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Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?
Doutrina

Deus se arrependeu
alguma vez de ter criado o homem?

Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?

No livro do Gênesis, o relato do Dilúvio é precedido por uma frase desconcertante: “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor”. Mas como isso pôde ser, se Deus tudo sabe?

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Gn 6, 6 está escrito: ‘O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor’. Como o Senhor se arrependeu sendo onisciente? Ele não sabia que isso aconteceria?”

Resposta: As palavras “penitência” e “arrependimento” significam, em sentido próprio, certa dor e detestação da alma por ter cometido um mal ou omitido um bem, com o propósito de agir diferente no futuro. De fato, quando nos arrependemos de alguma coisa, costumamos dizer para nós mesmos: “Por que fiz isto? Queria não tê-lo feito!”, o que expressa nosso desejo de, em iguais circunstâncias, fazer o contrário do que fizemos.

Ora, que Deus não possa, em sentido próprio, se arrepender de nada, por ser onisciente e sumamente sábio, mostram-no com clareza vários trechos da S. Escritura, dentre os quais destacamos os três seguintes:

  • “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31).
  • “Deus não é homem para mentir, nem alguém para se arrepender. Alguma vez prometeu sem cumprir? Por acaso falou e não executou?” (Nm 23, 19).
  • “Aquele que é a verdade de Israel não mente, nem se arrepende, pois não é um homem para se arrepender” (1Sm 15, 29).

Logo, a passagem de Gn 6, 6 deve ser entendida em sentido impróprio ou metafórico, isto é, como certo antropomorfismo para significar que Deus aborreceu ou detestou os pecados da humanidade e, por isso, decidiu punir os homens, a saber: deixando de conservá-los, o que Ele não levaria a cabo se a maldade humana não tivesse chegado às proporções descritas pouco antes, em Gn 6, 5. Se, com efeito, a mesma Escritura diz que Deus “caminhava no jardim”, mas sem lhe atribuir pés, e afirma que Ele tudo faz com força de seu “braço”, mas sem lhe atribuir membros corpóreos, quando diz que Ele se “arrepende”, por que lhe atribuiríamos as imperfeições e inconstâncias de nossa própria vontade?

Aliás, o verbo que se lê no texto grego de Gn 6, 6 é ἐνεθυμήθη (aoristo de ἐνθυμέομαι), que também se pode traduzir por “reconsiderou em sua mente”, “deliberou”, “ponderou de si para si”, “reflexionou” etc., ideias que, aplicadas a Deus, não significam a retratação formal de uma vontade anterior, mas a simples efetivação, no tempo, do único ato eterno e imutável, embora condicional com respeito às criaturas, da vontade divina: “Castigar com penas justas os entes racionais e livres, se persistem obstinadamente em sua maldade” [1].

Notas

  1. Como lembra o Aquinate (cf. STh I 19, 7c.), querer que as coisas mudem não equivale a mudar de querer. Assim, e.g., Deus pode querer desde toda a eternidade que, num tempo tal, Pedro esteja vivo, mas que, depois, esteja morto, sem que isso implique que a vontade mesma de Deus — tão imutável quanto sua própria substância — tenha-se alterado. Do mesmo modo, Deus pode, com um só ato de vontade, querer absolutamente (i.e., desconsiderando quaisquer circunstâncias) que os homens vivam, mas, condicionalmente (i.e., supostas certas condições), que morram (e.g., no caso de se tornarem indignos, por seus pecados, de dons naturais como a vida biológica).

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Uma cronologia das aparições de Jesus Ressuscitado
Doutrina

Uma cronologia das
aparições de Jesus Ressuscitado

Uma cronologia das aparições de Jesus Ressuscitado

Como entender a sequência das aparições de Jesus Ressuscitado? Após anos de meditação, este sacerdote apresenta uma provável cronologia dos acontecimentos pascais, com base nos Santos Evangelhos e uma pitada de especulação.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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[Este texto é de autoria do Mons. Charles Pope. Em sua tradução para a língua portuguesa, foi levemente adaptado, aqui e ali.]

Quando lemos os relatos da Ressurreição no Novo Testamento, temos o desafio de colocar as cenas juntas, de forma que a sequência dos eventos se desenvolva em ordem lógica. Isso se deve a que nenhum Evangelho apresenta todas ou mesmo a maioria das informações. Alguns dados também parecem conflitantes. Mas esses conflitos são, em geral, apenas aparentes, e não conflitos de fato. Outra dificuldade em pôr os fatos lado a lado de maneira coerente é que a sucessão deles não fica clara em alguns relatos. Lucas e João são os mais precisos quanto ao tempo dos eventos descritos, enquanto Mateus e Lucas fornecem poucos parâmetros. Tanto os Atos dos Apóstolos quanto Paulo também oferecem relatos em que a sucessão dos acontecimentos nem sempre fica clara.

Pintura no interior de Saint-Joseph-des-Carmes, igreja parisiense.

Apesar disso, quero propor uma possível e, ouso afirmar, até mesmo provável sequência dos acontecimentos da Ressurreição. O trabalho é meu e não afirmo que o cenário seja certo ou se apóie em alguma autoridade antiga reconhecida [1].

Minha proposta é simplesmente o resultado de mais de 31 anos de oração e meditação sobre os eventos sucedidos nos quarenta dias entre a Ressurreição do Senhor e sua Ascensão. Minhas reflexões baseiam-se o mais solidamente possível na Bíblia, com uma pitada de especulação.

Compreendo que minha proposta irá irritar alguns estudiosos bíblicos modernos que parecem insistir em que seria errado tentar qualquer síntese dos textos, já que os próprios autores não pretenderam fazer uma.

Mesmo assim, prossigo com minha ousadia, na esperança de que o fiel se beneficie com isso e ache a síntese interessante. Considere-a pelo que ela é: a obra de um pastor desconhecido que rezou e procurou seguir com cuidado a sequência dos quarenta dias.

