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Homilia Dominical
7 Mar 2014 - 26:50

Eis o tempo da conversão

A luta aguerrida contra os três inimigos da alma, com a segunda conversão, converte-se numa oportunidade de aumentarmos e purificarmos nosso amor a Deus.
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Homilia Dominical - 7 Mar 2014 - 26:50

Eis o tempo da conversão

A luta aguerrida contra os três inimigos da alma, com a segunda conversão, converte-se numa oportunidade de aumentarmos e purificarmos nosso amor a Deus.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Mateus  

(Mt 17, 1-9)

Quaresma é tempo de conversão. E a conversão é uma obra salvadora de Deus, maior do que a própria criação do céu e da terra. É isto que nos recorda Santo Agostinho:

"Eu diria que esta obra é maior do que o céu e a terra, e de tudo o que se vê no céu e na terra. De fato, o céu e a terra passarão, enquanto a salvação e a justificação dos predestinados, ou seja, daqueles que ele conheceu anteriormente, permanecem para sempre. No céu e na terra há somente a obra de Deus, enquanto neles se encontra também a imagem de Deus" [1].

Se os homens e os anjos tivessem sido criados sem a graça de Deus, seriam apenas servos. Mas, através do dom da graça, os servos tornam-se amigos de Deus. A criatura é elevada a um nível infinitamente acima de sua própria natureza.

Essa é a parte positiva e mais importante da conversão. Em nós age uma realidade muito mais poderosa do que qualquer tentativa do demônio de afastar-nos de Deus. É importante ter isso em mente antes de refletirmos sobre a realidade da tentação, que é o tema do evangelho deste domingo.

Se não fosse assim, poderia parecer injusto que Deus nos colocasse numa luta espiritual contra seres muito mais poderosos do que nós: os anjos decaídos. Por isto Santo Tomás nos recorda:

"Deve-se dizer que para que a condição da luta não seja desigual, o homem recebe em compensação principalmente o auxílio da graça divina, e em segundo lugar a graça dos anjos" [2].

Assim, o início de nossa vida espiritual é marcada pelas virtudes da humildade e da fé: a humildade de reconhecer nossa impotência e a fé que nos concede uma confiança inabalável no socorro sobrenatural.

A Quaresma é um Kairós, tempo favorável, da graça de Deus e dos anjos. É importante lembramos da ação dos anjos em nossa Quaresma. Pois, se é verdade que nem todas as tentações são ocasionadas pelos demônios, os anjos, ao contrário, SEMPRE agem quando fazemos algo de bom. É novamente Santo Tomás quem explica:

"Deve-se dizer que o homem pode por si mesmo cair em pecado, mas não pode chegar a ter merecimento sem o auxílio divino, a ele proporcionado pela mediação dos anjos. Por isto, os anjos colaboram em tudo o que fazemos de bom, enquanto todos os nossos pecados não procedem da sugestão do demônio" [3].

Esta verdade ensinada pelo Aquinate é tão importante que se encontra no próprio Catecismo da Igreja Católica: "Ad omnia bona nostra cooperantur Angeli – Os Anjos cooperam para todos os nossos bens" (n. 350). A atividade dos anjos em nossas vidas é muito maior do que podemos suspeitar.

Mas, é claro, a Quaresma é também tempo de luta. Deus, em sua misteriosa providência, permite que sejamos tentados pelos demônios. Se ele permite isto, é porque a luta contra a tentação aumenta o nosso amor por ele e, por consequência, a nossa glória no céu.

A Quaresma não é somente tempo de vivermos nossa primeira conversão, deixando os pecados mortais - embora isto já seja um grande passo -; é também um convite para fazermos muito mais: crescermos em nossa santidade. Sendo assim, a luta aguerrida contra os demônios, o mundo e a carne (os três inimigos da alma) converte-se numa oportunidade de aumentarmos e purificarmos nosso amor a Deus.

Fazendo isto estaríamos entrando, para usar a linguagem de Santa Teresa de Jesus, nas segundas moradas de nossa alma: um tempo marcado pela luta ascética da alma que espera de Deus a graça da segunda conversão.

"Que ela [a alma] sempre esteja de sobreaviso para não se deixar vencer; o demônio se afastará depressa se a vir com grande determinação de não voltar às primeiras moradas, preferindo a isso perder a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece. Que seja viril, e não imite os que se deitavam de bruços para beber, quando iam para o combate (...). Em vez disso, ela deve determinar-se com firmeza: vai pelejar com todos os demônios e não há melhores armas do que as da cruz" [4].

Essa luta recordada por Santa Teresa é a mesma da qual nos fala São Paulo:

"Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, pelo seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares.  "Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus" [5].

Dos três inimigos de nossa alma, o pior deles é a carne. Novamente Santa Teresa:

"Desapegadas do mundo e dos parentes e encerradas aqui nas condições de que falei, parece que já fizemos tudo e que já não há combate a travar. Ó irmãs minhas, não vos considereis seguras nem abandoneis a vigilância, pois acontecerá convosco o que se passa com quem se deita muito sossegado, por ter fechado muito bem as portas por temor aos ladrões, mas que os deixa dentro da casa. E já sabeis que não há pior ladrão do que o que fica em casa, pois ficamos nós mesmas e, se não tivermos grande cuidado e cada uma, em prol do que há de mais importante, não se empenhar em contrariar a própria vontade, muitas coisas haverá a impedir essa santa liberdade de espírito que permite à alma voar para o seu Criador sem um peso de terra e de chumbo" [6].

Que esta Santa Quaresma seja um combate espiritual frutuoso: "Combate o bom combate da fé. Conquista a vida eterna, para a qual foste chamado" [7].

Referências

  1. Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de São João, 72, 3.
  2. Suma Teológica, I, q. 114, a. 1, ad 2.
  3. Suma Teológica, I, q. 114, a. 3, ad 3.
  4. Santa Teresa de Jesus, Moradas, II, 6.
  5. Ef 6, 10-17.
  6. Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, 10, 1.
  7. 1 Tim 6, 12.

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