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Homilia Dominical
24 Jan 2020 - 26:36

Nada faz sentido sem Cristo!

A cena dos discípulos imediatamente deixando tudo para seguir Jesus pode parecer um tanto fantasiosa. No entanto, antes de tomarem essa decisão radical, eles passaram por um processo pelo qual todos nós precisamos passar: primeiro, abandonar o pecado mortal; em seguida, conhecer verdadeiramente a Cristo; e, então, será inevitável não deixar tudo para segui-lo. Inevitável porque nada mais fará sentido sem Ele, que é a razão de ser da nossa vida.
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Homilia Dominical - 24 Jan 2020 - 26:36

Nada faz sentido sem Cristo!

A cena dos discípulos imediatamente deixando tudo para seguir Jesus pode parecer um tanto fantasiosa. No entanto, antes de tomarem essa decisão radical, eles passaram por um processo pelo qual todos nós precisamos passar: primeiro, abandonar o pecado mortal; em seguida, conhecer verdadeiramente a Cristo; e, então, será inevitável não deixar tudo para segui-lo. Inevitável porque nada mais fará sentido sem Ele, que é a razão de ser da nossa vida.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 4, 12-23)

Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.

Meditação. — 1. Neste 3.º Domingo do Tempo Comum, vamos meditar sobre o chamado de Jesus a Pedro, André, Tiago e João. Ao longo deste ano litúrgico, no qual leremos sobretudo o Evangelho de São Mateus, vamos aproveitar para ouvir os esplêndidos comentários de Santo Tomás de Aquino sobre a narrativa desse evangelista [1].

No Evangelho de hoje, a cena dos discípulos imediatamente deixando tudo para seguir Jesus pode parecer um tanto fantasiosa. Mas é exatamente o que está no texto bíblico. Ao chamar os irmãos Pedro e André, “eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4, 20); e, da mesma forma, Tiago e João “imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram” (Mt 4, 22). Esse fato aparentemente intrigante é muito bem explicado por Santo Tomás de Aquino através da interpretação das Escrituras sob a luz da Tradição da Igreja.

Primeiro, precisamos recordar que os evangelhos sinóticos — de Mateus, Marcos e Lucas — apresentam um resumo da vida de Jesus e, como tal, omitem certos acontecimentos tendo em vista a brevidade do relato. Nesse sentido, é possível compreendermos, juntamente com Tomás de Aquino, que a narrativa em questão não apresenta o primeiro chamado de Pedro, André, Tiago e João, mas sim o terceiro. Portanto, para entender este milagre de largar tudo para seguir a Cristo, precisamos compreender que existe todo um processo, que é explicado de forma magnífica por Santo Tomás de Aquino.

Os acontecimentos narrados no Evangelho deste domingo ocorreram no último ano da pregação de Jesus, quando João Batista foi preso. Mas é necessário compreendermos o que aconteceu antes. Para isso, Santo Tomás de Aquino nos recorda um fato atestado pela Tradição da Igreja e que está presente inclusive na Liturgia das Horas, mais especificamente na antífona do cântico evangélico das Vésperas da Epifania do Senhor, em que se afirma:

Recordamos neste dia três mistérios:
Hoje a estrela guia os Magos ao presépio.
Hoje a água se faz vinho para as bodas.
Hoje Cristo no Jordão é batizado
para salvar-nos. [2]

Ou seja, a Igreja crê que o dia no qual os reis magos foram adorar o menino Jesus é o mesmo dia, em anos diferentes, no qual Jesus foi batizado no rio Jordão, e o mesmo dia em que realizou seu primeiro milagre nas bodas de Caná. A partir disso, podemos compreender de forma mais profunda o relato de São Mateus.

Primeiro, precisamos recordar que a vida pública de Jesus começou com o batismo. Então, somente um ano depois, na mesma data, ele fez seu primeiro milagre em Caná da Galileia, transformando a água em vinho. Embora esses dois acontecimentos pareçam imediatos, houve um intervalo de um ano entre eles. Nesse período de um ano, Jesus começou a pregar, porém dando continuidade à mesma pregação de João Batista que exortava à conversão: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4, 17). Nesse primeiro ano, a fim de preparar o caminho, Jesus reafirmou o conteúdo do Antigo Testamento, que, na prática, significava a mudança de vida e o abandono dos pecados contra os mandamentos. Ou seja, a primeira pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo exortava ao abandono do pecado mortal, e esse deve ser o primeiro passo que precisamos dar de forma convicta em nossas vidas.

