A grande tribulação
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 21,29-33)

Naquele tempo, Jesus contou-lhes uma parábola: “Olhai a figueira e todas as árvores. Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto. Vós também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto. Em verdade, eu vos digo: tudo isso vai acontecer antes que passe esta geração. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.

Quando isso sucederá? (cf. Mt 24,32-41; Mc 13,28-32; Lc 21,29-33). — 1) Tempo da ruína de Jerusalém (v. 32ss). — V. 32s. Abre-se como que uma nova seção no texto. Da árvore de figo apreendei a parábola, i.e. ouvi a semelhança que vos proponho tirada da figueira: Quando os seus ramos estão tenros e as folhas brotam, sabeis que está perto o estio (θέρος, a parte do ano que dá início ao período de chuvas). Na Palestina, o figo, e não a amêndoa, que brota demasiado cedo (por volta de jan.), anuncia a chegada de um tempo mais ameno.

NB — O v. 29s de Lc traz a mesma semelhança, mas reelaborada de modo a torná-la compreensível fora da Palestina: Vede a figueira e todas as árvores. Quando produzem de si fruto (ὅταν προβάλωσιν, quando desabrocham [ramos ou frutos]), sabeis etc. Em outras palavras, a germinação de primavera é sinal da proximidade do verão.

— Em seguida, aplica-se o ensinamento: Assim também, quando virdes tudo isto, i.e. todos estes sinais do meu advento, sabei que o Filho de homem (em Lc: o reino de Deus) está às portas.

V. 34, em particular, determina solenemente o tempo: Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que se cumpram todas estas coisas. Mc (v. 30) e Lc (v. 32) concordam literalmente, apesar de Lc omitir o pron. estas. É difícil porém explicar o sentido deste v. devido à amguidade do termo geração (γενεά) e da locução todas estas coisas (ταῦτα πάντα). Γενεά (de γένεσθαι), entre outras coisas, pode significar: a) estirpe, tribo ou raça (cf. Sl 111,2); b) os contemporâneos de uma determinada geração (= época); c) o próprio gênero humano, tomado conjuntamente por semelhança, não de natureza, mas de boa ou má índole, geralmente em sentido negativo (cf. Mt 12,39; 16,4; Mc 8,38; Lc 9,41 etc.) [1].

Assim, conforme as acepções (a) ou (c), muitos interpretam o termo como ‘gênero humano’, outros porém como ‘povo judeu’; todas estas coisas seriam tudo o que até agora Cristo anunciou (cf. Mt 24,5ss), mas principalmente o que se refere ao fim do mundo. O sentido da cláusula, portanto, seria esse: O gênero humano (ou: o povo judeu) não será extinto antes do advento do Messias. — Nesta hipótese, porém, Cristo não teria dito nada novo ou importante; com efeito, as passagens precedentes (v. 30) afirmam de modo claro e suficiente que os homens (os judeus inclusive) estarão vivos no tempo da parusia.

Outros preferem a acepção (b), i.e. interpretam-no como ‘os homens vivos na época de Cristo’; todas esta coisas seriam as descrições feitas anteriormente (cf. Mt 24,14ss) da destruição de Jerusalém. Essa interpretação, levando-se em conta quer o contexto (sobretudo em Lc: está próximo o reino de Deus), quer o uso da expressão nos evangelhos, parece a mais correta. Cristo afirma, pois, solenemente que os homens seus contemporâneos verão a destruição da Cidade, com o que responde à primeira pergunta dos discípulos (cf. Mt v. 3, Lc v. 7).

Uma minoria concorda com os últimos quanto ao sentido de geração, mas com os primeiros quanto ao sentido de todas estas coisas. Sustentam que o Senhor, interrogado pelos discípulos, lhes teria respondido de maneira propositalmente confusa, apresentando simultaneamente ambos os acontecimentos sob a mesma figura, a fim de ensinar aos primeiros fiéis cristão que a ruína de Jerusalém prefigura a catástrofe final do mundo. Logo, o sentido seria: ‘Antes de extinguir-se esta geração que ainda vive, acontecerão todas as coisas até agora anunciadas, algumas em realidade (i.e. as referentes a Jerusalém), outras (i.e. as restantes) como por imagem e figura’ (cf. Mt 23,26); além do que, os sinais de ambos os acontecimentos serão os mesmos em geral, tomados universalmente.