I. A manhã do primeiro dia

  1. Bem cedo pela manhã, um grupo de mulheres, incluindo Maria Madalena, aproxima-se do túmulo para concluir os costumes funerários em honra a Jesus (cf. Mt 28, 1; Mc 16, 1; Jo 20, 1).
  2. Elas veem o sepulcro aberto e ficam alarmadas.
  3. Maria Madalena corre para contar a Pedro e João a notícia sobre prováveis ladrões de túmulo (cf. Jo 20, 2).
  4. As mulheres que permanecem no túmulo encontram um anjo, que lhes declara que Jesus ressuscitou e que elas devem contar isso aos irmãos (cf. Mc 16, 5; Lc 24, 4; Mt 28, 5).
  5. A princípio, as mulheres ficam assustadas e saem da tumba com medo de falar (cf. Mc 16, 8).
  6. Recuperada a coragem, elas decidem ir até os Apóstolos (cf. Lc 24, 9; Mt 28, 8).
  7. Enquanto isso, Pedro e João vão ao túmulo para averiguar a alegação de Maria Madalena. Esta, que segue atrás deles, chega de volta ao túmulo, enquanto Pedro e João ainda estão lá. Pedro e João descobrem o túmulo vazio; eles não encontram nenhum anjo. João acredita na ressurreição. Não sabemos a que conclusão chegou Pedro.
  8. As outras mulheres relatam aos demais Apóstolos o que o anjo na tumba lhes tinha dito. Pedro e João ainda não voltaram do túmulo, e os outros Apóstolos, a princípio, desprezam a história das mulheres (cf. Lc 24, 9-11).
  9. Maria Madalena, demorando-se no túmulo, chora e tem medo. Ao olhar para dentro da tumba, vê dois anjos que lhe perguntam o motivo do choro. Jesus então se aproxima dela por trás. Sem olhar diretamente para Jesus, ela supõe que seja o jardineiro. Quando Ele a chama pelo nome, Maria reconhece-lhe a voz, vira-se e o vê. Cheia de alegria, ela tenta abraçá-lo. É a 1.ª aparição (cf. Jo 20, 16).
  10. Jesus envia Maria de volta aos Apóstolos com a notícia, a fim de prepará-los para seu aparecimento mais tarde naquele dia (cf. Jo 20, 17).
  11. As outras mulheres deixaram os Apóstolos e estão a caminho, possivelmente de volta para casa. Jesus lhes aparece (cf. Mt 28, 9) (depois de ter despedido Maria Madalena). Ele também as envia de volta aos Apóstolos com a notícia de que Ele ressuscitara e os verá em breve. É a 2.ª aparição.

II. A tarde e a noite do primeiro dia

  1. Mais tarde naquele dia, dois discípulos a caminho de Emaús refletem sobre os rumores da Ressurreição de Jesus. Cristo então vem por trás deles, mas eles não conseguem reconhecê-lo. Primeiro, Jesus explica-lhes as Escrituras; em seguida, senta-se à mesa com eles e celebra a Eucaristia [2], que é quando seus olhos se abrem e eles o reconhecem no partir do pão. É a 3.ª aparição (cf. Lc 24, 13-30).
  2. Os dois discípulos voltam naquela mesma noite a Jerusalém e se dirigem aos Onze. No início, aos Apóstolos não acreditam, assim como não tinham acreditado nas mulheres (cf. Mc 16, 13). No entanto, os discípulos continuam a relatar o que vivenciaram. Em algum momento, Pedro se afasta dos outros (talvez para uma caminhada?). O Senhor aparece a Pedro. É a 4.ª aparição (cf. Lc 24, 34; 1Cor 15, 5). Pedro informa os outros dez, que então acreditam. Assim, os discípulos de Emaús (ainda com os Apóstolos) são agora informados (talvez como uma desculpa) de que, de fato, é verdade que Jesus ressuscitou (cf. Lc 24, 34).
  3. Quase ao mesmo tempo, Jesus aparece naquela pequena reunião dos Apóstolos e dos dois discípulos de Emaús. É a 5.ª aparição. Tomé está ausente, embora o texto lucano diga que a aparição foi para “os onze” (o que, provavelmente, é apenas uma forma abreviada de designar os Apóstolos como grupo). Eles se assustam, mas Jesus os tranquiliza e explica-lhes as Escrituras (cf. Lc 24, 36ss).
  4. Há certo debate quanto ao fato de Ele ter ou não aparecido a eles uma segunda vez naquela noite. Os relatos de João e de Lucas têm descrições significativamente diferentes sobre a aparição naquela primeira noite de domingo. É apenas uma recontagem distinta sobre a mesma aparição ou trata-se de uma aparição totalmente independente? Não é possível dizer com certeza. Mesmo assim, uma vez que as descrições são tão diferentes, podemos chamá-la de 6.ª aparição (Jo 20, 19ss), embora seja provavelmente a mesma 5.ª aparição.

III. Intervalo

  1. Não há nenhum relato bíblico sobre aparições de Jesus a alguém durante a semana seguinte. O próximo relato da ressurreição diz: “Oito dias depois”, ou seja, no domingo seguinte.
  2. Sabemos que os Apóstolos disseram a Tomé que tinham visto o Senhor, mas ele se recusou a acreditar (cf. Jo 20, 24).
  3. Os Apóstolos estavam nervosos porque Jesus não aparecera novamente a cada dia? Não o sabemos; não há relatos sobre o que aconteceu nesse intervalo.

IV. Uma semana depois, no segundo domingo

  • Jesus aparece mais uma vez (é a 7.ª aparição) aos Apóstolos reunidos. Desta vez Tomé está com eles. Nosso Senhor chama Tomé à fé, e naquele momento ele professa que Jesus é seu Senhor e seu Deus (cf. Jo 20, 24-29).

V. Segundo intervalo

  • Os Apóstolos tinham recebido instruções para voltar à Galileia (cf. Mt 28, 10; Mc 16, 7), onde veriam Jesus. Eles passaram parte desse intervalo viajando 60 milhas para o norte, viagem que teria levado um tempo considerável. Podemos imaginá-los em viagem para o norte durante esses dias intermediários.

VI. Algum tempo depois

  1. O prazo da próxima aparição é um tanto vago. João diz apenas: “depois disso”. Provavelmente, é uma questão de dias ou de uma semana, na melhor das hipóteses. A cena se passa no mar da Galileia; nem todos estão presentes. Alguns Apóstolos foram pescar, e Jesus os chama da beira do lago. Eles voltam à praia e o veem (é a 8.ª aparição). Pedro tem um diálogo comovente com Jesus e é encarregado de cuidar do rebanho de Cristo (cf. Jo 21).
  2. A aparição aos 500. — De todas as aparições, pode-se pensar que esta teria sido a registrada com mais detalhes, já que foi testemunhada por um grande número de pessoas. Sobre isso, parece que muitos relatos teriam existido e que pelo menos um deles deveria ter entrado nas Escrituras. No entanto, a única coisa que se diz é que ela de fato aconteceu. Paulo a menciona em 1Cor 15, 6: “Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos).” É a 9.ª aparição. Onde isso aconteceu? Como foi? Qual foi a reação? Nós simplesmente não o sabemos. Isso prova mais uma vez que a Bíblia não é um livro de história no sentido convencional. Em vez disso, é um relato altamente seletivo do que aconteceu, não um relato completo. A Bíblia não afirma ser algo que ela não é. E está claro que ela é em um livro seletivo (cf. Jo 20, 30: “Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro”).
  3. A aparição a Tiago. — Aqui, novamente, não temos uma descrição da aparição, mas apenas uma observação de Paulo, que diz que ela de fato aconteceu: “Depois, Ele apareceu a Tiago” (1Cor 15, 7). É a 10.ª aparição. O tempo dessa aparição não fica claro. Sabemos apenas que ela aconteceu depois da aparição aos 500 e antes da aparição final aos Apóstolos.

