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Homilia Dominical
13 Jul 2019 - 25:32

O amor que devemos a todos os homens

Quando um mestre da Lei pergunta a Nosso Senhor quem é, afinal, o “próximo” que devemos amar como a nós mesmos, a resposta do mais perfeito dos pedagogos é a parábola do bom samaritano, com a qual descobrimos que é a toda a humanidade, e não apenas aos nossos amigos e familiares, que deve estender-se o amor cristão. Mas que amor é esse de que fala o Evangelho deste domingo, e por cujo descumprimento nenhum de nós pode sentir-se escusado?
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Homilia Dominical - 13 Jul 2019 - 25:32

O amor que devemos a todos os homens

Quando um mestre da Lei pergunta a Nosso Senhor quem é, afinal, o “próximo” que devemos amar como a nós mesmos, a resposta do mais perfeito dos pedagogos é a parábola do bom samaritano, com a qual descobrimos que é a toda a humanidade, e não apenas aos nossos amigos e familiares, que deve estender-se o amor cristão. Mas que amor é esse de que fala o Evangelho deste domingo, e por cujo descumprimento nenhum de nós pode sentir-se escusado?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 10, 25-37)

Naquele tempo, um mestre da Lei se levantou e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”

Jesus lhe disse: “O que está escrito na Lei? Como lês?” Ele então respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e ao teu próximo como a ti mesmo!” Jesus lhe disse: “Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás”.

Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora, deixando-o quase morto.

Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado.

Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: ‘Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais’”.

E Jesus perguntou: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa”.

Meditação. — 1. No Evangelho deste domingo, um doutor da Lei aproxima-se de Jesus para interrogá-lo sobre as práticas que devem levar o homem ao Céu: “Mestre”, pergunta-lhe, “que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”

Trata-se de uma questão aparentemente capciosa. Sem dúvida, esse homem era alguém letrado, culto, um estudioso tenaz da Palavra de Deus e, portanto, devia conhecer todos os Mandamentos. A propósito, ele era um “doutor da Lei”. Sendo assim, não sabemos se nele havia má intenção, mas, ao que parece, o seu objetivo era mesmo testar a credibilidade de Jesus. Por isso, Nosso Senhor não lhe dá imediatamente uma resposta; em vez disso, apela para o conhecimento daquele homem, fazendo-o confessar a interpretação do texto sagrado. O Senhor, então, lhe pergunta: “O que está escrito na Lei? Como lês?”

Evidentemente, o doutor fica embaraçado com a situação. Afinal, torna-se claro que ele sabia a resposta, sabia que para entrar no Reino dos Céus é preciso, antes de tudo, “amar a Deus de todo o coração” e “amar o próximo como a si mesmo”. Para justificar-se, ele propõe, então, outra dúvida, e essa sim verdadeira: “E quem é o meu próximo?”

Dessa vez, a pergunta é muito pertinente porque um judeu tradicional, na visão daquele tempo, só podia ser solidário com outro judeu. Samaritanos, pagãos ou gentios deviam ser excluídos. Jesus, então, vendo a sinceridade do “doutor da Lei”, aproveita a ocasião para lhe ensinar uma grande lição. Ele conta-lhe a famosa parábola do bom samaritano, invertendo, assim, os papéis, de modo que o judeu aparece na história como alguém necessitado da compaixão do seu próprio inimigo. E o “doutor da Lei” tem de se ver numa posição humilde para entender quem é o seu próximo

Vemos aqui como Jesus é um pedagogo formidável, que sabe cativar os corações. De fato, se Ele houvesse simplesmente mandado o doutor da Lei amar os próprios inimigos, esse homem certamente ficaria escandalizado e não aceitaria tal coisa. Contudo, a parábola do bom samaritano ensina que o judeu precisa ser amado, e ser amado por quem ele menos espera. O ensinamento de Jesus é aquele mesmo transmitido por São Paulo na Carta aos Romanos: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Procedendo assim, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça” (12, 20).

Por trás dessa parábola, Jesus está ainda ensinando algo mais profundo que a fraternidade entre os homens. Na história do bom samaritano, vemos, na verdade, a história da salvação, do Deus que enviou o seu filho para nos salvar, quando ainda éramos seus inimigos. O que o samaritano fez com o judeu é exatamente o que Deus fez conosco: aproximou-se de nós, fez curativos, ou seja, deu-nos os sacramentos, colocou-nos sobre os ombros e levou-nos para a sua casa, a Santa Igreja.

2. A conversa de Jesus com o doutor da Lei está toda voltada para a prática do amor, mais especificamente: o amor a Deus e ao próximo. E a questão fundamental diz respeito a que tipo de amor devemos nutrir pelo nosso próximo, a saber: quais são os preceitos e obrigações? Mais ainda: existe algum tipo de amor ao próximo pecaminoso?

