O Barão e a Baronesa K., nossos vizinhos na Áustria, eram um jovem casal. Cada vez mais curiosos sobre a Rússia, e sobre como seria realmente a vida por lá, um dia eles decidiram fazer uma viagem de seis semanas, de carro, por todo o país. Isso foi na época em que ainda era possível obter um visto. É claro que, na fronteira, eles foram recebidos por um guia especialmente designado para vigiar cada um de seus passos; um guia que não os deixou sozinhos por um instante sequer, até levá-los novamente com segurança à fronteira. Ainda assim, eles conseguiram ter uma boa impressão inicial. Ao voltarem, escreveram um livro sobre as suas experiências e, quando o terminaram, convidaram os vizinhos e amigos para a sua casa, a fim de lerem para eles alguns trechos do livro. Sempre me lembrarei de como o Barão K. nos leu o título, de forma lenta e solene: A terra sem domingo. De todas as coisas que viram e observaram, uma experiência os impressionou profundamente: o fato de a Rússia ter abolido o domingo. Isso os chocou ainda mais do que o que viram nos campos de concentração da Sibéria, ou do que a miséria e as dificuldades nas cidades e no campo. A ausência do domingo parecia ser a raiz de todo o mal.

“Em vez de domingo”, disse-nos o Barão K., “os russos têm um dia de folga. Isso acontece em intervalos específicos, que variam em diferentes partes do país. Inicialmente, eles tinham uma semana de cinco dias, com o sexto dia de folga, e depois passaram a ter um período de nove dias de trabalho, com o décimo dia de folga; mais tarde, voltaram a ter uma semana de oito dias. Como é grande a diferença entre um dia de folga e um domingo! As pessoas trabalham em turnos. Enquanto um grupo desfruta do seu dia de folga, os outros continuam a trabalhar nas fábricas, nas fazendas ou nas lojas, que estão sempre abertas. Consequentemente, o sentimento geral em todo o país era de que se trabalhava sem parar. A atmosfera era de pressa e agitação constantes; finalmente, confessamos um ao outro que o que mais nos faltava não era uma refeição bem preparada ou um banho quente, mas um domingo tranquilo e pacífico, com os sinos da igreja tocando e as pessoas descansando após a oração.”

Nossos domingos antes da Segunda Guerra Mundial

Permitam-me contar, primeiro, como era um domingo típico na Áustria dos velhos tempos, até o ano anterior à Segunda Guerra Mundial. Como passei a maior parte da minha vida em áreas rurais, descreverei o domingo no campo.

Maria Augusta von Trapp, autora destas linhas. Foi ela que Julie Andrews interpretou no célebre filme The Sound of Music — “A noviça rebelde”, no Brasil.
Maria Augusta von Trapp, autora destas linhas. Foi ela que Julie Andrews interpretou no célebre filme The Sound of Music — “A noviça rebelde”, no Brasil.

Em primeiro lugar, tudo começava no sábado à tarde. Em algumas partes do país, o sino da igreja tocava às três horas, noutras, às cinco: era o Feierabend [1]. Assim como algumas das grandes festas começavam na noite anterior — na véspera de Natal, de Ano-Novo ou de Páscoa —, todos os domingos do ano também começavam na véspera. Isso conferia à noite de sábado um caráter sagrado. Quando o sino da igreja tocava, as pessoas paravam de trabalhar nos campos. Elas voltavam com os cavalos e as máquinas agrícolas, tudo era guardado nos celeiros e galpões, e o pátio da fazenda era varrido pelo ajudante mais jovem. Em seguida, todos tomavam aquele banho e os homens faziam a barba. A atividade na cozinha era intensa — mamãe preparava parte do jantar de domingo, talvez uma sobremesa especial; as crianças tomavam um bom banho; todos preparavam suas roupas de domingo e, geralmente, havia o costume de organizar o quarto — todas as gavetas, armários e guarda-roupas. Durante a semana, as refeições em uma fazenda costumavam ser curtas e apressadas, mas no sábado à noite todos aproveitavam o tempo. Descontraídos, eles vinham caminhando até a mesa, e ficavam em pé, jogando conversa fora. Após a refeição da noite, rezava-se o Rosário. Diante de uma imagem ou pintura da Santíssima Virgem, queimava-se uma vela de vigília. Depois do Rosário, papai tomava um grande livro, com todas as Epístolas e Evangelhos dos domingos e dias festivos do ano, e lia para a família os trechos pertinentes. Os aldeões costumavam confessar-se no sábado à noite, enquanto os camponeses das propriedades mais distantes o faziam no domingo de manhã, antes da Missa. A noite de sábado era tranquila. Não havia festas. As pessoas ficavam em casa, preparando-se para o domingo. Iam dormir bem cedo.

