Em 7 de julho de 1860, em Kaliště, uma aldeia na fronteira com a Morávia, então parte do Império Austríaco, nasceu numa família de comerciantes judeus de origem alemã o compositor e maestro que levou a sinfonia ao triunfo e à crise: Gustav Mahler (1860–1911).

O compositor Gustav Mahler.

De origem judaica e batizado em 1897, esse músico da Boêmia é lembrado por suas nove sinfonias e meia e, igualmente, por seus diversos ciclos de canções com orquestra, nos quais combinam-se diferentes aspectos do Romantismo. Embora suas composições tenham sido rejeitadas em grande medida até o início da década de 1960, Mahler foi posteriormente considerado um importante precursor dos desenvolvimentos musicais do século XX.

Sua música recebeu o rótulo de Entartete Musik, ou “música degenerada”. Por causa desse rótulo, músicos judeus — bem como eslavos e, em geral, não-arianos — foram proibidos de apresentar-se nos países do Terceiro Reich.

A censura afetou compositores — do passado e do presente —, intérpretes, a música atonal e de vanguarda, bem como o jazz, o swing e tudo o que estivesse associado à música negra americana. E foi assim que compositores como Mendelssohn, Meyerbeer, Mahler, Schoenberg, Weill, Hindemith, Stravinsky e Gershwin foram considerados portadores de elementos não alemães e sofreram ataques; enquanto Bach, Haendel, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Weber, Schumann, Brahms, Wagner e Bruckner eram vistos como mestres de uma linguagem musical puramente germânica e repercutiam em todo o Terceiro Reich.

A vida de Mahler em Viena foi marcada por um antissemitismo em ascensão. O Reichspost, um jornal diário, publicou o seguinte em 14 de abril de 1897: 

Em nossa edição de 10 de abril, publicamos uma nota sobre a figura do recém-nomeado maestro da Ópera [da Corte de Viena], Mahler. Na ocasião, já tínhamos uma ideia da origem dessa celebridade e, por isso, evitamos publicar qualquer coisa além dos fatos puros e simples [...]. A imprensa judaica verá se os elogios com que cobrem o seu ídolo neste momento não serão levados pela chuva da realidade assim que o senhor Mahler começar a espalhar as suas interpretações iídiches [=judeo-alemãs] a partir do palco [i]. 

Ele acabou sendo afastado do cargo por uma campanha de imprensa venenosa em 1907, que alegava “má gestão” da Ópera da Corte de Viena por parte de Mahler.

O maestro Leonard Bernstein é conhecido por reger uma das mais belas interpretações da segunda sinfonia de Mahler

Desse músico controverso, sugerimos que se ouça a obra que ele considerava a sua mais elevada expressão musical: a Sinfonia n.º 2, intitulada Ressurreiçãouma hora e vinte minutos de música, composta entre 1887 e 1894, quando Mahler era diretor da Ópera de Budapeste e da Ópera de Hamburgo, a qual utiliza uma orquestra de proporções notáveis (com a adição de quatro trompas; quatro trompetes in lontananza, à distância, úteis para efeitos sonoros específicos), de solos de soprano e contralto, coro misto e órgão, além de cinco movimentos em vez dos tradicionais quatro.

João Paulo II, referindo-se a essa sinfonia — que, juntamente com as sinfonias n.º 3, 4 e 8, poderia ser designada como uma “sinfonia-cantata” —, afirmou: “Nela foi novamente apresentado o clamor do homem que, mesmo em estado de morte, pede para viver, revelando o seu anseio poderoso e incontrolável por uma ressurreição e por uma luz, que o iluminará para a bem-aventurança eterna” [iii].

