O texto a seguir, do começo ao fim, revela bastantes detalhes do enredo de Jane Eyre, obra literária de Charlotte Brontë. Portanto, se está lendo, ou pretende ler o livro em breve, volte aqui depois. Só prossiga se não se importa.
Quase 180 anos após a publicação do romance Jane Eyre, de Charlotte Brontë, muita tinta já foi gasta para falar de vários aspectos e trechos da obra. Já vi muitos exaltarem, por exemplo, a ousadia e independência da protagonista, tratada em nossos dias como uma precursora do feminismo (tanto a personagem quanto sua criadora). É admirável, e inesperada, a conversão do sr. Rochester no fim do livro, obtida após uma dolorosa separação e uma verdadeira aniquilação de seu orgulho. E por aí vai. Um parágrafo em específico, porém, chamou-me a atenção desde a primeira vez que o li, pois contém uma lição de sabedoria muito simples, infelizmente esquecida por nossa época.
Primeiramente, para quem não conhece a história ou não se lembra do enredo, coloquemos a cena no devido contexto:
Jane acaba de descobrir que Rochester, apesar de a ter pedido em casamento e levado ao altar, já era casado, estando sua esposa (mentalmente incapaz, diga-se de passagem) ainda viva. É seu irmão — cunhado de Rochester, portanto — quem chega à igreja, revela o fato e impede a cerimônia de consumar-se. Agora, na tarde desse mesmo dia, Rochester revela à moça todos os detalhes de seu passado, inclusive o fato de que, estando nessa circunstância, relacionou-se com algumas mulheres, pelas quais era atraído, mas das quais, depois, ficava enjoado e se afastava. Ele despejou tudo isso diante dela só para sugerir, no final, algo como: “mas com você tudo é diferente”, “mas agora não é mais assim”. Eis o trecho:
— “No entanto, eu não conseguia viver sozinho; então tentei a companhia de amantes. A primeira que escolhi foi Céline Varens, outro daqueles passos que fazem um homem desprezar a si mesmo quando os lembra. Você já sabe como ela era, e como minha ligação com ela terminou. Teve duas sucessoras: uma italiana, Giacinta, e uma alemã, Clara; ambas consideradas especialmente bonitas. O que significava essa beleza para mim depois de algumas semanas? Giacinta não tinha princípios e era violenta: cansei dela em três meses. Clara era honesta e quieta, mas bruta, obtusa e insensível: nem um pouco ao meu gosto. Fiquei feliz em lhe dar dinheiro o suficiente para colocá-la em um bom ramo de negócios, e assim me livrar dela decentemente. Porém, vejo pelo seu semblante que não está formando uma boa ideia a meu respeito, Jane. Você acha que sou um libertino desvirtuado, não é?”
— Realmente, não gosto tanto do senhor como já gostei em outros momentos. Não lhe pareceu nada errado viver assim, primeiro com uma amante e depois com outra? Fala disso como se fosse uma coisa natural.
— Para mim, era; mas eu não gostava disso. Era uma existência banal, não gostaria de voltar a vivê-la. Contratar uma amante é quase tão ruim quanto comprar uma escrava: ambas são, frequentemente por natureza, e sempre por posição, inferiores. E viver por muito tempo com gente inferior é degradante. Odeio agora lembrar do meu passado com Céline, Giacinta e Clara [1].
Parêntese: Rochester vive um drama. Casou enganado e atou-se a uma mulher profundamente perturbada e imoral. Agora, porém, ele tenta justificar as suas relações extraconjugais: “eu não conseguia viver sozinho”. Percebam como ele não deplora o adultério; no máximo, despreza o fato de ter contratado suas amantes, como prostitutas, mas não a prática em si mesma. Tanto que tentou a bigamia com Jane, a qual só escapou por muito pouco.
Neste capítulo XXVII, aliás, ele faz a ela uma proposta indecente: que os dois esqueçam aquele episódio e vão viver juntos em uma casa sua com vista para o Mediterrâneo, onde ninguém os conhece nem poderá perturbá-los, e onde eles poderão ser — como num final de novela da Rede Globo — “felizes para sempre”.
Jane rejeita a ideia desde o princípio, dizendo-lhe: “Senhor, sua esposa está viva. Isto é um fato que o senhor mesmo reconheceu hoje de manhã. Se eu vivesse com o senhor, como deseja, eu seria sua amante: dizer o contrário é um sofisma, é falso” [2]. (Jane tem “ideias claras” — como Padre Paulo Ricardo gosta de dizer —, e as põe sobre a mesa. “Sim, sim; não, não”, como no Evangelho.)
Mas Rochester insiste. E passa a ser franco com Jane, a quem abre o coração. Ante a revelação de suas três amantes, porém, ela tem uma intuição genial, e é sobre ela que quero falar:
Senti honestidade em suas palavras, e a partir delas inferi que, se eu chegasse ao ponto de esquecer de mim mesma e de todos os ensinamentos que me foram dados e — sob qualquer pretexto, com qualquer justificativa, através de qualquer tentação — me tornasse a sucessora dessas pobres garotas, algum dia ele olharia para mim com o mesmo sentimento que agora profanava suas memórias. Não pronunciei essa convicção: era o bastante senti-la. Gravei-a em meu coração, para que me auxiliasse em momentos de provação [3].