VII. Os outros quarenta dias

  1. Jesus certamente fez outras aparições aos discípulos. Lucas o atesta nos Atos dos Apóstolos quando escreve: “A eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus” (At 1, 3).
  2. Nesse período, talvez haja uma aparição que possamos atribuir especificamente a este tempo, como registrado por Mateus (cf. 28, 16ss) e Marcos (cf. 16, 14ss). Ela aconteceu no “topo de uma montanha na Galileia”. Marcos acrescenta que eles estavam reclinados à mesa. Refiro-me a esta aparição (período de tempo incerto) como a 11.ª aparição. É aqui que Jesus lhes dá a grande missão de evangelizar. Embora o texto de Marcos pareça indicar que Jesus foi elevado aos céus desta montanha, a conclusão é precipitada, pois Marcos só indica que Jesus ascendeu apenas “depois de ter falado com eles” (Mc 16, 19) [3].
  3. Evidentemente, Jesus também os convocou de volta a Jerusalém, pelo menos ao cabo do período de quarenta dias. Lá eles estariam presentes para a festa de Pentecostes. Podemos imaginar aparições frequentes com instrução contínua, pois Lucas registra que Jesus “ficou com eles”. A maioria dessas aparições e discursos não está registrada. Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos: “E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem aí o cumprimento da promessa de seu Pai, ‘que ouvis­tes’ — disse Ele — ‘da minha boca; porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias’” (At 1, 4).

VIII. A aparição final e Ascensão

  • Após quarenta dias de aparições e instruções, temos um relato final da última aparição (a 12.ª) em que Ele os conduz a um lugar perto de Betânia e lhes dá as instruções finais para esperar em Jerusalém até que o Espírito Santo seja enviado. Ele então é levado ao céu à vista deles (Lc 24, 50-53; At 1, 1-11).

Eis aqui uma cronologia possível e, se posso dizer, provável das aparições do Ressuscitado. É uma síntese que tenta coligir todas as informações e apresentá-las em sequência lógica. Há limites para o que podemos esperar dos relatos das Escrituras. Encaixá-las perfeitamente numa sequência lógica não é o que os textos se propõem a fazer. Mesmo assim, essa sequência cronológica pode ser útil e é com esse espírito que a apresento.

Notas

  1. S. Agostinho dedicou-se bastante a este assunto em sua obra De consensu evangelistarum (“Sobre a concordância dos evangelistas”, cujos quatro volumes podem ser lidos na íntegra aqui, em língua espanhola). (Observação feita pelo autor no corpo do texto e deslocada como nota para esta publicação. As notas a seguir são todas de nossa equipe.)
  2. Esta posição é discutível. Não se sabe se a “fração do pão” de que fala S. Lucas é a Eucaristia ou apenas uma refeição normal à maneira judaica. A última hipótese é bastante provável, já que as Escrituras, por um lado, não referem nenhuma Eucaristia celebrada por Cristo além da Última Ceia nem é verossímil, por outro, que o Ressuscitado: (i) tenha realizado a transubstanciação diante de discípulos tão abatidos e (ii), talvez, ainda não suficientemente instruídos sobre o mistério eucarístico, (iii) antes mesmo de reconfirmar a fé dos Apóstolos, os primeiros encarregados de dispensar os sacramentos da Nova Lei. Além disso, o Evangelho deixa claro que, tão-logo foi reconhecido na fração do pão, Cristo desapareceu. Os dois então saíram dali às pressas, talvez — o texto permite supô-lo — sem nem comer do pão partido, o que, se se tratasse da Eucaristia, atentaria contra a dignidade do sacramento e a integridade da celebração.
  3. Neste ponto, o autor parece estar de acordo com bons intérpretes. S. Lucas deixa claro que Cristo ascendeu aos céus no Horto das Oliveiras (cf. 24, 50); portanto, na Judeia. A aparição num monte na Galileia é anterior ao retorno dos Apóstolos a Jerusalém, onde permanecerão até Pentecostes. Eutímio interpreta assim esse trecho de S. Marcos: “Depois de ter falado com eles”, ou seja, “não só estas, mas também todas as palavras de quantas lhes disse desde o dia de sua ressurreição até se completarem os quarentas dias em que aparecia aos discípulos e convivia com eles.” João de Maldonado, SJ, diz abertamente que à aparição no monte galilaico não se seguiu de imediato a Ascensão do Senhor.

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Súplica ardente aos Santos Anjos
Oração

Súplica ardente aos Santos Anjos

Súplica ardente aos Santos Anjos

Os Santos Anjos nos foram dados por Deus como guias e protetores especiais, mas muitas vezes nos esquecemos de rezar a eles. Para este fim, pode ser de grande utilidade esta “Súplica ardente”, recomendada para situações extraordinariamente difíceis.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A oração a seguir, muito propagada pela Obra dos Santos Anjos, recebeu aprovação eclesiástica do Vicariato de Roma em 6 de fevereiro de 1997, e é um auxílio poderoso em situações extraordinariamente difíceis — como são as que vivemos.

Consiste essencialmente em súplicas aos Santos Anjos, e de modo especial aos Arcanjos cujos nomes, revelados nas Sagradas Escrituras, conhecemos: São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Que os fiéis se dirijam em prece a esses espíritos bem-aventurados, é coisa que não deve impressionar ninguém, especialmente se estamos acostumados a recitar a célebre oração do Santo Anjo. Tampouco nos deve surpreender que eles tenham recebido de Deus o encargo de nos proteger, quando a própria Escritura dá testemunho disto: “O Senhor deu uma ordem a seus anjos, para em todos os caminhos te guardarem” (Sl 90, 11) — sem falar dos incontáveis testemunhos da Tradição a esse respeito. 

Disponibilizamos abaixo, enfim, o texto dessa oração, que pode ser rezada individualmente e em dois coros. Ela também pode ser recitada a partir deste arquivo em formato .pdf.


Deus uno e trino, onipotente e eterno! Antes de suplicarmos aos vossos servos, os Santos Anjos, prostramo-nos diante de vós e vos adoramos, Pai, Filho e Espírito Santo! Bendito e louvado sejais por toda a eternidade! E que todos os anjos e homens, por vós criados, vos adorem, vos amem e vos sirvam, ó Deus santo, Deus forte, Deus imortal!
E vós, Maria, Rainha de todos os anjos, aceitai benigna as súplicas dirigidas aos vossos servos e apresentai-as junto do trono do Altíssimo — vós que sois a onipotência suplicante e medianeira das graças — a fim de obtermos graça, salvação e auxílio. Amém. 

