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Pare de pedir desculpas por estar grávida!
Família

Pare de pedir
desculpas por estar grávida!

Pare de pedir desculpas por estar grávida!

“Mas isso não é nada responsável”, “mas seus filhos terão menos coisas e menos atenção”, “mas você pode evitá-los”... Por que é que, quando um casal anuncia a vinda de um novo filho, a maioria das pessoas tem apenas coisas negativas a dizer?

Julie MachadoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Foi só depois de ter anunciado cinco gestações que parei de me desculpar por elas. Estou grávida agora de meu quinto filho. Antes, eu tremia quando alguém me perguntava “se a gravidez fora planejada”, ou tinha de enfatizar que a diferença de idade entre as crianças era de quase dois anos quando alguém, em choque, perguntava: “Qual a diferença de idade, um ano?”

Desta vez, não só parei de me desculpar, mas cheguei a ficar irritada com tudo isso. Por que é que a maioria das pessoas tem apenas coisas negativas a dizer? Somente uma minoria de católicos e outras pessoas de boa-vontade nos parabenizam e se alegram com a notícia. Quando contamos a uma vizinha que estávamos esperando um bebê, ela disse: “Bem, você é quem sabe o que é melhor para você”.

Não só parei de me desculpar como gostaria também que todas as mulheres do mundo parassem de se desculpar, especialmente as que estão nas filas das clínicas de aborto. Por que não posso ter um bebê? Tenho um casamento feliz, tenho gosto e interesse pela educação de crianças e, embora não tenhamos muito dinheiro, temos uma renda fixa. Sou jovem, saudável e não tenho condições ou doenças que ponham a gestação em risco. Se eu não posso ter outro bebê, quem é que pode? Não importa quais sejam suas condições: sejam elas ideais como as minhas ou desoladoras como as de uma mulher na clínica de aborto, nenhuma de nós precisa se desculpar.

Mas isso não é nada responsável! — Defina “responsável”. Eu acredito que é preciso muita responsabilidade e generosidade para assumir a tarefa de educar crianças. É claro que há pais negligentes que nunca assumiram essa tarefa. Mas aqueles que a assumem são muito mais responsáveis e generosos cinco anos depois do nascimento de seu primeiro bebê. As demandas que surgem com a criação dos filhos fazem os pais cultivarem uma grande variedade de virtudes e bons hábitos, como ter paciência, acordar cedo, gastar menos dinheiro, trabalhar mais arduamente em casa e ser um bom exemplo. Se você tem uma família numerosa, essas demandas são maiores sobre você e também sobre seus filhos. É uma oportunidade para todos crescerem em responsabilidade e generosidade. Ora, na sua vida profissional, as pessoas valorizam virtudes como a laboriosidade, a tenacidade e a resiliência, que ajudam a superar obstáculos e formar melhores trabalhadores. Então, por que não viver isso na vida familiar?

Mas seus filhos terão menos coisas… — Ah! você quis dizer “responsável” no sentido financeiro. Sim, não vou iludi-lo. Quanto mais crianças em casa, menos bens materiais e menos recursos financeiros para cada um. Se você fosse a rainha da Inglaterra, essa regra ainda se aplicaria. Para uma pessoa com uma visão de mundo materialista, na qual o dinheiro ou aquilo que ele pode comprar é igual à felicidade, uma família numerosa nunca faz sentido.

Outro bebê significa menos bens materiais para a família. Contudo, significa mais bens de todos os outros tipos. Mais humanidade: pois há mais uma pessoa. O valor dessa frase é incalculável. Mais um irmão ou irmã e tudo o que isso implica: amor para dar e receber, talentos para partilhar, crescimento para observar. Há mais bens espirituais. Há até mesmo mais oportunidades de crescer nas virtudes: mais oportunidades de partilhar, de ser abnegado, de aprender a brincar com outros e a trabalhar com outros.

Merece também a nossa atenção o fato de que, nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem muitas vezes às famílias quer os meios fundamentais para a sobrevivência, como o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos, quer as mais elementares liberdades. Nos países mais ricos, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade consumista, paradoxalmente unida a uma certa angústia e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e a coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é muitas vezes entendida não como uma bênção, mas como um perigo de que é preciso defender-se (Familiaris Consortio, 6).

