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Por que o caso Alfie Evans é tão absurdo e alarmante?
Sociedade

Por que o caso Alfie Evans
é tão absurdo e alarmante?

Por que o caso Alfie Evans é tão absurdo e alarmante?

Preso em um hospital por uma decisão arbitrária de médicos e juízes, o caso do bebê britânico Alfie Evans é ao mesmo tempo revoltante e perigoso. Entenda de uma vez o porquê.

Charles C. Camosy,  First ThingsTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Abril de 2018
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Existem várias formas de um médico influenciar as decisões clínicas a serem tomadas pelos pais em relação a seus filhos que estão em tratamento.

Certos estudos podem ser citados a favor da vontade do médico, e estudos apontando para uma direção diferente podem ser ignorados. É possível usar uma linguagem diretiva, emotiva e mesmo exagerada a fim de manipular, especialmente quando estão em discussão os resultados de várias opções possíveis de ser escolhidas. Números podem ser usados de modo similar: uma consulta deveria focar nos dois terços de pacientes que tiveram resultados ruins ou no um terço que teve resultados satisfatórios?

Essas formas de manipulação são uma preocupação constante da ética médica e ganham um tom dramático quando as equipes médicas discutem deficiências.

Às vezes a vontade de um médico de chegar ao resultado de sua preferência é tão forte, que ele acaba aderindo a práticas enganosas chamadas de “código lento” (slow code, manobras de reanimação propositalmente lentas, em casos de paradas cardiorrespiratórias) ou “código mostrar” (show code, que instrui a equipe médica a fingir manobras de reanimação). O médico diz aos pais que todo o possível será feito por seu filho (full code), mas, na verdade, o doutor e sua equipe não se comprometerão a um tratamento agressivo. Essa prática é defendida por alguns bioeticistas hoje, e com frequência é justificada pela opinião pessoal do médico de que não valeria a pena salvar a vida de uma criança em particular.

Na maioria das vezes, isso é feito por debaixo dos panos. Os médicos em geral são bons em evitar o escrutínio público de seus atos, particularmente nesse tipo de caso. A decisão de recusar tratamento a uma criança por causa de deficiência é distorcida por eufemismos como: parar “por compaixão” ou evitar tratamentos “onerosos” ou “extraordinários”.

Só para deixar claro: a distinção entre um tratamento vital, moralmente necessário, e um tratamento do qual se pode abrir mão — levada a cabo pela teologia moral católica na Alta Idade Média e início da Idade Moderna — é essencial nesses casos.

Todavia, o princípio de jamais provocar a morte de uma pessoa inocente, seja por ação, seja por omissão, não deve comportar absolutamente nenhuma exceção. Trata-se de uma exigência da dignidade da pessoa humana, especialmente quando se quer proteger populações mais vulneráveis, que correm o risco de ser marginalizadas por quem as vê como sendo inconvenientes. Tendo em vista a história da medicina ocidental, repleta de nuances no que diz respeito ao valor das pessoas com deficiência, devemos cuidar para que esse princípio seja sempre reforçado na prática médica.

Alfie Evans: o pai mostra aos jornalistas uma fotografia do filho.

Quanto à discussão corrente sobre o pequeno Alfie Evans, a um primeiro olhar, esse caso parece ter muito em comum com o debate travado, em 2017, a respeito do bebê Charlie Gard. E, de fato, existem semelhanças muito relevantes.

  • Assim como Charlie, Alfie é portador do que parece ser uma doença neurodegenerativa — da qual os médicos britânicos acreditam que ele não será capaz de se recuperar jamais.
  • Assim como os médicos de Charlie, os de Alfie acreditam que o dano causado a seu cérebro tornaria inútil prolongar a sua vida, razão pela qual eles recomendaram que a ventilação artificial que o mantinha vivo fosse desligada, a fim de que ele pudesse morrer — tudo tendo em vista os seus “melhores interesses”.
  • Assim como Charlie, Alfie ganhou o apoio de inúmeras pessoas ao redor do mundo, inclusive do Papa Francisco. Ele ganhou cidadania italiana, e a Itália se dispôs a transportá-lo para o Hospital Bambino Gesù, do Vaticano, sem nenhum custo para o serviço de saúde britânico. (Na tarde de anteontem (25), foi rejeitado o último recurso dos pais de Alfie à ordem judicial que impedia o vôo de seu filho a Roma.)

Existem, no entanto, algumas diferenças importantes entre os dois casos. A síndrome de Charlie, mesmo sendo rara e pouco conhecida, foi efetivamente diagnosticada. A de Alfie não. Charlie foi examinado de forma abrangente por vários tipos de equipes médicas, enquanto Alfie foi tratado quase que exclusivamente em uma unidade de terapia intensiva.

Mas provavelmente a mais importante diferença entre os dois casos é que, quando as autoridades britânicas determinaram que o suporte de Alfie fosse desligado, ele não morreu. Até o momento, o bebê está respirando por conta própria, já há mais de três dias.

Em resposta a esse impressionante rumo que vêm tomando os acontecimentos, a equipe responsável por Alfie parecia estar dando a ele água e oxigênio (não o suficiente, segundo algumas fontes), embora estivesse aparentemente negando à criança, por outro lado, níveis básicos de alimentação.

