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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9,18-24)

Certo dia, Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”.

Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.

Depois Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará”.

No Evangelho deste domingo, Jesus pergunta aos Apóstolos quem dizem que Ele é. Jesus manda fazer uma “pesquisa de opinião”, e é interessante notar como a opinião que as pessoas tinham a respeito de Jesus era muito positiva. Achavam que era Elias, João Batista — que estava em alta, tinha uma popularidade enorme —, um dos profetas antigos… Todo o mundo achava alguma coisa boa de Jesus, e no entanto estavam profundamente errados.

É a mesma coisa que acontece no mundo hoje. Quero começar essa reflexão sobre esse Evangelho dizendo exatamente isso: se você perguntar a uma das sete bilhões de pessoas que pisam este planeta “quem é Jesus?”, nós ouviríamos respostas muito positivas; e, no entanto, não é porque essas respostas são positivas que elas estão certas! Estamos num mundo em que as pessoas pensam assim: “Ah, o importante é estar em harmonia, não causar briga. Não interessa em que você crê, mas você tem de crer em alguma coisa”.

Ora, quem é Jesus? Vamos fazer uma pesquisa no planeta. Vamos pegar uma religião com uma grande população: os muçulmanos, milhões de pessoas neste planeta. Quem é Jesus para os muçulmanos? A resposta não é muito diferente da resposta das multidões da época de Jesus. Para os muçulmanos, quem é Jesus? Um dos Profetas. No Alcorão, dizem coisas maravilhosas de Jesus: Ele nasceu da Virgem Maria (ou seja, para um muçulmano, Jesus não é filho de José, mas só de Maria, milagrosamente), Jesus subiu aos céus; Jesus vai voltar… Creem que Jesus é realmente uma pessoa importante, diferente, que precisa ser respeitada etc.

Mas eles não sabem quem é Jesus, porque Jesus não é somente isso. Jesus não é somente filho de Maria, filho de uma Virgem. Ele é o Filho de Deus, e isso os muçulmanos não aceitam. Eles não vão aceitar que Jesus seja o próprio Deus que se fez homem. Pergunte-se a um hindu — de uma religião muito numerosa. Ele aceita que Jesus é um homem santo, uma pessoa “divina”, um deus em minúsculas, porque os hindus são politeístas. Para o budista, Jesus é um buda, quer dizer, um “iluminado”. Mas é um buda. Eles até aceitam isso. Pergunte-se aos espíritas aqui do Brasil quem é Jesus. Vão dizer que Jesus é um “espírito-guia”, um “avatar”, enviado à Terra para conduzir a humanidade pelo caminho do aperfeiçoamento moral… 

São opiniões muito elogiosas a respeito de Jesus. O problema é o seguinte: todas essas opiniões elogiosas das várias religiões podem até se harmonizar entre si; mas todas elas irão se deparar com uma pedra de tropeço: a verdadeira fé cristã. A verdadeira fé cristã — a fé cristã dos Apóstolos — diz que Jesus é o próprio Deus do universo. Aquela criança que nasceu em Belém e foi carregada nos braços de Maria sustenta todas as galáxias. Mas ninguém crê nisso, ninguém está disposto a acreditar nisso. Por quê? Porque isso divide!

De fato, Jesus falou muito corretamente quando disse: “Eu vim para causar divisão, porque as pessoas ou me recebem ou não me recebem, ou me aceitam ou não me aceitam”. O que acontece é o seguinte. Sejamos bem concretos, bem objetivos: ou Jesus Cristo é um iluminado, um profeta, um espírito-guia, um mestre e está “tudo tranquilo”, porque todas as religiões podem viver em harmonia, ou então é o próprio Deus feito homem, historicamente, de carne e osso, nascido em Belém, e não está “tudo tranquilo” porque, se você não aceitá-lo, você está profundamente errado, pois está rejeitando a Deus.

Aqui está o escândalo do cristianismo. Ou existe algo de profundamente errado nas outras religiões e o cristianismo está profundamente certo, ou existe algo de profundamente errado no cristianismo e as outras religiões estão profundamente certas. Todas elas seguem um deus; mas nós cristãos seguimos a Deus que se fez ser humano, carne, concreto, real, histórico.