Mas você pode evitá-los! — A maior parte das pessoas de gerações anteriores diz algo como: “No meu tempo, não tínhamos como evitá-los. Agora, vocês têm”. De fato, agora, os anticoncepcionais estão mais difundidos e são muito mais acessíveis. Se o anticoncepcional falhar (e ele é, por si só, abortivo), há ainda outras opções, como a pílula do dia seguinte e o aborto. Uma importante questão moral: se algo é tecnicamente possível, isso significa necessariamente que seja bom? Eis um tema para outro artigo.

Mesmo que eu possa “evitá-los”, por que deveria fazê-lo? A alegria e a beleza de uma família numerosa se perde completamente.

Mas seus filhos terão menos atenção! — Pode parecer surpreendente, mas crianças gostam de brincar... com outras crianças, especialmente com irmãos e primos. É claro que é ótimo os pais darem aos filhos muito tempo de qualidade (não necessariamente bens materiais) e atenção exclusiva, e isso pode ser um desafio para uma família numerosa. Há, sim, desafios, mas há também benefícios, que são mais irmãos. Irmãos são companheiros de brincadeiras na infância e amigos para a vida toda, mesmo depois da morte dos pais.

Nossa geração adotou um tipo de paternidade mais desequilibrada, ultra-cuidadosa e “baseada em pesquisas”: a paternidade helicóptero. Pais pairam sobre seu pobre filho único ou sobre seus dois filhinhos, controlando e “educando” cada movimento. Isso é muito mais fácil de equilibrar numa família numerosa.

Mas é pesado demais para você! — Para nossa cultura hedonista e viciada em entretenimento também é duro entender que a verdadeira alegria só vem com o dom de si. O descanso verdadeiro só vem após o trabalho pesado. Eu costumo dizer às pessoas que tudo o que é bom exige trabalho pesado, e elas concordam. Aliás, se você acha mesmo que é assim “tão pesado” para mim, por que não me indica uma babá ou me ajuda com alguma coisa, em vez de me dar conselhos intrometidos?

O que é mentalidade contraceptiva? — É assim que nossa cultura vê os bebês, sejam eles planejados ou não, filhos de uma mulher casada e feliz ou de uma mulher solteira em uma clínica de aborto. Bebês representam um gasto financeiro, o que é uma ameaça em uma visão de mundo que iguala prazer e felicidade. Eu percebi que as pessoas só dão parabéns pela gestação quando é o primeiro bebê e você tem mais de trinta anos, já viajou, frequentou muitos restaurantes e “viveu a vida”. Elas também darão parabéns na gravidez do segundo, se as gestações forem espaçadas e você estiver pretendendo ter um bebê do outro sexo. Todos os outros casos serão criticados.

Bebês geralmente não são bem-vindos em nossa cultura. Famílias numerosas são desconcertantes. Quando leio como S. João Paulo II definiu a “mentalidade contraceptiva” na Familiaris Consortio, em 1981, eu entendo o porquê.

Por outro lado, contudo, não faltam sinais de degradação preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva (Familiaris Consortio, 6).

Essa necessidade de se desculpar quando o corpo de uma mulher faz o que sua natureza o predispõe a fazer, ou seja, quando gera uma vida, tem a ver com a mentalidade contraceptiva. Não se trata apenas de os bebês já não serem mais bem-vindos. Vivemos um colapso generalizado da vida familiar, vivemos num mundo hostil ao estabelecimento e florescimento saudável da família.

As mudanças sociais e culturais de que Paulo VI falou em sua profética encíclica Humanae Vitae foram, de fato, expressivas e profundas. Nos últimos cem anos, em que a contracepção tornou-se mais comum e acessível, não houve apenas uma mera mudança técnica na regulação da fertilidade, mas uma tremenda mudança de paradigma quanto aos relacionamentos, ao amor, à família, ao casamento e, é claro, aos bebês.