Esse procedimento em hipótese alguma pode ser considerado uma renúncia a um tratamento oneroso ou extraordinário. Assegurar que uma criança com deficiência receba alimentação e hidratação adequadas, especialmente quando ela é incapaz de obtê-las por si só, não é um ato médico, senão um princípio básico de decência humana.

Não economizemos palavras. Assim como Charlie Gard, a morte de Alfie Evans está sendo intentada pelas próprias pessoas cuja vocação seria ajudá-lo e protegê-lo. A diferença no caso de Alfie é que, por ele seguir respirando, a suposta “renúncia a um tratamento oneroso” torna-se notoriamente absurda. Em uma situação sem dúvida embaraçosa para aqueles que esperavam a sua morte, o fato de Alfie continuar respirando deixou mais clara a verdadeira natureza do ato de desligar a sua ventilação artificial.

É claro que, assim como Charlie Gard, nós tínhamos evidência mais do que suficiente para fazer um tal julgamento, mesmo antes de Alfie ser desentubado. O juiz de primeira instância que se negou a permitir que Alfie viajasse para a Itália estava preocupado com o dano cerebral causado à criança, e não com a “desproporção” do tratamento que se desejava dar ao menino. Como é possível que a deficiência de Alfie seja grave, por isso, de acordo com o juiz, seria do “melhor interesse” da criança… morrer.

Considerando o quanto ainda temos a aprender sobre o cérebro e a sua relação com o funcionamento do nosso organismo, o juiz em questão pode simplesmente estar errado. Em outro caso, um bebê que nasceu com apenas 2% de tecido cerebral normal tem agora, inexplicavelmente, um cérebro em pleno funcionamento. Estudos de caso mostram que pacientes sem camadas do córtex cerebral podem ainda assim saber quem são, contar piadas e reconhecer a si próprios em fotografias. Algumas crianças nascidas com hidranencefalia podem sorrir e chorar, entender a diferença entre familiares e estranhos e até mesmo ter preferência por certos tipos de música.

Também não se pode excluir a possibilidade de que os medicamentos no sistema de Alfie tenham suprimido as conexões talâmicas do cérebro, dando assim a falsa impressão de que grande parte do órgão tenha se danificado.

Uma criança portadora de síndrome de Down. Cada vez mais rara em países como a Islândia.

Mas, mesmo supondo que o juiz esteja correto, o que ele e outras pessoas estão defendendo é que certas crianças portadoras de deficiências graves seriam indignas de viver. Juntando este caso com o de Charlie Gard, o Reino Unido estabelece dois precedentes claros e assustadores, a partir dos quais genitores que não concordem com a visão eugenista dos médicos de seus filhos podem tê-los arrancados de suas mãos e deixados para morrer — tudo no “melhor interesse” das crianças.

Por pior que seja essa tendência, quando combinada com outras tendências do Ocidente secular e supostamente desenvolvido, é possível entrever um caminho lógico e muito claro em direção a coisas ainda piores.

Já existe um “capacitismo” sistemático atuando, por exemplo, nas elevadas taxas de aborto de crianças diagnosticadas com síndrome de Down durante o pré-natal: muitos países da Europa estão eliminando pessoas com essa deficiência em uma taxa que vai de 70 a 90%. A Bélgica e a Holanda desenvolveram protocolos legais para matar crianças depois de nascidas, geralmente por causa de julgamentos a respeito da “qualidade” de suas vidas. Muitos bioeticistas seculares têm defendido a morte ativa de pacientes com deficiência — consequência natural do fato de já estarmos provocando suas mortes, ao deixarmos de lhes dar tratamento.

Basta raciocinar um pouco. O que logicamente impediria um Estado de decidir que vários tipos de crianças com deficiência são indignas de viver, tomando-as de suas famílias à força e provocando suas mortes — no “melhor interesse” delas, é claro?

O Ocidente secularizado e supostamente desenvolvido encontra-se em um de seus mais sérios dilemas morais. Seguiremos a lógica dos princípios morais e legais adotados em países como o Reino Unido, a Bélgica e a Holanda? Ou seremos capazes de juntar forças morais para combater tais princípios de maneira direta e convincente?

Um dos momentos de maior glória para a Igreja Católica no século passado foi a condenação clara e vigorosa dos bispos alemães ao programa de eutanásia nazista para pessoas com deficiência. Não é uma analogia histórica perfeita, mas hoje a Igreja se encontra na cúspide de um momento similar. Seremos mais uma vez francos e veementes na defesa dessas pessoas vulneráveis, que correm o risco de ser mortas? Ou iremos nos render às poderosas instituições forçando uma agenda violenta, “capacitista” e que está em oposição a nosso compromisso fundamental — sem o qual corre risco nossa própria salvação eterna — de ver o rosto de Cristo nas crianças com deficiência?

O Papa Francisco admiravelmente colocou-se do lado tanto de Charlie Gard quanto de Alfie Evans. Mas a hierarquia católica europeia, de modo geral, parece fria e complacente, prestando deferência ao establishment médico-legal que vê, na aplicação da teologia moral católica a esses casos, nada mais do que um “nonsense ridículo e emotivo”.