O que ela está dizendo, em outras palavras, é:
Se ele agiu assim com outras, por que seria diferente comigo? Se eu aceito ser sua amante — “sob qualquer pretexto, com qualquer justificativa, através de qualquer tentação” —, quem me garante que, amanhã, não serei eu a próxima?
É um pensamento singelo, que dispensa explicações. Mas é exatamente o que não pensam as mulheres de nossa época, é exatamente o amor-próprio que lhes falta.
Saindo da Inglaterra vitoriana e indo para um episódio bem próximo à nossa realidade: o caso Matsunaga, ocorrido em 2012, não foi justamente um crime bárbaro precedido de uma sucessão de adultérios?
Lembremos: Marcos já era casado quando conheceu Elize. Conheceu-a em um site de relacionamentos. Por três anos, sem que sua primeira esposa desconfiasse, ele a teve como amante exclusiva. No fim, terminou abandonando a mulher e unindo-se a Elize, “de aliança e papel passado”, como se diz, mas na Igreja Anglicana — o que, convenhamos, não deixa de ser emblemático. Por algum tempo eles foram felizes, a vinda de um filho trouxe ao casal uma certa estabilidade, mas não demorou para que Marcos procurasse, no mesmo site onde conheceu Elize, novas acompanhantes (agora no plural). A amante que se tornara esposa contratou um detetive, descobriu os extravios do marido, e o resto é história.
É claro que os dois episódios têm mais diferenças do que semelhanças, começando pela distância moral entre suas protagonistas e culminando no desfecho sublime da ficção, tão destoante do trágico caso real.
Todavia, a beleza da literatura clássica está justamente em retratar as amplas possibilidades da natureza humana. Por isso ela atravessa as fronteiras do tempo e do espaço, desconhece especificidades de era, raça ou nacionalidade. Por isso ela ganha as mentes e os corações, e continua a ser objeto dos mais acalorados debates e das reflexões mais profundas. Porque homens sempre serão homens, e mulheres sempre serão mulheres, tais como Deus os criou, tais como os moldou em sua psicologia. O caso Matsunaga mostra que continua sendo verdade o que Charlotte Brontë pôs na boca de Jane Eyre: quem cede à tentação do adultério, pode muito bem se tornar, amanhã, a sua vítima mais ingrata. (E terminar com o coração em pedaços, ou, então, horrendamente, desfazendo em pedaços seu algoz.)
Por falar em esquartejamento, antigamente, esta pena não era executada com cutelo, como a executou Elize Matsunaga. Antes, a pessoa tinha seus quatro membros atados, cada um ao corpo de um cavalo, e era dado um disparo para que os quatro equinos saíssem em disparada — tudo feito às claras, para todo o mundo ver. À parte a crueldade da cena, a imagem me parece muito adequada para representar o que acontece com uma pessoa à mercê de suas paixões; sentimentos que, como cavalos desordenados, a arrastam para um lado e para o outro, terminando por destruí-la.
Para não cair nessa miséria, Jane Eyre aferrou-se ao amor-próprio e à lei divina, como ela mesma diz: “se eu chegasse ao ponto de esquecer de mim mesma e de todos os ensinamentos que me foram dados…”. Ou seja, arrastados por nossos sentimentos, podemos nos esquecer de nós mesmos e do que é correto. Então, quem cede ao mal, faz isso não só em detrimento da lei de Deus, que o proíbe, mas também em detrimento de si mesmo; quem peca, no fundo, faz mal a si próprio, não se quer bem — por mais que se engane “sob qualquer pretexto, com qualquer justificativa”.
O sr. Rochester não enxerga tudo isso naquele momento. Mas Jane faz questão de mostrar-lhe. E paga o preço de sua escolha, partindo dali a toda pressa, deixando praticamente tudo o que tem e sem dar notícia alguma — “morrendo” para ele, em suma. Sua fuga, porém, é fonte de vida para seu amado, que cai em si e, como já dissemos, enfim se arrepende e reconcilia com Deus.
O afastamento não foi fácil para nossa protagonista, que de fato amava o seu patrão, mas ela abraçou a verdade sobre o caso, e o que fez? “Gravei-a em meu coração, para que me auxiliasse em momentos de provação” — outra lição valiosa para não nos deixarmos levar, para não cedermos ao “canto da sereia”: agarrar-nos à verdade como um mastro, como uma âncora.
No fim das contas, trata-se de uma tarefa humanamente irrealizável sem a ajuda de Deus, e também isso transparece em “Jane Eyre”. Pouco depois do diálogo que apresentamos, uma voz a inspira a partir [4]. E é o autor da mesma voz quem lhe dá forças para suportar vários dias ao relento, até ela encontrar abrigo na casa de St. John. Depois, naquela que é, sem dúvida, a mais bela cena da história, a Providência reúne mais uma vez os dois, trazendo aos ouvidos de Jane um grito desesperado de socorro do sr. Rochester.
O final é feliz, mas justamente porque Jane fez o que sabia ser devido, por mais que lhe custasse, confiando todo o resto nas mãos de Deus. E é esta, sem dúvida, a grande lição deste romance, lição tão esquecida por nós.
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