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Interessado em São José e desejoso de aumentar a sua devoção a este grande santo? Então não deixe de se cadastrar em nossa lista para o Curso de Férias que Pe. Paulo Ricardo está preparando... justamente sobre o excelso Patrono da Santa Igreja Católica!


Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?
Santos & Mártires

José ou João Batista:
quem foi o maior, afinal?

José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?

Se Nosso Senhor mesmo afirma que São João Batista é o maior entre os nascidos de mulher, por que tantos católicos insistem em afirmar que, depois da Santíssima Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Há alguns meses, recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Recentemente, li um artigo do site sobre o ano de S. José, e algo me capturou a atenção, a saber: ‘[…] crescer em devoção a este [S. José] que é, depois de Maria, o maior de todos os santos de Deus’. No entanto, não teria nosso próprio Senhor dito em Mt 11, 11: ‘Entre os nascidos de mulher não se levantou ninguém maior do que João, o Batista’? Como resolver esse dilema?”

Resposta: Nosso Senhor não se refere em Mt 11, 11 à grandeza de João Batista em sentido absoluto, como se ele fora, de todos os homens já nascidos ou por nascer, o maior em santidade e graça, mas em sentido relativo, por comparação com os santos do Antigo Testamento. João Batista, com efeito, foi o maior dos profetas, o que se vê pelos privilégios e ofícios que Deus lhe atribuiu, dentre os quais se podem destacar os seguintes:

  1. Foi santificado, isto é, purificado do pecado original ainda no útero materno e ali mesmo começou a anunciar, por seu frêmito de alegria, a presença do Messias (cf. Lc 1, 44);
  2. Instituiu, por inspiração especial, o batismo de penitência e, por disposição divina, teve a honra de batizar a Cristo no rio Jordão (cf. Mc 1, 7-11);
  3. Foi o primeiro a pregar a proximidade do Reino dos Céus, ao qual levou e converteu muitíssimos pecadores (cf. Mc 1, 5);
  4. Foi comparado pelo profeta Malaquias a um anjo (cf. Mt 11, 10; Ml 3, 1) e representado, como em seus tipos, pelos profetas que o precederam, especialmente por Elias (cf. Mt 11, 14);
  5. Teve, além do dom de profecia, a coroa da virgindade e a palma do martírio (cf. Mc 6,14-39), o que lhe merece gloriosas auréolas no céu.

Não há dúvida de que, por todos esses títulos e pela função especialíssima que lhe confiou a divina Providência (cf. Lc 1, 15ss), João Batista pode ser considerado o ponto alto de todo o Antigo Testamento e, por conseguinte, digno da mais profunda veneração.

Mas o mesmo Jesus, que louva tão sublimes predicamentos, na mesma passagem de Mt 11, 11 afirma: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”, o que se pode entender, como nota S. Tomás de Aquino, em referência a três coisas:

  1. Quer aos beatos que estão no céu, porque é melhor ter chegado à pátria do que ainda estar em caminho. Por isso, o menor no céu é maior, isto é, está em melhor condição do que o maior santo na terra;
  2. Quer a Cristo mesmo, que, sendo mais jovem que João, é contudo maior do que ele em dignidade (cf. Jo 1, 15), por ser o próprio Verbo feito carne;
  3. Quer, enfim, a diferentes estados dentro da Igreja, porquanto é maior o mérito das virgens que o dos casados, e o dos profetas que o dos simples fiéis; mas é maior ser pai nutrício do Verbo encarnado e esposo castíssimo da Virgem Maria do que ser profeta e precursor de Cristo.

Além disso, vale lembrar que o grau de santidade se mede em função da proximidade ou união a Deus, já que dizemos ser santo justamente quem tem com Deus como que uma só vontade ou coração. Ora, é evidente que, depois de Nossa Senhora, nenhum outro santo esteve tão próximo de Cristo e se aproximou tão estreitamente quanto possível da ordem hipostática do que S. José: só a ele, e a ninguém mais, foi confiado o cuidado especial “de alimentar, educar e proteger a Deus feito homem”. A conclusão impõe-se por si mesma.

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Mulheres, não se casem com qualquer um!
Sociedade

Mulheres,
não se casem com qualquer um!

