizado por sua vida de devassidão, infidelidade e escândalo nas mãos dos carrascos calvinistas. Em 9 de julho de 1572, Pe. André Wouters foi executado, ao lado de outros 18 padres e religiosos, por ser católico. Quando o laço foi colocado em volta de seu pescoço, ele foi questionado por seus algozes se renunciaria à sua fé na Eucaristia e no papado a fim de salvar a própria vida. As últimas palavras do Pe. Wouters a seus carrascos foram: “Fornicador eu fui, herege nunca”. Ele seria canonizado pelo Beato Papa Pio IX, juntamente com os outros mártires de Gorcum, em 1865. Sua fé e seu amor a Cristo, exemplificados em seu ato de martírio, expiaram os pecados de sua vida terrena para trazê-lo, pela graça de Deus, à glória celeste [2].

“Fornicador eu fui, herege nunca”: ao reconhecer humildemente a própria culpa e indignidade, numa espécie de ato final de contrição, este sacerdote demonstrava que ninguém foi feito para o pecado, nem mesmo os pecadores. Não é porque um homem cai que deve permanecer deitado, não é porque está sujo que deve ficar imundo para sempre. Em suas palavras se vê também um senso correto da gravidade dos pecados: a é maior do que a temperança; Deus é maior do que o corpo; por isso, a heresia é pior do que a fornicação.

Os mártires de Gorcum, retratados por Cesare Fracassini.

Além disso, Pe. André Wouters não “aprovava” o seu pecado. O relato dá a entender que ele suportou com paciência o escárnio de seus perseguidores, começando já aí a reparar sua má conduta passada. E o verbo empregado no passado, “fui”, também mostra como ele já não se identificava com a sua miséria. Nas mãos dos hereges calvinistas, ele certamente se viu bem próximo da morte e abraçou aquela situação como uma oportunidade única de se emendar e redimir.

E foi justamente o que aconteceu. É tal a grandeza do martírio, que extinguiu todos os pecados passados deste padre devasso no fogo abrasado de caridade que o animou a entregar a própria vida! Há, pois, esperança para os pecadores. A misericórdia de Deus se derrama realmente com abundância sobre aqueles que se arrependem sinceramente de seus pecados e procuram consertar sua vida. 

Ao celebrarmos os mártires, portanto, lembremo-nos do grande amor que os impulsionou a entregar a própria vida por Cristo, e celebremos esta grande graça que eles receberam das mãos de Deus. Pois digno mesmo ninguém é de receber tamanha honra — nem Santa Prisca, nem Inês, nem Sebastião, nem Santo André. Isso, porém, não relativiza o sacrifício que eles realmente ofereceram para permanecer fiéis a Jesus e incorporados na única Igreja fundada por Ele — Igreja fora da qual eles acreditavam piamente não haver salvação

Se não acreditassem nisso, não teriam morrido. 

E se isso não for verdade, então eles morreram todos em vão.

Notas

  1. Os fiéis que rezam as Horas canônicas na sua forma antiga podem ter contato com o Martirológio diariamente ao recitar a hora Prima (que foi abolida da atual Liturgia das Horas).
  2. Fr. Matthew MacDonald, On the Limits and Failures of Saints. In: Catholic World Report, 2 jan. 2021.

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Três Ps que os homens precisam imitar em São José
Espiritualidade

Três Ps que os homens
precisam imitar em São José

Três Ps que os homens precisam imitar em São José

São José foi dado a todos como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dela provêm todas as outras virtudes que ele possui. Destas, porém, três são especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

Pe. Dwight LongeneckerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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“Não é por acaso”, eu disse a Miguel, “que toda igreja católica tem uma imagem de São José na frente” [1].

Miguel tinha vindo se confessar e buscar aconselhamento para superar seus fracassos como marido e pai. Ele foi pego na armadilha da pornografia e da ambição. Ele tomou algumas decisões fáceis, mas ruins. O estresse se acumulou e o apego ao trabalho começou a piorar. Miguel começou a negligenciar a relação com sua esposa e filhos — considerando-os um fardo e um incômodo. Por causa disso, sua esposa estava ameaçando pedir o divórcio. Miguel, então, veio me procurar porque a realidade o havia atingido como um banho de água fria.

“São José”, continuei, “nos é dado como modelo de pai e de esposo. Sua principal virtude é a fidelidade, e dessa fidelidade provêm todas as outras virtudes que ele possui”.