No domingo, todos vestiam seus melhores trajes. A roupa domingueira era exatamente o que o nome indicava: vestuário reservado para ser usado apenas no domingo. Podíamos ter uma ou outra “roupa melhor” além dessa: para a noite, para festas... Mas essa era a nossa melhor roupa, reservada para o dia do Senhor. Quando a usávamos, invariavelmente sentíamos um pouco do espírito dominical tomar conta de nós. Naquela época, todos costumavam ir a pé à igreja, mesmo que isso significasse uma caminhada de uma ou duas horas descendo e subindo uma montanha, sob chuva ou sol. As famílias geralmente iam à Missa solene. Apenas aqueles que cuidavam de crianças pequenas e da cozinha tinham de ir à Missa matinal.

Tenho pena de todos aqueles que nunca experimentaram uma caminhada tão longa e tranquila a caminho de casa depois da Missa dominical, da mesma forma que tenho pena de todos aqueles que nunca experimentaram os momentos do crepúsculo logo após o pôr do sol, antes que se acendessem as lâmpadas a querosene. Sei que os automóveis e as lâmpadas elétricas são mais eficientes, mas ainda assim não substituem completamente esses outros modos de vida mais tranquilos.

Em todo o país, os cemitérios das pequenas cidades e aldeias ficam ao redor da igreja; aos domingos, quando a Missa solene terminava, as pessoas iam procurar os túmulos dos seus entes queridos para rezar e aspergir água benta no local — uma amistosa visita de domingo aos familiares que já haviam partido.

Na maioria das casas, o almoço de domingo era ao meio-dia. Muitas vezes, as tardes eram preenchidas com visitas de casa em casa, especialmente aos doentes. Os jovens se reuniam no parque da aldeia e ficavam por horas dançando danças folclóricas; as crianças brincavam; os adultos muitas vezes sentavam-se juntos e tocavam algum instrumento musical. A tarde de domingo era um momento de alegria, de felicidade, cada um à sua maneira.

“Há muito tempo eu rezo por esse momento!”

Até aquela noite na casa do Barão K., tínhamos feito praticamente o mesmo que todas as outras pessoas. O sábado era sempre reservado para o Feierabend do domingo. No sábado de manhã, limpávamos toda a casa, limpávamos os quartos das crianças — mesas, gavetas e brinquedos eram organizados. Preparávamos as roupas de domingo. Rezávamos o Rosário do sábado e, depois, nos deitávamos cedo.

A família von Trapp.
A família von Trapp.

Aos domingos, costumávamos ir a pé até a igreja do vilarejo para a Missa solene, especialmente depois de começarmos a cantar. Mais tarde, íamos para as montanhas com as crianças, levando até mesmo as menores, ou jogávamos um equivalente austríaco do basebol ou do voleibol, ou sentávamos juntos e cantávamos algumas das canções que tínhamos aprendido em nossas caminhadas pelas montanhas. Também dançávamos muitas danças folclóricas, recebíamos visitas ou visitávamos outras pessoas — tal como todos faziam. E se alguém nos perguntasse por que começávamos o nosso domingo no sábado à tarde, por que celebrávamos o domingo dessa forma, ergueríamos ligeiramente as sobrancelhas e diríamos: “Bem, porque sempre foi assim.”

Mas, quando meu marido e eu voltávamos para casa naquela noite, depois de visitar o Barão K., percebemos que a nossa condescendência — tão comum nos tempos anteriores à guerra — havia sofrido um duro golpe. Entendemos que tínhamos dado como certo algo que, na realidade, era um privilégio: viver em um país onde o domingo era não só guardado, mas celebrado como o dia do Senhor. Era uma nova maneira de ver as coisas, e a percepção ainda era um pouco vaga, mas agora, em retrospecto, vejo que naquela noite começou um novo capítulo em nossa vida como família cristã.

Tivemos sorte. O padre que nos acompanhava naquela época, celebrando Missa em nossa capela, e que se tornara um amigo íntimo da família, era, de um modo muito particular, um “fã do domingo” — assim nós o chamávamos, em tom de brincadeira.

Não sei o que se passa com o Padre Joseph”, comentava várias vezes o meu marido. “Ele está sempre insinuando que não aproveitamos suficientemente o dia do Senhor. Ora, nós paramos de trabalhar no sábado, quando começa o Feierabend; como todo o mundo, preparamo-nos para o domingo arrumando nossos trajes dominicais, indo à Confissão, lendo a Epístola e o Evangelho. No domingo, vamos à Missa com os nossos filhos, tomamos um bom café da manhã e, mais tarde, visitamos nossos amigos. Quando algum deles está doente, tentamos visitá-lo. Passamos o dia juntos em família, como deve ser. Fazemos caminhadas com as crianças, brincamos, dançamos folclore ou tocamos música... Realmente não sei o que ele quer dizer.”

Agora eu sei. É verdade que passávamos o dia do Senhor em família, rezando, descansando e nos alegrando juntos. Tenho certeza de que o Padre Joseph não se opunha a isso. Mas ele achava que fazíamos isso sem pensar, por rotina, porque todos na Áustria daquela época faziam o mesmo. Isso havia se transformado em tradição. O Padre Joseph deve ter percebido o perigo que representava para uma nação o fato de as pessoas observarem os costumes religiosos apenas porque “todos assim o fazem” ou porque “há centenas de anos se faz desse modo”. Ele sabia que cada geração tem de redescobrir, para seu próprio benefício, a herança que lhe foi transmitida por seus antepassados. Caso contrário, todos aqueles belos costumes antigos, religiosos ou não, perderiam sua vitalidade e se tornariam meras peças de museu. O Padre Joseph percebeu que, cada vez mais, ao serem questionadas sobre o motivo de observarem certos ritos, as pessoas respondiam: “porque sempre fizemos assim”, e isso o deixou preocupado. No entanto, o que mais o incomodava era a forma como se observava o domingo.