Para as outras religiões, Deus não entrou na história e teve uma biografia. Um hindu pode pensar: “Ah, eu sigo o deus verdadeiro”; os budistas também, embora eles não falem em Deus; os xintoístas a mesma coisa, os da Nova Era a mesma coisa, os espíritas a mesma coisa, a a fé Bahá’í a mesma coisa: “Nós todos seguimos fundamentalmente, o mesmo deus; mas nós enfatizamos aspectos diferentes”.

Nós cristãos dizemos escandalosamente: “Tudo bem, vocês podem ter crer em alguns aspectos de Deus, mas Deus, de verdade, se fez homem. Ele tem data de nascimento, história, viveu aqui, pisou esta terra” — e isso nenhuma outra religião está disposta a aceitar. É por isso que já faz alguns séculos que estamos vendo o cristianismo ser diluído e transformado num negócio que não é mais cristianismo.

As pessoas aceitam Jesus… desde que Jesus seja o que dizem as multidões no Evangelho, ou seja, um dos Profetas etc. Mas dizer que Jesus é Deus, o único Deus verdadeiro e que, se você rejeitá-lo, você está fora da verdade, isso gera confusão. É por isso que nós estamos correndo um grande risco, e é sobre isso que eu gostaria de falar. Eis o assunto central dessa minha meditação: nós cristãos estamos cada vez mais contaminados por uma doença chamada indiferentismo religioso.

O que é o indiferentismo religioso? É a ideia de que todas as religiões são boas e o importante é crer em alguma coisa: eu creio em Jesus, o muçulmano crê em Maomé, o budista crê em Buda, o confucionista crê em Confúcio… O importante é que nós creiamos em alguma coisa. Só que nós não nos damos conta do absurdo que é isso. Se eu perguntar a um muçulmano quem é Maomé, ele não vai me dizer que Maomé é Deus que se fez homem, porque ele não crê nisso. Maomé é só um profeta. Se eu perguntar a um budista quem é Buda, ele não vai me dizer que Buda é Deus que se fez homem; ele vai dizer que Buda é simplesmente um iluminado. Se eu perguntar a um confucionista quem era Confúcio, ele não vai dizer que Confúcio era Deus que se fez homem.

Segundo eles, Deus continuaria lá em cima, transcendente à história, de modo que nenhum desses personagens históricos poderia ser Deus; logo, todos eles, por importantes que sejam, podem ser sempre relativizados. Eu posso sempre dizer que Buda “colheu” um aspecto de Deus, Confúcio colheu outro, Maomé colheu outro… e no fim está tudo “de boa”, pois o importante é crer em alguma coisa.

Mas se eu perguntar a um cristão — cristão de verdade — quem é Jesus, ele não vai dizer: “Jesus é um profeta, um ‘buda’, um líder religioso”. Ele vai dizer que Jesus é o próprio Deus que se fez homem. É Deus! Isto faz o cristianismo ter algo que nenhuma outra religião tem. Não dá para permanecer indiferente e dizer que todas as religiões são iguais porque, ou o cristianismo está profundamente certo, ou está profunda e abominavelmente errado.

O cristianismo ou é a única e verdadeira religião ou é uma abominação porque, se Jesus é Deus que se fez homem, Deus só pode ser crido e adorado no cristianismo; mas se Jesus não é Deus, então o cristianismo é uma abominação e precisa ser destruído (como se tentou fazer durante muitos séculos, matando-se cristãos) ou relativizado e esvaziado por dentro, que é a técnica usada nos últimos 300 anos. Nos três  últimos séculos, o cristianismo está sendo esvaziado numa espécie de indiferentismo. Está todo o mundo disposto a aceitar o cristianismo, desde que ele fique “comportadinho” e faça de conta que é igual às outras religiões.

Se pudéssemos dizer numa palavra qual é a cultura em que nós vivemos hoje, nós diríamos que vivemos hoje numa cultura maçônica. “Maçônica?! Como assim, padre?”. Isso significa que, embora muitas pessoas nunca tenham entrado numa loja maçônica, pensam como se fossem um maçom. E como pensa um? Na loja maçônica dele, há uma Bíblia, que ele reconhece como “livro sagrado”; mas também vai dizer que, na Arábia Saudita, há outro livro sagrado, o Alcorão; e que na Índia há a Bhagavad Gita, e assim por diante.

