I) Existência. — A existência de graus diferentes na glória dos eleitos é uma verdade de fé. Consta claramente na Sagrada Escritura e foi expressamente definida pela Igreja. A razão teológica encontra também argumentos totalmente claros e convincentes. Eis aqui as provas:

a) A Sagrada Escritura o ensina com toda clareza:

“Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua, outra a claridade das estrelas. E ainda há diferença de estrela para estrela em claridade. Assim também na ressurreição dos mortos” (1Cor 15,41-42).

“E então dará a cada um segundo as suas obras” (Mt 16,27).

“Cada um receberá a sua recompensa segundo o seu trabalho” (1Cor 3,8).

“Quem semeia pouco, colherá pouco; quem semeia com largura, colherá com largura” (2Cor 9,6).

“Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras” (Ap 22,12). 

b) Magistério da Igreja. O Concílio de Florença o definiu expressamente num texto que citamos várias vezes: “Veem claramente a Deus mesmo, trino e uno, tal como é; mas uns com mais perfeição que outros, conforme a diversidade dos méritos” (DH 1305). 

O Concílio de Trento definiu que se pode merecer o aumento da graça e da glória (DH 1582). Pois bem: onde há aumento, também deve haver necessariamente desigualdade. 

c) A razão teológica considera muito lógica e natural esta desigualdade de prêmios. Não seria justo nem equitativo que um pecador que se converteu na hora da morte, depois de uma longa vida de pecados, tivesse no Céu a mesma recompensa que um São Paulo ou uma Santa Teresa. Deus, justo juiz dos vivos e dos mortos, dará a cada um o que lhe corresponder, conforme nos adverte na Sagrada Escritura. 

Dificuldade. — Contra essa doutrina tão lógica pode-se opor uma dificuldade tomada precisamente da Sagrada Escritura. Na parábola dos operários enviados à vinha, São Mateus afirma que todos os operários receberão ao final da jornada o mesmo salário, apesar de terem sido contratados em diferentes horas do dia e de uns terem trabalhado muito mais que outros (cf. Mt 20,1-16).

“Parábola dos Trabalhadores da Vinha”, por Lambert Jacobsz.

Solução. — A dificuldade se desvanece quando consideramos o gênero literário das parábolas, nas quais se deve buscar um ensinamento predominante, sem deter-se a examinar todos os seus detalhes, que às vezes não têm outra missão que dramatizar ou ornamentar o ensinamento fundamental que o Salvador pretende inculcar-nos. Nessa parábola, segundo a interpretação da imensa maioria dos Santos Padres, exegetas e teólogos, o denário que recebem os operários por igual significa a bem-aventurança objetiva (a posse eterna de Deus), que é igual para todos os bem-aventurados; mas não a bem-aventurança subjetiva (o grau de glória que corresponde a cada um), que é diferentíssima entre eles, como nos ensina a própria Sagrada Escritura em inumeráveis textos. Esta é a interpretação de Santo Tomás, compartilhada, como dissemos, pela quase totalidade dos teólogos e exegetas. 

II) Em que consiste essa desigualdade. — Deve-se distinguir uma dupla desigualdade: uma intensiva e outra extensiva. A primeira consiste na maior ou menor penetração e profundidade na visão beatífica, correspondente a uma maior ou menor participação no lumen gloriæ. A segunda significa maior ou menor amplidão no número de derivações e consequências que se descobrem naquela visão, v.g.: acerca do conhecimento dos seres possíveis. A segunda é uma simples consequência da primeira: quanto maior a penetração na visão, maior quantidade de coisas são descobertas nela. 

Contudo, não existe nem pode existir uma diversidade específica entre o que veem uns bem-aventurados e outros, nem sequer entre o que veem os homens e os anjos, porque a essência divina (objeto da visão) é a mesma para todos, e o princípio sobrenatural que torna possível essa visão (o lumen gloriæ), é também o mesmo especificamente para todos. O lumen gloriæ pode atuar mais ou menos intensamente ou estender-se a maior ou menor número de objetos; porém, sempre e em todos tem a mesma finalidade específica: tornar possível a visão clara e imediata da essência divina. Trata-se, pois, de uma diversidade de graus (em intensidade e extensão), mas não de uma diversidade específica. 

