Aprendendo a se confessar
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Aprendendo a se confessar

“O que é mais fácil dizer: ‘Teus pecados estão perdoados’, ou dizer: 'Levanta-te e anda’? Pois, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar pecados — disse ao paralítico — eu te digo: levanta-te, pega o leito e vai para casa”.

Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 5, 17-26)

Um dia Jesus estava ensinando. À sua volta estavam sentados fariseus e doutores da Lei, vindos de todas as aldeias da Galileia, da Judeia e de Jerusalém. E a virtude do Senhor o levava a curar.

Uns homens traziam um paralítico num leito e procuravam fazê-lo entrar para apresentá-lo. Mas, não achando por onde introduzi-lo, devido à multidão, subiram ao telhado e por entre as telhas o desceram com o leito no meio da assembleia diante de Jesus. Vendo-lhes a fé, ele disse: “Homem, teus pecados estão perdoados”.

Os escribas e fariseus começaram a murmurar, dizendo: “Quem é este que assim blasfema?” Conhecendo-lhes os pensamentos, Jesus respondeu, dizendo: “Por que murmurais em vossos corações? O que é mais fácil dizer: ‘teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘levanta-te e anda’? Pois, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar pecados — disse ao paralítico — eu te digo: levanta-te, pega o leito e vai para casa”. Imediatamente, diante deles, ele se levantou, tomou o leito e foi para casa, louvando a Deus. Todos ficaram fora de si, glorificavam a Deus e cheios de temor diziam: “Hoje vimos coisas maravilhosas!”

I. Para bem se confessar

Como na homilia de hoje o Pe. Paulo Ricardo se centra, resumidamente, nas qualidades necessárias à válida e frutuosa Confissão, houvemos por bem remeter o leitor aos seis episódios seguintes do programa A Resposta Católica, nos quais se explicam com mais detalhes os requisitos que deve cumprir o penitente para poder confessar-se bem: 1) Como fazer uma boa confissão?; 2) Como fazer um bom exame de consciência para se confessar?; 3) O que é o arrependimento dos pecados?; 4) Que propósito devo fazer para me confessar?; 5) Como acusar os próprios pecados na confissão?; 6) Por que o sacerdote nos dá uma penitência na Confissão?

II. Comentário exegético

Explicação do texto. — O Evangelho de hoje apresenta a cura de um paralítico. Segundo Mc, o episódio teve lugar em Cafarnaum: Jesus entrou novamente em Cafarnaum, cidade em que vivia, e souberam que ele estava em casa (2,1), não se sabe se na sua própria ou, possivelmente, na de Simão Pedro. Reuniu-se uma tal multidão, continua o evangelista, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta (2,2), i.e. a casa estava tão abarrotada, que era preciso ficar do lado de fora para poder ver e ouvir Jesus. Este os instruía, e o poder de Deus o fazia realizar várias curas (cf. Lc 5,17). Ora, como não pudessem entrar na casa devido à multidão, quatro amigos que traziam consigo um paralítico subiram ao teto e, arrancadas as telhas (1), desceram o doente pela abertura deitado num leito (gr. κράβατος, expressão macedônica para liteira) e o puseram diante de Jesus (cf. Lc 5,18s; Mc 2,4). Vendo-lhes a fé e a confiança em seu poder, disse o Senhor ao paralítico (2): Filho, perdoados te são os pecados (Mc 2,5; cf. Lc 5,20), i.e. acabou a causa que deu origem à tua enfermidade.

