Desde o início dos tempos, nós seres humanos quisemos sair da casinha que a natureza nos concedeu, antecipando o glorioso destino que nos foi prometido. Há na natureza humana uma nostalgia de divindade, um anseio de uma existência eterna e “trans-humanada”. Daí que nós seres humanos queiramos ser algo mais, visto que nos “autoafirmamos” e reforçamos a consciência do que somos. Temos o desejo de deixar a casinha que a natureza nos concedeu, queremos “sair” de nós mesmos, ultrapassando os limites dentro dos quais fomos confinados.

Em alguns casos, esse desejo de transcendência que nos invade é reforçado pelo desejo de fugir da dor (física ou moral) que nos aflige, tornando-se uma válvula de escape através da qual sublimamos o nosso sofrimento. Mas em muitos outros casos, o desejo de transcendência pode existir sem sofrimento físico ou psicológico. As pessoas saudáveis e afortunadas também sentem o desejo de ir além de si mesmas, sentem um profundo desgosto por sua própria personalidade, sentem um desejo ardente de se libertar dessa identidade insatisfatória que para elas é semelhante a uma jaula (mesmo que seja uma jaula dourada, mesmo que dentro dela gozem de perfeita saúde e de todo o tipo de felicidade). Qualquer homem ou mulher, seja o mais feliz ou o mais desgraçado, pode sentir, de repente ou gradualmente, esse “desacordo” com seu próprio ser. E esta consciência de “desacordo” pode gerar um desejo agonizante e peremptório de abandonar o cárcere do eu, para voar livre de restrições.

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De fato, ser o que somos é muito cansativo; e é natural que estejamos ansiosos por ultrapassar as nossas limitações. Essa consciência aflita da condenação que constitui a nossa vida quotidiana nos é trazida por nossa natureza caída. E é um peso que todos os seres humanos sentimos, em maior ou menor grau, dependendo do quanto estejamos conscientes do que somos. Se sentimos o desejo de sair da casinha que a natureza nos atribuiu, é porque sabemos quem realmente somos; porque sabemos intimamente  o fim último, o propósito e o objetivo da nossa existência (mesmo que não saibamos como formulá-lo), que não é outro senão o de nos fundirmos com o fundamento da nossa vida, de tal forma que este fundamento inunde a nossa consciência, como acontece a São Paulo quando ele escreve aos gálatas: “Estou pregado com Cristo na cruz; vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 19-20).

Quando somos capazes de transcender nosso eu obsoleto, nosso eu eterno fica livre para realizar essa fusão. Embora ainda presos num corpo perecível, sabemos que somos parte do eterno. Em alguns seres privilegiados, essa fusão pode ser plenamente realizada nesta vida, através da união mística. Nós, os mortais comuns, por outro lado, temos de nos contentar em morrer para que essa fusão ocorra; entretanto, enquanto esta vida dura, só podemos preparar o caminho ascendente para essa libertação, predispondo-nos a receber a graça que nos ajuda a esquecer a profunda insatisfação de estarmos ultrapassados e “sentirmo-nos” eternos. A religião se dedica a preparar este caminho de libertação, mas quando é assimilada de forma deturpada também pode se tornar um obstáculo, degenerando em um “ativismo” desnorteado, ou em fantasias e visões autoinduzidas.

Mas o que acontece naquelas sociedades e fases da história em que a religião não acompanha nosso desejo apaixonado de ultrapassar os limites do nosso eu obsoleto e prisioneiro? Então o caminho para a libertação deixa de ser ascendente. E o desejo humano de transcender a casinha que a natureza lhe atribuiu torna-se uma evasão para baixo (através de substitutos grosseiros da graça, tais como o álcool ou as drogas), em direção a um estágio de animalidade e desarranjo mental; ou então desloca-se horizontalmente para algo mais vasto do que o eu, mas não mais elevado nem essencialmente outro, tentando abranger, de forma tumultuada, diversas experiências humanas. Entre esses deslocamentos horizontais estão as chamadas teorias do gênero, que prometem que os seres humanos poderão sair de suas casinhas apenas por “sentir” que são outros. Inevitavelmente, esses substitutos do caminho ascendente, esses grotescos substitutos da graça, são insatisfatórios na melhor das hipóteses e quase sempre desastrosos, porque, longe de apaziguar o descontentamento humano, só o agigantam, até o ponto de transformá-lo em infelicidade irrevogável.