Talvez aqueles que não foram infectados com o “capacitismo” do Ocidente secularizado e supostamente desenvolvido estejam em melhores condições de corresponder a essa expectativa. Os bispos do Brasil, curiosamente, gravaram um vídeinsistindo em que o governo britânico tem o dever de usar seus recursos para suportar aqueles que mais precisam, e por isso a vida de Alfie deve ser protegida.

É exatamente isso. Basta de deferências ao establishment médico-legal e a seus julgamentos sobre quais vidas seriam dignas de ser salvas. Agora é o momento de escolhermos. Os mais vulneráveis exigem nosso apoio inequívoco e incondicional.

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Rezar de manhã, segredo para o sucesso
Espiritualidade

Rezar de manhã,
segredo para o sucesso

Rezar de manhã, segredo para o sucesso

Você já teve a experiência de um dia que parece simplesmente não dar certo? Quando um monte de coisas se acumulam e você não consegue fazer nada? Talvez esteja faltando alguma coisa…

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2018
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Você já teve a experiência de um dia que parece simplesmente não dar certo? Quando um monte de coisas se acumulam e você não consegue fazer nada? Em que você percebe, lá no fundo, um sentimento de frustração, falta de foco e descontentamento com tudo e com todos?

Sim, todos nós já passamos por isso.

Não estou querendo dizer que seja esta a única explicação, ou a que melhor se encaixe na situação de todas as pessoas, mas, pelo menos falando por mim mesmo, tenho notado que todos os dias que não começam com um tempo de oração e recolhimento sempre “vão mal” dessa forma. Por outro lado, quando eu me levanto mais cedo e reservo um tempo para as Escrituras e alguma hora do Ofício Divino, o resto do dia pode até se mostrar difícil, mas as coisas nunca saem do controle, nem parecem “impossíveis” de resolver.

Santo Tomás de Aquino gostava de dizer que “o último na execução é o primeiro na intenção”. Ou, como os antigos colocavam de forma ainda mais sucinta: Respice finem, isto é, “Tenha diante dos olhos a finalidade das coisas”. O que esse axioma quer nos dizer é que, independentemente do que em última análise queiramos alcançar, essa coisa precisa ser a primeira que tencionamos e a primeira sobre a qual pensamos, a fim de que o poder dessa intenção nos conduza ao longo dos passos intermediários que tantas vezes separam onde estamos agora do lugar aonde esperamos chegar.

O fim da vida humana como um todo é a visão face a face de Deus no céu, na companhia de seus anjos e santos. Para alcançar esse fim, teremos de ordenar, harmonizar e integrar incontáveis passos intermediários desde este momento até nosso último suspiro. Nesse processo, nós precisamos não somente da graça de Deus (que é o primeiro requisito!), mas também de uma busca consciente desse fim, e de uma maneira constante, a fim de que nossas ações diárias sejam coerentes e tenham sentido. Dizendo de modo simples: nós só conseguiremos “dar sentido à bagunça” em que tantas vezes está metida nossa vida quando começarmos a ver as coisas sub specie aeternitatis — à luz da eternidade, de nosso destino final.

São estas as vantagens, portanto, de se começar o dia com oração: ela efetivamente predispõe o que quer que venha a acontecer naquele dia em ordem a uma finalidade; coloca-nos na presença de Deus, que está no comando de tudo; e faz com que peçamos a sua graça, para continuarmos associando a Ele — fonte imutável de vida — o fluxo interminável de acontecimentos do dia, inclusive os sofrimentos que virão.

Deus, nosso fim último, é alcançado por meio da oração. Por meio dela, através de sua graça, nós entramos mais profundamente no mistério do amor sacrificial que Ele derrama em nós no Batismo e em todos os outros sacramentos. Sem oração, nós até podemos (por um tempo e em algum grau) “ter” essa união com a Santíssima Trindade objetivamente, mas ela não seria o lugar onde nós vivemos, a atmosfera onde respiram nossos pensamentos e desejos. Quando entramos conscientemente nessa união, nós “arrancamos” de Deus, para quem nada é impossível, a força para levar a cabo todo trabalho que Ele nos pedir naquele dia.

Nem sempre é possível fazer muitas coisas, mas nós precisamos tentar fazer o “único necessário”, isto é, sentar-se aos pés de Nosso Senhor e mergulhar em suas palavras, em sua presença, ao despertar de todo e cada dia.

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A Revolução Sexual e suas mentiras
Sociedade

A Revolução Sexual e suas mentiras

A Revolução Sexual e suas mentiras

A história ensinada em praticamente todas nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia. Os adeptos da revolução não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que eles sempre fazem.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Outubro de 2018
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“O modo mais eficaz de destruir as pessoas”, notou certa vez George Orwell, “é negando e apagando-lhes da memória o próprio entendimento que elas têm da sua história”. Na cultura atual, o próprio conhecimento da história será em pouco tempo coisa do passado.