Poderosos Santos Anjos, que por Deus nos fostes concedidos para nossa proteção e auxílio, em nome da Santíssima Trindade nós vos suplicamos:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pelo poderosíssimo nome de Jesus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos por todas as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos por todos os martírios de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela Palavra santa de Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pelo Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome do amor que Deus tem por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome da fidelidade de Deus por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome da misericórdia de Deus por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, Rainha do Céu e da terra:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, vossa Rainha e Senhora:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa própria bem-aventurança:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa própria fidelidade:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa luta na defesa do Reino de Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos:
Protegei-nos com o vosso escudo! 

Nós vos suplicamos:
Defendei-nos com a vossa espada! 

Nós vos suplicamos:
Iluminai-nos com a vossa luz! 

Nós vos suplicamos:
Salvai-nos sob o manto protetor de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Guardai-nos no Coração de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Confiai-nos às mãos de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Mostrai-nos o caminho que conduz à Porta da Vida: o Coração aberto de Nosso Senhor! 

Nós vos suplicamos:
Guiai-nos com segurança à Casa do Pai celestial! 

Todos vós, nove coros dos espíritos bem-aventurados:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Vós, nossos companheiros especiais, a nós dados por Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Insistentemente vos suplicamos:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

O Sangue Preciosíssimo de Nosso Senhor e Rei foi derramado por nós, pobres.
Insistentemente vos suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

O Coração de Nosso Senhor e Rei bate por amor de nós, pobres.
Insistentemente vos  suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

O Coração Imaculado de Maria, Virgem puríssima e vossa Rainha, bate por amor de nós pobres.
Insistentemente vos suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

São Miguel Arcanjo, vós, príncipe dos exércitos celestes, vencedor do dragão infernal, recebestes de Deus força e poder para aniquilar, pela humildade, a soberba dos poderes das trevas.
Nós vos suplicamos que nos ajudeis a ter uma verdadeira humildade de coração, uma fidelidade inabalável no cumprimento contínuo da vontade de Deus e a fortaleza no sofrimento e na penúria. Socorrei-nos para subsistirmos perante o tribunal de Deus! 

São Gabriel Arcanjo, vós, Anjo da Encarnação, mensageiro fiel de Deus, abri os nossos ouvidos também às suaves exortações e chamadas do Coração amoroso de Nosso Senhor.
Nós vos suplicamos que fiqueis sempre diante do nosso olhar para compreendermos bem a palavra de Deus, a seguirmos e lhe obedecermos e, assim, realizarmos aquilo que Deus quer de nós. Ajudai-nos a estar sempre disponíveis e vigilantes, de modo a que o Senhor, quando vier, não nos encontre dormindo! 

São Rafael Arcanjo, vós, flecha de amor e remédio do amor de Deus,
nós vos suplicamos, feri o nosso coração com o amor ardente de Deus e nunca deixeis que esta ferida sare, para que, também no dia a dia, permaneçamos sempre no caminho do amor e tudo vençamos através do amor!

Socorrei-nos, vós, nossos irmãos grandes e santos, que conosco servis diante de Deus!
Defendei-nos de nós próprios, da nossa covardia e tibieza, do nosso egoísmo e avareza, da nossa inveja e desconfiança, da nossa avidez de fartura, bem-estar e estima pública. 

Desatai em nós as algemas do pecado e do apego às coisas terrenas. Tirai dos nossos olhos as vendas que nós mesmos nos pusemos para não precisarmos ver a miséria ao nosso redor e permanecermos, assim, sossegados numa contemplação e compaixão de nós mesmos.
Cravai no nosso coração o aguilhão da santa inquietude por Deus, para que não cessemos de procurá-lo com ânsia, contrição e amor.

Contemplai o Sangue de Nosso Senhor, derramado por nossa causa!
Contemplai as lágrimas da vossa Rainha, choradas por nossa causa! 

Contemplai em nós a imagem de Deus, que Ele por amor imprimiu na nossa alma e agora está desfigurada por nossos pecados!
Auxiliai-nos a conhecer Deus, adorá-lo, amá-lo e servi-lo! 

Auxiliai-nos na luta contra os poderes das trevas que disfarçadamente nos envolvem e afligem.
Auxiliai-nos para que nenhum de nós se perca e, um dia, nos reunamos todos, jubilosos, na eterna bem-aventurança. Amém. 

Como complemento a essas súplicas, pode-se invocar durante o dia, muitas vezes, os Santos Anjos: 

São Miguel, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós! 
São Gabriel, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós! 
São Rafael, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós!

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Santo Hermenegildo, um mártir entre os convertidos
Santos & Mártires

Santo Hermenegildo,
um mártir entre os convertidos

Santo Hermenegildo, um mártir entre os convertidos

Hermenegildo era filho do rei visigodo da Espanha, mas, pelo apostolado de sua esposa e de um santo bispo, passou a estimar “mais a graça de Deus que a de seu pai”. Por isso ele morreu, perdendo literalmente a cabeça. Mas seu martírio não ficaria sem fruto…

Plinio Maria Solimeo13 de Abril de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A vida de Santo Hermenegildo (564-585) foi narrada por quatro de seus contemporâneos: João de Biclaro, historiador espanhol; Santo Isidoro de Sevilha, na sua História dos Godos e dos Suevos; São Gregório de Tours, na sua História dos Francos; e o Papa São Gregório Magno, que a conheceu através de peregrinos espanhóis em viagem a Roma e a transcreve nos seus Diálogos.

Os visigodos arianos na Espanha. — A dominação dos visigodos na Espanha durou quase dois séculos. E, sendo eles hereges arianos, reinava a perseguição religiosa contra os católicos. A fé ortodoxa foi então perseguida como nunca antes, nem mesmo na época dos imperadores romanos. “Foi grande milagre, sem dúvida, que o ódio sectário dos conquistadores não lograsse vencer a constância dos católicos, e que a Espanha toda não se visse arrastada a uma apostasia geral. A heresia não logrou senão aumentar o número de mártires” [1].

Do primeiro casamento de Leovigildo, rei dos visigodos da Espanha (569-586), com uma princesa da qual não se guardou o nome, nasceram dois filhos: Hermenegildo e Recaredo. Estes foram educados na doutrina ariana do pai, que se casou em segundas núpcias com Goswinda, viúva do rei Atanagildo da Austrásia, furibundamente ariana.

Em 579 Hermenegildo casou-se com Ingonda, filha de Segisberto da Austrásia e de sua esposa Brunequilda, filha do primeiro casamento de Goswinda. Neta, portanto, de Goswinda, com o casamento Ingonda tornou-se também sua nora.

