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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 8, 1-4)

Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam. Eis que um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fica limpo”. No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra.

Então Jesus lhe disse: “Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho para eles”.

No Evangelho de hoje, Jesus termina o sermão da montanha. O Evangelho começa assim: Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam, então tem lugar o milagre pelo qual Jesus purifica um leproso. O leproso se aproxima de Cristo — é um gesto ousado —, ajoelha-se diante dele e diz: Senhor, se queres, tens o poder de purificar-me. A atitude do leproso é exemplar. Jesus, quando permite tais encontros e realiza milagres, nunca o faz apenas pelo milagre. Ele via cada um de nós, dois mil anos depois desses acontecimentos. Naquele dia, Cristo viu o de hoje. Sim, este dia: 25 de junho de 2021, em que nós estamos meditando este Evangelho. Jesus, ao curar há dois mil anos aquele leproso, viu-nos explicando este Evangelho e Ele quer que imitemos o leproso. Tendo ouvido ao pé da montanha os ensinamentos santos e sábios de Cristo que nos acompanharam ao longo dos últimos dias, precisamos agora nos aproximar dele e dizer: “Senhor, tudo o que falastes é palavra divina, que nos aqueceu o coração. Oxalá o nosso coração fosse como o sermão da montanha!” Por quê? Porque o sermão da montanha é uma grande radiografia do Coração de Jesus. Ali, o Senhor mostra quem Ele mesmo é. O caminho de santidade descrito nos capítulos 5 a 7 de São Mateus não é outra coisa que o próprio Cristo a de revelar sua intimidade, o seu Coração, como Ele é e, portanto, como Ele gostaria que nós fôssemos.

Sucede, porém, o seguinte: uma vez que Ele manifestou sua própria grandeza, se nós realmente entendemos quem Jesus é, então vemos os leprosos que somos, isto é, o quanto ainda estamos longe de viver esses ensinamentos. Sim, existe um abismo entre o nosso coração e o Coração manso e humilde de Nosso Senhor, um Coração maravilhoso ao qual se aplicam todas as palavras do sermão da montanha: Bem-aventurados os pobres de espírito. porque deles é o Reino dos Céus; Ele é o sal da terra, a luz do mundo, aquele que realiza a Lei do Antigo Testamento: Ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo, aprofundando as leis de Deus. É Jesus quem ora e ensina a orar, a ter um relacionamento com Deus. Tudo isso é um mergulho no Coração de Cristo, que diz: Quem ouve estas minhas palavras e constrói a sua casa sobre elas construiu sobre a rocha. Mas quem não as ouve está construindo sobre a areia

Assim se conclui o sermão da montanha. Agora que descemos dela com Jesus e nos vemos diante da grande tarefa de viver o que foi ensinado, olhamos para nós mesmos com toda a sinceridade e vemos nossa lepra… Mesmo assim, devemos ter a ousadia de nos aproximar de Jesus. O que não devemos é imitar Lutero. Ora, quando leu o sermão da montanha, o que Lutero fez? Ele, que dizia que o homem era justificado somente pela fé, ao ver as obras maravilhosas exigidas pelo sermão da montanha, varreu o problema para baixo do tapete, como quem diz: “No sermão da montanha, Jesus está explicando o que deveríamos ser, se não tivéssemos sido corrompidos pelo pecado original. Mas como fomos corrompidos, a santidade é impossível”. Para ele, a fé sozinha é suficiente, ainda que o crente viva no pecado, na sem-vergonhice, porque “basta crer” que Jesus nos purificou… 

Não é a atitude que o Senhor quer de nós. O que Jesus quer é que, vendo a sublimidade do sermão da montanha, confessemos a Ele a nossa miséria, que nos aproximemos de joelhos, dizendo: “Senhor, vós sois a verdade, eu sou uma mentira, uma farsa. Senhor, vós sois o santo, eu sou lepra; mas se queres — seja feita a vossa vontade! —, se queres, tu tens o poder de purificar-me”. Sim, Jesus pode fazê-lo. À que temos nas palavras dele precisamos juntar a esperança, esperança no Deus que nos auxilia nessa batalha e transformação. Deus quer fazer de nós grandes santos! Sim, somos leprosos, mas Jesus nos quer purificar, como quis no Evangelho de hoje: Eu quero. Fica limpo, e no mesmo instante o homem ficou curado da lepra. Mas se não nos aproximarmos dele; se não fizermos oração de joelhos como o leproso; se não fizermos um pedido sincero, insistente, humilde e confiante, então nada acontecerá.

Afinal, o que Jesus ensina nesse Evangelho é aquilo que em teologia se chama oração infalível. O que é isso? A oração é infalível quando se pede algo necessário à salvação, pois é certo que Deus, por querer a salvação do homem, não lhe negará os meios necessários para isso. Quando pedimos bens espirituais necessários à nossa salvação, podemos ter certeza de que Deus no-los irá conceder, desde que a oração tenha as seguintes qualidades: seja humilde, confiante e perseverante. Precisamos aproximar-nos de Jesus com humildade, como o leproso se aproximou ajoelhado. Precisamos aproximar-nos com confiança, como o leproso que ousou infringir a proibição, já que tais doentes não podiam chegar perto de ninguém. E precisamos perseverar porque não é com uma simples oração isolada que alcançaremos essas qualidades. Tenhamos daqui por diante o firme propósito de ter vida de oração. Precisamos rezar porque todos os dias precisamos dispor nossa alma a pedir. Apresentemos todos os dias a nossa lepra a Jesus, confiantemente, humildemente, e peçamos-lhe que nos transforme nos santos que Ele sonhou que fôssemos. Não desanimemos! Jesus está olhando para nossos pedidos, ansioso para dizer o que disse ao leproso do Evangelho: Eu quero.

