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O que há de errado com o mundo?

“O que há de errado com o mundo” não é apenas uma pergunta que todos, em algum momento da vida, já nos fizemos, lendo jornais e assistindo a noticiários… É também o título de uma das obras de G. K. Chesterton, que Padre Paulo Ricardo usa nesta aula para apresentar o seu pensamento.

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Nesta aula, em preparação para nosso curso sobre G. K. Chesterton, temos a difícil tarefa de apresentar, mesmo que em breves pinceladas, a valiosa obra deste grande escritor inglês. Para isso, a primeira coisa que precisamos entender é que Chesterton foi muito mais do que um jornalista do século passado. Ele foi, ao mesmo tempo, um grande literato, um mestre da palavra que escreveu poemas, romances e histórias de suspense, além de um exímio crítico literário, que comentou as obras de vários gênios da literatura inglesa. Seus escritos sobre Charles Dickens, por exemplo, são até hoje considerados como referência no mundo acadêmico.

Todavia, é no campo da filosofia que Chesterton é ainda mais surpreendente. De fato, ele desempenhou um papel muito mais profundo como filósofo e teólogo, embora não se reconhecesse como tal. Aqueles que têm conhecimento nessa área encontram no pensamento de Chesterton relevantes contribuições, como é demonstrado, por exemplo, na obra Chesterton e o Universo, do padre Scott Randall Paine [1].

Por isso mesmo, devemos crer que Chesterton foi um homem para além de inteligente: ele era genial; e muito mais do que genial, ele era sábio. A sabedoria, neste caso, pode ser considerada num nível superior, como a sabedoria dos santos; de modo que é possível e provável que Chesterton seja canonizado um dia. Ele tinha a característica dos santos profetas, e muitos dos seus prognósticos estão em pleno desenvolvimento [2].

Tal é, pois, a razão de termos escolhido como tema desta aula a obra O que há de errado com o mundo [3], escrita por Chesterton em 1910. Nesse texto, Chesterton identifica os perigosos princípios sobre os quais a sociedade de sua época estava se alicerçando e apresenta profeticamente os desdobramentos desses erros. Segundo ele, o grande problema do mundo moderno é que as pessoas não pensam mais sobre o que é certo. Tal fenômeno origina-se de um problema educacional, que está no fato de que a família abriu mão da educação de seus filhos, deixando-os à mercê dos ditames do Estado.

Para tratar desse assunto, Chesterton parte do problema do feminismo. Há 110 anos, quando o livro foi escrito, havia na Inglaterra um debate sobre o direito de a mulher votar, liderado pelo movimento sufragista, que mais tarde ficou conhecido como “primeira onda do feminismo”. Chesterton via nisso uma insensatez, porque, segundo ele, haveria uma questão muito mais complexa do que aquela simples polêmica sobre o voto feminino.

Ele fazia notar que, para além da vida pública (public house), existe também a vida privada (private house), a nossa casa (domesticity). A vida pública, do direito ao voto, é apenas uma parcela da vida, e provavelmente a menos importante, porque é em casa que lidamos com a educação dos nossos filhos. Naquela época, em que as crianças ingressavam na escola com sete anos, Chesterton destacava que a família poderia formar definitivamente o caráter de seus filhos, porque, nessa idade, já era tarde para a escola exercer alguma ingerência educacional. Ou seja, as lições mais importantes eram ensinadas aos filhos em casa, por alguém que ficava junto com eles. 

O cerne da questão seria, portanto, o fato de que deve existir essa outra parte do mundo chamada “casa” ou “vida doméstica” (domesticity), onde se é exercido o poder educacional. E esse poder era bem exercido pelas mulheres.

Com base nisso, o problema do voto feminino, segundo Chesterton, coincidia com o movimento de as mulheres irem para a vida pública e deixarem seus lares, dando, com isso, poder excessivo ao Estado, à medida que este assumia o poder educacional sobre os filhos. Então, a grande questão não era o poder de a mulher votar ou não, mas o poder de o Estado educar as crianças. Hoje, nós estamos tirando as mulheres de casa para fazer com que o Estado, com sua engenharia social, usurpe as competências da família e imponha suas ideologias.