Essa desigualdade de graus não produz entre os bem-aventurados de categoria inferior o menor movimento de inveja ou de tristeza em relação aos de grupos superiores, e isto por várias razões convincentes: 

  1. porque estão totalmente identificados com a justiça e bondade de Deus, que deu a cada um com soberana largueza, muito mais do que mereciam;
  2. pela profunda caridade com que os bem-aventurados se amam entre si, alegrando-se mutuamente dos bens possuídos e desfrutados pelos outros como se fossem próprios;
  3. porque cada um deles tem completamente satisfeita sua capacidade de gozo, e não seria capaz de resistir a mais ainda que Deus quisesse aumentá-la, a não ser que dilatasse de uma só vez a capacidade da sua alma. 

O exemplo de vários vasos de diferentes tamanhos inteiramente cheios de água até transbordar, dá-nos uma ideia das diferentes plenitudes que tornam os corações dos bem-aventurados diversamente cheios mas sempre transbordantes

Santo Agostinho tem e esse respeito um belíssimo texto: 

Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28); e como Deus é amor (cf. 1Jo 4,8), o amor fará com que seja comum a todos aquilo que é possuído por cada um. Por isso, cada um tem o que ama no outro sem tê-lo. Não haverá, pois, lugar algum para a inveja acerca das distintas caridades, porque reinará em todos a unidade da caridade (In Io., tr. 67, n. 2: ML 35,1812).
“Juízo Final”, por Leandro Bassano.

III) Causas da desigualdade. — Pode-se assinalar duas: uma moral e outra física. A segunda não é mais que uma consequência da primeira. A causa moral são os diversos méritos adquiridos neste mundo, como ensina o Concílio de Florença: “Uns com mais perfeição que outros, conforme a diversidade dos méritos” (DH 1305). A causa física é a diversa participação no lumen gloriæ: onde há maior intensidade de lumen gloriæ, há maior intensidade na visão, como já vimos acima.

A maior ou menor participação do lumen gloriæ corresponde ao maior ou menor grau de caridade alcançado pela alma neste mundo (ou pelo anjo na prova que precedeu a sua bem-aventurança). A explicação teológica deste fato (de soberana beleza e profundidade) é a seguinte: quando há mais caridade ou mais amor a Deus, também se deseja o mesmo Deus com maior ímpeto e intensidade; mas o desejo torna quem deseja tanto mais apto para unir-se com seu amado quanto maior é o seu desejo; e Deus, em justa correspondência, ama tanto mais a quem o ama quanto mais é amado por ele (cf. Lc 7,47) e, em consequência, lhe dá maior capacidade para que possa vê-lo melhor e mais profundamente tal como Ele é em si mesmo, ou seja, lhe dá uma participação mais intensa no lumen gloriæ (cf. STh I 12 6c.).

O maior talento ou perspicácia natural do intelecto do bem-aventurado também contribui para esta diversidade no grau da visão beatífica? Alguns teólogos afirmaram que sim, entre os quais Escoto, Durando, Molina e o próprio Cardeal Caetano. Mas sua doutrina foi com razão rechaçada pela imensa maioria dos teólogos e é manifestamente contrária à de Santo Tomás. O Doutor Angélico diz expressamente:

A diversidade no modo de ver não vem de parte do objeto, pois um mesmo [objeto] é o que se apresenta a todos, ou seja, a essência divina; nem tampouco provém de sua diversa participação por diferentes representações ou imagens, senão da diferente capacidade do intelecto; não do [intelecto] natural, mas do glorificado (STh I 12 6 ad 3).