Mulheres, não se casem com qualquer um!

O medo da solidão parece estar levando muitas mulheres cristãs a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Mas será que vale mesmo a pena abrir mão da própria fé, só para ficar com um homem?

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Este é o testemunho de uma mulher católica, contendo impressões bastante pessoais a respeito da situação em que o mundo se encontra no que tange aos relacionamentos entre os católicos. É um relato que descreve alguns aspectos da realidade, sim, mas que não pretende esgotá-la.

Concedemos que algumas afirmações da autora podem parecer mais duras, especialmente quando ela se refere à falta de homens bons. Convidamos os homens de boa vontade, no entanto, a fazerem um sincero exame de consciência sobre tudo o que é dito abaixo, acolhendo o que há de verdadeiro neste testemunho — e rejeitando o que porventura acharem que não corresponde à verdade dos fatos.

Oportunamente, no futuro, podemos publicar o testemunho de algum homem com o título inverso, apresentando também os problemas das mulheres modernas, especialmente a sua adesão ao feminismo. De qualquer modo, já temos material abundante a esse respeito aqui. Por ora, esperamos que todos tenham a maturidade para entender que o fruto proibido não foi comido nem só por Eva, nem só por Adão.


Vivemos um período único na história. A política nunca foi tão polarizada, a sociedade de massas nunca esteve tão próxima da amoralidade (embora a Roma de Nero tenha chegado perto disso) e para as mulheres nunca foi tão difícil encontrar um homem bom

Reconheço que a última afirmação é ousada, mas permita-me desenvolvê-la. 

Nós vivemos a lamentar o estado em que se encontra a sociedade (a juventude, as universidades, a mídia etc.), que parece se envolver em situações cada vez mais difíceis, oriundas de ideias, comportamentos e políticas regressivas.

A adesão a alguma religião e a presença nas igrejas nunca foi tão baixa, especialmente entre os jovens e, de modo particular, entre os homens. O vício em pornografia é um flagelo de proporções epidêmicas entre os homens e até entre meninos de onze anos. Numa palavra, o mundo está uma bagunça.

Você ouviu falar disso antes.

Há, porém, um efeito colateral importante de tudo isso que não recebe a devida atenção: tem sido cada vez mais difícil para as mulheres (particularmente as cristãs) encontrar bons maridos nesse novo ambiente. A situação é tão terrível que, hoje, as mulheres tendem cada vez mais a abandonar suas convicções religiosas por causa de relacionamentos amorosos.

Talvez esse assunto não seja considerado tão sério quanto o aborto sob demanda ou a perda da liberdade de expressão, mas eu afirmo que ele é tão importante quanto esses temas, se não mais. O futuro de nossa sociedade depende de matrimônios, famílias e cidadãos bons e sólidos. Precisamos de famílias para gerar jovens educados e instruídos que continuarão combatendo o bom combate em todos os temas que afligem nossa sociedade.     

Mas, para alguém como eu — uma católica solteira com 32 anos —, a situação é, de fato, desoladora.

Se eu conversar com as mulheres do meu círculo social, todas elas dirão a mesma coisa: simplesmente não há homens disponíveis. Com isso queremos dizer que há uma assustadora escassez de homens entre 25 e 35 anos que frequentem a igreja, estejam solteiros e sejam maduros.  

A maioria dos homens que conheço têm duas dessas qualidades, mas muitas vezes não têm a última. Os solteiros que vão à igreja geralmente são desajeitados e carecem de habilidade social básica (um verdadeiro banho de água fria para as mulheres). Os mais mundanos não estão solteiros nem são religiosos. E ainda que não sejam religiosos, a maioria dos rapazes têm pontos de vista e valores de centro-esquerda diametralmente opostos aos nossos.

Por essa razão, é um esforço vão aventurar-nos fora do ambiente eclesial. (Sem falar na escassez de homens que estão mesmo abertos à ideia de castidade, mas esse é um assunto completamente diferente.) Não nego que haja bons rapazes solteiros por aí; é claro que há. Muitas das minhas amigas mais próximas foram afortunadas o bastante para conhecer e se casar com homens maravilhosos, inteligentes e com princípios, mas um número ainda maior de mulheres não teve a mesma sorte.  