Dentro dessa perspectiva, Chesterton desmascarava todo o projeto revolucionário tanto dos socialistas como dos capitalistas. No livro, ele faz uma pequena parábola com dois personagens: Hudge e Gudge. O primeiro seria um socialista ou, para a nossa época, um partidário da Escola de Frankfurt; já o segundo, um capitalista, ou adepto do liberalismo econômico. No relato, mesmo assumindo posições antagônicas, Hudge e Gudge desempenham o papel de oprimir o Sr. Jones, que representa o homem comum que é instrumentalizado por aqueles que não fazem outra coisa a não ser brigar por dinheiro.

Tanto os socialistas quanto os capitalistas acham que as coisas mais importantes do mundo são o dinheiro e a vida pública; e foi com base nesses pressupostos equivocados que ambos incentivaram as mulheres a sair da vida doméstica e abandonar a educação de seus filhos.

Durante milênios, as mulheres olharam para a vida pública dos homens considerando-a algo insensato, porque elas notavam como todas aquelas discussões não tinham a mesma importância que a educação da família. Elas eram aquelas que chamavam os homens à sensatez e à domesticidade, a fim de que não ficassem perdendo tempo com tagarelices nas public houses [4].

Mas o mundo moderno, através do socialismo e do capitalismo, quer nos tirar da vida doméstica, para assumir o papel educacional dos nossos filhos, alegando que eles estão sendo educados com autoritarismo. Naquela época, o principal expoente dessa ideia era Bernard Shaw, a quem Chesterton ironicamente criticou, dizendo que a única maneira de educar sem exercer a autoridade é deixando de viver, pois a autoridade é inevitável:

[...] não há como livrar-se da autoridade na educação; e a questão não está tanto (como dizem os pobres conservadores) em devermos preservar a autoridade dos pais quanto no fato de que é impossível destruí-la. O sr. Bernard Shaw disse certa vez que odiava a idéia de moldar a mente de uma criança. Ora, já que odeia algo inseparável da vida humana, o melhor que houvera feito o sr. Shaw era enforcar-se [5].

Em nosso tempo, essa ilusão de uma educação na qual não se exerce a autoridade de ensinar foi defendida por Paulo Freire, a quem também podem ser aplicadas as contundentes críticas de Chesterton:

Sei de certos pedantes malucos que tergiversaram, sustentando que educação não é instrução e que de maneira alguma se ensina com uso de autoridade. Apresentam o processo não como algo que venha de fora, do professor, mas como algo que parte completamente de dentro da criança. Educação, dizem eles, é uma palavra latina que significa sacar ou extrair as faculdades dormentes de cada um [...] O educador não faria mais que instigar a criança a pôr para fora seu imperceptível amor pelas longas divisões e extrair dela sua preferência levemente velada por pudim de leite em relação às tortas [6].

Para Chesterton, tal concepção educacional — de que o professor iria apenas instigar o aluno a descobrir aquilo que já está dentro dele — é um raciocínio tão absurdo quanto dizer que uma criança produz o leite do qual ela se amamenta. E ele ironicamente exemplifica sua crítica por meio do ensino da língua, que só é possível através da instrução:

A fala é o exemplo mais prático disso. É possível “extrair” guinchos e grunhidos de uma criança com o simples ato de empurrá-la ou de puxá-la, um passatempo agradável, ainda que cruel, em que muitos psicólogos estão viciados. Será preciso, contudo, aguardar e observar com muita paciência até conseguir extrair a língua inglesa dela. Ela, você terá de introduzir na criança; e fim da questão [7].

Assim, no início do século XX, antes mesmo de a Escola de Frankfurt defender o desmonte da cultura ocidental, Chesterton já havia percebido que a autoridade não é apenas indispensável, mas inevitável para a educação. E se ela não for exercida pela família, certamente o será pelo Estado, que imporá suas ideologias e ditará o que pode e o que não pode ser ensinado.

Com efeito, podemos compreender agora a situação educacional do último século. No passado, havia certa unidade entre a família, a Igreja e a escola, que constituíam as três esferas da vida privada, de modo que a escola era vista como um instrumento educacional tanto da família como da Igreja. Na época de Chesterton, porém, a Igreja já havia perdido sua autoridade educacional, sendo tachada como obscurantista, arcaica e retrógrada. Naquele momento, então, só faltava ao mundo moderno destituir também o poder educacional da família. 

E, assim, em nome de uma suposta “dignidade” das mulheres — que pressupunha a “igualdade” dos sexos — as mães foram “libertadas” de seus lares para serem “escravizadas” pelo mercado de trabalho, com o objetivo último de que a educação dos filhos fosse exercida de forma hegemônica pelo Estado, que possuía, e ainda possui, plena ingerência sobre as escolas.