Como a exemplo de seus pais Ingonda era decididamente católica, Goswinda tomou como ponto de honra pervertê-la para o arianismo. Inicialmente com boas palavras e através de persuasão. Mas como não surtiu efeito, começou a utilizar a força. Assim, um dia quis que ela recebesse o batismo ariano. Ingonda respondeu-lhe: “Basta-me ter sido batizada uma vez e regenerada em nome da Trindade Santíssima, na qual adoro as três Pessoas iguais em um todo. Essa é a crença de minha alma, e jamais dela me apartarei”. Goswinda agarrou-a então pelos cabelos, maltratou-a como pôde, e, com a ajuda de algumas aias, arrastou-a até um tanque, onde lhe ministrou à força um batismo sacrílego. Tratou-se de um arremedo de batismo duplamente inválido: realizado à força e sem invocar a Santíssima Trindade, na qual os arianos não acreditavam por negarem a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hermenegildo abjura da heresia. — Muito penalizado com essa atitude da esposa, o rei Leovigildo enviou o jovem casal para a Bética (correspondente mais ou menos à Andaluzia atual), nomeando Hermenegildo governador. Outros dizem que ele foi para aquela região com o título de rei.

Irritado de um lado com o selvagem tratamento dispensado pela madrasta à sua esposa, e beneficamente influenciado de outro lado pelos habitantes hispano-romanos da Bética — maciçamente católicos e com tensas relações com os visigodos arianos —, Hermenegildo, em decorrência de tal ambiente somado ao apostolado da esposa e de São Leandro, arcebispo de Sevilha, abjurou da heresia ariana, tornando-se sincero católico.

São Leandro, arcebispo de Sevilha, numa pintura de Murillo.

Declaração de guerra do pai ao filho. — Ao saber da conversão do filho, Leovigildo o intimou a comparecer em Toledo na sua presença. Em seguida (580) convocou um concílio de bispos arianos nessa cidade, no qual, para atrair os católicos, foi decretado que dali em diante não seria mais necessário rebatizar-se para passar para o arianismo. Também, a pedido do rei e com o mesmo fim, redigiu-se uma nova profissão de fé. O próprio rei deu um exemplo de tolerância religiosa ao ir junto com os católicos venerar as relíquias dos mártires. Mas estes não se deixaram enganar. Tanto mais que no referido concílio herético o rei visigodo declarou seu intento de unificar a península sob o arianismo. A conversão do filho vinha atrapalhar seus planos [2].

Sabendo da pressão que sofreria em Toledo para renegar a verdadeira fé, Hermenegildo negou-se a comparecer diante do pai. Este viu nessa atitude uma declaração de guerra e preparou seus exércitos para ir-lhe ao encalço.

Por sua vez, para enfrentar o poderoso exército real, Hermenegildo aliou-se com os bizantinos, que dominavam a região sul-oriental da Espanha, e também chamou em sua ajuda Mirão, rei dos suevos da Galícia.

Após comprar a neutralidade de Bizâncio, Leovigildo arrebatou num ímpeto Mérida. Comprou depois Mirão e, livre desses escolhos, preparou-se para o assalto final a Sevilha. Esta lhe resistiu por dois anos (583-584), findos os quais, por falta de víveres e munição, caiu sob o poder real.

Após enviar a esposa e o filho a Constantinopla, para sob a proteção do imperador bizantino ali estarem imunes dos azares da guerra, Hermenegildo fugiu para Córdoba, refugiando-se numa igreja.

Local considerado sagrado já naquela remota época, Leovigildo não quis violar o direito de asilo na igreja. Mandou então seu filho Recaredo falar com o irmão, e este o convenceu a entregar-se ao pai, prometendo-lhe o perdão.

Efetivamente o rei apareceu, abraçou o filho e o levou para Toledo. Mas, pouco depois, mandou-o preso inicialmente para Valência e depois para Tarragona.

No Sábado Santo de 586 o prisioneiro pediu para confessar-se e receber a Sagrada Comunhão de um bispo católico. Mas quem apareceu foi um bispo ariano, que veio dar-lhe a Comunhão e oferecer-lhe a graça paterna, caso abjurasse do catolicismo.

Na prisão, recebe a graça do martírio. — Eis como o Papa São Gregório Magno narra o sucedido: 

Sobreveio a festividade da Páscoa, e naquela noite o pérfido rei Leovigildo enviou um bispo ariano ao cárcere para que seu filho recebesse a comunhão do sacratíssimo corpo de Cristo da mão sacrílega daquele herege, prometendo-lhe, se a aceitasse, de admiti-lo em sua graça. O santo moço, se bem que estivesse atado e afligido no corpo, estava livre e desperto na alma. E, estimando mais a graça de Deus do que a de seu pai, afastou de si o bispo ariano repreendendo-o e dizendo-lhe as palavras que merecia ouvir [3].

Pouco tempo depois o rei mandou um homem chamado Sisberto à prisão, o qual decepou com um machado a cabeça de Hermenegildo.

São Gregório diz que, no silêncio da mesma noite do martírio, ouviu-se sobre o corpo do mártir uma música celestial, e espargiram-se muitas luzes.

“A Apoteose de S. Hermenegildo”, por Francisco Herrera, o Velho.

Um impressionante milagre de São Hermenegildo consistiu na meia-conversão de seu pai. Meia conversão, pois não foi completa com a abjuração pública do arianismo. Com muita dor e arrependimento pelo que havia feito — “mas não de maneira que lhe aproveitasse para alcançar a salvação eterna”, diz o Sumo Pontífice — reconheceu que a fé católica era verdadeira, “mas não se atreveu a declará-lo para não perder o reino”. Entretanto, recomendou a São Leandro seu filho Recaredo, que devia suceder-lhe no trono. Pouco depois morreu. “Essa mudança maravilhosa — narra São Gregório — não teria de modo nenhum se realizado se Hermenegildo não tivesse derramado seu sangue pela verdade” [4].

A pós-história de Santo Hermenegildo. — Seguindo os conselhos de São Leandro, Recaredo governou com prudência seus Estados. Pouco depois de elevado ao trono, abjurou da heresia ariana e se converteu ao catolicismo, sendo acompanhado por todos os visigodos.

No século XVI, o Papa Sixto V concedeu o ofício de Santo Hermenegildo a toda a Espanha. O mesmo foi estendido no século seguinte por Urbano VIII à Igreja universal. Sua festa comemora-se no dia 13 de abril [5].

Alguns historiadores quiseram privar Santo Hermenegildo do título de mártir. Entre eles o próprio São Gregório de Tours, seu contemporâneo, o qual afirmou que o santo não deveria ter-se levantado contra o pai. Ele teria errado “por haver ignorado que, a quem ousa levantar-se contra seu pai, mesmo que este seja herege, espera-o o juízo divino” [6]. Outros acrescentam que sua morte se deveu a uma sublevação política, ainda que as providências tomadas por Leovigildo tenham sido inspiradas pelo ódio à fé católica.

