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Homilia Dominical
20 Fev 2016 - 25:38

Nossa meta é a glória do Céu

Neste 2.º Domingo da Quaresma, a Liturgia da Missa nos apresenta o Evangelho da Transfiguração do Senhor. Antes de subir para Jerusalém e ser pregado à Cruz, Jesus quer mostrar aos Seus discípulos qual o sentido da Sua e da nossa jornada, quer ilustrar por que, afinal, devemos passar por tantos sofrimentos nesta vida.
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Homilia Dominical - 20 Fev 2016 - 25:38

Nossa meta é a glória do Céu

Neste 2.º Domingo da Quaresma, a Liturgia da Missa nos apresenta o Evangelho da Transfiguração do Senhor. Antes de subir para Jerusalém e ser pregado à Cruz, Jesus quer mostrar aos Seus discípulos qual o sentido da Sua e da nossa jornada, quer ilustrar por que, afinal, devemos passar por tantos sofrimentos nesta vida.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
9, 28-35)

Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.

Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém.

Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele.

E, quando estes dois homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro não sabia o que estava dizendo.

Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem.
Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!"

Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

*

A transfiguração do Senhor, narrada por São Lucas Evangelista neste domingo, precede o início da subida de Jesus a Jerusalém para ser crucificado. Trata-se realmente de uma preparação para a Sua entrega sacrifical, e a conveniência desse episódio é explicada de modo completo por Santo Tomás de Aquino:

"Depois de anunciar aos discípulos a sua paixão, o Senhor os convidou a que o seguissem. Ora, para caminhar retamente, a pessoa deve saber de algum modo para onde vai, assim como o arqueiro, antes de lançar a flecha, deve mirar o alvo. Foi o que disse Tomé: 'Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?' (Jo 14, 5). Isso é particularmente necessário quando o caminho é difícil e áspero, a jornada trabalhosa e a meta agradável. Cristo, com a paixão, devia alcançar a glória não só da alma, esta a possuía desde o início de sua concepção, mas também do corpo, como está escrito: 'Era necessário que o Messias sofresse essas coisas e assim entrasse em sua glória' (Lc 24, 26). A essa glória Cristo conduz os que seguem as pegadas de sua paixão, como diz At 14, 21: 'É necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino dos céus'. Por isso era conveniente que Cristo mostrasse aos discípulos a glória de sua claridade (e isto é ser transfigurado), à qual há de configurar os que o seguem, como diz Fl 3, 21: 'Transformará o nosso pobre corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso'. Comentando o Evangelho de São Marcos, diz Beda: 'Saboreando por alguns instantes, por pia providência, o gozo definitivo, os discípulos haveriam de suportar com mais fortaleza as adversidades'." (S. Th., III, q. 45, a. 1)

Neste tempo da Quaresma, a transfiguração é um lembrete muito importante: lembra que os jejuns e mortificações desses quarenta dias no deserto só têm sentido por causa da glória do Céu. Caso contrário, a religião cristã não passaria de masoquismo e idolatria à dor. Jesus Se transfigura diante de Seus discípulos para mostrar a finalidade da Cruz: o ingresso na vida celeste, primeiro Cristo, como "primogênito entre os mortos" (cf. Cl 1, 18), depois nós, como membros de Seu corpo.

Outra importante consideração do Aquinate é a comparação entre esse episódio da transfiguração com o evento do batismo do Senhor no rio Jordão. Curiosamente, são os únicos momentos da vida de Cristo em que o próprio Pai dá testemunho da filiação do Verbo encarnado. Eis o porquê:

"A adoção de filhos de Deus se dá pela conformidade da imagem com o Filho de Deus por natureza. E isso de dois modos: primeiro, pela graça do caminho, que é uma conformidade imperfeita; segundo, pela glória, que é a conformidade perfeita, como está em 1 Jo 3, 2: 'Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos. Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é'. Portanto, uma vez que pelo batismo alcançamos a graça, e na transfiguração nos foi mostrada a claridade da glória futura, era conveniente manifestar, tanto no batismo, como na transfiguração, a filiação natural de Cristo pelo testemunho do Pai, uma vez que ele é o único que tem consciência perfeita daquele perfeita geração, juntamente com o Filho e o Espírito Santo." (S. Th., III, q. 45, a. 4)

A conexão entre a graça e a glória, entre o nosso nascimento como cristãos e o nosso nascimento para a vida definitiva, é uma constante no ensinamento dos santos e do Magistério. O bem-aventurado John Henry Newman dizia, por exemplo, que "grace is glory in exile and glory is grace at home – a graça é a glória no exílio e a glória é a graça em casa".

Se o fim da vida cristã é a glória celeste, a identidade e missão da Igreja não podem ser outras senão levar os homens a essa comunhão com Deus. A atual crise que assola a sociedade deve-se, em grande parte, ao fato de as pessoas terem perdido a bússola que deve orientar as suas vidas – e à omissão da Igreja em anunciar aos homens o que lhes pode trazer à paz. A religião cristã católica não é uma ONG ou uma "pedagogia espiritualista" para construir um mundo melhor. A finalidade da Igreja não é este mundo, mas o vindouro.

É claro que, no esforço por chegar ao Céu, também as realidades terrenas ganham um novo sabor. Basta pensar no trabalho de tantos santos e santas de Deus que, esquecendo-se de si mesmos e das coisas deste mundo, elevaram a humanidade e transformaram o ambiente à sua volta. Mas isso é apenas a consequência de quem trabalha tendo em vista o sobrenatural. Quem vive pensando tão somente no poder e no prazer terrenais, termina convertendo tudo à sua volta em inferno. Foi o que fizeram os nazifascistas na Europa, e os comunistas, por onde quer que tenham passado.

Resgatemos a nossa identidade, e tenhamos os olhos fixos no Reino dos céus, colocando todo o nosso empenho em fazer a vontade de Deus – mesmo que, para isso, devamos renunciar à nossa. Assim como Cristo "obedeceu até a morte, e morte de cruz" (Fl 2, 8), sigamos também nós o caminho da obediência, crucificando o nosso egoísmo para, um dia, chegarmos também nós ao Tabor da transfiguração.

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