“Oração antes da refeição”, por Franz Defregger.
“Oração antes da refeição”, por Franz Defregger.

Naquela noite tão importante, decidimos que no dia seguinte nos encontraríamos com o Padre Joseph e lhe pediríamos que nos contasse tudo o que não sabíamos sobre o domingo. Então, nós o convidamos para tomar um café conosco. Se ele tinha uma fraqueza, era o café. Assim, sempre era possível atraí-lo. Já sorrindo em antecipação, ele pegou sua xícara quando meu marido perguntou, de forma bastante casual: “Padre, o senhor se importaria de nos contar tudo sobre o domingo e por que ficou tão chateado quando quisemos ir ao cinema no sábado à noite, ou quando Rupert e Werner desmontaram as suas bicicletas numa tarde de domingo?”

Aconteceu, então, algo inesperado. O Padre Joseph colocou sua xícara na mesa, aproximou-se do meu marido, segurou-lhe a mão com as suas duas mãos, apertou-a calorosamente e disse, com voz visivelmente emocionada: “Obrigado, Georg, obrigado por essa pergunta. Há muito tempo eu rezo por esse momento!” E então acrescentou: “Não poderei contar tudo sobre o domingo, mas pelo menos podemos começar...”

Lembro-me muito bem de tudo isso, pois revivi esse momento muitas vezes desde então, só que agora sou eu quem ocupa o lugar do Padre Joseph e ouve algumas perguntas mais ou menos impacientes de bons cristãos: “Posso perguntar qual é o problema com você e o seu domingo, e por que está sempre tão agitada?”

Uma grande descoberta

O Padre Joseph estava certo. Ele não conseguiu nos contar tudo na primeira conversa. Quando meu marido e eu percebemos que estávamos prestes a fazer uma grande descoberta, sugerimos que nossos filhos mais velhos também participassem do encontro. A partir daí, passamos muitas noites, sempre aos sábados, ouvindo as explicações do Padre Joseph a respeito do “domingo”.

Ele começou por nos contar a história do desenvolvimento do domingo nos tempos apostólicos. A primeira comunidade cristã em Jerusalém permaneceu fiel à observância do dia do sábado, bem como à oração no Templo, como sabemos pelos Atos dos Apóstolos. Mas, desde muito cedo, os próprios Apóstolos devem ter instituído um novo costume após o fim da observância do sábado: os cristãos permaneciam reunidos em oração, meditando e entoando hinos para passar a noite em vigília e celebrar a Santa Eucaristia nas primeiras horas da manhã. Como o seu Senhor e Salvador tinha ressuscitado dos mortos no dia seguinte ao sábado — in prima Sabbathi, como os quatro evangelistas chamam esse dia —, a primeira comunidade cristã celebrava, não o sétimo dia, como os judeus, mas o primeiro dia da semana, transformando assim todos os domingos numa pequena Páscoa.

“Os primeiros cristãos em Kiev”, pintura de Vasily Grigorievich Perov.
“Os primeiros cristãos em Kiev”, pintura de Vasily Grigorievich Perov.

Em seguida, o Padre Joseph sugeriu que lêssemos, nos Atos dos Apóstolos, sobre aqueles tempos em que a jovem Igreja se deparava cada vez mais com a questão complexa de saber se os convertidos não-judeus, vindos do paganismo, deveriam ser obrigados a seguir todas as leis judaicas, como, por exemplo, a observância do dia de sábado. Lemos então sobre o concílio de Jerusalém, que aconteceu por volta do ano 50 d.C., quando os Apóstolos decidiram que o sábado não precisava mais ser observado. A partir daí, os Atos dos Apóstolos mostram que esses dois dias sagrados começam a entrar em conflito. São Paulo ainda usa o sábado para ensinar sobre Jesus Cristo nas sinagogas, mas também organiza e preside à celebração dominical nas novas comunidades cristãs do mundo grego. O conflito torna-se mais evidente no final do primeiro século, quando os cristãos deixam de chamar o seu dia sagrado de “sábado” e passam a chamá-lo de dia do Senhor ou Dominica. Encontramos a primeira menção ao dia do Senhor no primeiro capítulo do Apocalipse, onde São João diz que a sua visão ocorreu no dia do Senhor. Santo Inácio de Antioquia usará esse termo novamente em suas cartas às jovens comunidades cristãs. Na Didaché, uma das primeiras descrições da vida dos primeiros cristãos, encontramos a seguinte afirmação: “Mas, no dia do Senhor, quando estiverem reunidos, repartam o pão e deem graças”.