Apresentadores de programas noturnos às vezes fazem comédia desse crescente “Alzheimer” cultural perguntando a pessoas nas ruas questões banais como: “Quem foram os Aliados na Segunda Guerra Mundial?”, e recebendo respostas vergonhosas. Mas há um lado notadamente menos engraçado do nosso esquecimento. Nós estamos correndo o grande risco, como diz o velho ditado, não apenas de repetir a história por nos termos esquecido dela, mas de repeti-la sem sequer estarmos cientes disso.

Foi esse ponto que o experiente jornalista e autor canadense Ted Byfield fez questão de enfatizar mais de uma vez quando conversamos algum tempo atrás. “Nós estamos abandonando rápido muitos dos princípios sociais e morais fundamentais sobre os quais nossa civilização se encontra fundada”, disse ele. “Estamos cortando apaixonadamente o galho em que nos sentamos… Muito poucas pessoas, instruídas ou não, sabem de onde vieram esses princípios, e como viemos a abraçá-los. Ignoramos nossa herança e história, e isso é muito perigoso.”

Ted Byfiel está certo. Quando há vários anos eu comecei a pesquisar sobre a história da sociedade ocidental, fiquei muito surpreso com o simples fato de que muitas coisas que eu havia aprendido — ou pelo menos tinha sido levado a acreditar — não eram verdade. Se há muitos professores universitários generosos e eruditos, alguns dos quais tive o privilégio de conhecer, há também muitos hippies senis que trocaram suas comunas por uma forma mais fértil de disseminar a própria ideologia: a academia. Em auditórios diante de milhares de estudantes, eles vendem sua própria versão de como a história se desenrolou, deixando a maioria de nós completamente ignorante de como as coisas realmente aconteceram.

Desde que finalizei minha graduação em história, tenho percebido com frequência uma ironia: muitos pais cristãos lutam contra as influências da cultura a fim de inculcar em seus filhos os valores tradicionais e uma visão de mundo cristã, para depois bancar-lhes os estudos universitários e dar à faculdade quatro anos para convencer seus filhos a abandonarem essa visão de mundo.

Alfred Kinsey, uma fraude ainda celebrada nas universidades.

Eu aprendi, por exemplo, no primeiro ano de história, que não houve Revolução Sexual coisíssima nenhuma, porque os infames relatórios de Alfred Kinsey em 1950 haviam “revelado” que norte-americanos de todas as classes sociais já estavam praticando todo tipo imaginável de ato sexual. Praticamente ninguém era fiel a seu cônjuge, relações homossexuais eram comuns e até a bestialidade era supostamente frequente.

Essa ainda é a história que vem sendo ensinada sem questionamento — mesmo que os relatórios Kinsey tenham sido desbancados, e ele mesmo tenha sido desacreditado por inúmeras culpas, desde ter permitido atos horríveis de pedofilia para chegar a seus dados até tê-los distorcido de propósito para contestar a ética sexual cristã. Aqueles, porém, que ainda se dedicam de coração a celebrar a velha e doentia Revolução de 60 muito têm a perder com a divulgação desse conjunto perturbador de fatos históricos.

O mesmo se deu com a antropóloga Margaret Mead e seu famoso livro Coming of Age in Samoa (“Adolescência, sexo e cultura em Samoa”), de 1928 — uma obra que estourou na consciência ocidental “revelando” que outras culturas rejeitavam códigos tradicionais de comportamento sexual e estavam prosperando em consequência disso.

Depois de ter sido o livro de antropologia mais famoso já escrito (leitura obrigatória nas universidades de todo o mundo ocidental), mais tarde ficou provado que suas pesquisas foram mal conduzidas e eram até mesmo fraudulentas. De fato, as fontes de Margaret Mead revelaram a um professor que acompanhou suas teses anos depois que suas excitantes histórias haviam sido apenas uma piada. Ainda assim, você não verá a obra da antropóloga ser examinada criticamente na maior parte das universidades — ainda que seja ela a sustentar grande parte das atitudes de nossa sociedade em relação à chamada liberação sexual.

Dr. Bernard Nathanson, médico aborteiro que se converteu à causa pró-vida.

A rede de fraudes continuou com o aborto. O Dr. Bernard Nathanson — médico que ajudou a fundar (com líderes feministas eminentes, como Betty Friedan) a NARAL, uma associação para repelir leis contrárias ao aborto — foi uma voz fundamental para promover a maior clínica de abortos do mundo, no estado de Nova Iorque. Depois de se tornar pró-vida, como resultado de estudos avançados feitos na área da embriologia, ele revelou em uma série de memórias que o número de abortos clandestinos usado pela NARAL e o movimento abortista para defender a legalização da prática era inventado.

A informação é corroborada pelo fato de nenhuma fonte histórica confiável fornecer qualquer evidência dos números impressionantes de abortos ilegais que o establishment pró-aborto diz acontecerem nos Estados Unidos até hoje. Existem ainda dezenas de pessoas nos campi usando o argumento de que o aborto não diminui quando se torna ilegal. E por quê? Porque eles nunca aprenderam história alguma de fato, apenas a narrativa fictícia criada para o consumo público.