V. 35 (Mc v. 31, Lc v. 33). — Com solene επιφώνημα confirma Jesus a declaração precedente: O céu e a terra, dos quais não se pode conceber nada mais firme e estável, passarão, serão destruídos, imutados (cf. 1Cor 7,31; 2Pd 3,7), mas as minhas palavras não passarão.

2) Tempo da parusia (vv. 36-41). — Pode-se determinar o tempo do excídio judaico, mas o não o da parusia; este, além do mais, virá de repente, como que de assalto (cf. v. 37ss).

V. 36 (cf. Mc v. 32). — O tempo da parusia é de todo desconhecido: Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu… Em Mc se lê: nem os anjos . . . nem o Filho. A leitura mais provável de Mt também traz οὐδὲ ὁ υἱός. Este v., que já deu azo a muitas discussões, é consoante a At 1,7 e a Mt 20,23. Jesus indica que ele, ‘não só como homem, mas também como Deus, ignora de certo modo o dia do juízo, não porque o ignore de fato, mas porque sabê-lo não é ofício seu; assim como não disse: para quem está reservado por mim, mas: por meu Pai, não porque não esteja reservado também por ele, mas porque reservar o reino, i.e. predestinar, não é ofício dele, mas do Pai’ (Maldonado). — É a interpretação corrente [2], calcada no princípio de apropriação, segundo o qual um mesmo atributo ou operação comum às três hipóstase divinas predica-se de uma delas não exclusiva mas principalmente ou κατ’ εξοχήν, como forma de manifestar a distinção real entre elas (cf. Santo Tomás de Aquino, STh I 39, 7c.).

V. 37ss (cf. Lc 17,26s). — Não só não se sabe quando será a consumação do mundo, senão que ela tomará a muitos de surpresa, como atestam as Escrituras acerca do dilúvio universal. Com efeito, assim como os homens de então viviam ocupados em assuntos ordinários até o dia em que Noé entrou na arca, i.e. sem reconhecer o perigo iminente, e então chegou o dilúvio e fez morrer todos eles; assim também o advento do Filho de homem encontrará a todos despreparados.

V. 40 (cf. Lc 17,34s). — Além disso, no tempo da parusia, não se há de separar aos eleitos dos réprobos senão no instante mesmo do juízo, nem estará na proximidade de lugar ou de tempo a igualdade de destinos, senão que, mesmo entre os mais próximos (dois no campo, na cama, a moer juntos), será diversa a sorte de uns e de outros. É evidente que esta diversidade de fins deve-se à disposição interna de cada um.

Referências

  1. Evidentemente, há que rejeitar, por ímpia e blasfema, a interpretações dos racionalistas que supõem erro em Cristo, como se houvera julgado iminente o fim do mundo, ou incompreensão e distorção intencional das palavras do Senhor nos Apóstolos e nos hagiógrafos. De resto, entre as proposições condenadas pelo Santo Ofício, encontra-se a seguinte: ‘Para qualquer um que não é levado por idéias preconcebidas é evidente que ou Jesus professou um erro sobre a vinda messiânica próxima ou a maior parte de sua doutrina contida nos evangelhos sinópticos carece de autenticidade’ (Decreto Lamentabili, 3 jul. 1907, n. 33: DH 3433 = D 2033).
  2. À luz de At 1,7, também se pode interpretar assim a passagem: ‘Determinar a hora em que o mundo há de ser consumado e os homens, chamados para o juízo não compete aos anjos, nem mesmo ao Filho, mas ao Pai. O Pai, com efeito, pôs isso em seu poder, i.e. reservou-o para si; ao Pai é próprio sujeitar tudo a Cristo e pôr todos os seus inimigos sob os pés dele, para que o próprio Filho se sujeite àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de ser Deus tudo em todos’ (cf. 1Cor 15,25-28).

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