Ora, alguns escribas e fariseus que assistiam à cena escandalizaram-se diante da aparente blasfêmia, já que só Deus (murmuravam entre si) tem o poder de perdoar pecados, pois só quem foi injuriado pode desculpar as injúrias sofridas. Mas Jesus, penetrando-lhes o pensamento, repreendeu-os duramente: Por que murmurais em vossos corações? (Lc 5,22) ou, como se lê em Mc: Por que pensais isto em vossos corações? (2,8), i.e. por que pensais mal de mim, atribuindo-me más intenções? O que é mais fácil dizer: Teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda? (Lc 5,23). Cristo lhes pergunta não o que é mais fácil fazer, mas saber. De fato, parecia-lhes mais fácil dizer: Os teus pecados te são perdoados porque ninguém poderia saber com certeza se os pecados haviam sido perdoados; o que era realmente difícil era dizer: Levanta e anda porque, se Jesus não possuísse de fato autoridade divina, ficaria claro para todos que se tratava de um impostor e falso profeta. Por isso, para que saibais que o Filho de homem (3) tem esse poder, i.e. o de perdoar pecados, vede o que posso fazer (e disse ao paralítico): Levanta-te, pega o leito e vai para casa (Lc 5,24) (4). O doente levantou-se no mesmo instante, o que encheu a todos de profunda admiração, a ponto de dizerem: Nunca vimos coisa semelhante (Mc 2,12) e Hoje vimos coisas maravilhosas! (Lc 5,26) (5).

Pontos de meditação.a) Sentido simbólico da cura: ‘A cura deste paralítico indica a salvação da alma que, inerte após passar muito tempo atada aos pecados da carne, clama por fim a Cristo. Esta alma, antes de tudo, precisa de ministros que a elevem e apresentem diante de Cristo, ou seja, de bons mestres que lhe infundam a esperança de ser curada e lhe sirvam de intercessores’ (São Beda, in Luc.) — b) Os quatro amigos: ‘Todo doente deve ter quem reze por sua salvação, intercessores pelos quais nossos excessos e desvios possam ser remediados pela palavra celeste. É preciso pois que haja quem aconselhe e advirta, quem eleve o coração dos homens às coisas superiores, ainda que eles estejam debilitados no corpo. É assim, com a ajuda de homens como esses, que podemos nos apresentar e humilhar facilmente diante de Jesus e comparecer com menos indignidade ante os seus olhos’ (Santo Ambrósio). — c) Devem-se curar primeiro as doenças do espírito: ‘O olhar de Jesus, ao ver neles tanta fé, perdoou primeiro os pecados ao doente, e depois lhe restituiu a saúde do corpo; entrementes, ensinava que muitas doenças têm origem no pecado e que convém, portanto, curá-las diretamente em sua causa . . . e mostrava assim que era Deus. Pois curar enfermidades corporais, também os santos o podem fazer; mas perdoar pecados só está ao alcance de Deus’ (Eutímio, in Matth.). — d) Toma o teu leito e vai: ‘Pelo leito, no qual repousa a carne, significa-se a própria carne, ao passo que a casa, por sua vez, representa a consciência . . . Toma o teu leito, i.e. toma o catre em que foste carregado, pois é preciso que, uma vez curado, o homem suporte os ataques da carne na qual antes jazia enfermo. Com efeito, o que significa dizer: Toma o teu leito e vai para tua casa senão: Resiste às tentações da carne, sob as quais até agora estivestes prostrado, e volta à tua consciência, para que vejas assim o que fizeste?” (São Gregório, hom. in Ez.). — e) Subiram ao telhado e desceram com o leito: O teto aberto por onde descem o doente é símbolo do céu aberto pelo qual, na encarnação, desceu o nosso Médico, unido a uma carne como a nossa, mas dotada do poder de curar todas as doenças, espirituais e corporais, graças à virtude divina do Verbo. Renovemos pois a fé na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e no seu poder de perdoar qualquer pecado, por intermédio dos ministros que instituiu para conceder essa graça: Coragem, filho, os teus pecados estão perdoados!f) Coragem, filho: ‘Ao mesmo tempo se retrata a benignidade de Jesus e sua caridade verdadeiramente divina para com os miseráveis. Oh! admirável humildade, que chama filho ao desprezado e débil, desfeito em todos os membros e articulações, em quem não se dignavam tocar nem os sacerdotes’ (São Jerônimo) (6).