Esses são apenas três exemplos alarmantes de centenas que poderiam ser dadas. Nossas elites culturais — a mídia, o cinema, a academia e até muitos do establishment político — estão envolvidas demais no terrível experimento que foi a Revolução Sexual para examinar honestamente a sua história ou os seus trágicos resultados. Nossa história não é nossa. A história ensinada em praticamente todas as nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia.

Os revolucionários sexuais não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que revolucionários sempre fazem. Isso chamou minha atenção em particular há alguns meses durante uma viagem à China. Nossa guia turística, Anna, levava a mim e a um amigo meu da Cidade Proibida, passando pela Praça de Tiananmen, até o Mausoléu de Mao Tsé-Tung, onde o falecido ditador ainda repousa em um caixão de vidro. Depois de escutá-la exaltando por horas o ditador, perguntei-lhe como era possível que ela acreditasse que Mao havia sido bom para a China quando, segundo algumas estimativas, ele foi responsável pela morte de quase 70 milhões de pessoas. Primeiro ela se irritou e depois ficou agitada. Informou-me que Mao havia sido um “grande líder” e concluiu nossa discussão anunciando que “negar Mao seria como negar o Partido Comunista”! E, com isso, a verdade histórica foi facilmente descartada por obrigação ideológica.

A fim de entender a insanidade sexual e a carnificina que tomaram conta de nossa cultura em praticamente todas as frentes, é preciso devolver à história o seu lugar de honra. Nós temos de analisar honestamente e entender como chegamos a esse ponto. Sem isso, sequer começaremos a tomar consciência do que nos cabe fazer. Precisamos armar nossos filhos e as futuras gerações com a verdade do que realmente aconteceu na história, e com o porquê de nós acreditarmos no que acreditamos.

É precisamente isso o que me disse Ted Byfield, agora em seus 80 anos, quando lhe perguntei o que os mais jovens poderiam fazer para começar um processo de renovação cultural. Ler história com urgência, disse-me. As pessoas ficarão impressionadas quando descobrirem o que realmente aconteceu — “elas ficarão surpresas com as coisas completamente sem sentido que fizemos no século passado; o que precisa ser enfatizado em nossa geração é a descoberta do que aconteceu; em outras palavras, é preciso entrar em contato com a história.”

À medida que as pessoas fizerem isso, finalmente as coisas começarão a fazer mais sentido.

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Os filhos abortados do rock n’roll
Sociedade

Os filhos abortados do rock n’roll

Os filhos abortados do rock n’roll

Eles se devotaram a pregar e viver sob o lema “sexo, drogas e rock n’roll”. Mas quase ninguém fala do que acontecia na manhã seguinte, quando era hora de arcar com as consequências dos próprios atos.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Outubro de 2018
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Há uma tragédia que acontece unicamente com o aborto. Trata-se de um procedimento que cruelmente dá fim à vida de um pequeno bebê, mas cuja feiúra quase nunca se dá a olhos vistos. A criança fica viva por apenas alguns instantes, mas frequentemente deixa um vazio enorme, que invade as profundezas dos que descartaram a vida daquele pequenino para o outro mundo. Sua ausência deixa perguntas impossíveis de ser respondidas: “Quem eu seria? Quanto você teria me amado? Quem eu poderia ter sido para você?”

Essas questões deixaram marcas na literatura norte-americana, permearam as canções de artistas angustiados, e a grande lacuna do que poderiam ter sido essas crianças tornou-se praticamente onipresente na arte dos cantores e escritores de nossos tempos rebeldes. Em poucos lugares isso é tão verdadeiro quanto nas biografias dos cantores responsáveis pela trilha sonora das assombrosas mudanças sociais do último século, aqueles que proclamaram sua fé na tríade “sexo, drogas e rock n’roll.

As estrelas do rock, que caíram nas graças de milhões de fãs apaixonados, tiveram de pagar um preço por suas tentativas de viver uma “eterna juventude” — ainda que, na maior parte das vezes, tenham sido suas mulheres e filhos as maiores vítimas de suas irresponsabilidades.

Elvis Presley.

Joyce Bova abortou um filho de Elvis Presley sem lhe contar nada — à época, ele ainda estava casado com Priscilla, a quem o astro abandonou depois de ela dar à luz sua única filha viva até hoje. Elvis tinha uma política pessoal hedionda de descartar mulheres se elas engravidassem.

O filho de Bob Dylan com Suze Rotolo foi abortado em 1963, e o evento trágico foi um catalisador para o fim do relacionamento dos dois, um ano depois.

Eric Clapton supostamente teria forçado sua namorada Lory Del Santo a abortar o único filho dos dois, Conor, e embora ela tenha se recusado a fazê-lo, o garotinho morreu com quatro anos, depois de despencar de um arranha-céus em Nova Iorque.

Não surpreende que os abortos estivessem em alta demanda entre os altaneiros canarinhos dos anos 60 que cruzavam continentes, cantando odes à liberdade pessoal pela qual alguém, em algum lugar, teria de pagar.

Janis Joplin passou por um aborto mal feito em Tijuana, no México, mas ainda assim decidiu tornar-se, depois, benfeitora da mesma clínica ilegal.