Entretanto, conforme relatam os mesmos historiadores, a condição imposta em quase todas as tentativas de reconciliação feitas pelo rei foi da abjuração de Hermenegildo à fé católica, ao que ele sempre se opôs com tenacidade. E foi por esse motivo que o rei ditou sua sentença de morte. Isso fica muito claro no relato de São Gregório Magno, que narra ainda os milagres ocorridos logo depois do martírio do santo, como prova de que o mesmo foi bem aceito pelo Eterno Padre.

Notas

  1. Edelvives, Editorial Luis Vives, S.A., Zaragoza, 1947, tomo II, p. 443.
  2. Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., San Hermenegildo, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 121.
  3. Diálogos, apud Pe. Pedro de Ribadeneira, Flos Sanctorum, in Dr. Eduardo Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 62. (Nota da Equipe CNP: Este relato também se encontra na terceira leitura das Matinas do dia 13 de abril, no antigo Ofício Divino.)
  4. Id., ib.
  5. O texto original diz que a festa de S. Hermenegildo se celebra no dia 4 de abril, mas a data correta é 13 de abril, data de sua morte. De todo modo, seu nome não consta atualmente no calendário litúrgico geral, de onde foi tirado devido à importância relativa de sua festa para a Igreja universal — “quia non agitur de Sancto ‘momentum universale revera prae se ferente’” (Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 120) (Nota da Equipe CNP).
  6. R. Jiménez Pedrajas, San Hermenegildo, Gran Enciclopedia Rialp, Ediciones Rialp, S.A., Madrid, 1972, p. 708.

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Padre Leonel Franca, o outro apóstolo do Brasil
Igreja Católica

Padre Leonel Franca,
o outro apóstolo do Brasil

Padre Leonel Franca, o outro apóstolo do Brasil

Pe. Leonel Franca foi uma destas personalidades raríssimas, capazes de influenciar o rumo da história. Mas nenhuma alma dessa envergadura surge do nada. Conheça um pouco da história deste sacerdote, que ombreia com São José de Anchieta o título de “apóstolo do Brasil”.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Abril de 2021Tempo de leitura: 12 minutos
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Em 1920, o pastor e gramático Eduardo Carlos Pereira lançou um livro para lá de auspicioso: O problema religioso da América Latina. A ideia principal da obra, apresentada com toda a pompa de um “estudo dogmático-histórico”, era provar, sem meias palavras, que a culpada de todos os males da civilização latino-americana não era outra senão a Igreja Católica. Tamanha ousadia não passaria sem ser notada entre a opinião pública, dada a influência do catolicismo no Brasil, ainda mais naqueles tempos. Mas não coube a nenhum grande teólogo da época a missão de refutar brilhantemente o polêmico livro. Veio da pena de um ilustre desconhecido, um adoentado seminarista da Companhia de Jesus, a esmagadora resposta que causaria terror nas fileiras do protestantismo. O nome dele era Leonel Edgar da Silveira Franca.

Quando o livro A Igreja, a Reforma e a Civilização chegou às mãos dos leitores brasileiros, com o imprimatur do então arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, os protestantes foram tomados de assalto por uma obra digna dos mais elevados polemistas. De fato, chegou-se a difundir a maledicência de que a Igreja havia recorrido a um de seus maiores teólogos para vasculhar às pressas os arquivos do Vaticano e encontrar material contrário ao sr. Pereira. A verdade, no entanto, era bem outra. Leonel Franca já se encontrava em Roma para concluir seus estudos quando deparou com as traquinagens do pastor. E diante daquele “libelo de sectário apaixonado”, o então seminarista viu a oportunidade de colocar a inteligência a serviço da Igreja e do bem das almas [1]. Iniciava-se ali a jornada pública daquele que — no parecer de ninguém menos que D. Aquino Corrêa — iria ombrear com S. José de Anchieta o título de “apóstolo do Brasil” [2].

O Pe. Leonel Franca.

Padre Leonel Franca foi uma daquelas personalidades raríssimas, capazes de influenciar o rumo da história. Mas nenhuma alma dessa envergadura surge do nada, é preciso frisar. Nascido no dia 7 de janeiro de 1893, em São Gabriel (RS), Leonel foi formado, desde a mais tenra idade, num berço católico e educado em bons colégios, onde aprendeu lições de alemão, francês e inglês. Nesse ínterim, seu avô materno, Joaquim de Macedo Costa, teria vislumbrado uma rosa saindo do coração do neto e exalando um perfume dulcíssimo, como de um santo. Aliás, a veia combatente do futuro sacerdote vinha exatamente deste lado da família: o tio, D. Antônio de Macedo Costa, era bispo do Pará e, ao lado de D. Vital, bispo de Olinda, travara luta voraz contra a Maçonaria. Decerto, é possível imaginar como Leonel Franca fôra cuidadosamente instruído na religião sagrada.

Após a morte da mãe, ele e o irmão Leovigildo foram internados no Colégio Anchieta de Nova Friburgo (RJ). Nesse ambiente, pôde demonstrar suas primeiras inclinações à vida intelectual e ao sacerdócio, recebendo, ao cabo do ano letivo de 1906, oito medalhas condecorativas pelo bom desempenho e aplicação nos estudos. O próprio arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal Joaquim Arcoverde, foi quem lhe conferiu os títulos. 

Franca sentiu-se atraído pelo carisma da Companhia de Jesus já em meados de 1907, dirigindo um pedido formal ao superior da missão brasileira, Pe. Justino Lombardi, a fim de ingressar na família jesuíta. A princípio hesitantes, por conta da saúde frágil do candidato, os superiores só lhe aceitaram o ingresso após uma intervenção do Pe. Yabar, então diretor espiritual de Leonel. Uma vez admitido, ele não retrocederia nem mais um passo: “[Jesus] chamou-me de novo e, mau grado meu, me trouxe à Companhia! Oh! Amor incompreensível! Mais que nenhum outro sou obrigado a corresponder à minha vocação. O amor, a gratidão, o interesse o exigem” [3].

Leonel Franca entrou para a Companhia de Jesus com 15 anos de idade, no dia 12 de novembro de 1908. Noviço, cuidou em forjar-se na prática da oração e das virtudes, sobretudo para viver os votos de obediência, pobreza e celibato. Esse tempo de preparação ocorreu na casa dos jesuítas em São Paulo, para onde se mudou junto com o Pe. Fialho de Vargas. Já nesse período, sentiu no coração o desejo de um grande apostolado, como se pode ler em seu caderno espiritual: “Sinto inclinação para os estudos e para dar missões, principalmente aos índios…” [4]. Longe de uma pretensão vaidosa, ele manifestava sinceramente um chamado ao “estado de perfeição apostólica para o qual foram chamados... os maiores santos da Igreja” [5]. Por isso temia muitas vezes não ser capaz de corresponder àquela tarefa.

