No primeiro dos romances que publicou, Jane Austen apresenta “razão” e “sensibilidade” como duas pontas de um espectro. Na ponta do espectro chamada “razão”, a cabeça governa o coração em tal grau, que o coração fica endurecido, perdendo sua sensibilidade; na ponta chamada “sensibilidade”, o coração governa em tal grau, que a perda da razão gera sofrimentos. As personagens verdadeiramente virtuosas são as que mantêm um equilíbrio saudável e harmonioso entre razão e sensibilidade, encontrando e seguindo a via média aristotélica entre os dois extremos. 

Embora essa forma de compreender razão e sensibilidade esteja presente em todos os romances de Jane Austen, o foco no segundo romance, publicado em 1813, é a relação entre orgulho e preconceito. Enquanto razão e sensibilidade podem ser separadas, com desastrosas consequências, orgulho e preconceito são sempre inseparáveis, sendo que o primeiro sempre resulta no segundo. Esta forma de compreensão é uma manifestação adicional do aristotelismo de Austen ou, para ser mais específico, de seu tomismo.

“Ela é tolerável, mas não bela o suficiente para me tentar.” Ilustração de Charles Edmund Brock.

Santo Tomás de Aquino ensina que a percepção da realidade depende da virtude da humildade. É esta que confere o senso de gratidão que faz com que os olhos se abram e fiquem maravilhados, e é somente quando isto acontece que a alma é movida em direção à contemplação necessária à sua dilatação (dilatatio) para a plenitude da realidade. A ausência de humildade é o orgulho, que carece de gratidão e fecha os olhos para qualquer senso de maravilhamento, tornando inatingíveis a contemplação e a dilatação. Em suma, os orgulhosos são sempre preconceituosos porque estão cegos para a plenitude da realidade. É esta forma de compreender o orgulho e sua cegueira que anima “Orgulho e Preconceito” [Pride and Prejudice, em inglês].   

Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy estão cegos por causa de seu orgulho, que os leva a formar pressupostos preconceituosos um sobre o outro. Um só consegue enxergar o outro com mais sensibilidade quando se tornam mais humildes. Por exemplo, Elizabeth está propensa a acreditar nas mentiras do Sr. Wickham sobre o Sr. Darcy por causa da avaliação preconceituosa que ela faz do caráter deste. Ela fica “absolutamente envergonhada de si” quando finalmente percebe que foi “cega, parcial, preconceituosa, insensata”. A tomada de consciência é uma revelação, que deu a ela a capacidade de enxergar a si mesma a partir de uma nova perspectiva. Depois que seu orgulho é humilhado, ela alcança a humildade necessária para ver a si mesma de forma mais clara. Na verdade, ela se enxerga pela primeira vez: “Até este momento, eu não conhecia a mim mesma”.

Por outro lado, o Sr. Darcy precisa aprender a ser condescendente (no sentido humilde da palavra, não no sentido soberbo). Ele precisa parar de olhar com desdém para Elizabeth — relativamente mais pobre que ele — e descer do próprio pedestal, não apenas para olhá-la nos olhos, mas para descer ainda mais, pondo-o de joelhos, a fim de que ele possa olhar para ela com reverência e com um amor que se sabe indigno. Esse senso de indignidade o estimula a confessar a Elizabeth como a havia tratado mal anteriormente: 

A recordação do que disse naquela ocasião, da minha conduta, da minha postura, das minhas expressões é hoje — e tem sido há meses — inexplicavelmente dolorosa para mim. Sua repreensão, tão bem aplicada… Você não sabe, dificilmente poderá imaginar o quanto essas coisas têm me torturado — porém, confesso que foi necessário algum tempo até que eu reconhecesse que eram justas.
“Agora, seja sincero: foi por causa da minha impertinência que me admirou?” Ilustração de Charles Edmund Brock.

Somente quando aprendemos a mostrar reverência e respeito pelo próximo é que nos tornamos capazes de amá-lo e, através desse amor, conhecer o outro tal como ele é. É assim que Elizabeth e o Sr. Darcy crescem em virtude. O sacrifício que eles fazem de si por meio do amor permite que cada um atraia o outro para as humildes demandas do imerecido dom do amor: conversão, confissão e perdão. Portanto, é por meio do amor ao outro que nos tornamos capazes de obter a maturidade que vem da formação moral e do crescimento, uma maturidade necessária para a manutenção dos relacionamentos amorosos e a obtenção da felicidade.   

Além do tema axiomático que dá nome à obra, outros temas importantes também estão presentes. Como observa Christopher Blum em sua introdução para a edição crítica do romance (publicada pela Ignatius Press), “Orgulho e Preconceito” é uma reflexão sobre “amor, casamento, família e a busca de estabilidade e bondade em comunidade”. Como o casamento fornece a própria estrutura da vida moral da sociedade, é necessário que haja matrimônios saudáveis, não apenas para a felicidade individual dos cônjuges, mas para o bem comum da própria sociedade. Neste sentido, “Orgulho e Preconceito” serve como um testemunho oportuno da necessidade da família tradicional numa época em que todos os aspectos da vida familiar sofrem um ataque implacável. 

Talvez as palavras finais sobre este conhecido romance devam ficar a cargo da própria autora. Numa oração da noite de sua autoria, ela suplica ao Deus misericordioso que “nos livre de sermos enganados pelo Orgulho ou pela Vaidade”. No caso de Elizabeth Bennet e do Sr. Darcy, a oração foi atendida.