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A Transfiguração e o mistério do rebaixamento de Deus

Na Transfiguração do Senhor, recordamos dois milagres: a visão da luz de sua glória, a redundar em seu corpo, e a visão de sua insondável humildade, pela qual Ele quis ocultar sua própria grandeza, a fim de nos salvar por sua carne.

Texto do episódio
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 9, 28b-36)

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”. Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

Celebramos hoje, com grande alegria, a Festa da Transfiguração do Senhor, na qual contemplamos o grande e esplendoroso mistério da Encarnação, que, por um instante, revela-se em toda a sua realidade.

São Paulo, na Carta aos Filipenses, afirma que Cristo, “embora fosse igual a Deus em tudo, não se apegou à sua condição divina, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo” (Fl 2, 6-7), isto é, a nossa condição humana. Ora, se Deus se uniu verdadeiramente à nossa humanidade, o efeito natural dessa união é a glória. Por isso, o que causa espanto não é que Jesus, no Monte Tabor, manifeste seu rosto resplandecente e suas vestes gloriosas. O espantoso é que Ele não tenha vivido assim desde o início.

Meditemos um pouco: Deus uniu a si uma natureza humana — um corpo e uma alma — e, se essa humanidade está unida à natureza divina na união hipostática, é evidente que ela é gloriosa. Entretanto, por amor a nós, Ele quis que essa glória permanecesse velada, para que Jesus pudesse viver verdadeiramente a nossa condição de servo. Desse modo, apesar dessa união divina, profunda e insondável, Ele experimentou a nossa vida: sentiu fome, sede, cansaço, sono…

Jesus é a Encarnação do Deus de amor que, para nos conduzir ao estado de glória manifestado no Tabor, assumiu o estado de miséria em que se encontra a humanidade desde a queda de Adão. Ele foi igual a nós em tudo, exceto no pecado. E isso significa que assumiu também as consequências da nossa condição decaída: a dor, a fragilidade e o sofrimento.

Deus havia destinado ao homem uma condição diferente. Embora Adão fosse mortal por natureza, ele recebeu dons preternaturais que o elevavam acima dessa condição: não morrer, não sofrer e não se cansar. Porém, com o pecado, ele perdeu esses dons, como nos relata o livro do Gênesis. Cristo, então, assume essa humanidade fragilizada e vem ao nosso encontro.

Contudo, para que Pedro, Tiago e João não se escandalizassem ao vê-lo desfigurado no Getsêmani e na Cruz, Jesus lhes mostra, antes, a sua verdadeira glória na Transfiguração, revelando a eles aquilo que afirma no Evangelho de São João: “Ninguém tira a minha vida. Eu a dou livremente” (Jo 10, 18).

Logo, todo o sofrimento de Nosso Senhor foi assumido de maneira livre. Deus quis, por amor a nós, que Jesus experimentasse a dor da crucificação, e justamente aí se revela a grandeza do seu amor. Afinal, o que manifesta maior amor: sofrer um mal inevitável, ou aceitar livremente um sofrimento que poderia ser evitado, dizendo: “Eu não precisava passar por isso, mas por amor a você eu o assumo”?

Assim, cada gesto de fragilidade humana de Nosso Senhor Jesus Cristo tornou-se um gesto livre, salvífico e grandioso de amor. A Transfiguração, pois, ilumina toda a vida de Cristo e permite-nos compreender a Verdade do seu mistério: Ele podia não ter sofrido, mas, “por nós homens e para a nossa salvação, desceu dos Céus”.

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