O que interessa é que haja um “livro sagrado”. Ora, qual é, afinal, a visão de religião que tem a Maçonaria? É a visão segundo a qual todas as religiões são iguais, e se você perguntar a um maçom quem é Jesus Cristo, ele tecerá o maior elogio para dizer que Jesus é um “cara legal”. Só não venham dizer que isso é cristianismo, porque não pode sê-lo! Se você é cristão e Jesus lhe pergunta: “E vós” — essa é a pergunta do Evangelho deste domingo —, “quem dizeis que eu sou?”, existe uma única resposta; é a resposta de São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Isso é cristianismo. É Deus! Jesus é Deus, o único Deus, que se fez homem. Isso quer dizer que, no cristianismo, temos algo que não está em nenhuma outra religião. Não estou condenando os adeptos de outras religiões. O que estou dizendo é que, se nós cremos verdadeiramente que Deus se fez carne, as outras religiões se tornam, quando menos, limitadas, meramente aproximativas, fora de foco, muito aquém do que Deus realmente é.

Não pára por aí. Com tudo o que dissemos até agora, abrimos um grande abismo entre cristãos e não-cristãos, mas vamos aprofundá-lo ainda mais. Qual é a maior diferença entre católicos e não-católicos? Por que fazemos essa pergunta? Ora, o que une os cristãos? O que une os cristãos é a fé em que um ser humano concreto é Deus. Chama-se Jesus, Deus encarnado.

Mas nós católicos cremos numa coisa mais: que aquele ser humano está vivo dentro do sacrário. Ou seja, depois que o sacerdote, pelo poder recebido de Jesus Cristo por sucessão apostólica, impõe as mãos em cima do pão e do vinho e diz: “Isto é o meu Corpo”, “Isto é o meu Sangue”, aquele pão e aquele vinho não são mais pão e vinho, mas um ser humano vivo! Dentro do sacrário há um ser humano vivo! Há um corpo humano vivo e, por concomitância, há sangue, alma e divindade. É Deus quem está ali. Isso quer dizer que, histórica e concretamente, só podemos dizer uma coisa: ou tem algo de profundamente certo na Igreja Católica ou de profundamente errado.

Os protestantes implicam por causa das imagens; mas o problema não são as imagens, o problema real é aquela aparência de pão dentro do sacrário. Eles esperneiam dizendo que nós adoramos imagens. Nós não adoramos imagens, mas nós adoramos, sim, Jesus Cristo presente naquela aparência de pão e daremos a nossa vida por Ele. Jesus está vivo dentro do sacrário, de verdade. Por isso dobraremos os joelhos e daremos o nosso sangue, se for preciso, para poder adorá-lo.

Ou Jesus, de verdade, fisicamente, está dentro do sacrário — o mesmo Jesus que viveu a dois mil anos atrás —, e nós católicos estamos profundamente certos e, portanto, os protestantes profundamente errados, por não aceitarem a presença física, real e histórica de Jesus no sacrário. Ou então, pelo contrário, são eles que estão profundamente certos e a Igreja Católica é uma abominação que promove idolatria! A pergunta é: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

Vamos unir o que dissemos até aqui. A nossa santa religião, a Igreja Católica Apostólica Romana, é a única verdadeira na face da Terra, porque o único Deus verdadeiro se fez homem historicamente, e isto nos faz optar pelo cristianismo. Esse homem, Deus que se fez carne, está presente no sacramento da Eucaristia, está nos sacrários da Igreja, e isso nos faz optar pelo catolicismo. Não há como ser indiferentista. 

Sei que vivemos num clima de indiferentismo, como se tudo estivesse bem: “O importante é estar em paz, não vamos criar conflito”. Não estou fazendo esse programa para criar conflito. Estamos numa sociedade de muitas religiões, pluralista, não tenho dúvida nenhuma. Portanto, vamos respeitar e conviver, amando espíritas, muçulmanos, hindus, protestantes etc. Mas acontece o seguinte: nós vamos respeitá-los tanto, que, na medida do possível, faremos de tudo para pescá-los e trazê-los e para a única, santa e verdadeira religião, para a verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus encarnado e presente nos sacrários, o qual deu a vida por nós. Foi para isso que Ele veio, isto é, para converter os corações e atraí-los a si. Foi para isso que os santos lutaram ao longo dos séculos, foi para isso que a Igreja Católica sempre viveu.