Referências

  1. Entre os judeus e, de modo geral, entre os orientais, o teto das casas era plano e sólido, feito de terra batida, de forma que era possível andar sobre ele. Podia-se subir por uma escada posta no átrio interior ou na parte de fora. Para alguns estudiosos, o teto das casas judaicas não era coberto de tégulas (telhas de barro), mas de pedras, costume comum na Palestina, especialmente nas regiões em que abundava o material. Seja como for, o texto parece supor que a abertura feita no teto não foi difícil para os amigos nem perigosa para os que estavam dentro da casa.
  2. R. Cornely et al., Cursus Scripturæ Sacræ. 3.ª ed., Paris: P. Lethielleux (ed.), 1922, p. 396s: ‘Quão grande fosse esta fé, mostra-se por aquela tentativa insólita de descer pelo teto aberto um doente e pô-lo aos pés de Jesus. Era grande a fé dos que o carregavam, mas também a do doente; do contrário, não teria permitido que o descessem assim. Querem alguns autores restringir [a cláusula] a fé que eles tinham somente aos que carregavam [o doente]; mas sem razão, ao que parece. De fato, como Jesus, vendo a fé que eles tinham, faz imediatamente ao próprio doente, com palavras amáveis, um enorme favor, é necessário concluir do modo da narração que ele falou amavelmente ao paralítico e lhe concedeu o dom mais precioso porque se agradara com a sinceridade e o fervor de sua fé. Ora, fé aqui significa persuasão sobre o poder e a benignidade de Cristo, das quais nasce a maior confiança. Cristo costuma exigir fé antes de operar milagres; age assim . . . não só para recomendar a fé, mas porque é próprio da fé impetrar e conseguir aquilo que crê e espera’.
  3. Esse é o primeiro lugar nos sinóticos em que aparece a famosa expressão ‘Filho de homem’, utilizada 50 vezes (78, se se contam os lugares paralelos) por Cristo e 1 vez por Santo Estêvão (cf. At 7,55). — a) Forma gramatical. ‘O υιός τοῦ ανθρώπου é a versão literal da locução aram. bar’enasha, usada frequentemente sem determinativo para significar ‘homem’. Com art. significa algum ‘filho de homem’, i.e. algum homem determinado. (Considerando-se a índole do aram., a determinação do art. não afeta ‘de homem’, mas apenas ‘filho’; por isso a tradução correta é ‘o filho de homem’, e não ‘o filho do homem’.) — b Origem. Esta designação de Cristo tem origem em Dn 7, 13s: Eu estava, pois, observando estas coisas durante a visão noturna, e eis que vi um que parecia um Filho de homem etc. Este Filho de homem, para a maior parte dos judeus ortodoxos, é o próprio Messias. — c) Sentido teológico. Jesus usava essa expressão no singular, em parte porque era costume entre os hebreus referir-se a si mesmo na terceira pessoa, em parte porque, com essa inusitada denominação, desejava trazer à memória deles a profecia de Daniel acima referida e, desse modo, insinuar-lhes que era ele o Filho de homem, i.e. o Messias anunciado pelo profeta. De mais a mais, esse título é tão humilde e modesto para designar o Messias, que os Apóstolos e a subsequente tradição da Igreja se abstiveram de usá-lo.
  4. Tomás de Vio Caetano, In Matth. 9,6: ‘Responde Jesus à objeção esclarecendo o mistério. Não nega ser próprio de Deus perdoar pecados nem diz abertamente: Eu sou Deus, por isso tenho o poder de perdoar pecados, mas: Com isto sabereis que o Filho de homem, não somente homem, mas o Filho de homem que está convosco na terra tem o poder de perdoar pecados, e por isso não é apenas homem, não é apenas Filho de homem, mas também aquele que tem o poder de perdoar pecados, o que significa que é Deus, como vós mesmos dizeis, conscientes de que ninguém pode perdoar pecados a não ser Deus’; v. 7: ‘A evidência do milagre foi muito maior que o esperado. Bastava que, por um milagre, o paralítico se levantasse curado, mas foi dito ainda: Pega o teu leito, para que aparecesse não só a saúde, mas também a força para levar o leito no qual fora carregado por quatro homens. E além disso se acrescenta: Vai para casa, a fim de que não só os presentes, mas quantos te virem comprovem a evidência do milagre’ (ed. Lyon, 1639, vol. 4, p. 46).
  5. Embora Mc e Lc digam que todos se admiraram, é improvável que os escribas e fariseus tenham se unido aos louvores das turbas, as únicas a que Mt atribui expressamente essa atitude: Vendo isso, a multidão ficou com medo e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens (9,8).
  6. R. Cornely et al., op. cit., loc. cit.

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