Em primeiro lugar, devemos saber que o amor a alguém pode ser por causas naturais. Amamos aquela pessoa porque ela é gentil, animada, nobre etc. E desde que esse amor não nos leve a pecados, como, p. ex., a luxúria e a inveja, ele, em si mesmo, não possui nada de pecaminoso, embora não seja ainda nenhuma virtude. Trata-se de um amor por causas tão-somente materiais e sensíveis.

O mandamento de Deus, contudo, exige um amor sobrenatural, que excede, portanto, as razões de conveniência. Ele quer que amemos todas as pessoas, inclusive os inimigos, com verdadeiro amor de caridade, mas “não enquanto inimigos”, explica o padre Royo Marín, “e sim enquanto homens capazes da eterna bem-aventurança” [1]. 

Isso significa que devemos amar os santos e os anjos do Céu, e as almas do Purgatório e todos os homens desta terra. E quando dizemos todos, estamos nos referindo até aos mais pecadores e irreverentes, pois enquanto estiverem vivos, eles ainda podem se converter. Apenas as almas já condenadas não precisam nem devem ter o nosso amor, uma vez que o coração delas é pura blasfêmia, e amá-las seria odiar a Deus.

Tal gênero de amor (caritas) exige, por sua vez, muito mais atitudes internas do que externas. Em razão disso, a Igreja fez questão de condenar algumas proposições laxistas que negavam a obrigação de amarmos ao próximo com atos internos e formais (cf. Santo Ofício, 2 de março de 1679). Afinal de contas, “o cristianismo não se reduz a uma série de atos e cerimônias externas”, recorda o padre Royo Marín, “porque todos esses ritos devem ser praticados, antes de tudo, em ‘espírito e verdade’ (Jo 4, 23)” [2].

Ademais, o amor de caridade não está amarrado às paixões humanas, não é uma questão de sentimento. O que vale é a lógica do “bem maior”. Desejar, por exemplo, que um grande bandido seja condenado não é, com efeito, pecaminoso, desde que esse desejo esteja radicado num bem maior, ou seja, que o bandido se arrependa e se salve. O segredo está na ordem das coisas, de modo que podemos desejar um “mal” temporal a uma pessoa, em vista de um bem maior, que é a salvação eterna. Porque é verdade que muitas pessoas só se convertem por meio de alguma humilhação ou tragédia. 

Mais ainda: buscando o bem comum, podemos até desejar a morte de quem dissemina o caos e induz o povo à perdição do pecado, porquanto faz parte do mandamento do amor querer que a pessoa má mude, deixe de atormentar este mundo e se salve. Se esse desejo está fundado na razão de que, com aquele mal temporal, a pessoa deixará o pecado e será salva, a morte, nesse caso, é-lhe um “bem”.

3. A razão mais contundente do dever da caridade para com o próximo é o fato de que Jesus derramou o seu sangue para a salvação de todos os homens. A salvação das almas é, por isso mesmo, o maior bem, a verdadeira fortuna, a razão sobrenatural que nos obriga a imitar os atos internos e externos de Cristo.

Infelizmente, muitíssimos não se dão conta de uma coisa básica: os bens materiais não podem ser compartilhados igualmente por todos. Quem doa cem reais a um mendigo, por exemplo, já não possui mais aquela mesma quantia de dinheiro. O bem espiritual, por outro lado, enriquece tanto a pessoa que o comunica, como quem o recebe — bonum est diffusivum sui esse, ou seja, “o bem é, por si mesmo, difusivo”, diz Santo Tomás de Aquino (STh I 5, 4 c.). Por isso o bem espiritual é infinitamente superior aos bens materiais, motivo pelo que, na ordem das coisas, a graça de Deus é a primeira que devemos desejar aos nossos irmãos.

Se uma pessoa se recusa a buscar o bem espiritual para, em vez disso, satisfazer-se com os bens inferiores (dinheiro, fama, sucesso, sexo etc.), ela está na iminência de uma condenação eterna. Essa pessoa é, destarte, a sua pior inimiga. O nosso papel de cristãos é, pois, assumir as vezes do bom samaritano, acolhendo esses pobres pecadores, curando as suas feridas e, finalmente, levando-os para a casa do Bom Deus, onde há muitas moradas. Desse modo, poderemos juntos contemplar a face amorosa daquele que nos amou quando ainda éramos seus inimigos.

Oração.Senhor Jesus, cujo amor infinito alcançou a miséria do meu coração, fazei-me enxergar as verdadeiras necessidades dos meus irmãos, e dai-me a mesma disposição do Bom Samaritano para exercer a caridade, sobretudo quando a minha vontade vacilar diante do apelo de um inimigo.

Propósito. — Pedir a Deus insistentemente na Missa deste domingo a graça do perdão a todos os nossos inimigos.

Referências

  1. Antônio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. 1, 5. ed. Espanha: BAC, 1995, p. 459.
  2. Ibid., p. 460.
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