Na época de Santo Inácio de Antioquia, que foi martirizado por volta do ano 110, os cristãos distanciaram-se mais um passo do Antigo Testamento, que passou a ser visto como um símbolo, uma prefiguração do que se cumpriria no Novo. Santo Inácio afirma que “é monstruoso falar de Jesus Cristo e praticar o judaísmo”. Na sua época, o domingo já tinha substituído completamente o sábado da Antiga Lei como dia sagrado semanal.

Em seguida, o Padre Joseph nos falou da situação dos cristãos fora da Terra Santa. No Império Romano, a cada nove dias havia um dia de folga. Os cristãos em Roma e na Ásia Menor não estavam familiarizados com a principal característica do sábado judaico: a interrupção total do trabalho. Vivendo sob a lei romana, seria impossível eles pararem de trabalhar, principalmente em períodos de perseguição. Percebemos então que, enquanto o ato de adoração do antigo sábado consistia em abster-se do trabalho, o ato de adoração do domingo cristão consistia, desde o início, na celebração da Eucaristia. Assistir ao sacrifício da Missa era estritamente indispensável. Mesmo em tempos de perseguição, quando a Igreja teve de passar a agir na clandestinidade, a Santa Eucaristia era celebrada em segredo, em casas particulares, no início da manhã. Todos os domingos de manhã, os cristãos arriscavam suas vidas para celebrar a Sagrada Eucaristia. Sabemos que Roma tinha uma polícia secreta muito eficiente e que, durante os primeiros trezentos anos de cristianismo, milhares de mártires sacrificaram suas vidas. Como o domingo devia ser um dia maravilhoso para essas pessoas! Um de nossos filhos perguntou: “Padre Joseph, mas os primeiros cristãos não celebravam a Santa Missa sempre nas catacumbas?” E ele respondeu que, segundo as descobertas arqueológicas mais recentes, as igrejas mais antigas de Roma foram erguidas sobre as fundações de casas particulares; acredita-se agora que as catacumbas, como cemitérios públicos, teriam sido um alvo demasiado fácil para a polícia romana. Apenas ocasionalmente a Santa Missa era celebrada nesses locais, sobre o túmulo de algum mártir; a celebração habitual de domingo acontecia secretamente em casas particulares.

“Os primeiros cristãos mortos nas catacumbas”, por Giuseppe Mancinelli.
“Os primeiros cristãos mortos nas catacumbas”, por Giuseppe Mancinelli.

Em seguida, vimos o florescimento da Igreja no início do século IV. Os tempos de perseguição tinham cessado e uma nova vida estava começando. A celebração da Santa Eucaristia não precisava mais ser realizada em segredo e na escuridão da noite; agora podia ser celebrada à luz do dia, o que levou a mudanças importantes na observância do domingo. A partir de então, a liturgia dominical começou a desenvolver-se cada vez mais. No século IV, as grandes basílicas romanas foram erguidas em diferentes partes da grande cidade.

Nessa fase do nosso estudo, passamos muitas noites com o Padre Joseph, ouvindo sua explicação sobre a origem das igrejas estacionais [2]. Nos principais domingos do ano, como Pentecostes e os domingos seguintes aos dias de Têmporas, o Papa costumava sair em procissão solene para celebrar a Santa Missa numa dessas basílicas, acompanhado por todo o clero e os fiéis de Roma.

O entusiasmo do padre Joseph era contagiante. Ele conhecia Roma tão bem quanto nós conhecíamos a nossa casa e o nosso jardim. Levou uma caixa com cartões postais, mostrando todas as basílicas antigas, todas as igrejas estacionais, detalhes arquitetônicos e, especialmente, os mosaicos. Quando, vários anos depois, nossa turnê de concertos nos levou a Roma, foi como voltar para casa, para um lugar familiar.

A arquitetura do ano litúrgico

No século IV, o domingo assumiu um novo caráter. Agora, a Igreja podia declarar esse dia como o dia santo oficial da semana. No século VI, vemos que a interrupção do trabalho já havia se tornado lei.

Uma nova mudança tornou-se evidente com o florescimento da vida monástica. Desde o início, os monges adotaram a ideia de rezar a cada hora do dia e de fazer orações específicas à meia-noite. Isso teve uma influência decisiva na celebração da vigília dominical, que sempre fora observada, mas agora se tornava uma prática geral. Depois de passarem a maior parte da noite de sábado para domingo e o período da manhã em oração e meditação, o domingo assumiu necessariamente o caráter de um dia de descanso. Então, ele assumiu completamente a função do sábado, tornando-se um dia de culto e de descanso.

Paralelamente ao desenvolvimento do domingo, desenvolveu-se também o ano litúrgico. No início, os cristãos celebravam apenas uma festa: a Páscoa. Ela começava na Sexta-feira Santa, atingia o seu auge no Domingo de Páscoa e continuava durante cinquenta dias, o Tempo Pascal, que terminava no Domingo de Pentecostes. Os primeiros quatrocentos anos do cristianismo não conheciam o Tempo da Quaresma, mas os cristãos jejuavam todas as sextas-feiras e, mais tarde, também passaram a praticar o jejum todas as quartas-feiras.

