Este texto não é de autoria do Padre Paulo Ricardo, mas do escritor espanhol Juan Manuel de Prada. O tom do artigo é polêmico — como grande parte dos textos de sua autoria —, mas adequa-se à gravidade do tema: por uma ideologia que equipara o homem ao animal, a dignidade humana tem sido aviltada e leis iníquas têm se multiplicado em vários lugares, com cada vez mais frequência. 

Isso precisa ser denunciado, e pensado com sinceridade por nós. De nossos leitores, esperamos justamente isto: que meditem no assunto em questão, sem se deixar levar pelo mero fluxo de seus afetos ou sentimentos desordenados. 


Li nestes dias uma reportagem em que se proclama a consolidação de um novo “modelo de família multiespécie”, no qual as crianças são substituídas por bichos de estimação, particularmente por cães. Na Espanha, o número de cães (9,3 milhões) supera com folga o de jovens com menos de quinze anos (apenas 6,7 milhões). Em alguns lugares (em Madri, por exemplo), o número de cães é três vezes maior que o de crianças. Inevitavelmente, este “modelo de família multiespécie” está favorecendo fenômenos jurídicos e sociais que até pouco tempo atrás pareceriam invenções próprias de uma obra do gênero literário esperpento [i]: os casais que se divorciam estabelecem convênios de “guarda compartilhada” sobre seus cães; os testamentos dão lugar de destaque a eles, além de se organizarem velórios grotescos para dar adeus a eles.  

Cemitério Animal em Ilford, na Inglaterra. Foto de 1955, publicada no jornal “Illustrated London News”.

Evelyn Waugh escreveu uma sátira feroz intitulada “O Ente Querido”, cujo protagonista trabalha numa empresa dedicada a oferecer serviços funerários de primeira qualidade para bichos de estimação: sepultamento de canários, embalsamamento de cãezinhos, cremação de gatinhos cujas cinzas são depois jogadas no ar por um teco-teco etc. E nos aniversários de morte dos bichos de estimação os clientes recebem em casa um cartão ridículo, decorado de forma muito festiva, no qual podem ler que seu bicho de estimação está feliz no céu, balançando o rabo. 

Menos partidário da sátira que do ataque verbal, Léon Bloy compara as sepulturas de um cemitério de pobres (“toscas, abandonadas por completo, áridas como a cinza”) às de um cemitério de cães que os ricos construíram numa ilha no Rio Sena, para enterrar lá seus bichos de estimação com túmulos de mármore, monumentos suntuosos e epitáfios ridículos. Então, Bloy se pergunta “se a tolice decididamente não é mais odiosa que a própria maldade”; e também se é “resultado de uma idolatria demoníaca ou de uma imbecilidade transcendental”.  

Talvez seja o resultado de uma combinação das duas coisas. Determinado a catalogar as diversas expressões do amor humano, C. S. Lewis se dedicou a analisar a natureza do afeto que às vezes nutrimos pelos animais, por meio do qual corrigimos “a atrofia do instinto imposta por nossa inteligência, nossa excessiva autoconsciência, as inumeráveis complicações de nossa situação, a incapacidade de viver no presente”. Mas frequentemente esse afeto encobre outras intenções: 

Se você precisa ser necessário, e se sua família, muito apropriadamente, declina precisar de você, um animal de estimação será o substituto óbvio. Você poderá mantê-lo por toda sua vida precisando de você. Você poderá mantê-lo permanentemente infantilizado, reduzi-lo à condição de um inválido permanente, isolá-lo de todo genuíno bem-estar animal e compensar tudo isso ao criar necessidades para incontáveis pequenas indulgências que somente você poderá suprir.

Deste modo, o bicho de estimação se transforma no escoadouro do nosso egoísmo, num simulacro de filho que não se queixa, não nos repreende, não nos admoesta e não nos diz uma terrível verdade de vez em quando. Lewis não chega a designar a forma de depravação que está alojada no fundo desse afeto egoísta pelos animais, embora se atreva a propor que “aqueles que encontram nos animais um alívio para as exigências do companheirismo humano são advertidos a verificar suas reais razões”.

Estátua do deus egípcio Anúbis, em exposição no Museu do Louvre, Paris, na Galeria do Egito Antigo.

Muito menos contemporizador que C. S. Lewis, Joseph Roth se atreve a apresentar uma reflexão incômoda em “A Cripta dos Capuchinhos”: 

Sempre tive a impressão de que os homens que amam os animais direcionam a eles uma parte do amor que deveriam dar aos seres humanos; e me dei conta do quão justa era essa apreciação quando constatei casualmente que os alemães do Terceiro Reich amavam os cães-lobos e os pastores alemães. Pobres ovelhas! — disse a mim mesmo.

Hoje, essa avaliação se torna muito mais nítida e desagradável que na época do Terceiro Reich. Pois nossa geração, que eleva os bichos de estimação à categoria de filhos (filhos que não podem nos interpelar, não podem nos constranger, não podem nos acusar, não podem cuspir em nosso rosto), reconhece que a vida humana deixou de ser inviolável, que nem todos os seres humanos são dignos de proteção, nem em todas as etapas de sua vida. Como nos recorda Chesterton, por trás do ideal de tratar os animais como se fossem humanos esconde-se o desejo secreto de tratar as pessoas como se fossem animais.

É o resultado de uma imbecilidade transcendental, mas também de uma idolatria demoníaca. É o emblema de uma época sem futuro, condenada à lata de lixo da história, que, evidentemente, terá o aspecto elegante daquele cemitério de bichos de estimação que causa indignação em Bloy. Pois a degradação gosta de se expressar por meio da pieguice.

Notas

  1. Esperpento, segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola, é o “gênero literário criado por Ramón del Valle-Inclán, escritor espanhol da Geração de 98, no qual se deforma a realidade, carregando-lhe os traços grotescos e submetendo a linguagem coloquial e licenciosa a uma elaboração muito pessoal” (N.T.).

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