Eu as encontro constantemente em festas e outros eventos sociais — católicas belas, inteligentes e solteiras que só querem encontrar um homem a quem amar e honrar. No entanto, esse grupo de mulheres parece crescer cada vez mais, ao passo que o número de homens devotos e casáveis está caindo rapidamente.

No início da década de 1960, 87% dos homens australianos se identificavam como cristãos. Essa porcentagem caiu para 49%. Não é necessário dizer que o número de homens que vão à igreja é ainda menor. Essa tendência tampouco existe apenas na Austrália; parece ser, antes, a norma em todo o Ocidente.

Fui a um casamento em Seattle no ano passado e conheci uma mulher que tinha mais ou menos a minha idade. Ela me perguntou se deveria se mudar para a Austrália para encontrar um marido, devido à falta de homens católicos em seu círculo social. 

O fato de ser uma experiência quase universal fala por si. Infelizmente, o crescente desespero alimentado por essa tendência começa a mostrar resultados preocupantes. Conheço pessoalmente três católicas nos seus 20 ou 30 anos que renunciaram às suas crenças para se relacionar com um homem (todos os casos ocorreram ao longo dos últimos anos). Uma delas conheceu um homem pela internet; mais tarde, descobriu que ele era casado (embora separado) e tinha filhos, mas mesmo assim ela foi em frente. 

Contrariando o conselho de seu pároco, outra delas se casou fora da Igreja com um agnóstico a quem namorou por pouco tempo. A terceira começou a sair com um ateu que havia conhecido na universidade. Um ou dois anos depois, ela abandonou a Igreja e as pessoas de quem era mais próxima para poder se casar com ele.

Não se tratava de católicas “de IBGE”. Todas eram católicas de berço, bem educadas na fé e muito ativas em suas respectivas paróquias e comunidades. Mas essas são apenas as que eu conheço pessoalmente. Com certeza há outras.

Muitas pessoas não compreendem isso. Na verdade, eu mesma me esforço para compreender a situação. Independentemente do grau de desespero para se casar, como qualquer outra coisa poderia ser mais importante do que a própria fé? 

Na história da Igreja, as mulheres foram tradicionalmente o bastião da integridade moral. Alguém já disse que, se quisermos julgar a bússola moral de uma sociedade, temos de prestar atenção em suas mulheres. Se entrarmos em qualquer igreja, com certeza veremos mais mulheres do que homens.

De acordo com quase todas as estatísticas, é mais comum que as mulheres permaneçam fiéis à religião, o que torna ainda mais surpreendente cada um dos incidentes relatados acima.

Na verdade, essas histórias são tão chocantes que uma delas bastaria para ser, há poucas décadas, a causa de um enorme escândalo para suas respectivas amigas e comunidades. Mas o novo clima social parece alimentar esse tipo especial de urgência para estar com um homem. A qualquer custo.

Sempre houve um estigma social em torno das mulheres que chegam solteiras aos 30 anos. Talvez isso seja percebido de forma mais intensa em ambientes cristãos, nos quais o casamento entre pessoas mais jovens é visto positivamente. Eu mesma comecei a entrar em pânico quando comecei a me aproximar do meu aniversário de 30 anos, por temer o julgamento daqueles que estavam ao meu redor e por sentir pavor dos rumores de que eu era muito fria ou simplesmente não era capaz de conseguir um marido. Além disso, as mulheres que chegaram aos 30 também sofrem uma pressão biológica, caso queiram ter filhos.

Entendo o pânico, o conflito e o medo, pois passei por tudo isso. Como tantas outras jovens, acreditava piamente que me casaria quando fizesse 25 anos. Minha ansiedade e minha dúvida cresceram constantemente durante todos os aniversários, enquanto meu dedo permanecia sem aliança.