No Evangelho deste domingo, depois de um tempo de oração, Jesus chama os discípulos e diz: “Quem dizem que eu sou?” Jesus, ao fazer esta pergunta, nos está ensinando isso: “Vejam só. Eles me querem bem, mas não entenderam nada”. Quando pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”, o que espera ouvir é a confissão de Pedro: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de João, porque não foi nem a carne, nem o sangue que te revelou isso, mas o Pai do céu”. Quando Pedro diz que Jesus é o Filho de Deus, há nisso uma revelação divina, e Pedro está na verdade.

Essa é a nossa fé. Por ela nós queremos viver e derramar o nosso sangue. Portanto, não nos peçam, por favor, que digamos que todas as religiões são iguais, porque os mártires derramaram o seu sangue justamente para não fazer isso, mas para dizer que só existe um único Senhor, um único Deus. Ele veio, morreu por nós, ressuscitou e quer preparar para nós um lugar no Céu.

* * *

De três séculos para cá, o Ocidente tem vivido na falsa convicção de que todas as religiões são boas, tendo portanto igual direito de cidadania, desde que se confinem à privacidade das consciências e não pretendam impor-se na esfera pública. Esse fenômeno, estreitamente ligado às “reformas” de Lutero e à consequente fragmentação da cristandade latina nos séculos XVI e XVII, é defendido sob a bandeira de um “são” e “tolerante” indiferentismo, marca registrada de grupos fortemente anticristãos como, por exemplo, a Maçonaria.

Mas se queremos ser cristãos de fato, temos de nadar contra a corrente e professar a necessidade da Igreja Católica, extra quam nulla est salus, fora da qual não há salvação.

I. Unicidade da Igreja. — 1) Ora, que a Igreja seja meio necessário de salvação para todos significa, antes de mais, que só em Cristo temos a remissão dos pecados e que, por conseguinte, somente à Igreja por Ele fundada cabe a missão de perpetuar até o fim dos tempos sua obra salvífica. De fato, assim como Cristo possui mediação única e exclusiva (cf. Jo 3,18.36; At 4,12; 1Tm 2,5; Rm 5,17) na ordem da aquisição da salvação, do mesmo modo a Igreja, Corpo de Cristo, possui a função única e exclusiva de comunicar as graças da redenção (cf. Mt 18,17; Mc 16,15s; Lc 10,16; Jo 20,21). Isso implica ser impossível estar unido a Cristo sem estar unido à Igreja, já que “nenhum membro pode unir-se à Cabeça e ser vivificado pelo Espírito Santo se não estiver unido a todo o Corpo” místico [1].

2) Além disso, apenas a Igreja possui em plenitude e por direito os meios salvíficos, eclesiais e sacramentais, em virtude dos quais Deus quer comunicar aos homens os frutos da cruz de seu Filho: as Escrituras, interpretadas à luz da divina Tradição e segundo a norma do Magistério eclesiástico; a verdadeira doutrina, preservada de erros e desvios, em perfeita comunhão com a fé apostólica e ortodoxa; os sacramentos, pelos quais desce até nós a graça celeste; sem contar os outros bens espirituais que, cada um ao seu modo, nos confirmam a fé, animam a esperança e estimulam a caridade.

II. Questão de coerência. — Que todas as religiões não possam ser igualmente boas e válidas como meios de salvação, vê-se com toda clareza se se considera, por exemplo, que não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo ensinamentos discordantes acerca da natureza de Deus, do culto que lhe é devido, da vida após a morte, dos princípios morais etc. Ora, é evidente que as diversas religiões se contradizem quanto a um número expressivo de dogmas e preceitos, de forma que, se alguma delas for verdadeira, então nenhuma outra o será nem poderão sê-lo todas simultaneamente [2].

É impossível, com efeito, aderir à revelação cristã e admitir o que dizem e fazem, em seu culto e doutrina, judeus e espíritas, satanistas e ateus, muçulmanos e budistas. Dizer que tudo isso teria o mesmo valor positivo em ordem à salvação eterna equivaleria a afirmar que Deus aprova a verdade e o erro, a bondade e a maldade, a santidade de um Francisco de Assis e os sacrifícios humanos das religiões pré-colombianas — o que é absurdo, além de blasfemo.