* * *

1. O leproso.a) Sua fé: “Um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele”. Marcos acrescenta γονυπετῶν, isto é, “aproximando-se dele de joelhos”, e Lucas πεσὼν ἐπὶ πρόσωπον, isto é, “caindo com o resto em terra”. Assim agiu o leproso para honrar a Cristo não com simples deferência pública, mas com verdadeiro culto religioso de latria, como se depreende de seu pedido tão humilde e cheio de fé. De fato, ele não disse: “Se pedires a Deus”, como o faria Moisés, mas: “Se queres, podes limpar-me”, o que equivale a: “Sei que tens com o Pai o mesmo poder e que eres, portanto, Senhor das doenças. Por isso podes, com pleno direito, ordenar a esta lepra e com só uma ordem expulsá-la de mim. Peço-te, pois, que queiras e te dignes fazê-lo: se quiseres, está feito, e eu fico curado”. Diz sobre ele São João Crisóstomo: “Ao médico espiritual oferece um pagamento espiritual, a saber: a oração fiel, que é a coisa mais digna que oferecemos a Deus”. E a Glosa interlinear: “A vontade”, diz, “dá o poder”, pois tão grande é a vontade quanto o poder de Deus: o que Ele quer, pode fazê-lo num instante, segundo aquilo: “Tudo o que quer, o faz o Senhor” (Sl 134, 6). Em Deus, com efeito, a vontade, a potência e os demais atributos são iguais, porque divinos, imensos e infinitos. O leproso, por conseguinte, teve fé na divindade de Cristo, em parte por uma iluminação e inspiração interiores, em parte pelos milagres, muitos dos quais Cristo já realizara no primeiro ano de seu ministério, e este leproso foi curado no segundo [1]. — b) Sua resignação: Além disso, o Se queres demonstra um desejo de cura mesclado com resignação: de fato, o leproso se resigna e sujeita à vontade de Cristo, para que Ele, se quiser, o cure; se não quiser, não o cure. As doenças e lepras, com efeito, muitas vezes são úteis ou necessárias à salvação da alma. Deus o sabe, mas não o homem. Por isso é necessário que ele se resigne com o juízo e a vontade de Deus e não peça saúde em termos absolutos, mas condicionais, ou seja, se assim for do agrado de Deus e conveniente à salvação da alma [2].

2. A lepra.a) Lepra, figura do pecado: “Pelas afecções corpóreas indica a Lei as doenças da alma, e pelos males que se sofrem sem culpa repreende os que se padecem com ela. Se, com efeito, até as misérias naturais parecem impuras, muito mais o serão as voluntárias” (Teófanes, In Lev. 15: PG 80, 319). “Por um único leproso coberto de chagas é simbolizado o conjunto dos fiéis cobertos de pecados; por isso, que ninguém se glorie dos próprios méritos, pois todos éramos filhos da ira […]; se não descesse Ele pela Encarnação, assemelhando-se aos homens, não subiriam como homens os leprosos, outrora expulsos das alegrias do paraíso” (São Pascásio, In Mat. 8, 2: PL 120, 339). — b) Os efeitos das duas lepras: α) como a física corrompe o corpo, a espiritual destrói a alma; β) o pecado torna o homem imundo e o exclui da sociedade dos justos, como a lepra excluía da sociedade civil; γ) entrega o pecador a uma morte infeliz, solitária e cheia de dores. — c) Para curar a lepra espiritual: α) estimulemos um desejo cada vez mais ardente de nossa salvação; β) recorramos com frequência e confiança a Nosso Senhor Jesus Cristo, repetindo a humilde oração do leproso: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”; γ) “Vai mostrar-te ao sacerdote”, a saber: no sagrado tribunal da Penitência; δ) apresentemos a Deus a oferta da nossa satisfação e emenda, como prescreve a Lei da justiça e do amor [3].

Referências

  1. Segundo Cornélio a Lapide (cf. Commentarii in Sacram Scripturam. Nápoles, 1854, vol. 2, p. 16), o segundo ano da vida pública de Cristo abarca os eventos narrados a partir da segunda Páscoa depois do batismo até o início do terceiro ano, isto é, do fim de março de 32 d.C. até o final de março de 33 d.C. Entre esses eventos se contam, por exemplo, a cura do leproso, ocorrida provavelmente nos arredores de Cafarnaum; a cura do servo paralítico do centurião; e, às portas de Naim, a ressurreição do filho de uma viúva (cf. Mt 8.5; Mc 1, passim; Lc 5, passim; 7, 1.11). É discutível. Para outros intérpretes, é mais provável que essa cura tenha acontecido antes, no início da pregação de Cristo, e isso por três razões: 1) porque o evangelho de Mateus, como se sabe, obedece mais à ordem lógica que à cronológica; 2) porque, se a cura tivesse ocorrido logo após o sermão da montanha, como Mateus dá a entender, Jesus ainda estaria cercado pelas multidões, o que é negado pelo próprio evangelista: “Olha, não digas nada a ninguém” (Mt 8, 4); 3) porque Marcos e Lucas, reconhecidamente mais fiéis à cronologia, situam a purificação do leproso entre os primeiros milagres de Cristo (cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 274, n. 179)
  2. Tradução levemente adaptada de Cornélio a Lapide, op. cit., p. 188.
  3. Tradução levemente de H. Simón, op. cit., p. 275s, n. 180.
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