Cristãos indo à Missa do Galo. Pintura de Robert Sarlandie.
Cristãos indo à Missa do Galo. Pintura de Robert Sarlandie.

No século IV, teve início a celebração de uma nova festa: o aniversário do nascimento de Cristo. Assim como Pentecostes era a conclusão da Páscoa, a festa da Epifania tornou-se a conclusão do tempo festivo do Natal. A liturgia do século IV, portanto, centrava-se em duas grandes festas: o Natal e a Páscoa. Com o passar do tempo, as duas se desenvolveram ainda mais e acrescentaram semanas de preparação: a Quaresma e o Advento. Foi assim que se formou o ano litúrgico, e seu desenvolvimento exerceu uma influência muito importante sobre o domingo. Até então, os domingos repetiam continuamente a celebração do mesmo mistério: Cristo ressuscitando dos mortos. A partir de então, porém, cada domingo passou a ter um significado próprio. Não havia mais apenas “domingos”, mas domingos do Advento, domingos da Quaresma, domingos após a Páscoa e domingos depois de Pentecostes. Alguns receberam um nome especial, como “Domingo Gaudete”, “Domingo Lætare”, “Domingo do Bom Pastor” e “Domingo das Rogações”.

É claro que os nossos filhos queriam saber: “E as festas dos santos?” E descobrimos que, durante os primeiros séculos, somente o mártir era considerado digno de ser celebrado num dia festivo especial. No aniversário de seu martírio, era celebrada uma Santa Missa, mas apenas no local onde repousava o seu corpo. Tal fato restringia as festas dos mártires a locais específicos. A partir do século IV, os santos que não tinham morrido como mártires passaram a ter uma festa especial. Essa festa duplicava a oitava do dia; daí o nome “festa dupla” [3]. Durante muitos séculos, porém, o ciclo santoral foi considerado secundário em relação ao ciclo temporal, o que se vê, por exemplo, na lei que determinava que, durante a Quaresma, nenhuma festa de santo poderia ser celebrada. É claro que nenhum domingo jamais cederia lugar à festa de um santo, por mais famoso que fosse.

Durante a Idade Média, o domingo, além de continuar sendo a celebração da Ressurreição de Cristo, assumiu um caráter especial como dia de perdão e misericórdia. A partir do século IX, a Igreja passou a pedir que todas as operações militares fossem suspensas aos domingos!

Foi nessa época que surgiu o drama litúrgico. Tudo começou com a leitura do Evangelho, a leitura da Paixão na Sexta-feira Santa e do Evangelho da Ressurreição no Domingo de Páscoa. Vários membros do clero, vestidos com alva e estola, representavam os diferentes papéis a fim de tornar a Santa Missa mais interessante para os fiéis que já não entendiam o latim, a língua da Igreja. Tornou-se cada vez mais comum encenar trechos das histórias do Evangelho nas igrejas. Naquela época, as pessoas começaram a esquecer que a liturgia deveria ser, antes de tudo, oração e adoração, e não entretenimento para os fiéis. Além disso, ao longo da Idade Média, a liturgia dos santos ganhou importância. As festas dos santos foram se multiplicando e se sobrepondo aos domingos. Por fim, a menor das festas duplas acabou prevalecendo sobre o domingo, até que, finalmente, no século XVIII, apenas o Domingo de Páscoa e o Domingo de Pentecostes eram verdadeiramente domingos e não dias de santos. Todas as outras Missas litúrgicas dominicais desapareceram, mesmo as dos domingos do Advento e da Quaresma. Tal situação durou até que, finalmente, o Papa  São Pio X percebeu a gravidade do estado das coisas e a remediou com a sua grande reforma, que devolveu à Igreja o domingo perdido.

Este é apenas um breve resumo do que aprendemos ao longo de semanas e meses sobre a história do domingo. Aprendemos também que Nosso Senhor escolheu os domingos para seus atos e mandatos mais solenes: a Ressurreição, a ordem dada aos Apóstolos de ir pregar ao mundo inteiro, a instituição do sacramento da Penitência e a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Depois que compreendemos isso, o domingo nunca mais foi um dia como qualquer outro para nós. Tornou-se realmente um dia consagrado, um dia de graça.

O domingo: um dia de graça

Fiéis saindo de uma igreja na França após um casamento. Pintura de Jean Marie Phalibois.
Fiéis saindo de uma igreja na França após um casamento. Pintura de Jean Marie Phalibois.

E isso nos levou a uma nova busca por mais e mais conhecimento sobre esse “dia de graça”. Desde o início, o domingo trouxe a todos os cristãos, em primeiro lugar, a graça da dedicação a Deus. Ele lhes deu e dá a oportunidade única de entregar-se inteiramente a Ele. Até que ponto isso era verdade, pudemos ver especialmente nos tempos de perseguição. Já que, desde o início, assistir à Missa era o mesmo que receber a Comunhão, quem não comparecia à Missa dominical excomungava-se a si mesmo e não era mais considerado membro da Igreja. Para aqueles que cooperavam com essa graça da dedicação, porém, o domingo transformava-se imediatamente num dia de alegria, porque a alegria surge da dedicação. Quando nos entregamos completamente a Deus, nosso coração se enche de paz e de alegria. Por isso, todos os domingos, a Igreja repete no Ofício Divino as palavras que soam como um eco da Páscoa: “Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117, 24). Vemos portanto que, além da graça da dedicação, a liturgia dominical nos concede também a graça da alegria e da paz. 