Dada a tenacidade com que Leonel aproveitou a formação, não é nada espantoso o propósito ao qual ele se aplicou após o chamado “Retiro Grande” dos jesuítas. Ele escreveu o seu próprio “Regulamento” em nada menos que 54 páginas de um caderno, imbuído da máxima: Maledictus qui facit opus Dei negligenter, isto é, “Maldito o que faz com negligência a obra de Deus. Desde então, a humildade, a oração e a mortificação se tornaram como as três colunas de sua vida interior, mantendo-as especialmente pela devoção ao S. Coração de Jesus. De fato, Leonel vivia essa devoção como “o lugar do seu repouso” e via como seu dever torná-la mais e mais conhecida. Era sobretudo na Eucaristia que se sentia mais próximo do Coração de Cristo, tendo em vista este seu santo propósito: “ordenar todo o dia, todas as minhas ações em relação à Santa comunhão, tornando-a o centro de minha vida espiritual” [6]. Ademais, tinha também uma piedade bastante voltada para a Via Sacra, a Virgem Santíssima e São José.

Essa vida ascética ajudou Leonel Franca a chegar à ordenação ciente de que seu dever primeiríssimo não era tanto o estudo quanto sua santificação. “No trato íntimo e contínuo com Deus, na meditação da vida e exemplos de Jesus Cristo é que devo haurir todos os dias a luz para a inteligência e sobretudo a força para a vontade, insistia [7]. Em 1923, depois do estrondoso lançamento de A Igreja, a Reforma e a Civilização, ele ainda teria a emoção de uma crise cardíaca que quase o levou à morte. A comorbidade deixou-lhe sequelas para o resto da vida, impedindo-o de realizar certos projetos, como o de assumir uma das cátedras da Universidade Gregoriana. “O essencial na vida é fazer a vontade de Deus, e o programa que Ele traça a cada um de nós nem sempre coincide com o que fantasiamos nos entusiasmos de uma juventude ardente”, escreveu Leonel a respeito [8]. 

Seja como for, no dia 26 de julho do mesmo ano, festa de Sant’Ana no antigo calendário litúrgico, Leonel Franca foi ordenado sacerdote pelo Cardeal Basílio Pompili. O irmão, Pe. Leovigildo, acompanhou de perto como Leonel viveu “aqueles dias envolvido numa atmosfera toda sobrenatural; muito amável e alegre com todos, mas sentia-se que não estava neste mundo”. “Durante toda a sua vida de sacerdote”, anotou depois o Pe. Leovigildo, “meu irmão conservou sempre este fervor edificante na celebração da Santa Missa” [9]. Pe. Leonel Franca concluiu seus estudos em Roma, sendo aprovado no exame ad gradum com sumo louvor. Estava formado o sacerdote que iria conduzir os brasileiros, sobretudo os jovens, para o Caminho, a Verdade e a Vida:

Quando penso no movimento espiritual que traz a juventude ao seio da Igreja, quando penso no campo imenso que no Brasil está esperando por quem o cultive, quando penso ainda que até agora, nós no Brasil não temos feito nada, nada para salvar a juventude universitária, vêm-me as lágrimas aos olhos. Enfim, Nosso Senhor sabe o que faz [10].

De volta ao Brasil, ele imediatamente se viu obrigado a combater pela Igreja frente à investida do modernista José Oiticica [11]. A resposta afiada do Pe. Leonel contra as tendências anticlericais daquele senhor mereceu de Jackson de Figueiredo, diretor do Centro Dom Vital, um elogio profético: “A Companhia, decerto, compreenderá o que o sr. pode fazer de bem ao Brasil contemporâneo, pois não há católico de senso que não saiba que ao sr. cabe dirigir, neste momento, a atividade intelectual das novas gerações…” [12]. Sem dúvida, o Pe. Leonel, em breve, tornar-se-ia o líder dos intelectuais católicos no Brasil.

Monumento em honra a D. Sebastião Leme, bispo do Pe. Leonel Franca.

O trabalho intelectual do Pe. Leonel Franca não serviu apenas à causa da Igreja, mas também à sociedade civil. Durante os 20 anos em que esteve no Colégio Santo Inácio, ele empreendeu iniciativas tremendas. Por nomeação do Cardeal Sebastião Leme, o Pe. Franca dirigiu a Ação Universitária Católica, cuja finalidade era ajudar os estudantes a trabalharem pelo bem da sociedade segundo os princípios da fé católica. A partir disso, em 1930, ele organizou um grupo para pessoas dos cursos de Medicina, Direito, Engenharia etc., para instruí-los na doutrina sagrada. Grupos semelhantes foram surgindo em outras cidades, como São Paulo, onde a agremiação estudantil mais importante, o Centro XI de Agosto, passou a ser dirigida por católicos na sua maioria.

Do mesmo modo, D. Sebastião Leme confiou-lhe o cargo de assessor do Centro Dom Vital, pelo qual já se interessava desde 1923, quando esse importante instituto foi fundado por Jackson de Figueiredo. O Pe. Leonel Franca acompanhou o grupo frutuosamente até 1936. Das conferências que proferiu entre os anos de 1929 e 1930 a respeito dos obstáculos à fé, surgiu o livro A psicologia da fé, outro fenômeno editorial na época. A obra ganhou repercussão nacional e internacional, com vários artigos elogiosos.

O campo de atuação do Pe. Leonel Franca se estendeu também sobre a área do Direito. Outra vez por indicação de D. Sebastião Leme, Leonel passou a auxiliar a Sociedade Jurídica Santo Ivo, cuja missão era reunir magistrados, professores de Direito e advogados católicos para defender o país de leis iníquas e preservar o bem da família e da Igreja. Com esse espírito, o Pe. Leonel Franca conseguiu reintroduzir o ensino religioso nas escolas e debelar o grande erro da época, que ameaçava a família: o divórcio. Durante a reforma do Código Civil, Leonel Franca realizou incansáveis conferências, fustigando com argúcia os argumentos divorcistas. Essas conferências foram depois organizadas em livro com o título de O Divórcio, e ninguém mais ousou tocar no assunto naqueles anos, dada a força da pregação do Pe. Leonel

Com palavras bem acertadas, o prof. Alcebíades Delamare escreveu sobre o sábio sacerdote: “Feliz é o povo que pode inscrever nos índices dos seus mais altos valores mentais, na coluna dos seus mais puros quantitativos morais, um homem da estirpe intelectual e das virtudes angélicas de um Padre Leonel Franca” [13].