Suzi Quatro, uma das poucas artistas femininas de sucesso prolongado no rock, era constantemente torturada pelo aborto que fizera depois de engravidar de um executivo musical casado. Apesar de sua carreira, ela não conseguia escapar da consciência de suas raízes ítalo-católicas, e o bebê espreitava as arestas de seus pensamentos por décadas. “Aquilo nunca foi embora”, ela observava com tristeza. “Quando meus dois filhos nasceram, eu não conseguia tirar da minha cabeça quem aquele primeiro bebê poderia ter se tornado. Ele ou ela teria 46 anos agora. Qualquer mulher que tenha passado por um aborto e diga a você que não foi nada, está mentindo.”

A ética pró-vida de imigrantes católico-italianos nem sempre conseguiu segurar a todos, infelizmente. A mãe de Frank Sinatra, por exemplo, trabalhou como parteira e fornecia abortos clandestinos “seguros” para mulheres em Hoboken, Nova Jersey. Ela ganhou um registro criminal por seus esforços, tendo sido presa pelo menos duas vezes por cometer abortos ilícitos. Depois, pelo menos dois de seus netos também morreriam nas mãos de aborteiras — Ava Gardner provocou dois abortos ao longo de seu casamento com Frank Sinatra. O casamento dos dois era tumultuado, repleto de ciúmes e explosões de raiva, e Ava diria depois que não queria trazer filhos para a instabilidade do relacionamento que tinham os dois. O cantor teria ficado de coração partido ao descobrir os filhos que ele nunca chegou a conhecer.

Mesmo antes da era “sexo, drogas e rock n’roll”, o aborto era uma prática comum entre as estrelas musicais norte-americanas.

Ray Charles.

Uma amante da lenda dos R&B, o cego Ray Charles, revelou ter abortado um filho dos dois depois de um caso, quando ele ainda era casado com Della Robinson. Mas a amante nunca contou isso ao astro.

Inúmeros biógrafos apontam que a infertilidade da lenda do jazz Ella Fitzgerald era certamente devido a um aborto no passado.

A cantora do mesmo gênero Billie Holiday contou a um escritor de um aborto caseiro agonizante que ela foi obrigada por sua mãe a fazer ainda jovem.

A atriz Judy Garland foi forçada a realizar um aborto por um estúdio de cinema, pois, eles diziam, a maternidade arruinaria o aspecto doce e inocente que lhe tinha feito render tanto dinheiro.

Quando Tina Turner descobriu que seu abusivo marido Ike havia engravidado uma amante ao mesmo tempo que a ela… a cantora abortou o próprio filho.

Em meio aos jogos sujos de infidelidade que aconteciam nas elites musicais, eram seus filhos que “pagavam o pato”. Audrey Mae Sheppard, a primeira esposa da lenda do country Hank Williams, começou sua própria série de affairs para competir com as infidelidades do marido. Quando ficou grávida em 1950 — ninguém sabia se o filho era de Hank ou não —, ela teve um aborto ilegal em casa, e acabou parando em um hospital com uma infecção. Hank apareceu com presentes e tentou cobri-la de afeto, ao que ela respondeu com xingamentos, acusando-o de tê-la feito passar por aquela situação e rompendo com ele. Pouco tempo depois, Hank Williams escreveu uma música sobre tudo isso e intitulou-a Cold, cold heart (“Coração gelado”). O cantor morreu três anos depois com apenas 29 anos.

Patsy Cline, outra lenda country de curta duração, que morreu aos 30 em um trágico acidente de avião, também teve um aborto.

Steven Tyler e Julia Holcomb.

Como sempre, o aborto traz consigo o remorso e a dor pelos filhos ausentes e mudos, descartados antes que fosse possível descobrir quem eles realmente seriam.

Julia Holcomb, a jovem tiete que conheceu Steven Tyler, da banda “Aerosmith”, nos bastidores de um show de rock, embarcou em um vicioso relacionamento de três anos com o cantor. O caso dos dois quase virou casamento, mas terminou com o aborto do filho que eles conceberam juntos. Foi o amigo de Steven, Ray Tabano, que o convenceu em 1975 que um aborto era a única solução, e a experiência marcou-o permanentemente. “Foi uma grande crise”, escreveu o vocalista em sua autobiografia. “Convenceram-nos de que aquilo jamais daria certo, que iria arruinar nossas vidas.”

Mais tarde, seria do aborto, e não do filho, que o casal se arrependeria. Steven Tyler descreveu com horror o ato de ter visto o aborto acontecer. O bebê já estava com cinco meses. “Você vai ao médico, eles colocam a agulha na barriga dela, apertam aquele negócio (injeção salina) e você assiste. E a criança sai morta. Eu fiquei bem devastado. Na minha mente eu dizia: o que foi que eu fiz?” Julia depois escreveu que o bebê nasceu vivo e foi deixado para morrer.

Ray Tabano, o amigo que havia convencido Steven de que o aborto era a coisa certa a se fazer, admitiu que o impacto de tudo não foi como ele previra. “Eles tiveram um aborto e isso realmente deixou Steven perturbado”, contou o amigo. “Ele viu tudo acontecer e isso o perturbou por muito tempo.” Julia Holcomb se mudou com seus pais dois anos depois, e nunca mais falou com Steven. Ela agora é casada, tem seis filhos e é uma sólida defensora da causa pró-vida.