Foi mais uma graça que descobrimos, destinada diretamente à maioria dos fiéis que não podem dizer com o salmista: “Sete vezes ao dia publico vossos louvores” (Sl 118, 164), e para quem as sete horas canônicas e as vigílias noturnas são uma espécie de luxo espiritual. Em sua infinita misericórdia, Deus lhes reservou um dia sagrado a cada semana e, para esse dia, concedeu-lhes a graça da contemplação, que de outra forma parece reservada apenas àqueles que têm “tempo para rezar”. Desde os tempos de São Jerônimo, acredita-se que o domingo concede, a todos aqueles que o celebram de maneira cristã, a graça da contemplação. Na Idade Média, os leigos costumavam reunir-se nos conventos e mosteiros aos domingos para falar sobre Deus e assuntos espirituais com aqueles que consideravam profissionais no assunto — os monges e religiosas —, como podemos ler na autobiografia de Santa Teresa de Ávila.

Mais uma graça que o domingo nos reserva: Assim como temos o direito de acreditar que a eternidade será um Domingo de Páscoa ininterrupto, todos os domingos ao longo do ano ajudam o povo cristão a preparar-se para esse grande domingo que está por vir. É um dia de espera, um lembrete semanal de que este é apenas o começo da verdadeira felicidade.

O tema é inesgotável. À medida que meditamos juntos sobre o mistério do domingo, descobrimos um número cada vez maior de graças.

É maravilhoso fazer essas descobertas junto com crianças ou jovens. Para eles, as coisas são certas ou erradas, e tão logo percebem que algo em suas vidas não está certo, imediatamente se comprometem a “fazer algo a respeito”. Foi assim com nossos filhos e a observância do domingo.

Logo após o início da nossa investigação, eles fundaram uma Associação para a Restauração do Domingo, a ser presidida pelo Padre Joseph. A ideia foi deles. A associação nomeou um membro da família para cada domingo, e esse membro tinha a responsabilidade de garantir que o domingo sob sua responsabilidade fosse observado da melhor forma possível como dia do Senhor. Quanto mais aprendíamos sobre a grande santidade desse dia, mais as crianças ficavam perturbadas com a inadequação dos nossos hábitos dominicais. A partir de então, a noite de sábado ficaria livre de compromissos externos. O Feierabend não seria mais mantido porque “todos faziam isso”, mas porque a noite de sábado havia se tornado a vigília do dia do Senhor, santificada por quase dois mil anos de observância. As roupas de domingo não eram mais “um antigo costume austríaco”, pois elas ajudavam a enfatizar a sacralidade do dia. Ninguém gostaria de vestir roupas sujas de trabalho para desmontar a sua bicicleta.

Até os mais jovens sabiam que “visitar os doentes” e “ajudar os pobres” aos domingos eram coisas que condiziam com o caráter de um dia de misericórdia — “que remonta ao século IX”, explicavam orgulhosamente a um tio desavisado.

Mas, acima de tudo, o caráter alegre e festivo do domingo era guardado com zelo, “porque este é o dia em que devemos alegrar-nos no Senhor”. As crianças organizavam danças folclóricas com os seus amigos, jogos com bola no nosso jardim, caminhadas pelas montanhas e sessões de música em casa. No entanto, em todas essas atividades, o caráter contemplativo do domingo era sempre evidente, pois as crianças pediam para ler os Evangelhos juntos e conversar sobre a liturgia, mesmo durante as refeições.

Depois da nossa conversa com o Padre Joseph, a forma como guardávamos o domingo me parecia uma casa construída em terreno instável, até que um verdadeiro construtor a viu, a alinhou e pôs nela um sólido alicerce.

Nossos domingos na América

E então viemos para os Estados Unidos.

Nas primeiras semanas, estávamos tão confusos com tanta coisa que não notamos nenhuma diferença em particular no domingo, mas lembro-me de sentir falta do som dos sinos da igreja. Quando perguntei por que os sinos da Catedral de São Patrício não tocavam no domingo de manhã, responderam-me, para meu espanto, que o barulho seria excessivo. Naquela época, o metrô ainda passava, ruidoso, pela Sexta Avenida. Nunca tínhamos ouvido um barulho como aquele no coração de uma cidade!