A razão é clara e não admite réplica: a visão beatífica é uma realidade estritamente sobrenatural, que ultrapassa e transcende infinitamente toda a capacidade natural de qualquer intelecto criado ou criável. Ela se torna possível somente pelo lumen gloriæ, que é uma realidade também estritamente sobrenatural que se comunica ao bem-aventurado em maior ou menor grau, não segundo a capacidade natural de seu intelecto, senão exclusivamente segundo seu grau de caridade ou de amor a Deus. Escutemos Santo Tomás no corpo do artigo citado:

Dos que veem a essência de Deus, uns a veem mais perfeitamente que outros, o que não se dá porque haja em uns semelhança de Deus mais perfeita que em outros (pois essa visão não se realizará por nenhuma semelhança, como demonstramos), mas sim porque o intelecto de uns terá maior virtude ou faculdade para ver a Deus que o de outros. Ora, a faculdade de ver a Deus não é própria ao intelecto criado, pela sua natureza mesma; ao contrário, decorre do lumen gloriæ, que o constitui como que numa deiformidade, conforme resulta do que já foi visto. Por onde, o intelecto que mais participar do lumen gloriæ, mais perfeitamente verá a Deus. Ora, mais participa desse lumen, quem mais caridade tem, porque onde há maior caridade há mais desejo; e este [desejo], de certo modo, torna quem deseja apto e preparado para receber o desejado. Logo, quem mais caridade tiver, mais perfeitamente verá a Deus e mais feliz será (STh I 12 6c.). 

O Pe. Terrien expõe este mesmo argumento com relação à Virgem Maria, dizendo: 

As faculdades naturais da Rainha dos céus, por muito perfeitas que as reconheça nosso amor, não podem ser comparadas com as faculdades dos espíritos angélicos. E não obstante, quem se atreverá a afirmar que algum anjo, ainda que seja o mais elevado entre os serafins, contempla a Deus com visão tão ampla e profunda como a gloriosa Mãe do Salvador? Não são, pois, as faculdades naturais o título pelo qual se adquire a recompensa eterna, nem a medida à qual essa recompensa se proporciona (La gracia y la gloria, l. 9, c. 4, p. 126).

Desta sublime doutrina se depreende claramente: 

  1. quão pouca importância em relação à vida eterna terá o maior ou menor talento natural que se teve neste mundo — São João Maria Vianney, o “pobre e ignorante Cura de Ars”, como ele mesmo se chamava, quiçá veja no Céu a essência divina com tanta ou maior claridade e penetração que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, os dois grandes luzeiros da Igreja; 
  2. a soberana importância e transcendência da caridade (amor a Deus e ao próximo por Deus) em relação ao grau de nossa futura felicidade eterna. 

Ridículo é o mundo (que tem o privilégio de ver todas as coisas ao contrário do que são) ao exaltar e engrandecer certos homens incrédulos, qualificando-os de “grandes filósofos” ou “pensadores geniais” etc. etc., quando na realidade eram perante Deus uns pobres ignorantes que passaram a vida sem tomar consciência da questão fundamental que o homem tem sobre a terra! Com razão diz o Espírito Santo, por boca de São Paulo, que “a sabedoria deste mundo é estupidez perante Deus” (1Cor 3,19). Escutemos o Cardeal Mercier tirando consequências desta doutrina tão importante:

A graça é a semente, e a glória é a colheita; a primeira produz frutos esplêndidos na segunda. A graça santificante e a caridade, que é seu primeiro efeito, são já o Céu em substância; a medida da caridade proporciona a medida da glória. Se os eleitos diferem entre si em glória, como as estrelas do firmamento, é porque a essência divina se une a seu intelecto em graus diferentes; e este grau de união corresponde exatamente ao grau de caridade que possui a alma no momento em que se apresenta ao tribunal de Deus.

Meus queridos irmãos, deixai-me interromper por um instante. Que preciosas são, pois, as poucas horas de nossa peregrinação terrestre, já que somente delas depende nossa eternidade! Cada minuto pode ser utilizado para um ato de amor mais ardente, que será causa de uma mais íntima união com Deus e de um mais vivo resplendor da beleza de Deus em nossas almas.

E meus minutos são contados. No Céu, minha caridade já não poderá crescer, nem tampouco poderá crescer minha glória, nem a glória que poderei dar a meu Cristo e a meu Deus. Oh, o preço do tempo! Oh, a irrevogável eternidade! (La vida interior, conf. 6, prop. 4: Barcelona, 1930, pp. 360-361).

Referências

  • Extraído e traduzido por nossa equipe a partir de: Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Salvación. BAC: 1997, pp. 474-478.