No Evangelho de São Mateus, São José é descrito como “um homem justo”. Outras versões traduzem o texto dizendo que ele era “fiel à Lei”. Em outras palavras, José se submeteu à lei de Deus, e foi essa obediência essencial e fidelidade à vontade de Deus que formou o alicerce de sua vida. São José viveu de fato aquele versículo do Evangelho que diz: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6, 33).

A fidelidade de São José, como pai adotivo de Jesus, deu origem a uma série de outras virtudes, mas há três, que vemos nas narrativas do Natal, especialmente necessárias para os homens que desejam seguir os seus passos.

1. Pureza. — A primeira virtude que nasce da fidelidade de São José é a pureza. Numa época em que a pornografia e a imoralidade desenfreada propagam-se ao nosso redor, a pureza pode parecer passiva e covarde. Mas a pureza passiva e fraca não é uma virtude masculina. Em vez disso, a verdadeira pureza é forte. A verdadeira pureza está enraizada não apenas no ato de evitar o pecado sexual, mas numa fidelidade positiva e operante.

O homem fiel à esposa e ao chamado cristão à castidade percorre um caminho de liberdade e força. Uma pureza enraizada na fidelidade à vontade de Deus e ao caminho divino revela uma sexualidade totalmente madura e integrada. O homem viril e puro num sentido positivo compreende o impulso fecundo da sexualidade e o trata como uma força poderosa em sua vida — não simplesmente como um brinquedo, ou algo a ser temido e reprimido. Essa pureza positiva, em São José, estava presente na aceitação da Virgem Maria como sua esposa, na sua capacidade de se abster de relações sexuais com ela e na poderosa canalização de sua sexualidade para o serviço de um amor maior.

“O Sonho de São José”, por Antonio Palomino.

2. Paciência. — A segunda virtude que se desenvolve com a fidelidade de São José é a paciência. São José é um protótipo do homem forte e silencioso. Ele olha e espera. Observa a situação com atenção. Ele é capaz de parar, olhar e ouvir. Ele não reage impulsivamente, mas se contém, para poder agir com cuidado, no momento certo, após considerar todos os fatos.

A paciência de José cresce com a fidelidade, porque toda a sua vida esteve enraizada na lei de Deus. Por meio de uma vida de estudo e oração, um homem judeu da geração de José aprendia a ouvir a Deus, confiar nele e, depois, obedecer-lhe. Para desenvolver uma vida espiritual tão profunda são necessários trabalho árduo, perseverança e paciência — uma virtude que vemos em seu cuidadoso zelo com Maria e o Menino Jesus, e que precisamos desenvolver em nosso mundo altamente sobrecarregado, impulsivo e acelerado.

3. Prudência. — A terceira virtude erigida sobre o alicerce da fidelidade de São José é a prudência, que consiste no discernimento sábio e cuidadoso que nos permite escolher o caminho certo. Constata-se a prudência de São José quando ele encontra abrigo para Maria, que estava prestes a dar à luz. Também a sua escolha de fugir para o Egito e retornar apenas quando fosse seguro revela um guardião de Cristo prudente, maduro e sábio. Mais uma vez, a virtude da prudência de São José está enraizada em sua fidelidade, porque sua profunda confiança na providência de Deus o capacita a correr riscos e fazer as escolhas certas, sabendo que Deus cuida de tudo.

A narrativa do Natal é maravilhosa não apenas porque está carregada de elementos sobrenaturais, como um nascimento milagroso, anjos e uma estrela-guia, mas também porque está repleta da força extraordinária de pessoas ordinárias como São José. A pureza, a paciência e a prudência que ele demonstra são um lembrete para pessoas como Miguel, que estão lutando com as responsabilidades do casamento e da paternidade. O casamento dele estava uma bagunça porque ele carecia de pureza, paciência e prudência; e ele não tinha essas virtudes porque lhe faltava primeiro aquela profunda fidelidade a Deus, da qual essas virtudes se originam. Quando fui capaz de orientá-lo a redefinir as prioridades de sua vida e a desenvolver uma devoção genuína a São José, começamos a ver essas mesmas virtudes florescerem na vida dele e sua vida familiar começou a tomar a direção certa.

As festividades de Natal, que acabamos de viver, são uma oportunidade não apenas para encher a barriga e reunir a família e os amigos [2]. Precisamos também redefinir nossas prioridades, determinar mais uma vez que edificaremos nossa casa sobre o alicerce de Cristo e, a exemplo de São José, assegurar que toda a nossa vida gire em torno do Menino que está sobre a manjedoura.