Então, partimos para a nossa primeira turnê de concertos. Enquanto viajávamos de costa a costa no grande ônibus azul, tentávamos aproveitar ao máximo o domingo, tanto quanto a situação permitia. No sábado à tarde, anunciava-se o Feierabend, o que significava que não haveria aula — nossos filhos tinham aulas no ônibus e faziam provas duas vezes por ano. Depois, reuníamo-nos para nos preparar para a Missa, como se tornara nosso costume sob a orientação do Padre Joseph. Todos pegavam seu missal e nos amontoávamos no meio do ônibus, ou nos reuníamos em um quarto de hotel, lendo em turnos os textos da Missa dominical. Em seguida, havia uma discussão mais ou menos animada e um período de perguntas conduzido pelo Padre Wasner. No domingo, vestíamos nossas roupas de domingo, o traje austríaco especial reservado para esse dia. Mas, por outro lado, o domingo era o dia em que sentíamos, talvez, um pouco mais de saudade de casa do que em qualquer outro dia, pois sentíamos falta dos sinos da igreja e do domingo à moda antiga.

A Sexta Avenida, em Nova Iorque, pintada por John Sloan, 1907.
A Sexta Avenida, em Nova Iorque, pintada por John Sloan, 1907.

À medida que nos habituávamos à vida nos Estados Unidos e aperfeiçoávamos o nosso inglês, fizemos uma descoberta surpreendente num sábado à noite americano! Era completamente diferente daquilo a que estávamos acostumados. Parecia que todo o mundo estava na rua. As lojas ficavam abertas até as dez e as pessoas iam às compras. Praticamente todos pareciam ir a um show, a um baile ou a uma festa no sábado à noite. E, finalmente, descobrimos a consequência do sábado à noite americano: a manhã de domingo americana. Cidades abandonadas, ruas vazias, todo o mundo dormindo até mais tarde e, então, correndo de carro pelas ruas para chegar à Missa das onze horas.

Certa vez, estávamos passando de carro, numa manhã de domingo, pelo interior do estado de Washington e vimos caminhões e carros alinhados ao longo dos campos e pessoas colhendo frutas, como em qualquer outro dia. Ver os agricultores trabalhando aos domingos em todo o país não é mais algo incomum para nós, e isso acontece não apenas durante as épocas mais críticas para as colheitas.

Quando morávamos num subúrbio da Filadélfia, durante o nosso segundo ano nos Estados Unidos, descobrimos que o prazer dominical dos ricos parecia consistir em vestir as suas calças mais velhas e rasgadas e cortar a grama da frente de casa, lavar o carro com uma mangueira ou até mesmo cortar uma árvore (por recomendação médica: exercício físico!). Já as senhoras podiam ser vistas com jeans sujos, misturando terra e mudando de lugar suas plantas permanentes. Não havia nada, em lugar nenhum, daquela serenidade e paz dos domingos do velho mundo; até descobrirmos os menonitas e os holandeses da Pensilvânia. Eles até tocavam os sinos da igreja!

O clímax das nossas descobertas sobre o domingo americano foi atingido quando uma senhora nos disse cheia de emoção: “Oh, como eu odeio o domingo! Que chatice!” Ainda consigo ouvir o silencioso espanto que se seguiu a essa observação. As crianças ficaram magoadas e indignadas, quase como se esperassem que caísse fogo do Céu. Até a autora da observação percebeu algo, e isso a levou a explicar por que odiava tanto o domingo. Esse fato esclareceu grande parte do mistério do domingo americano.

“Ora”, exclamou ela, “fui criada à moda puritana. Todos os sábados à noite, nossa mãe costumava recolher todos os nossos brinquedos e trancá-los. No domingo de manhã, nós, crianças, tínhamos de assistir a um longo sermão que não entendíamos; não podíamos pular, correr ou brincar.” Quando ela percebeu o olhar incrédulo dos nossos filhos, repetiu: “Sim, é isso mesmo: não podíamos brincar de nada.” Finalmente, um dos nossos filhos perguntou: “Mas o que vocês podiam fazer?”

“Podíamos ficar sentados na varanda da frente com os adultos ou ler a Bíblia. Era o único livro permitido aos domingos.” E acrescentou: “Oh, como eu odiava os domingos quando era jovem. Prometi a mim mesma que, quando crescesse, faria os trabalhos mais pesados aos domingos e, se tivesse filhos, eles poderiam fazer exatamente o que quisessem. Nem precisariam ir à igreja.”

O Elevado da Sexta Avenida na Third Street, pintura de 1928 do mesmo John Sloan.
O Elevado da Sexta Avenida na Third Street, pintura de 1928 do mesmo John Sloan.

Essa foi a resposta. O pêndulo havia oscilado demais para um lado e agora estava indo na direção oposta; esperemos que, em breve, ele encontre sua posição correta.

