Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 9, 18-26)
Enquanto Jesus estava falando, um chefe aproximou-se, inclinou-se profundamente diante dele, e disse: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá”.
Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos. Nisto, uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto. Ela pensava consigo: “Se eu conseguir ao menos tocar no manto dele, ficarei curada”. Jesus voltou-se e, ao vê-la, disse: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”. E a mulher ficou curada a partir daquele instante.
Chegando à casa do chefe, Jesus viu os tocadores de flauta e a multidão alvoroçada, e disse: “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo”. E começaram a caçoar dele. Quando a multidão foi afastada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. Essa notícia espalhou-se por toda aquela região.
O Evangelho de hoje nos narra dois milagres extraordinários: a cura da mulher que sofria de hemorragia e a ressurreição da filha de Jairo. Em ambos os episódios, a presença de São Pedro ocupa um lugar de destaque. E isso não é por acaso, pois estamos em Cafarnaum, a cidade onde ele vivia.
Depois de atravessar o lago e passar pela região dos gadarenos, Jesus retorna a Cafarnaum. Não se trata de um simples detalhe geográfico. Cafarnaum havia se tornado o centro das atividades de Nosso Senhor na Galileia, a cidade de onde partia para suas missões e onde ficava a casa de Pedro, que era seu local de hospedagem.
Sabendo que Nosso Senhor voltaria para lá, Jairo vai ao seu encontro e suplica que veja a sua filha falecida. A multidão, curiosa, acompanha tudo de perto, pois Jesus é conhecido por seus milagres, e as pessoas desejam vê-lo agir mais uma vez. No entanto, embora estejam próximas d’Ele, muitas ainda não possuem uma fé verdadeira. É uma multidão que se acotovela ao redor de Cristo, mas não compreende plenamente quem Ele é.
No meio daquela multidão, porém, encontra-se uma mulher que acredita. Depois de tantos anos sofrendo com uma hemorragia, ela se aproxima de Jesus cheia de fé e toca a orla de sua veste. Então, ela finalmente vê a sua esperança ser alcançada.
Ora, quando vamos receber a santa Eucaristia em nossas igrejas, seria de se esperar que todos comungassem com a fé dessa mulher. Entretanto, é de se suspeitar que, assim como a multidão, muitos recebem a comunhão e aparentemente se aproximam de Jesus, mas poucos são os verdadeiros comungantes. Isso se manifesta inclusive na atitude de quem recebe a Eucaristia e, logo em seguida, senta-se no banco e distrai-se facilmente ou entretém-se com o folheto de cantos, sem se dar conta do Hóspede que habita em sua alma.
Contudo, Jesus, que deseja suscitar a fé, quer também nos convidar para a intimidade. E é exatamente isso que o Evangelho nos narra em seguida, quando chega a notícia de que a filha de Jairo morreu. A multidão desanima e se dispersa, mas Jesus continua o seu propósito e convida para a intimidade do quarto da menina os seus pais e os discípulos prediletos, Pedro, Tiago e João. Vale recordar que os três pertenciam àquela cidade e tinham sua empresa de pesca às margens do lago, mas, tendo deixado tudo por Cristo, estavam prestes a viver uma experiência que os marcaria para o resto da vida.
Essa experiência foi tão profunda que Pedro jamais se esqueceu das palavras pronunciadas por Jesus naquele momento. O Evangelho de São Marcos faz questão de nos transmitir a expressão aramaica utilizada por Cristo naquele dia, a qual ficou tão gravada no coração de Pedro que suas palavras continuam ecoando ao longo de toda História Igreja: “Talitá cum”, que significa “Menina, levanta-te”. E ela se levanta.
É na intimidade com Cristo, onde contemplamos o seu amor, que Ele nos transforma e nos comunica uma vida nova. Por isso, quando vamos comungar, somos chamados não só a ter a fé da hemorroísa, mas também a nos recolhermos na intimidade de nossos corações para que, assim como Jesus ressuscitou a filha de Jairo, também nos ressuscite.
E o que há de morto em nosso interior que precisa renascer? O nosso amor e a nossa caridade, tantas vezes enfraquecidos pelo egoísmo e pela indiferença. Sem Deus, somos semelhantes àqueles ossos ressequidos contemplados pelo profeta Ezequiel. Mas Cristo sopra sobre nós o seu Espírito, pois deseja devolver-nos a vida, levantando-nos e colocando-nos de pé.
Portanto, a fé da hemorroíssa e a intimidade revelada na ressurreição da filha de Jairo mostram o caminho da vida cristã. Assim, de fé em fé e de amor em amor, vamos crescendo até alcançar a plena estatura de Cristo.




























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