Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Mt 8, 28-34)
Naquele tempo, quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. Eles então gritaram: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?”.
Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. Os demônios suplicavam-lhe: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”.
Jesus disse: “Ide”. Os demônios saíram, e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles.
No Evangelho de hoje, Jesus expulsa os demônios dos dois gadarenos e permite que eles entrem numa manada de porcos. Poderíamos comentar vários outros detalhes desta passagem, mas vale recordarmos um ponto fundamental: os demônios entram na manada de porcos por permissão de Jesus. Isso significa que toda a ação dos demônios neste mundo acontece na medida que Deus a permite.
Aqui, nos deparamos com um grande mistério. Se Deus nos ama, por que Ele permite isso? Para que se manifestem tanto a virtude dos seus justos quanto a profunda maldade daqueles que o rejeitam. É nessa luta, nesse confronto com os poderes das trevas, que recebemos a oportunidade de manifestar a Deus o nosso amor por Ele.
Quando Jesus nos apresentou o Pai-Nosso, Ele ensinou-nos a pedir: “Não nos deixeis cair em tentação”. É importante notar que Ele não nos manda pedir para não sermos tentados. As tentações virão, pois fazem parte dos desígnios permitidos por Deus. Contudo, o que Ele deseja é que nós, humildemente, como mendigos da sua graça, peçamos a força necessária para lutar contra o demônio.
Nesse contexto, é belo recordar um episódio da vida de Santo Antão, o grande monge do deserto que viveu entre os séculos III e IV, no Egito. Conta Santo Atanásio que, certa vez, Antão foi atacado pelo demônio com tal violência que até as paredes de sua morada vieram abaixo. Durante toda aquela terrível batalha espiritual, ele clamava sem cessar: “Vinde, ó Deus, em meu auxílio. Socorrei-me sem demora”.
Quando finalmente venceu todas as tentações, Jesus apareceu-lhe, e Antão, perplexo, perguntou: “Senhor, onde estáveis enquanto eu lutava?”. Nosso Senhor, então, respondeu algo profundamente importante para nós: “Antão, Eu estava aqui o tempo todo, mas queria ver-te lutar”.
Sim, Jesus quer nos ver lutar. Se alguém não luta por nada, é porque não ama nada. Quem não luta pela própria família não a ama, e quem não luta pela própria saúde não a ama. Do mesmo modo, quem não luta por Deus não o ama. Ele quer que lutemos porque é na luta que nos vemos obrigados a fazer escolhas.
Os gadarenos também tiveram de escolher. De um lado, estava a prosperidade econômica representada pelos porcos, fonte de lucro para eles; de outro, estava a presença do Cristo Salvador. E eles preferiram expulsar Jesus. Cristo expulsou os demônios, mas os homens o expulsaram.
O Evangelho de hoje, portanto, coloca-nos diante desse mesmo dilema. É o grande combate descrito pelas palavras da Sequência da Páscoa: “Mors et vita duello conflixerunt mirando” — “A morte e a vida travaram um admirável combate”. Trata-se da escolha entre permanecer com Cristo ou abandoná-lo; entre apegar-se às criaturas e seguir o caminho da manada de porcos que se precipita no abismo, ou abraçar a cruz para, com Cristo, triunfar no Céu.



























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