Testemunhar com os próprios olhos o que o aborto faz na realidade, como aconteceu com Steven Tyler, pode resultar, em muitos casos, numa incredulidade repulsiva. O grupo “Sex Pistols” chegou a gravar uma música aterrorizante sobre o aborto, baseada em uma fã que os acompanhava e havia realizado vários abortos. Diz uma das histórias que a mulher foi à porta da casa de John Lydon, vocalista da banda, segurando um bebê abortado dentro de um saco plástico transparente — em sua autobiografia, ele descreve a mulher, chamada Pauline, contando-lhe os abortos por que passou em todos os seus excruciantes detalhes.

O cantor satânico Marilyn Manson, por outro lado, que procurou transformar toda a sua vida em uma obra de arte que celebrasse a morte, descreveu o aborto de seu filho com tranquilidade e até com prazer em um de seus livros:

Os médicos introduziram na cérvix de Missi (Melissa Romero, namorada do cantor na década de 90) uma haste do tamanho de um palito de fósforo, com dois pequenos filamentos saindo para fora na parte de cima, dilatando o colo antes de arrancar o cérebro de nosso filho com um fórceps.

O perverso ato de Manson de celebrar a decapitação do próprio filho não é a norma. Ainda que as estrelas do mundo da música sejam em grande parte favoráveis ao aborto, suas biografias revelam com clareza o dano causado pela prática. Sharon, esposa de Ozzy Osbourne e que teve um aborto aos 17 anos, conta:

Foi a pior coisa que eu já fiz… Eu fui sozinha. Estava aterrorizada. O lugar estava cheio de outras jovens mulheres, e todas nós estávamos aterrorizadas, olhando umas para as outras, e ninguém era capaz de dizer uma palavra sequer. Eu gritava o tempo todo, e foi horrível. Eu não recomendaria isso jamais, a ninguém, porque é algo que volta para te assombrar. Quando tentei ter filhos, perdi três — acho que porque algo aconteceu com o colo do meu útero durante o aborto.

Até mesmo o rapper Eminem, conhecido por suas letras de música brutais e assassinas, compôs uma música que assumiu a forma de uma confissão detalhada de um aborto e do mal que havia sido feito a um “pequenino”.

Os exemplos são infindáveis. Anita Pallenberg foi forçada a fazer um aborto por seu namorado, Keith Richards, dos “Rolling Stones”, para que ela pudesse estrelar em um filme no qual eles estavam trabalhando. A cantora Sinitta Malone já falou de um aborto terrível que ela teve nos anos 80 depois de conceber um filho com o magnata da música Simon Cowell — aborto que, ela conta, deixou ambos “devastados”.

Mesmo Madonna, uma apoiadora clamorosa do aborto, admite ter se arrependido do aborto por que passou quando sua carreira estava começando. “Você sempre se arrepende quando toma esse tipo de decisão”, ela contou à revista “Time” em 1996, “mas você precisa olhar para o seu estilo de vida e se perguntar: ‘Será que eu estou numa posição da minha vida em que eu posso devotar tempo para ser realmente o bom pai e a boa mãe que eu gostaria de ser?’”

A declaração de Madonna resume com franqueza a situação. Ainda que muitos cantores e estrelas do rock se arrependam dos abortos que praticaram, causaram ou financiaram, seus estilos de vida normalmente eram (e ainda são) incompatíveis com filhos. A verdade nua e crua é que promiscuidade geralmente acaba em gravidez, e bebês são um fardo para os que se gabam das alegrias da Revolução Sexual em seus microfones, diante de multidões barulhentas, pulando, repletas de jovens com os hormônios à flor da pele e querendo se divertir.

“Sexo, drogas e rock n’roll” — mas ninguém fala do que acontece na manhã seguinte, quando é hora de pagar o preço do que se fez. A ressaca bate, o traficante quer seu dinheiro e o teste de gravidez dá positivo. O que acontece em seguida? Como os bebês esquartejados do cenário musical norte-americano nos falam sem dizer nada, o aborto vem depois — e as crianças são reduzidas a uma mera “sujeira de sangue”. As músicas então dão lugar ao silêncio, e o vazio da perda é avassalador o bastante para engolir vidas inteiras.

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Pecado mortal, inferno antecipado
Espiritualidade

Pecado mortal, inferno antecipado

Pecado mortal, inferno antecipado

“Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Outubro de 2018
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Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, amados e muitos queridos irmãos em Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo e conforto no precioso sangue do seu Filho, desejosa de vos ver como verdadeiros filhos, sempre vivendo no autêntico e santo temor de Deus, de maneira que jamais desprezeis o sangue de Cristo.

