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1350. A graça quer-se fazer glória

No Natal, Deus vem ser Emanuel, Deus conosco, no meio de nós, dentro dos nossos corações, para que nós, um belo dia, estejamos com Ele na glória. Mas antes de estarmos com Deus na glória, precisamos estar com Ele na graça já nesta vida.

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1, 57-66)

Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. No oitavo dia foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. A mãe porém disse: “Não! Ele vai chamar-se João”. Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse.

Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia. E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele.

O Evangelho de hoje, dia em que cantamos a antífona Ó Emanuel, nos fala do nascimento do Batista e do modo milagroso como lhe foi dado o nome de João. Zacarias, por não ter acreditado nas palavras do anjo, passara toda a gestação de Isabel sem poder dizer uma palavra (cf. Lc 1, 20), ao que parece ter-se somado também uma surdez temporária. Mas eis que sua esposa, embora nada soubesse da profecia de Gabriel (cf. Lc 1, 19), decide dar ao menino exatamente o mesmo nome que fora revelado ao pai: “Tua mulher dar-te-á um filho, e chama-lo-ás João” (cf. Lc 1, 13), dissera o Arcanjo, e Isabel, movida pelo Espírito Santo, acaba por cumprir esse desígnio divino: “Ele vai chamar-se João”. Quando da circuncisão do filho, também Zacarias, explicando-se por sinais, dá testemunho desta grande misericórdia que o Senhor demonstrara à sua casa: ele “pediu uma tabuinha e escreveu: ‘João é o seu nome’”. Podemos imaginar o grande espanto que tomou os vizinhos e parentes, que não esperavam por aquela coincidência de pareceres, ainda mais extraordinária pela ausência de outros familiares com aquele nome na casa de Zacarias. “Que será este menino?”, perguntavam-se todos em seus corações.

Mas o verdadeiro prodígio não está tanto nestes acontecimentos inexplicáveis e espantosos quanto no caráter profético e, por assim dizer, autodescritivo do nome do Batista: João (יוחנן, Yochanan, em hebraico) significa “Deus é graça” ou “Deus é gracioso”. Além de ter recebido a graça antes de nascer, João foi uma graça tanto para os seus pais idosos, Zacarias e Isabel, como, sobretudo, para todo o povo de Israel: “Tu, menino” — canta o pai, enaltecido — “serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados” (Lc 1, 76-77). João, com efeito, é graça do alto, porque o Senhor o escolhera para aplainar as veredas do Messias: noutras palavras, ele é a graça que Deus quis conceder ao mundo para a chegada da grande e verdadeira Graça, Nosso Senhor Jesus Cristo. É o que nos diz o Apóstolo S. João, no prólogo do seu evangelho: “Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1, 6-9).

Por isso, o nome do Batista, mais do que falar de si, fala daquele que foi a razão não só de sua vida, mas de toda a sua existência: João nasceu por Cristo e para Cristo, para anunciar a Cristo e levar os outros a Cristo, e então desaparecer, qual uma voz que se vai fazendo cada vez mais distante, para que fique a substância, o que importa, que é Jesus, Nosso Senhor. Só neste recebemos graça sobre graça, porque só nele somos chamados a viver a felicidade que Deus nos tem reservada no céu. Jesus é, pois, a nossa grande Graça, o nosso grande presente de Natal, porque só Ele tem a nos dar o dom da graça santificante, pela qual somos elevados acima da nossa natureza e capacitados — não por nós mesmos, mas por Ele, que tudo obra em nós — para um dia, na glória eterna, contemplarmos a Deus tal como Ele é em si mesmo: “A vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste” (Jo 17, 3). Que saibamos neste Natal acolher o dom que Deus faz de si mesmo, deste Deus que é gracioso, por dar-se todo a nós e dar-nos tudo aquilo de que precisamos para um dia o possuirmos plenamente, sem fastio nem insegurança.

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