O último movimento, em particular, inclui o hino Die Auferstehung (“A Ressurreição”) do poeta alemão Friedrich Klopstock (1724–1803), reelaborado pelo compositor, e que dá nome à composição inteira. Mahler, numa carta datada de 15 de dezembro de 1901, dirigida a Alma Schindler, sua futura esposa, explica: 

Ouve-se uma voz clamando bem alto: chegou o fim de todos os seres vivos, o Juízo Final está próximo e irrompeu o horror do dia dos dias. A terra treme, os túmulos se abrem, e os mortos ressuscitam e avançam em procissão interminável. Os grandes e os pequenos da terra — reis e mendigos, justos e ímpios —, todos avançam; o clamor por misericórdia e perdão ressoa terrivelmente aos nossos ouvidos. O clamor aumenta, os nossos sentidos desfalecem; a consciência morre ao acercar-se do espírito eterno. Ouve-se a “última trombeta” — as trombetas do Apocalipse ressoam; no silêncio assustador que se segue, mal conseguimos captar o canto distante e quase inaudível do rouxinol, um último eco trêmulo da vida terrena! Um coro de santos e seres celestiais irrompe suavemente: “Tu ressuscitarás, certamente ressuscitarás!” Então surge a glória de Deus! Uma luz maravilhosa e suave invade-nos o coração — tudo é uma paz sagrada! [iv]

Nunca se sabe: algum adolescente em busca de sentido para a sua vida poderá sentir a presença de Deus ao ouvir essa composição — tal como aconteceu em 1989 com um rapaz de quinze anos, hoje o reverendíssimo Erik Varden, da Ordem trapista, bispo-prelado de Trondheim, na Noruega [v]. Eis a sua história:

Estava prestes a fazer 16 anos e a começar a me interessar por Mahler. Depois de gastar todas as minhas economias num leitor de CD, comprei uma gravação de Bernstein da sua segunda sinfonia, a Ressurreição. Conhecia o sentido cristão do tema, mas aquilo não me dizia nada. Embora tivesse sido batizado, nunca havia assumido a minha fé. Na verdade, tinha uma atitude hostil a ela. O cristianismo me parecia uma fuga ilusória do drama interior com o qual tentava lidar, cheio de ambivalência, muito distante das certezas cultivadas pelos pregadores [...]. Ao escutar a sinfonia, não consegui permanecer indiferente. Não esperava ficar tão comovido [...]. O quinto e último movimento surge como uma tempestade. Evoca imagens de caos [...]. Gradualmente, um tema rítmico se forma em meio ao que poderia passar por mero ruído [...]: “Tem fé: não nasceste em vão. Não viveste nem sofreste em vão.” Ao ouvir essas palavras, algo irrompeu dentro de mim. Uma voz entoou dentro de mim: “Não em vão!” Mahler fez-me sentir que é possível enfrentar a vida sem ceder ao desânimo ou à loucura, pois a angústia do mundo é abraçada por uma infinita benevolência que lhe confere um propósito [vi]. 

Nota da Equipe CNP: Padre Paulo Ricardo fala a respeito desta sinfonia de Mahler, e de sua interpretação por Leonard Bernstein, na aula 18 do curso Terapia da Ansiedade, ao falar do estado de fluxo (flow of mind) e suas características. Vale a pena assistir!

Notas

  1. J. M. Fischer, Gustav Mahler. Yale University Press, 2013, p. 252.
  2. Este texto foi publicado no site OnePeterFive.com a 7 de julho de 2020, no 160.º aniversário de nascimento de Gustav Mahler. Omitimos desta tradução as referências ao aniversário, que já passou. (N.T.)
  3. João Paulo II, Discurso no encerramento do Concerto Sinfônico oferecido pela Televisão Italiana RAI, 11 de novembro de 1989.
  4. A. Mahler, Gustav Mahler, Memories and Letters. Londres: Murray, 1973, pp. 213–214.
  5. O bispo Erik Varden foi convidado por Leão XIV, em 2026, para pregar o tradicional retiro de Quaresma à Cúria Romana. (N.T.)
  6. E. Varden, The Shattering of Loneliness: On Christian Remembrance, Londres: Bloomsbury Continuum, 2018.

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