Notas

  1. Embora seja frequente a presença de imagens de São José nas igrejas, infelizmente não são todas que a possuem. Em todo o caso, entende-se a colocação do autor no sentido de que “deveriam ter”, visto ser ele o Patrono da Igreja Católica. Além disso, o padre fala a partir do contexto dos Estados Unidos, onde ele mora.
  2. Sobre a importância de estender as comemorações do tempo do Natal, cf. Peter Kwasniewski, Até quando devemos festejar o Natal?.

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Novena a São João Bosco
Oração

Novena a São João Bosco

Novena a São João Bosco

Esta novena a São João Bosco pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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Esta novena a São João Bosco, “pai e mestre da juventude”, pode ser feita a qualquer tempo, mas é especialmente recomendada de 22 a 30 de janeiro, dias que precedem a sua memória litúrgica. 

O texto abaixo encontra-se relativamente difundido na internet. Nossa equipe ficou responsável apenas por revisá-lo e organizá-lo melhor. A novena, em si, divide-se em três partes: 1.º, uma inicial, a ser feita todos os dias; 2.º, uma própria do dia; e, 3.º, uma última, também comum a todos os dias. Quem preferir, também pode acessar a novena neste arquivo .pdf.


Oração Inicial
(todos os dias)

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Vinde Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. 

℣. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado,
℟. E renovareis a face da terra.

Oremos: Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis
com a luz do Espírito Santo,
fazei que apreciemos retamente todas as coisas,
segundo o mesmo Espírito,
e gozemos sempre da sua consolação.
Por Cristo Senhor Nosso. Amém.

Oração a Dom Bosco

Ó Glorioso São João Bosco,
quando estáveis nesta terra,
não havia ninguém que, acudindo a vós,
não fosse por vós mesmo
benignamente recebido, consolado e ajudado.
Agora no céu, onde a caridade atinge a perfeição,
quanto deve arder vosso grande coração
em amor aos necessitados!
Vede, pois, as minhas presentes necessidades
e ajudai-me, obtendo-me do Senhor a graça...
(pede-se a graça).
Também vós haveis experimentado durante a vida
as privações, as enfermidades, as contradições,
a incerteza do porvir, as ingratidões, as afrontas,
as calúnias, as perseguições e sabeis que coisa é sofrer.
Por isso, ó Dom Bosco santo,
volvei até mim vosso bondoso olhar
e obtende do Senhor quanto vos peço,
se for vantajoso para minha alma;
e se assim não o for, obtende alguma outra graça
que me seja ainda mais útil
e uma conformidade filial à divina vontade
em todas as coisas,
ao mesmo tempo que uma vida virtuosa
e uma santa morte. Amém.


Primeiro Dia

“Quereis que o Senhor vos conceda muitas graças? Visitai-o frequentemente. Quereis que Ele vos conceda poucas? Visitai-o raramente.”

Glorioso São João Bosco, pelo amor ardente que tivestes a Jesus Sacramentado e pelo zelo com que propagastes seu culto, sobretudo com a assistência da Santa Missa, com a Comunhão frequente e com a visita cotidiana ao Santíssimo Sacramento; alcançai-nos a graça de crescer cada vez mais no amor e na prática de tão santas devoções, e de terminar nossos dias fortalecidos e confortados pelo celestial alimento da Divina Eucaristia.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Segundo Dia

“Quem confia em Maria nunca ficará desiludido”

Glorioso São João Bosco, pelo amor que tivestes à Virgem Auxiliadora, vossa mãe e mestra; alcançai-nos uma verdadeira e constante devoção a tão dulcíssima mãe, a fim de que, como filhos seus devotíssimos, possamos merecer seu valioso patrocínio nesta vida e de um modo especial na hora de nossa morte.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Terceiro Dia

“A oração é o primeiro alimento, como o pão é o alimento do corpo. Há que rezar com uma ilimitada esperança de ser ouvidos”

Glorioso São João Bosco, pelo amor filial que tivestes à Santa Igreja e ao Sumo Pontífice, a quem defendestes constantemente; alcançai-nos a graça de ser sempre dignos filhos da Igreja Católica, e de amar o Papa e venerar nele a infalibilidade de Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quarto Dia

“Em cada manhã entregai a Deus as ocupações do dia; e fazei cada coisa como se fosse a última da vossa vida”