2. Continuando a trajetória de Jesus, observamos que estes discípulos — que no Evangelho de hoje abandonaram tudo — já seguiam a pregação de João Batista e, então, são recordados pelo precursor sobre o batismo de Jesus, ocorrido um ano antes. Nesse contexto, João revela aos discípulos quem é Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Daí eles foram até Jesus e começaram a conviver com Ele (cf. Jo 1, 38-39), conhecendo-o mesmo que superficialmente. Nas bodas de Caná, o evangelista João narra que Jesus estava presente com sua mãe e os “seus discípulos” (Jo 2, 2). Aqui, Santo Tomás nos explica que o termo “discípulos” é usado por antecipação, pois, na verdade, aqueles homens que viriam a ser discípulos ainda não possuíam uma fé consistente, apenas estavam acompanhando Jesus como seus amigos.

Da mesma forma, na vida de cada um de nós, é necessário abandonar os pecados mortais e começar a se aproximar de Nosso Senhor sabendo que Ele é aquele que vem trazer a graça e que batiza no Espírito Santo. Mesmo sem crer o suficiente, é preciso estar junto com Ele, ouvindo pregações, lendo a vida dos santos e estudando o Catecismo, a fim de iluminar nossa inteligência e conduzir nossa vontade para Ele.

Para chegar ao fato extraordinário deste Evangelho, de abandonar tudo, foi indispensável aos discípulos um conhecimento básico e fundamental de Jesus. E esse é o problema de muitas pessoas que são indiferentes à doutrina da Igreja. Como conseguirão amar a Cristo se não o conhecem verdadeiramente? Como crerão nele, se nunca ouviram falar sobre Ele? Por isso, além de abandonar o pecado, é imprescindível conhecer a Nosso Senhor, aprofundando-nos nas verdades de fé que Ele confiou a sua Igreja.

3. O grande G. K. Chesterton, ao descrever seu processo de conversão, também nos fornece uma ótima chave de leitura para este Evangelho. Segundo ele, o processo de conversão se divide em três fases. Na primeira, a pessoa, para não ser “preconceituosa”, resolve ouvir despretensiosamente o que a Igreja tem a dizer. Na segunda fase, ao ouvir a Igreja, a pessoa fica fascinada, porque percebe que existe um sentido naquilo que ela ensina. E, na terceira fase, a pessoa tenta com todas as suas forças fugir da Igreja, pois ela lhe atrai de tal modo que lhe pede a própria vida.

Esse também é o caminho descrito por Santo Tomás de Aquino. Primeiro, depois de abandonar o pecado, os discípulos começaram a andar com Jesus e conviver com Ele, sem grandes pretensões. Em seguida, ao verem os milagres, eles ficaram fascinados e passaram a crer nele. E, por fim, quando já tinham fé, Jesus mostra-lhes que eles precisam dar tudo a Ele.

Tal é o processo da graça pelo qual todos nós também precisamos passar. No primeiro chamado de Jesus, percebemos que Ele é alguém importante. No segundo chamado, constatamos que, além de ser importante, Ele é o Filho de Deus e passamos a crer nele. Por fim, começamos a ver que Jesus é a razão da nossa vida e que, na verdade, Ele não veio para resolver nossos problemas, mas nós que viemos para nos entregar por inteiro a Ele.

Diante da realidade fantástica deste Evangelho, nós também somos chamados a seguir a Cristo. Portanto, abandonemos o pecado, creiamos em Nosso Senhor e busquemos conhecê-lo verdadeiramente; então, será inevitável não deixar tudo para segui-lo. Inevitável porque nada mais fará sentido sem Ele, que é a razão de ser da nossa vida. Tudo o que possuímos e somos só encontra sentido “per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso”, em Jesus, com Ele e por Ele. Não tenhamos medo, pois a graça de Deus já está operando uma transformação em nós, a fim de que, como todos os santos, sejamos impelidos por uma força sobrenatural que nos fará deixar tudo para seguir a razão de nossa vida.

Oração. — Senhor Jesus Cristo, Vós que sois a razão de ser da nossa vida, ajudai-nos a abandonar o pecado, a crer verdadeiramente em Vós e a entregar tudo nas vossas mãos, a fim de que vos sigamos com todo nosso ser. Assim seja!

Notas

  1. Santo Tomás escreveu dois comentários aos Evangelhos: O Comentário ao Evangelho de São João e o Comentário ao Evangelho de São Mateus, sobre o qual nos debruçaremos ao longo deste ano litúrgico.
  2. Liturgia das Horas. v. I: Tempo do Advento e Tempo do Natal. Petrópolis: Vozes. São Paulo: Paulinas/Paulus/Ave Maria, 1999. p. 519.
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