Daí não se segue, é claro, que o católico deva desprezar os seguidores das falsas religiões nem tentar eliminá-las com a força das armas. Um católico não mata pela fé; morre por ela, como morreram e continuam a morrer incontáveis mártires, tão alheios ao falso e covarde ecumenismo dos nossos tempos.

A rejeição do relativismo religioso deve-se estender ainda ao indiferentismo mitigado, segundo o qual seria necessário à salvação pertencer, não a qualquer religião positiva, mas a pelo menos alguma das principais “denominações” cristãs. Este erro, condenado por Pio IX, é também inaceitável, não só porque “não há nenhuma outra Igreja Católica senão aquela que, edificada sobre o único Pedro, se eleva pela unidade da fé e da caridade como um único corpo coeso e solidamente articulado” [3], mas porque não podem reunir-se como verdadeiros irmãos sob o olhar de um único e mesmo Pai os que não se submetem à autoridade suprema com que Cristo quis dotar sua Igreja nem aceitam e veneram os mesmos dogmas e mistérios, o mesmo culto e os mesmos valores, conforme o sentido em que os entende e sempre entendeu a Igreja Católica. Pois só pode haver comunhão e amizade verdadeiras onde há amor aos mesmos bens e ódio aos mesmos males.

III. Há exceções? — Por fim, é importante considerar a seguinte dificuldade. Uma pessoa que não pertence visivelmente à Igreja de Cristo pode ser salva? A resposta é sim, é possível, já que os justos do Antigo Testamento, por exemplo, foram salvos, embora não tivessem os meios de salvação presentes hoje na Igreja. Como entender, então, que não há salvação fora dela?

Trata-se, como em tudo na fé, de um mistério; mas nada impede que Deus misericordioso conceda a quem, sem culpa e por ignorância invencível [4], não pertence visivelmente à Igreja Católica as graças necessárias para buscar cumprir em tudo o que de reta consciência julga ser vontade de Deus. Alguém em tal condição estaria de certa forma ordenado à Igreja, ainda que implicitamente, de sorte que, se se salvar, o será na e pela Igreja, à qual terá pertencido sem o saber [5].

Notas

  1. F. de B. Vizmanos–I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, p. 813, n. 642.
  2. Cf. Id., p. 110, n. 131.
  3. Cf. Pio IX, Carta do Santo Ofício aos bispos da Inglaterra, de 16 set. 1884 (AAS 11 [1919] 311; DH 2888): “Nec alia est Ecclesia Catholica nisi quæ, super unum Petrum ædificata, in unum connexum corpus atque compactum unitate fidei et caritatis assurgit” (cf. Ef 4,16).
  4. A distinção da ignorância, em razão do sujeito, em vencível e invencível, além de patrimônio da teologia moral católica, é ensinada por Santo Tomás de Aquino e assumida pelo próprio Magistério, ao ensinar que os homens que, ignorando (sem culpa própria) o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, não obstante, procuram a Deus com coração sincero e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, podem alcançar a salvação eterna (cf. Pio IX, “Quanto conficiamur mœrore”, de 10 ago. 1863: DH 2866; Carta do Santo Ofício ao arcebispo de Boston, de 8 out. 1949: DH 3869ss), doutrina que o Concílio Vaticano II, se limitou a repetir em “Lumen gentium” (cf. §16: DH 4140). — Quanto ao Aquinate, ele diz expressamente: “Tal ignorância, por não ser voluntária, dado que não está em nosso poder repeli-la, não é pecado. Pelo que se patenteia que nenhuma ignorância invencível é pecado” (STh I-II 76, 2c.), e um pouco antes, no mesmo lugar: “Ora, não se imputa ao homem como negligência se não conhece o que não pode conhecer. Daí que a ignorância destes se diga invencível, ou seja, porque não pode ser superada por estudo”, i.e., por diligência moral. Em STh I-II 76, 3c. volta a afirmar: “Se a ignorância for tal, que é de todo involuntária, ou porque é invencível, ou porque se refere ao que não se está obrigado a saber, tal ignorância escusa completamente [lt. omnino] de pecado”.
  5. Cf. F. de B. Vizmanos–I. Riudor, op. cit., p. 815, n. 645.
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