“O domingo deve voltar a ser o dia do Senhor”

Então, compramos por um preço baixo uma grande fazenda em ruínas no norte de Vermont e nos mudamos para lá. Aos poucos, construímos uma casa grande o suficiente para uma família numerosa e uma capela com uma pequena torre e um sino. Passamos a celebrar o domingo como antes, à vontade. O sábado é dia de limpeza e cozinha em nossa casa, e às cinco horas soa o Feierabend, quando todo o trabalho cessa e todos vão tomar banho e trocar de roupa. Se houver convidados à mesa do jantar, o Padre Wasner anuncia que, “depois de lavar a louça, todos nos reuniremos na sala de estar, cada um com o seu missal, para a preparação do domingo, e todos estão cordialmente convidados a participar”. Quando estamos todos reunidos, começamos com uma breve oração e, em seguida, lemos alternadamente os diferentes textos da Missa do domingo seguinte, participando todos de uma análise cuidadosa desses textos. Primeiro, discutimos brevemente o tempo litúrgico específico do ano eclesiástico. Depois, perguntamo-nos como esse domingo se encaixa nesse tempo. Os textos sugerem um clima especial? Alguns domingos poderiam quase ser chamados de Domingo da Alegria, Domingo da Confiança, Domingo da Humildade, Domingo do Arrependimento. Todos devem falar, fazer perguntas, dar a sua opinião. É quase sempre uma discussão animada e agradável. No final, definimos a mensagem específica desse domingo e o que podemos fazer durante a próxima semana para colocá-la em prática, tanto para nós mesmos como para as pessoas ao nosso redor. Após esta preparação para a Missa, todos vamos para a capela, onde rezamos o Rosário juntos, seguido das orações da tarde e da bênção.

Pio XII, o Papa da época em que foram escritas estas linhas.
Pio XII, o Papa da época em que foram escritas estas linhas.

Aos domingos, costumamos cantar uma Missa solene, seja em nossa capela ou na igreja da vila, e nos domingos importantes do ano cantamos Vésperas à tarde. Sabemos que isso deve se tornar uma parte indispensável do domingo, ainda mais agora porque o Santo Padre se pronunciou.

Lembro-me do meu espanto quando o Santo Padre, o Papa Pio XII, considerou necessário dizer, em seu Discurso à Ação Católica, em setembro de 1947: “O domingo deve voltar a ser o dia do Senhor, o dia da adoração, da oração, do descanso, do recolhimento e da reflexão, da feliz reunião no círculo íntimo da família.” Eu sabia que tal declaração se destinava ao mundo inteiro. Será que o domingo estava em perigo em toda a parte?

Em 1950, viajamos por México, Guatemala, Panamá, pelas ilhas do Caribe e Venezuela, por Brasil e Argentina; cruzamos os Andes até o Chile, fizemos concertos no Equador, Peru e Colômbia; e, após muitos meses de viagem pela América do Sul, fomos para a Europa em uma turnê de concertos, onde cantamos em muitos países europeus. Compreendi, então, que o domingo cristão está cada vez mais ameaçado, tanto externa quanto internamente — externamente, pelos esforços sistemáticos dos inimigos do cristianismo, e internamente, pela mediocridade e superficialidade dos próprios cristãos, que estão transformando o domingo em um mero dia de descanso, para descansar do trabalho apenas à procura de entretenimento. Houve um tempo, diz-nos o Antigo Testamento, em que as pessoas se tornaram tão preguiçosas que evitavam qualquer tipo de esforço espiritual e não frequentavam mais o culto público, de modo que Deus as ameaçou pela boca do profeta Oseias: “Farei cessar toda a sua alegria, os seus dias festivos e o seu sábado, e todas as suas festas solenes” (2, 11).

E agora as palavras do nosso Santo Padre em sua Encíclica Mediator Dei soam como um alerta semelhante:

Como não terão a morte espiritual aqueles cristãos que fazem obra servil nos dias festivos e durante o repouso festivo não se dedicam à piedade nem à religião, mas se abandonam demasiadamente aos atrativos deste século? O domingo e os dias festivos devem ser consagrados ao culto divino com o qual se adora a Deus e a alma se nutre do alimento celeste… contrista-se profundamente nossa alma ao ver como em nossos tempos o povo cristão passa a tarde do dia festivo.

Hoje em dia, todos os jornais e revistas enfatizam a necessidade de combater o comunismo. Há, porém, uma arma que eles não mencionam e que seria a mais eficaz, se fosse empunhada por todos os cristãos. Mais uma vez, o Santo Padre nos lembra disso: “As consequências da luta entre a fé e a incredulidade dependerão, em grande medida, do uso que cada uma das frentes opostas fizer do domingo.” Sabemos como a Rússia fez uso do domingo. A questão agora é:

E quanto a nós, você e eu?

Notas

  1. Assim os alemães chamam o fim do trabalho e o início do descanso. O termo, intraduzível, vem de feiern, “celebrar, festejar”, e Abend, “noite”. (N.T.)
  2. Chamavam-se estacionárias (do latim statio; verbo sto, “ficar de pé”) as igrejas de um determinado lugar onde os fiéis católicos paravam (permaneciam em pé, stantes), durante procissões, para assistir à celebração da liturgia em dias penitenciais. O termo foi perdendo seu sentido ao longo do tempo, mas alguns lugares preservaram os registros de suas igrejas estacionais. É por isso que, nos missais antigos, os ofícios dos dias quaresmais vêm sempre acompanhados da “estação” em alguma igreja. (N.T.)
  3. Até a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, isso se dava, por exemplo, com a festa de Santa Inês, celebrada a 21 de janeiro e também no dia 28. Vários detalhes dessa história, aliás, dizem respeito à liturgia tridentina, e não à liturgia reformada por Paulo VI. (N.T.)

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