Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 8, 18-22)
Naquele tempo, vendo uma multidão ao seu redor, Jesus mandou passar para a outra margem do lago. Então um mestre da Lei aproximou-se e disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que tu vás”.
Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Um outro dos discípulos disse a Jesus: “Senhor, permite-me que primeiro eu vá sepultar meu pai”. Mas Jesus lhe respondeu: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos”.
No Evangelho de hoje, Cristo nos apresenta a necessidade de pagarmos o preço de nossa vocação e, para compreendermos isso, é importante contextualizarmos o que está acontecendo.
Após pronunciar o belíssimo Sermão da Montanha, nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus, Jesus realizou dois milagres: a cura do leproso e a cura do servo do oficial romano. Então, depois disso, as pessoas começaram a procurá-lo. Primeiro, veio um mestre da Lei que lhe disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que Tu vás”, mas Nosso Senhor respondeu-lhe com uma afirmação surpreendente: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 19-20), como se estivesse dizendo: “Tu me queres seguir. É um desejo santo, mas saibas de uma coisa: quem quiser me seguir será forasteiro neste mundo”. Eis o preço da vocação e de termos verdadeiramente fé.
Cristo proclamou palavras sublimes no Sermão da Montanha e mostrou, por meio dos milagres, que elas são eficazes e realizam aquilo que anunciam. No entanto, seguir Jesus e crer em sua Palavra, abrindo o nosso coração à Verdade do Evangelho, fará de nós estrangeiros neste mundo.
Essa é uma realidade que muitas pessoas não enxergam no cristianismo. Se somos verdadeiramente católicos, consequentemente somos diferentes de muitas pessoas próximas de nós. Afinal, vivemos em um mundo paganizado. Nesse sentido, enxergamos uma espécie de doença que está assolando a Igreja atual: o bom católico faz todo o esforço possível para ser igual aos outros, tentando dialogar com o mundo moderno e adaptar-se a ele.
Entretanto, isso não é possível. O fermento não pode ser igual à massa; caso contrário, não irá fermentar. Da mesma forma, a luz não pode ser igual às trevas; caso contrário, não iluminará nada. Por isso, quando cremos em Jesus, mesmo que exteriormente as pessoas não percebam grandes mudanças, interiormente algo precisa acontecer. E é necessário estarmos preparados para isso, compreendendo o significado das palavras de Cristo.
Quando Ele diz que as raposas têm suas tocas, está mostrando que muitos sentem-se plenamente em casa neste mundo. Quando fala das aves do céu e de seus ninhos, está mostrando que inúmeras pessoas estão satisfeitas apenas com o trabalho, com o salário e com as coisas desta vida.
Mas, para o cristão, isso não basta. Mesmo sendo pessoas de bem e realizando o nosso trabalho com santidade, dedicação e alegria, não pertencemos a este mundo. Como disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Eles estão no mundo, mas não são deste mundo” (cf. Jo 17, 16), ou como ensinou São Pedro em sua Primeira Carta: “Somos peregrinos e estrangeiros neste mundo” (1 Pd 2, 11).
Temos uma Pátria, mas não é daqui. Por isso, ao acolhermos a Palavra de Cristo e crermos nela, começaremos a experimentar um conflito interior, no qual, ao mesmo tempo em que teremos apego às coisas deste mundo, percebemos profundamente que não pertencemos a ele.
Logo, precisamos iniciar um processo de desapego por amor a Jesus. Isso não significa perder todas as coisas, mas aprender a amá-las por Cristo, com Cristo e em Cristo, enxergando-o, por exemplo, em nosso cônjuge, nos filhos, no próprio corpo e em todos os bens recebidos. Pois, se não olhamos para essas realidades com o olhar de Jesus, ainda não as amamos verdadeiramente.
Quando acolhemos, de fato, a mensagem de Nosso Senhor, ficamos marcados por uma ferida que somente Deus pode curar e apaziguar. E essa cura acontecerá plenamente no Céu. Eis a maravilha do Senhor: Ele deseja nos conceder uma felicidade infinitamente superior a qualquer felicidade que possamos encontrar nesta terra.
Portanto, o Evangelho é uma boa notícia, porque Cristo nos diz que não existe apenas esta felicidade mundana e passageira. Não devemos cair na ilusão de buscar a felicidade definitiva neste mundo, já que esta só se encontra no Céu. O próprio Jesus nos falou: “Vou preparar-vos um lugar, para que onde eu esteja, estejais também vós” (Jo 14, 2-3).
Lá está a nossa casa! Então, quando chegarmos ao Céu, Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos e dirá aos bem-aventurados, àqueles que perseveraram na santidade e alcançaram a salvação: “Vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25, 34). Essa é a felicidade anunciada pelo Evangelho; isso é o que Jesus verdadeiramente quer para nós.



























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