Muito ao contrário, vós deveis desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus. De fato, bem merece repreensão quem entrega o próprio corpo à maldade e à impureza. Pensando na perfeita união de Deus com a humanidade, meus queridos irmãos, quero que isso não aconteça convosco. Especialmente tu, Vanni! Põe tua alma diante dos olhos, bem como a brevidade. Lembra-te de que deves morrer e não sabes quando. Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará. Mas convido os três a sacrificar os próprios corpos e a aceitar morrer por Cristo crucificado (na Cruzada), se for preciso. Antes disso, até que chegue a hora, quero que sejais santamente virtuosos confessando-vos e alegrando-vos sempre em ouvir a Palavra de Deus. Porque, como o corpo não pode ficar sem o alimento, também a alma não pode ficar sem ouvir a Palavra de Deus. Cuidado com os maus companheiros, pois seriam um obstáculo ao bom propósito.

Nada mais acrescento. Queridos e bondosos irmãos em Cristo Jesus, permanecei no santo e doce amor de Deus [1].

Como muitos outros grandes santos e místicos da Igreja, Santa Catarina de Sena escolheu passar a vida no meio do mundo. Ela estava imersa em Deus, sim, mas justamente por amor a Ele, vivia “com as mãos na massa”, entregando-se ao apostolado, levantando as pessoas à sua volta e levando-as à comunhão com o Deus que ela mesma havia encontrado. A carta acima, aqui transcrita na íntegra, é apenas um exemplo das muitas correspondências que ela escreveu alertando seus filhos espirituais do perigo do pecado mortal.

Nesta carta em especial, a santa fala da importância de “desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus”.

Quando pecamos mortalmente — isto é, quando nos afastamos gravemente da lei de Deus querendo e sabendo o que estamos fazendo —, é como se serrássemos o próprio galho em que estamos sentados: o pecado grave corta nosso relacionamento com o autor da vida, com o sustentador do nosso ser, com Aquele que nos concede todas as graças de que precisamos. De modo que — é o que sempre ensinou a Igreja e é o que repete Santa Catarina nesta carta — se morrêssemos nessa condição, nosso destino eterno seria o inferno: “Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Ao que tudo indica, Santa Catarina escrevia a uma pessoa que já tinha fé católica. Hoje, porém, antes de recomendar às pessoas que se arrependam de seus pecados e procurem um padre para se confessarem, é necessário que primeiro elas creiam! Precisamos nos convencer de que, como diz Nosso Senhor no Evangelho, “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora”, “secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e será queimado” (Jo 15, 6). As mil justificativas que nossa cabeça tenta arrumar para pecarmos — ou pior, para vivermos afundados na lama do pecado — não passam de tentações e precisam ser afastadas sem demora. O que está em jogo é nossa salvação eterna.

Mas o inferno de quem vive em pecado mortal se antecipa, de certo modo, já nesta vida. O martelo do “Rei de tremenda majestade” nem sentenciou ainda a alma ao inferno, e ela já sofre nesta vida as terríveis consequências de seu alijamento de Deus. A começar pelo fato de que, quando cai no pecado, a primeira coisa que costuma fazer o pecador é deixar a vida de oração.

Se estivesse realmente disposto a sair do buraco em que se enfiou — ou seja, se visse no pecado que cometeu o que ele deveria ser de fato: uma queda, após a qual é preciso levantar-se rápido, sem demora —, o pecador não tardaria a se pôr de joelhos, suscitar em seu coração um arrependimento vivo de sua culpa e suplicar o perdão divino pelo que fez. Mas não… ele prefere voltar as costas a Deus e levar a vida como se nada tivesse acontecido, adiando sua Confissão e conversão verdadeira para “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe”…

Nessa toada, os dias de quem vive no pecado mortal se transformam ou em remorso ou em falta de fé. Ou a pessoa sente constantemente os “remordimentos” de sua consciência, chamando-a de volta para o caminho que abandonou, ou faz calar essa incômoda voz e deixa de acreditar em Deus, no pecado e no inferno, abraçando de uma vez a falsa paz do mundo. Assim é o inferno antecipado dos que perderam a graça de Deus: estão condenados ou à amargura ou à infidelidade, ou à desobediência ou ao ateísmo, ou a viver fugindo ou a viver negando a Verdade.

Para não cairmos nessa tragédia, é preciso que fortaleçamos a nossa fé: em Deus, em Cristo e na Igreja, sim, mas também no pecado, porque há muitos hoje na Igreja que dizem crer em Deus, mas que, ao mesmo tempo, perderam completamente a noção do pecado.

Não aconteça isso conosco! Coloquemos de uma vez por todas em nossa cabeça que o pecado mortal não é um simples acidente de percurso… Não, ele é o desviamento total da rota, é o veículo que deu perda total e do qual precisamos sair o quanto antes, antes que exploda, ainda que tenhamos fazer o caminho a pé, vivendo em constante penitência por nossos erros.

Quem caiu, portanto, levante-se logo e passe a viver o quanto antes “no autêntico e santo temor de Deus”. Não venhamos a desprezar, com nosso proceder, o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado no madeiro para nossa salvação. Trabalhemos em nossa conversão com a urgência que essa obra reclama.

Referências

  1. Santa Catarina de Sena, Carta 157, “Conselho aos jovens”. In: Cartas Completas (trad. de João Alves Basílio). São Paulo: Paulus: 2016, pp. 524-25.

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