Dada a credencial desse digno sacerdote, qualquer um pode calcular o tamanho da encrenca que seria desafiá-lo para um debate. Os oponentes não sairiam sem o devido vexame, ainda que, em sua arte retórica, o Pe. Leonel sempre mantivesse o caráter pacífico, segundo o lema de S. Agostinho: Diligite homines, interficite errores, “Amai os homens, destruí os erros”. Assim se viram corrigidos os vários pastores protestantes que, depois do estupor provocado por A Igreja, a Reforma e a Civilização, quiseram reavivar a polêmica. Para socorrer Eduardo Carlos Pereira, o pastor Ernesto Luís de Oliveira publicou Roma, a Igreja e o Anticristo. Dizia-se que aquele seria o golpe fatal na Igreja Católica, mas, como escreveu Pe. Leonel, “a realidade mentiu às esperanças”, porque “o livro do sr. Ernesto não adianta um ponto à controvérsia; repisa apenas, em mau português, velhos lugares comuns mil vezes refutados” [14]. Pe. Leonel, em resposta, publicou o contundente Catolicismo e Protestantismo.

Não satisfeito, o pastor Othoniel Motta decidiu colocar um ponto final no debate, pois, como ele mesmo reconhecia, o primeiro livro do Pe. Franca havia “tonteado o mundo protestante” [15]. Acontece que, mais uma vez, o campeão dos jesuítas venceu a disputa, trazendo para as fileiras da Igreja muitos reformadores, inclusive um dos mais notáveis alunos do prof. Othoniel Motta, o dr. José Lopes Ribeiro, que declarou:

[...] o amor à verdade nos leva a confessar que, nem a obra do Dr. Lysanias de Cerqueira Leite, nem a do conhecido professor e escritor [Othoniel Mott], nenhuma delas, sob qualquer aspecto, pode comparar-se, em lógica, na exposição de textos bíblicos ou na interpretação dos fatos históricos, a mais esse monumento que o grande e humilde filho de Santo Inácio levanta, ad majorem Dei gloriam, à causa de Nosso Senhor na terra de Santa Cruz [16].

Esses debates, por sua vez, reforçaram em Pe. Leonel a necessidade de trabalhar ainda mais pelo bem intelectual do país. Ele queria, no fim das contas, edificar uma universidade católica que pudesse oferecer aos jovens estudantes o patrimônio intelectual da humanidade, bem como uma orientação segura em meio à complexidade do mundo moderno. O seu apostolado pedagógico atraiu tanto o respeito da sociedade, que o padre acabou trabalhando durante 17 anos no Conselho Nacional de Educação, tendo sido nomeado, em 1931, pelo presidente Getúlio Vargas. Como princípio orientador, o Pe. Leonel tinha a Ratio Studiorum dos jesuítas, que traduziu e comentou. Anos mais tarde, ele lançaria um de seus mais importantes livros: A crise do mundo moderno.

O seu sonho enfim se tornou realidade, em outubro de 1940, com a inauguração da primeira universidade católica do Brasil, no Rio de Janeiro, e sua nomeação como primeiro reitor da instituição, em dezembro do mesmo ano. Mais tarde, em 1946, o governo brasileiro reconheceu a nova instituição dentro da legislação nacional e, em 20 de janeiro de 1947, a Santa Sé concedeu-lhe o título de Pontifícia Universidade Católica, pelo decreto Laeta Coelo Arridens.

Esses últimos esforços, porém, foram bastante severos para a saúde já frágil do sacerdote, de modo que, em 1948, ele começou a apresentar sinais de grave esgotamento. Finalmente, no dia 3 de setembro do mesmo ano, o campeão dos jesuítas entrou na eternidade. A notícia de seu falecimento foi motivo de tristeza em todo o Brasil, suscitando as mais belas homenagens e o reconhecimento por parte de muitas personalidades da época. Na Missa de sétimo dia, a Companhia de Jesus mandou estampar o seguinte lema de recordação: “Amou a Igreja realizando a verdade na caridade”.

Tal foi a vida de quem tudo fez para conservar no coração dos brasileiros o estandarte da Cruz de Cristo. Apesar de sua morte, Pe. Leonel Franca deixou-nos “um monumento a atestar continuamente sua presença no meio de nossa geração, que ele instruiu com sua cultura e edificou com os exemplos de sua vida”, afirmou o Cardeal Jaime Câmara, então arcebispo do Rio de Janeiro, desejoso de que o legado daquele exímio sacerdote fosse preservado e desse frutos abundantes [17]. 

Nestes dias sombrios, em que a Igreja parece caminhar errante, como se houvesse esquecido o Caminho, a redescoberta do patrimônio intelectual e espiritual do Pe. Leonel Franca é tarefa mais do que desejada. É mesmo uma pena que esse eminente pastor de almas seja hoje tão pouco conhecido, sobretudo dentro da Igreja Católica, em cujas fileiras há quem o considere figura ultrapassada e de pouca monta. Mas voltar a esses mestres do passado não representa um retrocesso — não se trata de ressuscitar um “cavaleiro do apocalipse”, como talvez alguns o chamariam hoje —; trata-se, sim, de voltar às veredas de outrora, à boa via da salvação, da reta doutrina da qual jamais deveríamos ter saído, e andar por ela, como nos manda o Senhor (cf. Jr 6, 16). Afinal, Deus suscita profetas do meio do povo para, num mundo vacilante, nos trazer de volta à firmeza de sua Palavra.

Notas

  1. Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. Campinas: Calvariae, 2020, p. 9.
  2. Luiz G. S. D’Elboux, O padre Leonel Franca. Rio de Janeiro: Agir, 1952, pp. 9-10.
  3. Id., p. 30.
  4. Id., p. 37.
  5. Id., ibid.
  6. Id., p. 43.
  7. Id., pp. 80-81.
  8. Id., p. 135.
  9. Id., p. 134.
  10. Id., p. 123.
  11. Militante anarquista e membro da Fraternidade Rosa Cruz, José Oiticica dirigiu um ataque infeliz à Igreja e ao Papado pelas páginas do Correio da Manhã, em 13 de fevereiro de 1926. A resposta do Pe. Leonel Franca veio dias depois, em O Jornal, despertando o vivo interesse dos leitores cariocas. Mas tão-logo percebeu a vulgaridade do opositor, Pe. Franca guardou silêncio, deixando-o falar sozinho ao longo de mais de um mês. Depois de 15 artigos, quando José Oiticica cessou a ofensiva, então o Pe. Leonel mandou publicar Relíquias de uma polêmica, colocando um ponto final na questão. “Deus o inspirou, com a publicação do seu trabalho. Porque se o novo Sancho do leninismo não se confundir com os seus avisos, nós, católicos, sem letras, acharemos muito que aprender e aproveitar no repleto celeiro do seu livro”, disse um dos admiradores do Pe. Franca dentre as centenas que escreveram ao jornal, parabenizando-o pela coragem e sabedoria.
  12. Id., p. 157.
  13. Id., p. 190.
  14. Pe. Leonel Franca, O Protestantismo no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. ABC, 1938, p. 12.
  15. Luiz G. S. D’Elboux, op.cit., p. 223.
  16. Id., p. 227.
  17. A Editora Realeza preparou uma reedição limitada das “Obras Completas” do Padre Leonel Franca, já à venda.

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