Glorioso São João Bosco, pelo grande amor com que amastes a juventude, fazendo-se pai e mestre dela, e pelos heroicos sacrifícios que fizestes por sua salvação; fazei que também nós amemos com um amor santo e generoso a esta porção eleita do Sagrado Coração de Jesus, e que em todo jovem contemplemos a pessoa adorável de nosso divino Salvador.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Quinto Dia

“A oração faz violência ao coração de Deus”

Glorioso São João Bosco, vós que, a fim de continuar a estender sempre mais vosso santo apostolado, fundastes a Sociedade Salesiana e o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora; fazei que os membros destas duas famílias religiosas estejam sempre cheios de vosso espírito e sejam fiéis imitadores de vossas heroicas virtudes.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sexto Dia

“Dom Bosco, em sua vida, jamais será capaz de afastar quem lhe peça para ficar com ele”

Glorioso São João Bosco, vós que a fim de obter no mundo mais abundantes frutos de exercício da fé e de terníssima caridade, instituístes a União dos Cooperadores Salesianos; fazei que estes sejam sempre modelos das virtudes cristãs e providenciais ajudantes de vossas obras.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Sétimo Dia

“Ajude sempre os seus colegas. Mesmo que lhe custe sacrifício. A santidade está toda aqui”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com amor inefável a todas as almas, e que para salvá-las enviastes vossos filhos até os últimos confins da terra; fazei que também nós pensemos continuamente na salvação de nossas almas e cooperemos com todos os meios possíveis para salvar tantos pobres irmãos nossos.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Oitavo Dia

“Amem muito a castidade. Lembrem-se, para conservá-la é precioso trabalhar e rezar.”

Glorioso São João Bosco, vós que amastes com um amor de predileção a bela virtude da pureza, e a tomastes como exemplo, com a palavra e com os escritos; fazei que também nós, enamorados de tão indispensável virtude, a pratiquemos constantemente e a difundamos com todas nossas forças.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.

Nono Dia

“Quem perseverar até o fim, será salvo”

Glorioso São João Bosco, vós que fostes sempre tão compassivo com as humanas desventuras, dirigi um olhar a nós, tão necessitados de vosso auxílio. Fazei descer sobre nós e sobre nossas famílias as maternais bênçãos de Maria Auxiliadora; alcançai-nos todas aquelas graças espirituais e temporais de que necessitamos: intercedei por nós na vida e na morte, a fim de que possamos cantar eternamente as divinas misericórdias no Paraíso Celestial.

Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória.


Oração Final
(todos os dias)

Deus, qui sanctum Joánnem Confessórem tuum
adolescéntium patrem et magístrum excitásti,
ac per eum, auxiliatríce Vírgine María,
novas in Ecclésia tua famílias floréscere voluísti:
concéde, quǽsumus;
ut, eódem caritátis igne succénsi,
ánimas quǽrere, tibíque soli servíre valeámus.
Per Dóminum nostrum Iesum Christum, Filium tuum:
Qui tecum vivit et regnat
in unitáte Spíritus Sancti, Deus:
per omnia sǽcula sǽculorum. ℟. Amen.

Ó Deus, que suscitaste São João, vosso Confessor,
como pai e mestre dos jovens
e por ele, auxiliado pela Virgem Maria,
quisestes florescessem novas famílias em vossa Igreja,
concedei, vos rogamos,
que, inflamados pelo mesmo fogo da caridade,
busquemos as almas
e a vós somente sirvamos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que convosco vive e reina
na unidade do Espírito Santo. ℟. Amém.

Oração a Nossa Senhora Auxiliadora
(composta por São João Bosco)

O Maria, Vergine potente,
Tu grande illustre presidio della Chiesa;
Tu aiuto meraviglioso dei Cristiani;
Tu terribile come esercito schierato a battaglia;
Tu sola hai distrutto ogni eresia in tutto il mondo;
Tu nelle angustie, nelle lotte, nelle strettezze
difendici dal nemico e nell'ora della morte
accogli l'anima nostra in Paradiso!
Amen.

Ó Maria, Virgem poderosa,
vós, grande e ilustre defensora da Igreja;
vós, Auxílio maravilhoso dos cristãos,
vós, terrível como um exército em ordem de batalha;
vós, que, sozinha, destruístes toda heresia no mundo inteiro;
nas angústias, nas lutas, nas aflições,
defendei-nos do inimigo;
e, na hora da morte,
acolhei a nossa alma no Paraíso!
Amém.

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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