Mas o pretenso argumento de igualdade dos sexos — usado como subterfúgio para extinguir a autoridade educacional da família — constitui, na verdade, uma grande falácia. Como exemplo disso, basta observarmos que as mulheres possuem uma vantagem educacional sobre os homens muito elevada, visto que desde o ventre a criança está unida à mãe e com ela interage. Portanto, a mulher tem para com os filhos uma dignidade e uma autoridade educacional muito superior aos homens, malgrado isso não seja admitido pelas sufragistas e feministas.

Segundo Chesterton, tais movimentos, na prática, levaram à rendição das mulheres. Isso porque, a partir do sufragismo e do feminismo, elas buscaram abandonar tudo o que era caracteristicamente feminino para se tornarem iguais aos homens: não só trocaram a vida doméstica pela pública, mas mudaram até sua maneira de vestir, deixando de usar saias para usar calças. Diante disso, Chesterton ironiza a questão, mostrando que é justamente a saia que identifica a dignidade da mulher:

É bastante típico do plagiato hidrófobo que hoje e em toda a parte passa por emancipação que uma mulher “avançada” reivindique o direito de usar calças — um direito quase tão grotesco quanto o de usar um nariz postiço. Não sei se o fato de vestir uma saia em cada perna faz com que a liberdade da mulher dê um salto [...]. Não há dúvida de que a saia expressa a dignidade da mulher, não sua submissão; e isso pode ser provado com uma simples demonstração. Nenhum legislador vestiria propositadamente os grilhões de um escravo [...]. Mas quando um homem quer parecer imponente e majestoso como um juiz, um sacerdote ou um rei, eis que traja saias, as vestes longas e talares da dignidade feminina. Ora, o mundo inteiro está sob o governo das anáguas, pois até os homens as vestem quando querem governar (grifos nossos) [8].

Além disso, quando se afirma que o dinheiro, adquirido na vida pública, vai dar mais liberdade à mulher, não se percebe que, na verdade, ela está sendo submetida a uma escravidão velada, seja trabalhando numa empresa seja como funcionária pública.

Devido ao contexto em que foi escrita, a obra de Chesterton não nos apresenta uma solução concreta para tantos problemas, mas lança uma luz profética sobre os tempos que lhe sucederiam. A partir de seu pensamento, podemos inferir que provavelmente a solução estaria em “voltarmos para casa” e abraçarmos aquilo que ele chama de “the one fighting form of Christianity” (a única forma combativa de Cristianismo), que é a Igreja Católica.

É relevante nesse sentido o seu livro The Thing (“A coisa”), em que ele explica por que saiu do anglicanismo e converteu-se ao catolicismo, mencionando, inclusive, o aspecto da domesticidade (domesticity). O fato crucial que o fez decidir-se pelo catolicismo foi quando os anglicanos, em 1921, consentiram com o uso de anticoncepcionais. Nessa ocasião, ele escreveu à sua mãe: “A família e as liberdades civis estão correndo um grande perigo”. E, então, em 1922, ele foi batizado na Igreja Católica.

Nesse contexto de transição do anglicanismo para o catolicismo, em 21 de outubro de 1921, Chesterton escreveu um editorial na publicação The New Witness, no qual afirma que, ao contrário do que dizem muitos jornalistas, o que nós precisamos não é de uma Igreja que se mova com o mundo, mas de uma Igreja que mova o mundo. E se não houver essa Igreja, o erro em que o mundo moderno se encontra só deve aumentar.

Diante de tudo isso que Chesterton nos apresenta, podemos compreender a relevância de nos aprofundarmos neste autor. Ele escreveu mais de 15 milhões de palavras, e suas obras coligidas constituem até o momento cerca de 40 volumes. Obviamente, não seremos capazes de esgotar toda essa produção literária em um curso; porém, buscaremos mostrar a grandeza do seu pensamento, a genialidade, a sabedoria e a profecia de seus escritos.

Referências

  1. Scott Randall Paine. Chesterton e o Universo. Brasília: UnB, 2008.
  2. Embora seja também provável que não o vejamos na glória dos altares, pois a Igreja só canoniza os profetas depois que suas profecias já se realizaram, e Chesterton é um profeta cuja profecia ainda está acontecendo.
  3. G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013.
  4. Aqui, “public houses”, pelo trocadilho inglês, pode significar tanto um bar (pub) como um clube (club).
  5. G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 157.
  6. G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 156.
  7. G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 157.
  8. G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 123.
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