Sim, Jesus veio trazer a divisão!
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 12, 49-53)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”.

Hoje, dia 21 de outubro, celebramos com alegria a memória do bem-aventurado Carlos da Áustria, imperador do Império Austro-hungárico e falido em 1922, com apenas 34 anos. Foi um exemplo de leigo, pai, esposo e estadista, um homem que não vendeu a consciência, mas serviu a Deus até o último dia de vida.

Vamos refletir a respeito do evangelho que a Igreja nos propõe hoje. Jesus diz: Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso. Essa palavra, tirada do evangelho de São Lucas, pode ser interpretada de várias maneiras; no entanto, São Cirilo de Alexandria nos coloca diante de uma possibilidade muito interessante. O que é esse fogo? Muitos dizem que é a caridade: Cristo veio atear o fogo do Espírito Santo, o fogo do amor; mas São Cirilo observa que é costume das Sagradas Escrituras designar por “fogo” os discursos sagrados e divinos. Ou seja, assim como o fogo purifica os metais, a palavra de Deus purifica as inteligências e corações.

Nesse sentido, Jesus afirma ter trazido uma palavra que incomoda. Reflitamos um pouco. Deus nos concedeu o privilégio de saber a verdade, isto é, de conhecer a realidade sem distorções. Num mundo de ideologias, mentiras e seduções diabólicas, poder receber a palavra de Cristo é uma grande eleição: Já não vos chamo servos, chamo-vos amigos (Jo 15,15), porque o servo não sabe o que que o seu senhor quer, mas o amigo, sim. Jesus nos trata como amigo quando nos mostra a verdade.

Mas esse privilégio não é indolor. Saber a verdade tem seu preço, porque a verdade incomoda. É preciso estar disposto a pagar o preço dela. Aqui está o grande drama. As pessoas dizem muitas vezes: “Ah! Eu quero saber a verdade”, como se isso não as comprometesse em nada nem lhes exigisse qualquer mudança pessoal. Ora, muito pelo contrário! Saber a verdade é ótimo, sim, mas exige um preço. Ao revelar a verdade, Jesus também purifica com o fogo da Palavra de Deus, que reclama de nós uma mudança de mentalidade e de vida. Ora, se vivemos cercados de pessoas enredadas na mentira, é certo que elas começarão a notar nossas mudanças e, mais certo ainda, a incomodar-se com elas. Então acontecerá o que Jesus diz no Evangelho de hoje: Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.

“Mas, como assim?”, dirá alguém. “Como Jesus veio trazer divisão, se Ele é Deus de misericórdia e bondade? Ele só traz unidade, ele só traz paz…”. De fato, Deus quer dar-nos unidade e paz. Sucede, porém, o seguinte: o mundo jaz sob o poder do maligno. Como então poderá haver unidade e paz com Deus? Só há uma maneira, é romper com o demônio. Essa é a missão da Igreja. Num mundo sob o domínio do erro, do pecado, do egoísmo, da miséria e da desgraça, a Igreja tem a missão de anunciar a Palavra de Deus às almas, purificando-as e conduzindo-as à conversão. Mas a partir do momento que uma alma se converte, as que ainda estão no erro começam a espernear contra ela.

Imaginemos, por exemplo, um homem casado que decide sair com os amigos para uma cachaçada à noite, regada a drogas e adultério. Depois do trabalho, os colegas vão ao prostíbulo. Se esse homem converter-se de verdade a Cristo, Deus de amor, deverá parar imediatamente com safadezas e infidelidades; deverá abandonar as drogas e o excesso de bebida. Mas irá suceder-lhe o seguinte. Os “amigos” lhe vão dizer: “Cara, vamos lá! É happy hour!” A resposta dele, naturalmente, será negativa, e a reação será imediata: “Que isso? Não está mais bebendo? Virou crente? É fanático! Agora só vive na barra de saia de padre! Deixou de ser homem! Não gosta mais do negócio?”. O que é isso? Um caso de divisão, mas de uma divisão boa. Quem está perdido em alto mar, a ponto de afogar-se com seus companheiros, não deveria lançar-se sem demora ao navio de resgate, para salvar a si e aos outros?

Jesus trouxe-nos o fogo purificador da Palavra de Deus. Se nos deixarmos purificar por ele, os que antes eram amigos começarão a olhar torto. É uma consequência normal, pois é amigo quem ama as mesmas coisas e odeia as mesmas coisas. Antes tínhamos “amigos” de pecado porque amávamos pecado; como odiávamos a Deus e a religião, também nossas amizades, em geral, as odiavam. Éramos todos náufragos. Graças a Deus, o Verbo divino purificou-nos pela verdade evangélica, dando-nos a conhecer a miséria e o perigo em que vivíamos e as consequências nefastas de nossos excessos, tanto para nós como para nossa família.
Eis aí um propósito concreto para hoje: ter a coragem de cortar as amizades más e falsas e buscar as boas e verdadeiras. Sim, devemos rezar e trabalhar, dentro do possível, pela conversão de nossos antigos companheiros de pecado, mas não é na cachaçada nem no prostíbulo que os ganharemos para Cristo. Rompamos com tudo o que for para nós ocasião de pecado. Renovados pela graça, aprendamos a amar o que amaram os santos e a odiar o que odiaram eles. Depois de Deus, temos neles nossos primeiros e melhores amigos. Jesus é o Deus da paz e da unidade, mas veio trazer a divisão e a guerra, no sentido de que deve haver uma tomada de posição firme: seremos por Ele e contra o pecado, ou contra Ele e pelo mundo? — Que o fogo consumidor da palavra de Deus nos inflame para um sim firme e resoluto à primeira alternativa!

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