Como, durante a vida inteira, estive convencida de que o matrimônio era minha vocação, foi um choque doloroso e claramente humilhante chegar aos 32 anos solteira. Por isso entendo perfeitamente o desespero que agora está levando as mulheres a iniciarem ou a se apegarem a relacionamentos, mesmo que sejam nocivos, prejudiciais ou ilícitos. 

A vida é muito mais interessante quando temos no horizonte a perspectiva de conseguir um marido. Não surpreende que às vezes as mulheres permaneçam muito tempo (ou até se casem) com homens que são claramente inapropriados para elas. É bastante real o temor de que essa pode ser a única oportunidade de se casarem, e a alternativa pode ser o retorno a uma vida entediante, imprevisível e inútil. 

Elas pensam: “Com certeza não era o que eu esperava, mas pelo menos não estou sozinha, certo?” A solidão é o verdadeiro inimigo na mente de muitas mulheres. É melhor ficar com o diabo que conhecemos do que com aquele que desconhecemos. Embora essa mentalidade sempre tenha existido, a escassez de bons rapazes em nosso mundo parece tê-la sobrecarregado. 

O medo da solidão parece estar levando as mulheres de fé a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Assim como qualquer outra mulher, não quero ficar solteira pelo resto da minha vida, mas isso com certeza não quer dizer que eu ache que vale a pena abrir mão de tudo o que prezo, que me dá esperança, sentido e propósito na vida, apenas para ficar com um homem.

Nenhum homem jamais poderia substituir tais coisas, e eu nem esperaria que ele o fizesse. Por isso, preocupa-me bastante o fato de um número cada vez maior de mulheres perder de vista essa verdade axiomática. Precisamos de mais rapazes no caminho da verdade e da bondade? É claro que sim! Sou profundamente grata pela influência que pessoas como o Dr. Jordan Peterson e Ben Shapiro têm exercido sobre tantos homens, jovens e adultos.

Deveríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para ajudar os homens a tomar a direção correta e encontrar a verdade e o sentido em sua vida. Homens guiados por bons princípios, que têm propósito e direção na vida não são apenas atraentes para as mulheres, são bens inestimáveis para a sociedade. Entretanto, muitas mulheres com quem converso acham que sua chance jamais aparecerá.

Começo agora a encarar a possibilidade de que, talvez, eu fique solteira para sempre. Eu me contorço pelo desconforto e a ansiedade gerados apenas por admiti-lo, mas preciso ser realista. No plano pessoal, a fé me ensina que, se não me casar, essa provavelmente é a vontade de Deus para mim. Posso não gostar disso, pode ser algo que talvez me encha de pavor e desespero, mas provavelmente teria me sentido assim se há dez anos alguém tivesse me dito que eu estaria solteira hoje.

Embora eu tenha realmente sofrido ao fazer 32 anos, sei que minha vida é valiosa, relevante e digna de ser vivida, apesar de não ter seguido o curso que eu imaginava. Além disso, creio que, se Deus quiser que eu permaneça solteira, então será isso que me trará mais satisfação e felicidade na vida.

Serei honesta: neste momento, isso me parece mais verdadeiro em minha mente do que em meu coração. Ainda claudico para aceitar essa circunstância porque, no fundo, não quero aceitar que um sonho alimentado por tanto tempo talvez jamais se realize.

Tenho a sensação de que aceitar essa possibilidade me prenderá a algo inevitável. 

Mas também sei, por bom senso e por experiência, que isso não é verdade; isto é, que se eu aceitar a vontade de Deus — qualquer que seja ela —, me tornarei livre. Pode ser difícil e doloroso, mas só o será a curto prazo. Também reconheço que existe uma diferença importante entre estar sozinha e ser solitária.

Suplico a outras mulheres que estão em minha situação: pensem nisso! Sei como é fácil entrar em desespero se achamos que ficaremos para sempre “na fila de espera”. Mas também sei que nenhum homem nem o matrimônio podem nos tornar realizadas na vida — eles são apenas um bônus (se você tiver sorte). Se aceitar isso, e se passar a se dedicar ao aperfeiçoamento da vida que tem hoje, em vez de buscar a vida que você idealiza, não se perderá no caminho.  

Porque onde está o seu tesouro, lá também está seu coração.

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